A antiguidade e universalidade do tempo da Septuagésima (parte 3)

A primeira parte desta série de posts pode ser lida aqui e a segunda aqui.

A síntese do jejum dos ninivitas e da semana sem carne: a extensão do tempo preparatório para três semanas

Já vimos que por volta do século VI o costume de que a Quaresma fosse precedida de uma semana com abstinência de carne estava bem estabelecido no Oriente e no Ocidente. O cânon 24 do Concílio de Orleans (511) prescrevia sua observância, indicando que ele já estava espalhado por toda a França merovíngia. Certas igrejas do Oriente adicionavam o jejum dos ninivitas na terceira semana anterior à Quaresma. Era natural, portanto, juntar esses dois períodos, estendendo o tempo preparatório para três semanas.

armenian-churchÉ possível que no Oriente a ponte litúrgica entre a Quaresma e o jejum dos ninivitas tenha sido construída na Armênia. A Septuagésima do rito armênio é chamada Aratchavor, e compreende três semanas, a primeira das quais é chamada Berekendam, “o último dia de gordura”. Essa semana é muito rigorosa, consagrada ao jejum dos Ninivitas, instituído por São Gregório o Iluminador no século IV. A segunda e a terceira semana são menos penitenciais, e o jejum é mantido apenas nas quartas e sextas-feiras.

Em Roma, o domingo da Quinquagésima acabou por ser precedido por dois outros domingos, Sexagésima e Septuagésima, ao longo do século VI. O antigo Sacramentário Gelasinao (Vat. Reg. 316) e o epistolário de Victor de Capua, datado de 546, atestam a presença da Sexagésima nesse período. As estações dos três domingos foram fixadas pelos papas Pelágio I (556-561) e João III (561-574) nas basílicas de São Lourenço Extra-Muros, São Paulo e São Pedro. Temos registros de homilias de São Gregório Magno em cada uma delas. O lecionário romano mais antigo, conhecido como lecionário de Würzburg, foi copiado na primeira metade do século VII para ser usado na França, e corresponde ao arranjo do Sacramentário Gelasiano; ele também atesta que os três domingos em questão já estavam estabelecidos neste pondo do tempo. A maior parte das variantes medievais do rito romano também inclui leituras especiais para as quartas e sextas-feiras dessas três semanas, mostrando que esses dias especiais de jejum estavam na origem das estações litúrgicas citadas.

sacramentary-of-charles-the-baldA Septuagésima também existe no rito ambrosiano, e nesse rito os três domingos têm o mesmo nome que no romano. Deve-se notar que o Aleluia não é suprimido até o Primeiro Domingo da Quaresma (isso desde a reforma de São Carlos Borromeu – antes dela, a supressão ocorria na segunda-feira). Os textos litúrgicos são bem diferentes dos do rito romano, o que indica que a Septuagésima é um tempo bem antigo em Milão e não uma mera importação romana. Podemos citar o Transitorium (equivalente à Communio do rito romano) da Missa do domingo da Septuagésima, que proclama o programa deste tempo litúrgico:

Convertímini * omnes simul ad Deum mundo corde, & ánimo, in oratióne, jejúniis & vigíliis multis : fúndite preces vestras cum lácrymis : ut deleátis chirógrapha peccatórum vestrórum, priúsquam vobis repentínus supervéniat intéritus ; ántequam vos profúndum mortis absórbeat : & cum Creátor noster advénerit, parátos nos invéniat.

Convertei-vos a Deus, com um coração e uma mente pura, em oração, jejuns e muitas vigílias; fundi vossas preces com lágrimas, a fim de desfazer a sentença sobre os vossos pecados, antes que venha repentinamente a morte, antes que o abismo da morte vos envolva. E assim, quando o Criador vier, estejais prontos.

Considerando que antes da época de São Gregório Magno (final do século VI) a Quaresma começava na segunda-feira após o Primeiro Domingo da Quaresma (como ainda é o caso em Milão e Toledo), e fazendo esse domingo coincidir com o que precede a Quaresma no rito bizantino, temos a seguinte correspondência:

Rito romano

Rito bizantino

Septuagésima Domingo do Publicano e do Fariseu
Sexagésima Domingo do Filho Pródigo
Quinquagésima Domingo do Julgamento Final

(último dia de consumo de carne antes da semana da Tyrophagia)

Primeiro Domingo da Quaresma Domingo da Expulsão de Adão

Nesse período o rito bizantino lê uma série de evangelhos que preparam o povo para a penitência: o do Publicano e do Fariseu (Lucas XIX, 10-14), o do Filho Pródigo (Lucas XV, 11-32), o do Julgamento Final (Mateus XXV, 31-46) e o das palavras de Cristo sobre o jejum no Sermão da Montanha (Mateus VI, 14-21). A organização das três semanas é atestada no Typikon da Grande Igreja, dos séculos IX e X; a ausência de documentos litúrgicos mais antigos não nos permite precisar a origem dessa organização. Observa-se que na primeira semana, que segue ao domingo do Publicano e do Fariseu, o rito bizantino suprimiu todo jejum, mesmo o que é regular nas quartas e sextas, como resultado de certas controvérsias medievais, no intuito de se diferenciar do armênio.

Apenas alguns ritos que ficaram isolados da cristandade pelo avanço do islã não desenvolveram um período de três semanas de Septuagésima. O rito moçárabe permaneceu no antigo estágio anterior ao século VI com apenas uma semana de preparação para a Quaresma (Quinquagésima). O domingo desta semana é denominado ante carne tollendas – “antes da carte ser tirada”, indicando que a carne era retirada da dieta, mas não o leite e outros produtos não-vegetarianos. O rito copta e o etíope têm o jejum dos ninivitas e de Heráclito, mas nunca os juntaram num período único de preparação quaresmal. Todavia, entre os etíopes, o domingo correspondente ao da Sexagésima no rito romano, mesmo sendo contado como um dos que estão depois da Epifania, é fixado em relação ao domingo seguinte (Za-Warada ou Qabbaka som), chamado Domingo da Noiva (Zamana Qebbala Mar’awi), nos quais as antífonas são retiradas da Parábola das Virgens Prudentes e das Tolas (Mateus XV, 1-13), e que marca o fim do período em que os casamentos são permitidos. Os caldeus mantiveram o jejum dos ninivitas e não possuem nada equivalente à nossa Quinquagésima.

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