Prima: a Hora dos trabalhadores e combatentes

Tradução e adaptação de um texto do Prof. Peter Kwasniewski.

Por muitos anos, como um católico que rezava a Liturgia das Horas de Paulo VI, eu não tinha a menor ideia que um ofício litúrgico chamado Prima (e, unido a ele, um livro chamado Martirológio Romano) existia. Na medida em que descobri a Missa no rito romano tradicional, também descobri o Breviário Romano, o Ofício Monástico, e vários outros tesouros escondidos. Assim como essas descobertas influenciaram a conversão do Cardeal Newman, elas também me guiaram em direção ao que considero a totalidade do catolicismo, que várias reformas pós-conciliares tentaram encobrir com os modismos do século XX.

A Hora menor chamada Prima (leva de 10 a 15 minutos para recitá-la) é um dos componentes do Ofício Divino documentados com mais consistência na sua fase formativa, na primeira metade do primeiro milênio. Datando do quarto século, ela consite de um hino, um pequeno número de Salmos ou segmentos de Salmos sob uma única antífona, uma pequena leitura, um pequeno responsório, um versículo (na versão monástica) e uma coleta. Os Salmos usados são os seguintes (numeração da Vulgata, é claro):

“Católicos de Prima e Completas”

A tradicional Hora das Laudes é um exercício de louvor e regozijo mais vagaroso, enquanto a Prima, que vem mais tarde na manhã, é o exercício espiritual par excellence do trabalhador – daquele que está prestes a se lançar no trabalho do dia e na luta contra o mal. Assim, podemos chamá-la com propriedade de “ofício dos trabalhadores e combatentes”.

O Movimento Litúrgico, em sua fase saudável, promoveu uma grande conscientização sobre o Ofício Divino. Devido à sua brevidade e temas apropriados, a Prima era amplamente rezada pelos leigos antes do Concílio. Algumas pessoas se autodenominavam “católicos de Prima e Completas” porque usavam essas duas Horas bem curtas como oração da manhã e da noite todos os dias. D. Mark Kirby explica:

Pelos anos 40 e 50, quando, em sinergia com as renovações litúrgicas e bíblicas, os oblatos beneditinos desfrutavam uma espécie de primavera, não era incomum que eles rezassem a Prima e as Completas todos os dias, deixando as Horas Maiores das Matinas, Laudes e Vésperas, e as outras Horas Menores da Terça, Sexta e Nona aos seus irmãos no claustro. A Prima e as Completas eram frequentemente promovidas como as Horas ideais para quem trabalha. Lembro-me de minha velha amiga e mentora Adé Béthune dizendo-me, a quase 40 anos, que quando jovem oblata beneditina trabalhando como cortadora de cartas na John Stevens Shop em Newport, Rhode Island, ela e seus amigos paravam para rezar a Prima e as Completas. Alguns de seus contemporâneos, como a ativista social Dorothy Day e Catherine de Hueck Doherty, da Madona House, também eram devotados à Prima e às Completas. [1]

Tentativa de supressão

A despeito de sua antiguidade, popularidade e centralidade na estrutura sétupla do Ofício Divino, a Prima foi suprimida, sem maiores explicações, por ordem do Vaticano II – talvez esse seja o exemplo mais notório do projeto inerentemente falho da Sacrosanctum Concilium. Como Wolfram Schrems explicou no seu importantíssimo artigo “A Constituição Conciliar sobre a Liturgia: Reforma ou Revolução?“, nem o Papa e nem um concílio ecumênico possuem autoridade para abolir um rito litúrgico de origem imemorial. Assim, o fato da Sacrosanctum Concilium tentar abolir a Prima (ao invés, por exemplo, de regular sobre por quem e quando ela deveria ser recitada) é o bastante para demonstrar que no seio desse documento encontramos um construtivismo radical, isto é, uma subordinação da tradição ao voluntarismo autocrático [2].

No entanto, a Prima continuou a ser celebrada por alguns beneditinos, uma vez que o Concílio não se atreveu a legislar diretamente contra a venerável regra do Patriarca do monasticismo ocidental, e nos rito orientais, mostrando, mais uma vez, que a “reforma” moveu a Igreja Latina para longe do Oriente, ao contrário do que diz a propaganda neoconservadora.

Reviravolta

Felizmente, como tudo que é tradicional, a Prima está ensaiando uma volta. Uma nova geração de “católicos de Prima e Completas” pode experienciar a beleza dessas Horas, juntamente com a alegria sutil que advém do contato com um monumento da tradição que os modernistas quiseram apagar sem deixar vestígios. O renascimento do Breviário Romano pré-conciliar é uma aplicação do princípio geral que Bento XVI expôs no Summorum Pontificum: “O que as gerações anteriores consideraram sagrado, permanece sagrado e excelente para nós também, e não pode ser repentinamente proibido ou considerado prejudicial. Cabe a todos nós preservar as riquezas que se desenvolveram na fé e na oração da Igreja, e dar-lhes o devido lugar” (Carta aos Bispos, 7 de julho de 2007).

A recitação da Prima hoje em dia é um sinal de contradição, é uma recusa em se aceitar a má hermenêutica subjacente à Sacrosanctum Concilium. Ao se comprometer com essa Hora, entramos numa aliança com as revigoradas ordens e comunidades religiosas tradicionais que, com humildade e alegria, se juntaram à grande corrente de oração litúrgica oferecida por monges, freiras, oblatos e associados desde os primeiros séculos até o Concílio da Ruptura. Dessa forma, a Prima também se torna um símbolo de nossa luta contra as “reformas” falsas e prejudiciais, bem como de nossa esperança por tempos melhores – tempos de que seremos responsáveis, pelo menos em parte, na medida em que atuamos deliberadamente em prol da recuperação do patrimônio da Igreja.

Onde encontrá-la?

Atualmente temos bons recursos a disposição para quem quer recitar a Prima e as Completas.

O mais acessível é a obra chamada Divine Office, editada pela Angelus Press, que possui a Prima, a Sexta e as Completas para todos os dias da semana (a Sexta funciona como oração do meio do dia), e, para os domingos, acrescenta as Laudes e as Vésperas [3]. Uma opção superior (e bem mais cara) são os três volumes do Breviário Romano bilíngue latim/inglês, da Baronius Press, que traz todo o Ofício. Por fim, para quem se interessa pela versão monástica, há o Diurnal Monástico latim/ínglês vendido pela Abadia de Clear Creek, nos EUA, e pela de Abadia de Farnborough, no Reino Unido.

Pelo site Divinum Officium é possível recitar qualquer das Horas online segundo o sistema de rubricas que se prefere. Aqui há um arquivo com o Diurnal Monástico latim/português digitalizado.

A Abadia de Clear Creek costumava publicar um livreto com a Prima e as Completas, mas ele parece estar fora de catálogo. Também é bom lembrar que o Ofício Parvo de Nossa Senhora é uma ótima alternativa, pois é uma forma tradicional do Ofício, tão litúrgica quanto o Grande Ofício, só que com uma sequência diferenciada de Salmos.

Minha vitamina diária

Como oblato de São Bento, recitei o mesmo ciclo semanal de três salmos por dia, ao longo de vários anos. Isso me levou a um ponto em que as palavras dos Salmos estão plantadas no fundo da minha alma, escritas na carne de meu coração; eu os tenho basicamente na memória e olho as páginas só para me lembrar. Todas as outras partes – o hino, os antífonas, o capítulo, o versículo, a oração – estão todos memorizados. Este é o grande benefício da repetição bem escolhida, um princípio que a Santa Mãe Igreja seguiu por quase vinte séculos até a ruptura.

Eu notei três fases no uso da Prima (e das Completas também). A primeira foi apenas uma questão de me familiarizar com os Salmos em latim, entender o significado deles, formar as palavras corretamente nos meus lábios. A segunda fase foi mais difícil: uma vez que as orações se tornaram uma segunda natureza, às vezes eu me via correndo sem pensar nelas, então tive que optar por desacelerar, tomar tempo e refletir sobre o que estava dizendo. A terceira é a em que esses Salmos me colocam imediatamente na presença de Deus: iluminam, ressoam, confortam e desafiam.

A Prima ajuda-me a alcançar a stabilitas mentis, ou a estabilidade da mente, que é a imagem interna da stabilitas loci dos beneditinos, isto é, o compromisso de ficar permanentemente numa certa comunidade. Se por acaso me esqueço de recitá-la por algum motivo, o dia parece um pouco desequilibrado, instável e desordenado. Que grande bênção é construir a vida de oração em rocha sólida!

OBS: Devo mencionar aqui, por uma questão de exaustividade, que nos principais dias de festas e para o dos santos com significado especial para mim, tento arranjar tempo para rezar as Laudes. No uso monástico, elas compreendem 7 Salmos, o Benedicite, e o Benedictus, por isso preciso planejar esse momento com antecedência.

[1] Dom Mark também diz em outro lugar: “Eu sempre sou da opinião de que a Prima e as Completas são as Horas do trabalhador no Ofício Divino. Breves e, na maioria das vezes, invariáveis, correspondem ao ritmo natural do dia e da vida familiar do trabalhador. Meu querido e venerável amigo, o artista Adé de Béthune, outro oblato beneditino, costumava rezar as Primas e as Completas, como fizeram muitos leigos católicos antes do Concílio Vaticano II. O esforço para tornar as Laudes e as Vésperas em oração diária das pessoas comuns foi, penso eu, a ideia de uma elite que nunca perguntou às pessoas o que realmente funcionava para elas. Prima e Completas nos dias úteis e Laudes e Vésperas nos domingos quando se tem tempo para se dedicar a elas.”

[2] É nesse ponto que os católicos tradicionais se separam de organizações como a Adoremus, que incluem em seus princípios o seguinte: “O Adoremus aceita total e sem reservas o Concílio Vaticano II como um ato do Magistério supremo da Igreja (autoridade de ensino) guiado pelo Espírito Santo, e considera seus documentos como uma expressão, em nossos dias, da palavra do próprio Cristo para Sua Noiva, a Igreja” e “O Adoremus aceita as mudanças litúrgicas aprovadas pelas autoridades apropriadas da Igreja desde o Concílio como exercício legítimo da autoridade disciplinar da Igreja sobre a liturgia. O Adoremus busca uma observância mais autêntica das normas litúrgicas aprovadas desde o Concílio.” Mas um Concílio que se atreve a abolir um rito litúrgico tradicional de notável antiguidade e universalidade mina qualquer confiança que os fiéis possam ter em seu programa de reforma. Os resultados – uma sacola de antiquarianismo arbitrário, novidades de mal gosto e conteúdo estúpido – falam por si.

[3] No caso, apenas os textos fixos, não as variações nas antífonas.

3 respostas em “Prima: a Hora dos trabalhadores e combatentes

  1. Gostei desse modelo. Estou completando um ano rezando Laudes, Vésperas e Completas da LH; agora vou adotar esse modelo Prima e Completas com o Ofício Parvo.

  2. Eu já tinha decidido que voltaria para o Ofício Parvo e que não quero dar mais um passo para o Diurnal beneditino. Gostei da LH no geral, mas alguns trechos de hinos, preces e traduções/versões de alguns trechos dos Salmos achei um pouco pobres.

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