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Viderunt Omnes de Perotin (1198)

Viderunt omnes fines terrae salutare Dei nostri:
Iubilate Deo, omnis terra.
Notum fecit Dominus salutare suum:
ante conspectum gentium revelavit iustitiam suam.

Durante a maior parte da história uma ou duas cidades em cada era se destacaram no âmbito político e cultural. Podemos lembrar da Babilônia, de Tebas, de Atenas, de Roma, de Constantinopla e, nos nossos dias, em Nova York. Todavia, quando o Império Romano do Ocidente ruiu, quase todas as grandes cidades da Europa desapareceram. Em boa parte da Idade Média só existiam duas urbes cosmopolitas nos limites da cristandade católica: Constantinopla de um lado e Córdoba do outro. Nesse contexto, a primeira cidade a experimentar uma explosão populacional depois de muito tempo foi Paris.

Quando a Europa cristã começou na se recuperar dos séculos de turbulência, a única forma de música artisticamente elaborada que tinha sobrevivido na “era das trevas” tinha sido o canto gregoriano (a música teatral grega e a música imperial romana foram perdidas). Fora o folclórico e popular, o melhor que alguém podia escutar era um som simples, monofônico e feito para louvar a Deus.

Ajudada pela escolástica, que ganhava corpo na sua universidade, e pela construção da catedral de Notre Dame, Paris atraiu as mentes mais brilhantes da época. Pouco depois de terminarem as fundações da catedral, a cidade já contava com um jovem compositor para enchê-la de música. Esse músico, Leonin, foi (até onde mostram os registros históricos que sobreviveram) a primeira pessoa a adicionar uma segunda voz não paralela ao gregoriano. Esses cantos, chamados organum, constituíram o primeiro tipo de música polifônica. Para dar conta da complexidade, Leonin inventou seis modos rítmicos – o primeiro tipo de notação musical a descrever o comprimento da nota.

Só uma geração depois outro compositor que trabalhou em Notre Dame, Perotin, aperfeiçoou a arte do organum, adicionando ocasionalmente uma terceira e mesmo uma quarta voz. Perotin provavelmente escreveu a obra de quatro vozes Viderunt omnes para o Natal de 1198. Usando a melisma (técnica de alterar a sensação de freqüência de uma sílaba de um texto enquanto ela está sendo cantada) a ponto de obscurecer totalmente as sílabas originais, ele consegui estender poucos versículos (3, 4 e 2 – nessa ordem) do Salmo XCVII para quase dez minutos.

A chamada escola de música de Notre Dame, incluindo Leonin e Perotin, abriu a porta para a mais popular e importante forma de música dos séculos seguintes, o motete, e, de certa forma, para toda a polifonia musical.

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Arte Ética e moral

A Fita Branca

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Na comunidade Apologética Católica no Orkut um confrade fez um comentário sobre o filme A Fita Branca (Das weisse band, 2009), ganhador da Palma de Ouro em Cannes, perguntando como seria uma avaliação dele à luz da moral católica.

Movido por essa pergunta, pela curiosidade de um trecho que vi na internet e por comentários que li na imprensa fui ver o filme numa sessão noturna de um “cinema de arte” de minha cidade. Realmente, A Fita Branca não é tipo de obra cinematográfica capaz de agradar ao público médio (viciado em coisas que atiçam a sensibilidade o tempo todo), pois não possui nenhum rol de efeitos especiais rocambolescos e mais sugere do que mostra (é um trabalho sobre idéias). É filme que deixa uma estranha sensação (talvez, em tempos de Avatar, seja realista demais)… mas vamos por partes.

Lenta e suntuosa, essa narrativa visual enche os olhos. O domínio do preto-e-branco é sublime, glacial, sólido, faz pensar em Bergman.

No filme há um narrador que esquadrinha os anos que o fizeram ser o que é. Temos um professor de aldeia que tenta, de alguma maneira, entender fatos que sente terem sido importantes na sua vida, na de seus contemporâneos, na de seu próprio país. Titubeante, alerta no começo sobre sua falta de certezas sobre o que é ou não verdade no que vai contar. A Fita Branca começa assim, duvidando de si mesma.

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Daí em diante somos apresentados à descrição da vida numa comunidade rural do norte da Alemanha, onde as relações sociais são determinadas por estreitos laços de fidelidade que circulam em torno de um médico, um barão, um pastor e, enfim, do próprio professor. Nesse local a inocência (representada por uma fita branca amarrada no braço ou cabelo das crianças) é um valor nobre no qual se crê com afinco, e, ao mesmo tempo, uma violência velada, sugerida, permeia todo o ambiente.

Em seguida, estranhos incidentes passam a perturbar a ordem: um atentado derruba o médico de um cavalo e dois garotos são seqüestrados e torturados. A tensão cresce, descosturando as teias do aparente marasmo e fazendo a civilidade formal despencar de seu pedestal de barro. Mas o que interessa não é a violência em si, e sim a cultura, a educação, as relações humanas que conduzem a ela, paulatinamente. Muitos atos de violência acontecem na narrativa, mas nenhum deles é mostrado explicitamente, tudo o que sabemos são relatos, sinais e suposições.

A Fita Branca reflete sobre o horror… o horror praticado entre as paredes de nossas casas, no íntimo do coração, que só o Senhor sonda. Michael Haneke, o diretor, não faz coro com cineastas ingênuos que, a pretexto de discutir a violência, nada mais fazem do que contribuir com o seu fetiche. O mal, na sua obra, se faz invisível na medida em que se dilui entre todos, em que é compartilhado e tolerado com surpreendente “vista grossa”.

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Como, então, avaliar esse enredo numa perspectiva católica?

Primeiramente, temos uma crítica ao puritanismo. É sempre bom lembrar que a austeridade, acalentada pelo orgulho exacerbado (“não peco, não me misturo com os pecadores”), reage exageradamente contra a sensualidade, mas essa reação, por obstinada que seja, é estéril: cedo ou tarde, por inanição, será destroçada pelos falsos princípios.

Em segundo lugar, observamos as conseqüências do cerceamento da individualidade. O indivíduo é o sujeito moral irredutível, é o único que pode assumir responsabilidades perante o Criador, responsabilidades que são intransferíveis a qualquer outra entidade (Igreja, Estado, família, etc.); sem a consciência dessa verdade a instrumentalização dos melhores valores (como a inocência) torna-se uma perigosa possibilidade.

Por fim, temos uma desconstrução do humanismo ingênuo que desde o século XVIII vez ou outra retorna com força ao debate público, contrapondo a utopia à realidade atingida pelo pecado original.

É um bom filme. Bom como um romance clássico. Mas não é para todos.