Este post faz parte de uma série que apresenta lições alternativas para as Matinas do Ofício Parvo.
Sermão de Santo André de Creta (1)
Como a formação primeira dos homens, por obra divina, surgira da terra pura e incontaminada, mas sua natureza, pela queda da desobediência, que acarretou nossa expulsão do lugar da vida, com a perda da graça, viciara a dignidade original, e das delícias do paraíso havia mudado para a vida corruptível, qual herança paterna transmitida a nós, da qual veio a morte e sua companheira: a destruição da raça e como, ademais, os homens haviam preferido a terra ao céu, desaparecera toda esperança de salvação e a natureza precisava de auxílio do alto. Entretanto, nenhuma lei existia para curar a doença: nem lei natural, nem lei escrita, nem as palavras dos profetas inflamantes e reconciliadoras. Finalmente, aprouve ao excelentíssimo Artífice de todas as coisas apresentar, com primor, o mundo restaurado recentemente de outro jeito, no qual seria tão combatida a antiga peste do pecado – donde veio a morte – que a reprimiria e então ostentaria vida nova não propensa à servidão e deveras vazia por completo de paixões e vícios; vida esta, é claro, para nós refeitos pela regeneração divina do batismo.
De que maneira era preciso que viesse a nós esse benefício imenso e sumamente novo e admirável, bem digno das normas habituais de Deus, a não ser pelo aparecimento corporal de Deus a nós, obediente às leis naturais, disposto a viver vida nova semelhante à nossa? Mas como seria esse empreendimento levado a cabo, se, antes, uma pura e intacta Virgem não se prestasse ao mistério, carregando depois em suas entranhas o Deus infinito, de maneira tal que foge às leis da natureza? E de que outra Virgem, assim poderíamos imaginar, senão a que o Criador de toda a natureza escolhera antes de todas as gerações? Doravante, esta Maria é a Mãe de Deus, chamada por Deus com este nome, de cujo seio nasceu revestido de carne, havendo-a formado de modo admirabilíssimo, para seu novo templo.
Quando, pois, o Redentor do gênero humano, como eu disse, quis apresentar em vez da raça anterior, nova raça e como que nova versão, assim como lá no Éden, tomando barro tirado de pura terra virgem, havia formado o primeiro Adão, assim também aqui, realizando sua encarnação, tomou esta outra terra virgem pura e perfeitamente imaculada, escolhida entre toda a criação e de maneira nova, feito novo Adão aquele que formara Adão, plasmou nossa substância com sua substância, a fim de que este novo Adão, mais antigo que os séculos, fosse a salvação do velho.
(1) Sermão I para a Natividade da Santa Mãe de Deus.