Dois irmãos e um estranho

Tradução e adaptação de artigo publicado no New Liturgical Movement.

Para mim, e acho que para a maior parte dos tradicionalistas, é uma obviedade a proximidade espiritual entre a Divina Liturgia no rito bizantino e a Missa Romana tradicional, assim como também o é a distância que o Novus Ordo mantém da herança comum das duas formas litúrgicas citadas.

Contudo, às vezes encontramos católicos bizantinos que são levados pelas similaridades superficiais entre o rito bizantino e o Novus Ordo (por exemplo, a de que eles são celebrados geralmente em língua vernácula e em tom audível) e pelas diferenças marcantes entre a liturgia bizantina e o rito romano tradicional (por exemplo, a de que temos um silêncio muito maior no último e de que, aparentemente, as pessoas têm um papel mais “ativo” no primeiro), e acabam defendendo a ideia de que a Divina Liturgia é mais próxima espiritualmente do rito paulino e que, se tiverem de optar, o usus recensior será escolhido sobre o usus antiquior. Por outro lado, os protagonistas e apologistas da “reforma litúrgica romana” muitas vezes fingem ser admiradores da tradição oriental e gostam de apontar as muitas características aparentemente “orientais” da liturgia paulina.

Se é verdade, ao contrário do que acham essas pessoas, que a liturgia bizantina e a liturgia latina tradicional têm muito mais em comum entre si que com o Novus Ordo, demos poder apontar isso com precisão. Assim, proponho que isso pode ser constatado a partir dos seguintes princípios:

  1. O princípio da Tradição;
  2. O princípio do mistério;
  3. O princípio da linguagem elevada;
  4. O princípio da integridade ritual ou estabilidade;
  5. O princípio da densidade;
  6. O princípio da preparação adequada e repetida;
  7. O princípio da veracidade;
  8. O princípio da hierarquia;
  9. O princípio do paralelismo;
  10. O princípio da separação.

1. O princípio da Tradição. Os dois são o resultado do desenvolvimento orgânico de um núcleo de origem apostólica, que foi transmitido pelos séculos de fé viva; apesar da atribuições desta ou daquela liturgia a um santo famoso como São João Crisóstomo ou São Basílio, na verdade o rito é obra de muitos cujos nomes se perderam na poeira do tempo. Nem o rito bizantino nem o rito romano clássico é o produto de um comitê de especialistas de vanguarda sem contato com o povo e cativo de modas teóricas há muito implodidas. Podemos chamar isso de princípio da tradição, isto é, de receber o que foi transmitido. De modo simples: não é o caso de dizer que uma forma litúrgica é boa pelo mero fato da autoridade eclesiástica assim o considerar; em vez disso, a Igreja sabe que é boa porque a recebeu. Aqui atacamos a raiz desse ultramontanismo bizarro do Ocidente que considera a liturgia como nada mais do que o que a autoridade papal promulgou – como se a liturgia fosse uma argila infinitamente maleável cuja forma fosse inteiramente deixada à vontade do escultor. Antes de Paulo VI, a autoridade papal promulgou aquilo que já era conhecido e amado como tradicional na Igreja latina. [1]

2. O princípio do mistério. Cada uma dessas formas litúrgicas concretiza a noção de mistério: a liturgia é papavelmente sagrada, uma obra e uma maravilha que Deus faz em nosso meio, e à qual devemos unir-nos no santo temor. A liturgia tradicional é como uma nuvem na qual Deus habita e à qual Moisés ousou se aproximar. Não existe o sentido de um encontro norteado por uma agenda, conduzida pelos gestores da empresa, caracterizada por muita leitura de textos e compartilhamento de tarefas. Nos prostramos em solo sagrado diante da sarça ardente da auto-revelação divina.

3. O princípio da linguagem elevada. As leituras e orações nas liturgias tradicionais do Ocidente e do Oriente são igualmente cantadas por cantores, diáconos, subdiáconos e coros, ou faladas de um modo especial pelo sacerdote no santuário, mas nunca meramente recitadas como notícias diárias ou lições escolares. Isso é o que chamamos de “linguagem elevada”. No Oriente, ela assume a forma de requintadas composições poéticas; no Ocidente, de veneráveis locuções latinas. O latim é tão verdadeira, adequada e definitivamente a linguagem da Igreja Católica Romana quanto os vernáculos são as línguas dos ritos orientais. [2] Algo que durou por 1.600 anos no Ocidente não é obra do acaso, mas um princípio constitutivo, como bem o disse o Papa João XXIII na sua Constituição Apostólica Veterum Sapientia, assinada no altar de São Pedro em 1962. Aqueles que frequentam o usus antiquior estão conscientes do poderoso efeito inspirador que o uso cerimonial de uma língua antiga adquiriu com a passagem dos séculos. O próprio fato de que essa língua é apartada, como se fosse consagrada ao uso no culto público a Deus, representa objetivamente e induz subjetivamente a separação do sacro e do profano que é o cerne de qualquer religião sacrifical.

4. O princípio da integridade ritual ou estabilidade. Tanto a Divina Liturgia quanto a Missa Latina tradicional existem determinações celebrativas, que articulam as ações e são seguidas com humilde obediência pelo clero e pelo povo. As orações, antífonas, leituras, gestos e cânticos são fixos e prescritos; acima de tudo, a oração mais sagrada, a Anáfora, é imutável (no Ocidente) ou determinada pelo calendário litúrgico (no Oriente). Desta forma, as preferências ou escolhas pessoais do celebrante nunca estão conduzindo a ação. Podemos chamar isso de princípio da estabilidade, uma vez que a integridade ritual garante ao clero e ao povo uma rocha imóvel sobre a qual eles podem construir sua vida espiritual.

5. O princípio da densidade. A antiga liturgia romana, assim como a bizantina, é permeada por um conteúdo dogmático, moral, ascético emístico. As orações são ricas de pérolas religiosas; perfazem uma intricada junção da Sagrada Escritura com escritos devotos. O Novos Ordo é patentemente exíguo em comparação. Pensemos no vários tropários da tradição bizantina, ou na riqueza das antífonas, coletas, secretas e pós-comunhões do rito romano, das quais quase nenhuma sobreviveu intacta ao bisturi dos burocratas pós-conciliares. [3]

6) O princípio da preparação adequada e repetida. Bem próximo do anterior é o princípio da preparação adequada e repetida. Tanto no Ocidente quanto no Oriente o clero e os ministros preparam-se antes de começar seu ofício, seja numa mesa lateral organizando as ofertas com orações abundantes, ou ao pé do altar recitando o Salmo 42, o Confiteor e as orações de subida. Como alguém poderia se imaginar saindo da sacristia e caminhando até o altar como se isso não fosse grande coisa? Como se estivesse indo para um almoço de angariação de fundos?

Como Catherine Pickstock notou tão bem, a repetição de orações em todas as liturgias genuínas é deliberada e de imensa importância espiritual. A liturgia bizantina faz com que o padre freqüentemente ore secretamente do começo ao fim, enquanto se prepara repetidas vezes para o próximo passo em direção aos mistérios de Cristo. A liturgia romana autêntica não é diferente, com seu amplo Ofertório, suas três orações de preparação para a comunhão, orações de ablução, Placet e o Último Evangelho. Notoriamente, encontramos muita repetição de certas orações na Divina Liturgia e no usus antiquior – na primeira, ladainhas de “Senhor, tenha misericórdia” ou “Conceda-o, Senhor”; no último, o Kyrie nove vezes, o triplo Confiteor, o triplo Domine, non sum dignus (feito duas vezes para indicar a distinção entre a comunhão do sacerdote e os fiéis). [4]

7) O princípio da veracidade. Toda a mensagem do Evangelho está presente nos lecionários tradicionais – tanto as partes que contém aquilo que hoje é classificado como difícil, quanto as fáceis. No Novus Ordo, como bem sabemos, a Escritura foi agressivamente editada para se conformar aos preconceitos modernos. [5] Mais amplamente, podemos dizer que a lex orandi tradicional transmite com vigor apostólico a lex credendi da Igreja Católica, sem qualquer concessão às sensibilidades contemporâneas. Assim, tirando um exemplo de mil, a danação de Judas e a possibilidade do Inferno para cada um de nós, é ensinada com firmeza, e os Salmos de amaldiçoamento dirigidos contra nossos inimigos espirituais são usados abundantemente. Esse tipo de coisa foi extirpado ou reduzido na liturgia de Paulo VI. [6] Desse modo, nesse aspecto, ele não reflete a ortodoxia da fé como ensinada na Bíblia, nos Padres, nos Concílios e nos Doutores da Igreja; ele falha em ser lex orandi.

De fato, muitas doutrinas da fé são vistas e ouvidas nas antigas liturgias, ao passo que devem ser estudadas e aceitas cegamente no contexto da liturgia neo-romana, porque o próprio rito não as torna evidentes. Como exemplos, consideremos a veneração que se ter aos Santos, ou a adoração da latria que deve ser mostrada ao Santíssimo Sacramento. Quem assiste à liturgia bizantina ou  à  romana tradicional terá uma experiência visceral da venerabilidade dos Santos e da adorabilidade da Eucaristia. Em contraste, o Novus Ordo sistematicamente reduziu o foco sobre os Santos [7], bem como os sinais de reverência a serem pagos aos incríveis mistérios de Cristo.

8) O princípio da hierarquia. Esse princípio se manifesta na clara divisão de papéis entre padres, diáconos, subdiáconos, acólitos, cantores, etc. Essa diversidade não intercambiável de funções ficou grosseiramente confusa e diluída no Novus Ordo, com suas regulações frouxas sobre leigos no santuário. Nem a liturgia bizantina, nem a autêntica liturgia romana, permitem que leigos não investidos entrem sem algum bom motivo no santuário e realizem aquilo que é próprio do clero, sobretudo manejar a Eucaristia. Antes, a identidade do sacerdote como mediador entre Deus e o homem é completamente respeitada e demonstrada em ação – e a identidade do leigo como ativamente presente ao sacrifício é igualmente respeitada e demonstrada em ação.

A liturgia é uma verdadeira encarnação da eclesiologia, em vez de uma alternativa imaginária a ela. Nunca se poderia obter uma descrição coerente e consistente da natureza hierárquica do Corpo Místico no Novus Ordo, ao passo que é fácil fazê-lo a partir da Divina Liturgia ou Missa Romana tradicional. A participação, portanto, é entendida em um caminho fundamentalmente diferente nas liturgias tradicionais e no rito neo-romano. A visão correta é que a participação deve ser adequada a papéis distintos de várias partes do corpo, e que isso deve ser visível para todos no vestuário, porte, localização e tarefas designadas – e não atribuídas – aos participantes. [8]

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9) O princípio do paralelismo. Esse princípio deriva do da hierarquia. Em qualquer liturgia autêntica do Oriente ou do Ocidente, podemos notar que algumas coisas estão frequentemente ocorrendo de modo simultâneo (ou, para usar o termo técnico, nelas encontramos uma “liturgia paralela”). O diácono está puxando uma ladainha enquanto o sacerdote recita suas próprias orações; o povo ainda está cantando o Sanctus enquanto o sacerdote inicia o Cânon. Aqueles que frequentam o rito bizantino ou o gregoriano veem a liturgia como uma ação em várias camadas composta pelas ações individuais que convergem para um único fim. Ela não é definida com base numa sequência lógica de atos discretos, nos quais uma única coisa tem permissão de ocorrer por vez (como numa liturgia “sequencial” ou “modular”, que tem seu exemplo máximo no Novus Ordo). [9]

10) O princípio da separação. Todas as liturgias cristãs autênticas preservam e fazem um uso ritual da arquitetura presente no Templo da Antiga Aliança, que, como nos ensina a Epístola aos Hebreus, é sintetizada em Cristo e daí em diante simbolizada para sempre no Sacrifício Eucarístico. No Oriente, a separação do santuário ou santo dos santos da nave é mais explícita devido à presença da iconostase, através da qual só certos clérigos podem passar. No Ocidente, cortinas deram lugar a uma tela de madeira que, na maior parte dos lugares, acabou diminuindo de tamanho até se tornar a chamada mesa da comunhão, mas sempre o santuário permaneceu distinto, elevado e fora dos limites para os leigos. Além disso, na liturgia ocidental a iconostase visual cedeu lugar a uma “iconostase sonora”, formada pelo latim e pelo silêncio. Tanto a linguagem hierática quanto a ausência envolvente de som abaixam um véu sobre o santo dos santos e protegem os mistérios sagrados da profanação do tratamento casual. Assim, as liturgias orientais e ocidentais realizam esse “velamento de nossos rostos à Presença” de maneiras diferentes, e são altamente eficazes em alcançá-lo, atraindo poderosamente a atenção do adorador para a glória oculta de Deus.

Indo além desses princípios, que evidentemente apontam para a própria natureza do culto divino, há toda uma série de coisas que não são necessariamente características do Novus Ordo, mas o acompanham em 99% das vezes em que é celebrado, como a postura versus populum. Depois de cinquenta anos de clero de frente para o povo quase sempre e em toda parte, com repreensões papais àqueles que se atrevem a pensar de forma diferente, até mesmo o proponente mais otimista da “reforma da reforma” não pode sustentar que o versus populum não tipifica o Novus Ordo nas mentes de seus arquitetos, implementadores e usuários finais.

 Um resumo de tudo que foi explicado pode ser visto aqui:

 

Comparada com o Novus Ordo, a liturgia bizantina parece um rei ao lado de um mendigo, um Rembrandt próximo a uma caricatura, um banquete depois da fome. Mas comparada com o rito romano tradicional em todo o seu intrincado esplendor e solenidade, é uma igual na mesa da Tradição. Fazemos uma injustiça ao labor do Espírito Santo na Igreja ocidental quando consideramos o rito bizantino o “padrão ouro”, enquanto o rito romano em sua plenitude – tão raramente vista pelos católicos! – cumpre perfeitamente esse papel. Ao Novos Ordo é que deve ser mostrada a porta, pois ele não tem a pretensão de estar sentado à mesa real dos autênticos ritos litúrgicos.

Neste ponto, alguém poderia objetar dizendo que o Novus Ordo pode ser celebrado de um modo “em continuidade” com tradição romana precedente (e, portanto, similar à Divina Liturgia), mas minha resposta seria muito simples: vários dos princípios elencados não estão incorporados de forma alguma ao rito paulino – e isso por design (aqui, eu incluiria pelo menos os seguintes: 1, 4, 5, 6, 7 e 9); os princípios restantes (2, 3, 8 e 10) podem ser utilizados ou não, a depender de quem é o “presidente”. Em suma, eles são possíveis, mas não necessários Este fato, por si só, já demonstra o caráter antitradicional do Novus Ordo, que depende, para ter coerência com o que havia antes, das decisões livres de seu celebrante ao invés de uma regra fixa. [10] Assim, o Novus Ordo pode ser oferecido de maneira quase tradicional, enquanto as liturgias bizantinas e tridentinas devem ser oferecidas de maneira tradicional – não há escolha na questão. [11]

Nessa única diferença, podemos ver a lacuna quase infinita que separa o rito romano moderno de qualquer rito histórico do cristianismo, oriental ou ocidental. Sua falta de densidade doutrinária, moral, normativa e cerimonial, sua estrutura linear-racionalista-modular e sua “opcionalidade” separam-no essencialmente da esfera da cultura sagrada que o rito romano tradicional e o rito bizantino habitam em comum. Poder-se-ia adaptar a essa situação as palavras de Abrão na parábola do rico e de Lázaro (Lucas XVI, 26): “Além de tudo, há entre nós e vós um grande abismo, de maneira que, os que querem passar daqui para vós, não o podem, nem os de lá passar para cá”.

O que é verdadeiramente surpreendente, dado o precedente, é quantos católicos bizantinos e “especialistas” na liturgia oriental – Pe. Robert Taf SJ, sendo o mais proeminente – favorecem a liturgia romana “reformada”, negligenciando as discrepâncias monumentais e contradições entre seus princípios de composição e execução e aqueles que são comuns, como mostrei, à liturgia latina bizantina e romana tradicional. De fato, não é exagero dizer que a liturgia paulina, tanto como um todo quanto em suas particularidades, é uma deformação da liturgia latina que não pode ser classificada com os  autênticos ritos católicos que se desenvolveram ao longo da história. Portanto, é devido a uma profunda inconsistência que os católicos bizantinos prefiram o Novus Ordo por características secundárias ou terciárias, enquanto negligenciam, toleram, ou até mesmo parecem aprovar seus desvios dos princípios fundamentais da liturgia clássica.

Toda essa problemática não é meramente especulativa. Como sabemos, há décadas os liturgistas de gabinete têm falado sobre reformas nos ritos católicos orientais para colocá-los nos ditames da Sacrosantum Concilium e das maluquices de Bugnini. A força combinada de um preconceito em favor do pluralismo multicultural, o conservadorismo inerente ao Oriente e a falta de uma autoridade central capaz de impor mudanças litúrgicas gigantescas já pouparam os ritos orientais dos piores excessos da “reforma” litúrgica.Mas essa frágil paz pode não durar para sempre, especialmente se a liderança da Igreja continuar a exibir os traços gêmeos de arrogância e miopia que a afligiram nos últimos cinquenta anos. Portanto, cabe a todo cristão oriental e a todo simpatizante romano compreender os erros que levaram ao rito paulino e estão irremediavelmente unidos a ele, e opor-se a qualquer redução, compromisso ou novidade em sua própria vida litúrgica. [12]

Para retornar ao começo: os católicos bizantinos que amam seu próprio patrimônio litúrgico farão bem em se expor à tradição litúrgica ocidental como preservada e transmitida no usus antiquior, e – precisamente por amor ao que é comum ao Oriente e ao Ocidente – evitarão a liturgia neo-romana, com sua mistura de antiquarismo inconsistente e novidades modernas, sua dissonância cognitiva e ruptura com a tradição cristã. Ela nada mais é do que um contra sinal para as tradições grega e latina, indo de encontro a antigas verdades dogmáticas e morais que a liturgia sempre manifestou e inculcou nos fiéis. Os católicos romanos e bizantinos sabem que estão seguros, em boas mãos, quando frequentam os ritos autênticos uns dos outros; mas nenhum deles pode se sentir seguro comparecendo ao Novus Ordo.

Concluo com as palavras de Martin Mosebach: “Todo esforço para o ecumenismo, por mais necessário que seja, deve começar não com reuniões chamativas com os hierarcas orientais, mas com a restauração da liturgia latina, que representa a conexão real entre as igrejas latinas e gregas”. [13]

Notas

[1] Geoffrey Hull em The Banished Heart mostra que o problema da interferência papal na liturgia remonta a muitos séculos. No entanto, ele reconhece o abismo que separa qualquer coisa feita pelos papas antes de Paulo VI da monstruosa ruptura que Montini introduziu. Há uma diferença de gênero, não apenas uma diferença de grau. Conheço um filósofo católico que realmente sustenta que a única razão pela qual um rito de missa é válido é porque o Papa o declarou, e que se o Papa quisesse destruir todo o conteúdo do rito e substituí-lo por algo totalmente diferente, seria um verdadeiro rito católico, contanto que contivesse as Palavras da Consagração.

[2] Essa afirmação do uso do vernáculo nas liturgias orientais é algo que tem de ser bem ponderado. Vejamos os seguintes casos:

  • Igrejas e patriarcados de língua grega usam o grego litúrgico, não o vernáculo atual. Alguns patriarcados usam o árabe e outras línguas junto ao grego.
  • Igrejas ortodoxas eslavas sempre usaram o eslavônico litúrgico. Recentemente, modernistas orientais conseguiram introduzir o vernáculo, mas não em todo canto. Os russos ainda usam o eslavônico. Mesmo entre os sérvios, búlgaros, macedônios, bielorrussos e ucranianos que usam muito vernáculo, o eslavônio ainda se faz presente.
  • A Igreja Ortodoxa Romena usou o eslavônio e o grego eclesiástico do século X ao século XVII, quando eles foram substituídos por uma forma específica do romeno (influenciada pelo eslavônio e, portanto, não vernacular).
  • A Igreja Ortodoxa Georgiana usa o antigo georgiano literário como língua litúrgica.
  • A Igreja Copta usa o copta literário como língua litúrgica. Mesmo que seu uso tenha diminuído durante a longa dominação muçulmana em prol do árabe, ele ainda está vivo e passa por um processo de reintrodução.
  • A Igreja Etíope usa o ge’ez como língua litúrgica, não um dos vários vernáculos do seu país.
  • A Igreja Siríaca usa o siríaco e o árabe. O uso do árabe está relacionado com o domínio muçulmano.
  • Os armênios usam o armênio literário.

Afinal, o que se quer dizer com “vernáculo”? O eslavônio antigo, por exemplo, foi criado para que os eslavos pudessem entender a liturgia, mas, ao mesmo tempo, tinha como objetivo a tradução de um grego muito rebuscado. Historicamente, na maior parte das culturas, havia uma grande distância entre a língua literária e do cotidiano, muito mais do que hoje em dia, quando existem mais alfabetizados e a alta linguagem literária morreu.

Observação do tradutor: Mesmo entre protestantes essa diferenciação ocorre. O inglês usado na alta Igreja Anglicana é o elisabetano, completamente estranho ao vernáculo moderno. Entre luteranos de origem alemã se dá o mesmo processo. E, se formos pensar nas seitas pentecostais modernas no nosso país, rapidamente constatamos que o português da maioria esmagadora das traduções bíblicas preferidas entre eles é bem distante da língua falada.

[3] Carl Orson fez essa observação: “Participando de uma paróquia bizantina por mais de 20 anos, percebo que se as liturgias orientais não são silenciosas no sentido que a latina tradicional é – de fato, quase não há silencio na liturgia bizantina – as similaridades e convergências mais profundas são encontradas na reverência, transcendência e riqueza teológica.  Francamente, escutar muitas das orações ditas em uma missa do Novus Ordo me faz perder a cabeça. De outra forma: a Divina Liturgia e a Missa Latina falam à mente, ao coração e aos sentidos de maneiras misteriosas e profundas que, embora um tanto subjetivas, estão a serviço da verdade objetiva e da realidade divina.”

[4] Estou bem ciente de que estas orações foram construídas ao longo do tempo, e que, por exemplo, o Último Evangelho foi uma adição relativamente tardia. Mas todas as adições aconteceram por um bom motivo; elas aconteceram sob a influência gentil do Espírito Santo. Removê-las depois de terem sido adicionadas de forma adequada e harmoniosa e se tornado uma parte fixa do rito durante séculos é nada menos que um repúdio de seu conteúdo teológico e função litúrgica, e, portanto, um pecado contra o Espírito Santo. A Sacrosanctum Concilium, portanto, erra ao afirmar que a liturgia contém “repetição inútil” que deve ser purgada. Na realidade, qualquer um que entra em oração nas repetições da antiga liturgia compreende seu propósito, que nunca apresentou qualquer dificuldade aos cristãos até as suposições estritamente racionalistas e utilitárias dos tempos modernos.

[5] Leiam o texto Um conto de dois lecionários: parâmetros qualitativos versus quantitativos para conhecer mais aspectos problemáticos do Lecionário “reformado”.

[6] Sobre judas, vejam meu artigo Mentiras condenadas: o destino de Judas Iscariotes; sobre a omissão dos Salmos, vejam o texto A omissão dos Salmos difíceis e a organização do Saltério.

[7] O Cânon Romano, como a anáfora da Divina Liturgia de São João Crisóstomo, menciona muitos santos. As neo-anáforas, as Orações Eucarísticas do rito paulino, por seu turno, cortam severamente essa homenagem e apelo.

[8] Na Sacrosanctum Concilium, no entanto, a participação torna-se ideológica porque é exaltada acima de todos os outros princípios, o que inevitavelmente provoca distorção e corrupção: “A esta plena e ativa participação de todo o povo cumpre dar especial atenção na reforma e incremento da sagrada liturgia: com efeito, ela é a primeira e necessária fonte, da qual os fiéis podem haurir o espírito genuinamente cristão.” (n. 14); contrastemos esta declaração com a Tra le sollecitudini do papa Pio X: “Consideramos necessário antes de tudo prover a santidade e a dignidade do templo.” Talvez um conceito melhor do que participação seria o de assistência: cada membro do corpo ajuda na liturgia de acordo com o seu lugar. Pertencer é uma categoria mais básica do que fazer, assim como nossa inserção em Cristo no batismo é mais básica para nossa identidade do que qualquer ato particular que realizamos.

[9] Há pouquíssimos momentos em que o sacerdote pode estar fazendo alguma coisa no Novus Ordo enquanto as pessoas e/ou o coro estão fazendo outra coisa: a oração antes do Evangelho, durante o Aleluia; as orações sobre as ofertas, se uma música estiver sendo cantada; a quebra da Hóstia enquanto o Agnus Dei está sendo cantado. Mas o número de tais momentos foi severamente reduzido e seu conteúdo eucológico eviscerado.

Observação do tradutor: Não há nenhuma necessidade de se acompanhar cada ação, gesto ou, palavra do sacerdote no rito romano clássico. A beleza da velha liturgia é que ela tem tantas “escadas” nas quais alguém pode subir a Deus, que não é preciso usar todas. Geralmente estou inclinado a ler o missal, dialogando a Missa, mas, às vezes, apenas observo e rezo. Tudo é muito natural e frutífero para a alma.

Deste ponto de vista, o paralelismo não é um problema, porque o que o padre está fazendo é principalmente e essencialmente para ele; podemos segurar a borda de sua roupa (como o acólito faz na elevação) se quisermos, ou, então, rezar nossas próprias orações (obviamente, em união com o altar) – aí está a liberdade dos filhos de Deus.

[10] Assim como uma cadeia é tão forte quanto seu elo mais fraco, a liturgia cheia de opções é tão boa quanto a pior dessas opções. Ele deve ser julgado não pelo que poderia ser se muitas escolhas improváveis ​​fossem feitas, mas pelo que geralmente é quando escolhas costumeiras são feitas.

[11] Isso não quer dizer, é claro, que o rito romano tradicional sempre será oferecido de uma maneira edificante ou esteticamente apropriada – isso não é algo que possa ser garantido em qualquer rito, pois estamos lidando as fragilidades de seres humanos diversos. Antes, refiro-me às regras e costumes que governam as cerimônias como tais.

[12] Nota do tradutor: Na verdade, isso foi feito em alguns casos. Daí se observa a existências de missas maronitas versus populum e a desastrosa reforma do rito caldeu (sobre essa última, leiam mais aqui e aqui). Além disso, tenho um amigo que foi seminarista no Líbano e na Síria e me relatou ideias que lembram as do “liturgicismo” da década de 1950 no Ocidente (alvo de corajosa denúncia por Plinio Corrêa de Oliveira na sua obra Em Defesa da Ação Católica) que circulam nos seminários melquitas.

[13] Segundo a próxima edição revista e ampliada de The Heresy of Formlessness (Angelico Press, 2018), p. 187. Em outro lugar no mesmo livro Mosebach diz: “É característico deste século que assim como o machado estava sendo aplicado à árvore verde da liturgia, os mais profundos insights litúrgicos estavam sendo formulados, não na Igreja Romana, mas na Igreja Bizantina. Por um lado, um Papa ousou interferir na liturgia; por outro lado, a Ortodoxia, separada do Papa pelo cisma, preservou a liturgia e a teologia litúrgica através das terríveis provações do século. Para um católico que se recusa a aceitar cinicamente as conclusões lógicas, esses fatos produzem um enigma desconcertante. Somos tentados a falar de um mistério trágico, embora a palavra trágico não se encaixe em um contexto cristão. A Missa de São Gregório Magno, a antiga liturgia latina, encontra-se agora restrita “grupos de lunáticos” da Igreja Romana, enquanto a Divina Liturgia de São João Crisóstomo vive em todo o seu esplendor no coração da Igreja Ortodoxa. A ideia de que temos algo a aprender com a ortodoxia não é popular. Mas devemos nos acostumar a estudar – e estudar minuciosamente – o que a igreja bizantina tem a dizer sobre as imagens sagradas e a liturgia. Isto é igualmente relevante para o rito latino; na verdade, parece que só podemos conhecer o rito latino em toda a sua realidade cheia do Espírito, se o considerarmos a partir da perspectiva oriental ”(p. 57).

Respirar com ambos os pulmões, sim – mas saudavelmente, não num estado de doença

Anexo

Neste vídeo, podemos ver algumas das convergências trabalhadas aqui, não só no que se refere ao rito bizantino e ao rito gregoriano, mas também entre esse último e o sírio-malabar:

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15 respostas em “Dois irmãos e um estranho

  1. Não é não. Essa conclusão é totalmente descabida e ideológica. O próprio autor do texto se converteu por meio do rito paulino. O que se conclui, apenas, é que um rito é mais rico que o outro objetivamente falando.

  2. Ter se convertido pelo Rito novo significa absolutamente NADA!

    E não tem nada de ideológico na conclusão (ou é ideológico a sua?). O próprio autor deixa conclui como eu: “Desse modo, nesse aspecto, ele não reflete a ortodoxia da fé como ensinada na Bíblia, nos Padres, nos Concílios e nos Doutores da Igreja; ele falha em ser lex orandi”.

    E este mais assertivo: “Removê-las depois de terem sido adicionadas de forma adequada e harmoniosa e se tornado uma parte fixa do rito durante séculos é nada menos que um repúdio de seu conteúdo teológico e função litúrgica, e, portanto, um pecado contra o Espírito Santo”.

    Não há problema em não refletir a ortodoxia da Fé ou pecar contra o Espírito Santo? ok.

  3. Significa sim senhor. Rito de Missa, seja qual for, é algo meramente acidental. O importante é a fé. Nesse sentido, um é mais exaustivo que o outro; e nada mais.

  4. Significa tanto quanto alguém sair do ateísmo ouvindo Silas Malafaia. NADA.

    Espero que contradiga as duas passagens que elenquei acima.

  5. Comparação muito maluca essa. Uma coisa é sair do ateísmo devido aos vestígios de Verdade presentes na heresia; outra, bem diferente, é se inclinar para a Verdade por meio de uma forma de culto com a chancela da Igreja. A frase de Abraão se aplica aqui também. Quanto aos dois trechos que você citou, eu os considero perfeitamente respondidos pelo que falei antes. Lembre Karlos, o importante é a Fé, não um rito X ou Y. A Missa Nova, inocentemente ou não, pressupõe a Fé para ser celebrada e vivida com perfeição; a Missa no rito gregoriano apresenta a Fé. Nos dois casos, trata-se da Fé católica.

  6. Sim, você é. Por causa disso, interpreta tudo da maneira mais extremista possível.

    Vamos lá, então. Pecado contra o Espírito Santo no que se refere a desrespeitar as moções desse na História, não dizendo que o resultado mesmo seja pecaminoso (o que é impossível) e nem que se está falando de pecado contra o Espírito Santo na classificação clássica, isto é, de desespero da salvação. O autor usou uma figura de linguagem forte para expressar a desconexão do rito novo da tradição litúrgica mais profunda.

  7. Pingback: OS IRMÃOS E O BASTARDO | Pela Fé Católica

  8. Pecado contra o Espírito Santo, Thiago, não sei se você lembra, não é apenas desesperar-se da salvação, mas também, só um exemplo, combater a Verdade.

    Depois você foca em importância da Fé, mas o autor também afirma que o novo rito atenta contra a ortodoxia da Fé. Você tem que decidir-se. Mas depois dessa frase (A Missa Nova, inocentemente ou não, pressupõe a Fé para ser celebrada e vivida com perfeição), abstenho-me. Melhor lavar a cozinha.

  9. Ele não fala nesse sentido, Karlos, pois não vê a Missa nova como contrária à Verdade (o que seria impossível, repito), mas apenas não explicitante. Tanto que quanto toca na ortodoxia, é sempre no sentido de, num aspecto, não haver uma reflexão perfeita (não de haver heterodoxia em si mesmo).

    Como eu disse, o fato de você ter ideias preconcebidas sobre o tema te faz ler tudo de um modo extremista.

  10. “…a oração mais sagrada, a Anáfora, é imutável (no Ocidente)…”

    Thiago, há uma observação importante sobre esse ponto que Karlos colocou no blog dele e vou reproduzi-la aqui para ficar registrado:

    “Parece que o autor aqui cometeu um equívoco. Em alguns momentos do Tempo Litúrgico existem sim mudanças no Cânon Romano: são os Communicantes e Hanc igitur próprios (a depender da festa litúrgica), assim como o Qui pridie na Quinta-feira Santa e outras mudanças nas Missas de ordenação.”

  11. Obrigado, Luzia, quanto mais informações reunimos para aperfeiçoar o conhecimento neste tema, melhor 😉

  12. Você concorda, Thiago. com todos esses pontos que foram elencados no texto?

  13. Não. Concordo com a comparação, mas não assino em baixo, como se pode concluir de minha discussão com Karlos, de tudo o que se diz sobre o Novus Ordo em si.

    Afinal, ele também pode ser celebrado com esplendor e gravidade, o que mostra que, mesmo falho, nem todos os problemas litúrgicos que vemos advém dele em si mesmo.

    É importante notar que há razões culturais e políticas para a perda, por exemplo, da sobriedade, que não correspondem a fraquezas próprias do rito paulino. Poderíamos muito bem ter testemunhado decadência semelhante na solenidade da Missa Tridentina se ela não tivesse sido suplantada pelos Novus Ordo, como os experimentos litúrgicos das década de 1940, 50 e 60 indicavam. Nesse ponto, a marginalização foi benéfica.

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