A Fita Branca

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Na comunidade Apologética Católica no Orkut um confrade fez um comentário sobre o filme A Fita Branca (Das weisse band, 2009), ganhador da Palma de Ouro em Cannes, perguntando como seria uma avaliação dele à luz da moral católica.

Movido por essa pergunta, pela curiosidade de um trecho que vi na internet e por comentários que li na imprensa fui ver o filme numa sessão noturna de um “cinema de arte” de minha cidade. Realmente, A Fita Branca não é tipo de obra cinematográfica capaz de agradar ao público médio (viciado em coisas que atiçam a sensibilidade o tempo todo), pois não possui nenhum rol de efeitos especiais rocambolescos e mais sugere do que mostra (é um trabalho sobre idéias). É filme que deixa uma estranha sensação (talvez, em tempos de Avatar, seja realista demais)… mas vamos por partes.

Lenta e suntuosa, essa narrativa visual enche os olhos. O domínio do preto-e-branco é sublime, glacial, sólido, faz pensar em Bergman.

No filme há um narrador que esquadrinha os anos que o fizeram ser o que é. Temos um professor de aldeia que tenta, de alguma maneira, entender fatos que sente terem sido importantes na sua vida, na de seus contemporâneos, na de seu próprio país. Titubeante, alerta no começo sobre sua falta de certezas sobre o que é ou não verdade no que vai contar. A Fita Branca começa assim, duvidando de si mesma.

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Daí em diante somos apresentados à descrição da vida numa comunidade rural do norte da Alemanha, onde as relações sociais são determinadas por estreitos laços de fidelidade que circulam em torno de um médico, um barão, um pastor e, enfim, do próprio professor. Nesse local a inocência (representada por uma fita branca amarrada no braço ou cabelo das crianças) é um valor nobre no qual se crê com afinco, e, ao mesmo tempo, uma violência velada, sugerida, permeia todo o ambiente.

Em seguida, estranhos incidentes passam a perturbar a ordem: um atentado derruba o médico de um cavalo e dois garotos são seqüestrados e torturados. A tensão cresce, descosturando as teias do aparente marasmo e fazendo a civilidade formal despencar de seu pedestal de barro. Mas o que interessa não é a violência em si, e sim a cultura, a educação, as relações humanas que conduzem a ela, paulatinamente. Muitos atos de violência acontecem na narrativa, mas nenhum deles é mostrado explicitamente, tudo o que sabemos são relatos, sinais e suposições.

A Fita Branca reflete sobre o horror… o horror praticado entre as paredes de nossas casas, no íntimo do coração, que só o Senhor sonda. Michael Haneke, o diretor, não faz coro com cineastas ingênuos que, a pretexto de discutir a violência, nada mais fazem do que contribuir com o seu fetiche. O mal, na sua obra, se faz invisível na medida em que se dilui entre todos, em que é compartilhado e tolerado com surpreendente “vista grossa”.

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Como, então, avaliar esse enredo numa perspectiva católica?

Primeiramente, temos uma crítica ao puritanismo. É sempre bom lembrar que a austeridade, acalentada pelo orgulho exacerbado (“não peco, não me misturo com os pecadores”), reage exageradamente contra a sensualidade, mas essa reação, por obstinada que seja, é estéril: cedo ou tarde, por inanição, será destroçada pelos falsos princípios.

Em segundo lugar, observamos as conseqüências do cerceamento da individualidade. O indivíduo é o sujeito moral irredutível, é o único que pode assumir responsabilidades perante o Criador, responsabilidades que são intransferíveis a qualquer outra entidade (Igreja, Estado, família, etc.); sem a consciência dessa verdade a instrumentalização dos melhores valores (como a inocência) torna-se uma perigosa possibilidade.

Por fim, temos uma desconstrução do humanismo ingênuo que desde o século XVIII vez ou outra retorna com força ao debate público, contrapondo a utopia à realidade atingida pelo pecado original.

É um bom filme. Bom como um romance clássico. Mas não é para todos.

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