Categoria: Defesa da vida
O dom da vida e o aborto
No começo do mês passado fui convidado para dar uma palestra no EJC (Encontro de Jovens com Cristo) da Paróquia de São Cristovão e São Sebastião do bairro da Imbiribeira aqui em Recife. A aula deveria ter como tema “O dom da vida” e, no meio dele, uma abordagem sobre o aborto. Tudo em 40 minutos e às 8 horas da manhã, ou seja, para quem é prolixo e noturno como eu seria um sacrifício… mas pela Igreja nós devemos nos sacrificar mesmo e topei o desafio. De início imaginei uma aula normal, no estilo “comício”, como é ainda comum em nossas escolas e universidades, mas logo deixei de lado essa idéia e procurei fazer algo o máximo possível no estilo socrático, isto é, desenvolver o tema por meio de perguntas, respostas e reflexões. Pelo que fiquei sabendo a maior parte dos participantes gostou de minha aula. Abaixo vou colocar um texto que usei para me guiar:
Fazei-me conhecer, Senhor, o meu fim e o número de meus dias, para que eu veja como sou efêmero. A largura da mão: eis a medida de meus dias. Diante de vós a minha vida é como um nada; todo homem não é mais que um sopro. De fato, o homem passa como uma sombra; é em vão que ele se agita; amontoa, sem saber quem recolherá. (Salmo XXXVIII, 5-7)
Pois bom, praticamente 24 horas depois, no começo da noite de sexta-feira, minha mãe me ligou dizendo que ela tinha morrido. Em geral eu sou muito falador, mas nesse momento fiquei sem palavras. Foi uma triste surpresa.
Depois de passado o choque e a confusão que muitas vezes é um funeral, comecei a pensar sobre as lições que esse episódio podia me dar. Por que ela lembrou tanto um dia antes de morrer de coisas aparentemente tão banais? O que importa na vida?
O fato, gostemos ou não, é que o dom da vida só pode ser vislumbrado, e ainda assim entre muitos véus, na perspectiva da morte. Infelizmente, em geral, só damos valor àquilo que não temos mais. Qual a importância de um sorriso? Qual a importância de fazer brincadeiras com os amigos? Amar alguém, com tudo que isso implica em termos de responsabilidade, é um bom gasto de tempo? A resposta a essas perguntas está na morte.
Nela percebemos que não são só grandes momentos que importam, não são apenas as coisas valorizadas socialmente que fazem a diferença, mas todas as coisas fazem, todos os momentos importam. Nossa vida é exatamente esse conjunto de momentos que se sucedem no tempo. Falte um só e já não é mais a minha vida ou a de vocês, é a de outra pessoa.
Já pararam para pensar nisso? Creio que a maioria não. Mas vai haver um dia, que só conhece o Senhor que nos deu gratuitamente o dom da vida, em que pensaremos. E, por isso, vovó lembrava dos cuidados de seu pai para com ela, por isso lembrava dos alunos da escolinha no interior da Paraíba, por isso lembrava de fazer sorrir um dos sisudos padres de antigamente.
Desse modo, já podemos entender o motivo da Igreja se opor com veemência à chamada “cultura da morte” que permeia o mundo atual. Já podemos entender por que o aborto é uma injustiça com o fraco e uma abominação aos olhos de Deus.
Quem pode dizer que os momentos formadores de uma vida são mais importantes que os de outra? Vejam que no começo eu qualifiquei as lembranças de minha avó de banais. Mas eram mesmo? Quem sou eu para julgar!?! Do mesmo modo, como pode um juiz das mais altas instâncias dizer que a vida de um adulto vale mais que a de uma criança que estará entre nós por pouco tempo? Saberá ele medir o valor de um abraço que essa criança pode receber? O que vale mais, tal abraço ou os discursos intermináveis do juiz que tenta desqualificar por meio de fantasias a realidade do dom da vida que está na sua frente?
Pior. Muito pior. A loucura de nossa época faz com que se tente medir infortúnios. Vamos matar quem está no calor do ventre materno para que um projeto profissional não seja prejudicado. Vamos matar quem está no ventre materno para que a dor de uma mulher que foi vítima de uma violência não se perpetue. Ora, se é impossível dizer que um momento de felicidade é superior a outro, também é impossível falar o mesmo de um de infelicidade.
Mas a falta de reflexão não para aí. Pois se o dom da vida é gratuito, como nós podemos concordar com quem quer por um valor nele, em especial pelo fato de que estes não podem dá-lo? Qual o militante abortista que pode trazer algo à vida?
E vejam, o pecado aqui não é apenas atacar os fracos, mas não defendê-los. É algo semelhante ao pecado de Pilatos: o governador romano não atacou Nosso Senhor Jesus Cristo, ele não O defendeu, não O resguardou do ódio das multidões. Será que nós não nos tornamos outros Pilatos ao não lutar contra a cultura da morte?
Um dia eu falava na conferência dos bispos do Brasil contra o aborto, porque eu trabalho muito – poderia e deveria ter trabalhado ainda mais. E um bispo me disse: “Mas Dom Pestana, o senhor tem que entender que não podemos perder tempo […] com uma batalha perdida. O aborto vem! Como veio para quase todas as nações. Não se pode perder tempo com essas coisas”. E eu disse: “Excelência, Deus não te julga se ganhamos ou não a batalha, mas se lutamos e se lutamos bem”.
– D. Pestana
Ícone sobre o aborto
Algum tempo atrás chegou às minhas mãos o seguinte ícone que retrata tanto a problemática perene quanto a atual em torno da questão do aborto:
Vou reproduzir a interpretação dele, já que ele perfaz um símbolo fortíssimo na nossa luta em defesa da vida.
Comecemos com o contraste das cores de fundo. Elas são mais claras na parte da esquerda e mais escuras na direita, indicando a oposição entre a vida e a morte, entre o bem e o mal, entre a luz de Deus e as trevas da morte eterna.
No canto superior esquerdo surge Jesus Cristo, vencedor da morte, protegendo e abençoando, abaixo dele, uma família cristã (é de se notar os trajes modernos que vestem). Família, aliás, numerosa (pai, mãe e seis filhos).
Na ilustração da família, o pai carrega um dos filhos (como São José, que carrega o Menino Deus, tradicional imagem da iconografia cristã) e traz o alimento na mão esquerda. A mãe embala o filho ainda bebê e alimenta uma outra criança. São figuras tradicionais do pai e da mãe cristãos, essenciais para o desenvolvimento dos filhos.
Acima da família cristã, surge a Sagrada Família de Nazaré. Maria carrega, em seu colo, o Senhor Deus, nascido de seu puríssimo ventre. São José, por sua vez, carrega uma criança envolta em panos brancos, símbolo, na iconografia tradicional, da alma das crianças inocentes assassinadas.
Abaixo da família cristã, numa imagem bastante contundente, temos a “Arrependida”, isto é, a mãe que, tendo cometido o monstruoso crime do aborto, chora, agora, o filho que ela própria matou. Veste-se de vermelho, o que representa o sangue inocente por ela derramado.
Na parte esquerda inferior, há a figura da mãe solteira. De um lado, ela pecou e consentiu em relações pré-nupciais (talvez, seja por isto que parte de sua vestimenta é vermelha, cor da luxúria), mas, por outro lado, manteve-se firme frente à tentação de abortar e, agora, carrega (não sem o auxílio de Deus) a Cruz de ser mãe sem a ajuda e o suporte de um esposo. Cruz esta que, se bem vivida, será sua porta de entrada para o céu depois que findar sua peregrinação terrestre.
Passemos agora às trevas.
Na parte direita do ícone, vemos sentada, num trono vermelho, uma rainha, chamada de “Nova Herodes”. É o próprio aborto personificado, que, como o Herodes o fez outrora, promove a matança dos inocentes no mundo moderno. Ela espezinha e massacra vários bebês e recebe ainda outros (todos em posição fetal) que as mulheres lhe oferecem.
Estas mulheres estão à sua frente e personificam (de baixo para cima) a crueldade, a futilidade, a indiferença e a luxúria, sem as quais a monstruosidade do aborto não ocorreria.
Ao fundo, vemos um “médico”. No original, a palavra é também grafada entre aspas, pois, sob a aparência de um médico (que deveria usar seus talentos apenas para salvar vidas), encontra-se um assassino frio, que passa uma espada no ventre de um bebê indefeso. Seu bolso está cheio de dinheiro, pois se enriquece com a matança que ele próprio promove. Ao fundo, a imagem de um dragão, a Antiga Serpente, o chamado Diabo ou Satanás, que, sedutor do mundo inteiro, seduz o “médico”, colocando-o ao seu serviço. Pois, todos os que se colocam a serviço, direto ou indireto, do aborto, estão a serviço direto de Satanás.
Catecismo sobre o aborto

1. O que é o aborto?
Aborto, em sentido lato, é a morte do produto da concepção e sua expulsão do organismo materno em qualquer fase de seu desenvolvimento pré-natal.
Isto pode ocorrer por causas naturais, que não dependem da vontade humana ou interferência externa. É o chamado aborto espontâneo, que ocorrerá, nesses casos, por distúrbio do organismo materno ou por algum acidente sofrido pela mãe durante a gravidez.
Nessas próximas perguntas e respostas, porém, o termo “aborto” será sempre usado no sentido de aborto voluntário, provocado, direto, doloso. Ou seja, toda e qualquer intervenção, por meios cirúrgicos ou farmacológicos, que visa matar e expelir o produto da concepção, desde o momento em que essa se inicia até o nascimento, isto é, ao longo de toda a vida pré-natal.
Debate na UFPE – aborto
Ontem (25/03) debati sobre a legalização e legitimação do aborto na Faculdade de Direito do Recife, ligada a Universidade Federal de Pernambuco. No debate, promovido pelo grupo que ora ocupa o diretório acadêmico, também estavam presentes na mesa uma socióloga feminista (defesa ideológica do aborto) e um advogado criminalista (defesa pragmática do aborto).
Desde o primeiro momento tentei cortar certo tipo de estratégia dos abortistas ao levar a discussão para o âmbito natural:
“Começo com algumas afirmações para esquentar o debate.
O aborto não é legal no Brasil em nenhuma hipótese e, mesmo que fosse, seria ilegítimo.
Nenhuma circunstância, nenhum fim, nenhuma lei no mundo poderá jamais tornar lícito um ato que é intrinsecamente mau, porque contrário à Lei Natural, inscrita no coração de cada homem e reconhecível pela razão.
Desse modo, a luta pelo aborto não é luta, mas uma mistificação, que instrumentaliza conceitos e fraquezas humanas para levar a cabo seu nefasto intento.
A mistificação pelo aborto não um movimento em prol de direitos, pois solapa a base justificadora do sistema jurídico, que é a pessoa. Quando admitimos que uma vida humana inocente pode ser eliminada, tudo, TUDO, perde sentido. Nenhuma causa, social, econômica, sexual, política, cultural e, muito menos jurídica, faz sentido. A pessoa, ao contrário do que querem certos doutrinadores carcomidos como os ossos de Augusto Conte, não é um repositório de direitos e deveres, mas o centro irradiador dos direitos e deveres.
A mistificação pelo aborto não proclama a liberdade. Liberdade não é fazer o que se quer, mas mover-se com autonomia no meio de balizas e em direção ao bem. Não há liberdade de escolha quando a escolha é matar o indefeso.
A mistificação pelo aborto não contribui para dignificar a mulher, antes a degrada na mesma medida em que degrada toda a civilização, ao subverter o movimento ascendente de superação de tabus que proclama a dignidade do ser humano pelo simples fato de ser um humano.
A mistificação pelo aborto não atua em favor em favor de “direitos reprodutivos” ou do “planejamento familiar”. Não atua em prol dos “direitos reprodutivos” porque não atua em prol de direito nenhum, como disse a pouco, e não atua em favor do “planejamento familiar” pelo simples fato de que não podemos admitir este à custa de vidas ceifadas.
Sendo assim, como tolerar que tal mistificação continue a existir?
A tolerância pode ser uma virtude, mas é a virtude característica das situações anômalas, periclitantes, difíceis. Ela é a cruz do cidadão cônscio e responsável, que se encontra numa época de desolação, decadência espiritual e ruína. Desse entendimento já se observa que a tolerância pode ser perigosa: no meio de um contexto em que não se reflete com base em princípios (que é a estratégia do movimento abortista), passa-se a aceitar tudo, a tomar como ordem o que é desordem, a tolerar o intolerável.
Chega! É um atentado ao Criador e um crime de lesa pátria continuar a não responder ao abortismo. Eles querem guerra? A terão!”
Acho que essa foi a melhor estratégia, pois sempre que eles tentavam sectarizar as idéias, dizendo que eu defendia o que defendo pelo fato de ser católico, eu chamava a atenção para minhas palavras iniciais.
Infelizmente, fazendo minhas aquelas famosas palavras de Chesterton: “Tornar-se católico, não significa que se deixe de pensar, mas que se aprende a pensar”, tive de lidar com a constante confusão de critérios dos meus opositores. Numa hora um deles dizia que a ciência não podia ser critério para afirmar o que era ou não vida e, pouco depois, usava um pseudoconceito científico para dizer que o feto anencefálico não passa de uma “coisa”. Isso quando não se apropriavam de slogans (facista, medieval) indicadores da cosmovisão de cada um, para tentar descaracterizar o que eu colocava.
Por isso tive, rapidamente, de selecionar do besteirol sem fim que falavam algumas coisas para rebater sempre que tomava a palavra. E fiz isso com uma postura agressiva, para construir um contraponto moral ao que era colocado pelos “advogados da morte”.
É interessante como algumas pessoas do auditório não gostaram dessa minha última postura, tendo sua sensibilidade chocada, como se, por exemplo, fosse aceitável eu defender que o negro não é pessoa (como fez a Suprema Corte americana em 1857) com muita educação e usando palavreado chic e, ainda assim, merecer respostas num tom equilibrado. Esse é mais um exemplo de como o mundo ocidental vive numa paralaxe cognitiva, de como ele vive de aparências, de artificialidades e, por isso mesmo, cairá de podre.
Terminei com as seguintes palavras:
“Moloch era um antigo deus dos fenícios.
Construído de bronze, a imensa estátua continha no bojo uma enorme fornalha.
Em honra dessa divindade implacável, as próprias mães imolavam seus filhos pequeninos.
Atiravam elas, dentro do monstro de metal, os filhos primogênitos, os quais rolavam para dentro do abdômen incandescente de Moloch, sendo então devorados pelas chamas.
Para não provocar arrepios nos assistentes, os iníquos sacerdotes de Moloch tomavam o cuidado de mandar soar trombetas e rufar tambores, abafando assim, no ruído de uma música infernal, o gemido dos pobres inocentes.
A Fenícia pagã desapareceu na História. E com o desaparecimento da Fenícia, acabaram-se os terríveis sacrifícios.
Acabaram mesmo?
No começo deste século XXI – o século dos “direitos do homem” – já não há sacerdotes fenícios, mas aborteiros inescrupolosos de avental branco.
Já não há mais estátua de bronze, mas o próprio ventre materno tomou o lugar do bojo de Moloch.
A qual divindade se ofereceram hoje as milhões de vítimas inocentes?
Variam de acordo com um “politeísmo” macabro.
Quando se trata de cultuar o gozo sexual, sem as conseqüências estabelecidas pela própria natureza, esse deus se chama Eros e a religião toma o nome de erotismo.
Quando se trata de evitar incômodos, numa furiosa busca das conveniências pessoais, esse deus se chama Ego, e a religião será o egoísmo.
Acima de tudo, ergue-se Leviatã, ou seja, os Estados hipócritas, cujos próceres tanto falam de “direitos humanos”, mas que se tornam cúmplices de uma injustiça clamorosa, isto é, o extermínio do mais indefeso dos seres: o nascituro.
Leviatã diz que faz isso por questão de higiene e saúde. E mergulha no sangue das vítimas inocentes o mais elementar dos direitos, que é o direito à vida, praticando assim a mais odiosa das discriminações: contra o ser humano na fase pré-natal de sua existência.
O paradoxo não poderia ser mais flagrante. Precisamente da mãe, dos médicos e das autoridades públicas, a pequena vítima deveria esperar proteção e tutela.
Mais especificamente, da mãe, o filho deveria esperar o amor materno. Porém ela o imola, não em um altar em chamas, mas numa fria mesa de operação.
O médico, cuja missão é garantir a vida, se transforma no instrumento de sua morte.
O Estado, que deveria punir os criminosos que levantassem a mão contra sua vida, nega ao nascituro o direito de viver, em nome de índices, cifras e estatísticas manipuladas.
Diante do Moloch abortista, o que seremos nós?
Cidadãos mornos, indolentes, que não sabem fazer valer os seus princípios?
Ou batalhadores, que não se acovardam diante da opinião contrária dos outros e proclamam desassombrados o direito à vida, da concepção à morte natural?
Acomodação, preguiça, medo não têm lugar nessa hora em que estão ameaçados milhões de seres humanos indefesos.
Será que vamos nos tornar um Pilatos?
Pilatos passou a História, indelevelmente marcado pelo ferro em brasa da censura dos Evangelistas, como tipo característico do homem que não é cruel, por medo da crueldade, não é assassino, por idolência, e não é feroz, por inércia.
Escravo da preguiça e do medo, cede a todas as infâmias, submete-se a todas as baixezas, pela força da inércia que é como que a base de sua mentalidade.
O erro, meus caros, não é só não defender a Verdade, mas também não ter a coragem de A preservar e resguardar contra o ódio instrumentalizado da massa.
Descendo agora ao terreno de nossas consciências, esse terreno onde somente dois olhares penetram, o de Deus e o nosso, perguntemo-nos: não seremos nós outros Pilatos?
Muito obrigado pela atenção.”
