Um grande exemplo de leitura expurgada do Lecionário paulino

Já trabalhei em outros dois textos (aqui e aqui) a comparação entre o lecionário do rito paulino e do rito romano tradicional, vamos agora a um exemplo concreto de um dos pontos que destaquei (de autoria de Peter Kwasniewski).

Uma das várias críticas que se fazem ao Lecionário do Novus Ordo é que ele não contém passagens que fizeram parte das leituras na missas durante séculos e séculos (e que ainda podem ser ouvidas onde se celebra no rito gregoriano) ou que editou pesadamente outras. Como percebe qualquer um que já olhou com atenção as leituras do rito paulino, pular versículos nessa forma litúrgica parece que era um passatempo dos seus “designers”, em especial quando a perícope tem muita “negatividade”.

Alguém pode então dizer:

– Vai se ter de pular algo se a intenção é incluir a maior quantidade possível da Bíblia, não é?  

Sim, isso é verdade. Mas uma coisa é não ler um trecho por falta de tempo e outra, bem diferente, é editar uma passagem ao ponto de não se transmitir mais um retrato fiel do que Deus revelou para nossa salvação. Embora o ciclo de leitura do usus antiquior seja bem mais limitado quantitativamente (e de propósito!), as leituras quase sempre não excluem nenhum versículo das passagens.

Não pude deixar de pensar nisso alguns dias atrás quando, numa Missa paulina, ouvi uma leitura do livro de Esdras. Enquanto escutava, uma pergunta tomou minha mente: isso não está incompleto? De fato, toda a parte que destoa do dogma democrático moderno foi decepada sem nenhum pudor ou reverência ao Texto Sagrado, como descobri mais tarde ao lê-lo na minha Bíblia. Vou postar o texto aqui, com a parte censurada entre colchetes:

Terça-Feira da Vigésima Quinta Semana do Tempo Comum (Ano 1)

Esdras 6:7–8, 12b, 14–20

O rei Dario escreveu ao governador do território da outra margem do rio Eufrates:

7. Deixai continuar os trabalhos da casa de Deus; que o governador dos judeus e seus anciãos reconstruam-na no seu lugar. 8. Também ordeno como é que se deve proceder com aqueles anciãos dos judeus, tendo em vista a reconstrução da mencionada casa de Deus: das receitas reais provenientes dos impostos de além-rio, a despesa será fielmente paga a esses homens, a fim de que a obra não sofra interrupção.

[9. Tudo aquilo que for necessário para os holocaustos do Deus do céu, novilhos, carneiros e cordeiros, trigo, sal, óleo e vinho, ser-lhes-á dado a cada dia, sem falta, segundo a ordem dos sacerdotes que estão em Jerusalém, 10. a fim de que possam fazer oferta dos sacrifícios de bom odor ao Deus do céu, e que rezem pela vida do rei e de seus filhos. 11. Eis o que ordeno, além disso: se alguém modificar no que quer que seja este edito, arranque-se uma estaca de sua casa, levante-se a mesma, e seja pregado nela onde ficará pendente; e, por seu crime, far-se-á de sua morada um montão de imundícies. 12. O Deus que fez habitar ali o seu nome destrua todo rei, todo povo que ousar fazer qualquer coisa para mudar este decreto e destruir essa casa de Deus que está em Jerusalém!]

Eu, Dario, dei esta ordem: seja ela pontualmente executada.

[13. Assim Tatanai, governador da outra margem do rio, Estarbuzanai e seus colegas conformaram-se fielmente à ordem enviada pelo rei Dario.]

14. Os anciãos dos judeus puseram-se a construir o templo e fizeram progresso, sustentados pelas profecias de Ageu, o profeta, e de Zacarias, filho de Ado. Prosseguiram a construção, segundo a ordem do Deus de Israel, e segundo a ordem de Ciro, de Dario e de Artaxerxes, rei da Pérsia. 15. Terminou-se o edifício no terceiro dia do mês de Adar no sexto ano do reinado de Dario. 16. Os israelitas, os sacerdotes, os levitas e os demais repatriados celebraram com júbilo a dedicação dessa casa de Deus. 17. Ofereceram, por ocasião dessa dedicação, cem touros, duzentos carneiros, mil e quatrocentos cordeiros e doze bodes como vítimas pelos pecados de todo Israel, segundo o número das tribos de Israel. 18. Estabeleceram os sacerdotes segundo as suas classes, e os levitas segundo suas divisões, para celebrar o culto de Deus em Jerusalém, de conformidade com as prescrições do livro de Moisés. 19. Os repatriados celebraram a Páscoa no dia catorze do primeiro mês. 20. Os sacerdotes e os levitas, sem exceção, tinham-se purificado; todos estavam puros. Imolaram a Páscoa por todos os repatriados, pelos seus irmãos, os sacerdotes, e por si mesmos.”

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