O crepúsculo da ironia

Nos últimos anos tem sido complicado falar em público, pois os indivíduos e os grupos estão cada vez mais sensíveis, reclamando ou rindo de tudo e todos menos de si mesmos, e compreendendo o que se diz no sentido mais literal. O primeiro problema, para mim, tem sua gênese no fato da imaturidade, concretizada num alongamento da adolescência, ter se tornado um dado cultural valorizado; o segundo, por sua vez,  deriva de um nível de articulação linguística baixo, fruto da falta de leituras mais longas e complexas que mensagens no celular, que tolhe a imaginação (ou pelo menos a maneira dela se articular). Assim sendo, como reflexão sobre esse problema, vou postar para os leitores um texto interessantíssimo, de autoria de José Francisco Botelho, que foi publicando na revista Veja de 4 de outubro deste ano (O crepúsculo da ironia – Uma defesa do humor que recusa explicar-se):

“Certo americano muito experiente, a quem conheci em Londres, me garantiu que uma criança saudável e bem alimentada é, com a idade de 1 ano, um petisco bastante nutritivo e salutar, seja fervida, assada, grelhada ou cozida. E não tenho dúvida de que seria ótimo ingrediente para um fricassê ou um ensopado.” Escritas pelo irlandês Jonathan Swift, essas palavras permanecem um dos exemplos mais apetitosos da ironia na literatura: gerações e mais gerações de leitores  experimentaram a mesma hilariante sensação de culpa ao alcançar a assombrosa punchiline. O trecho faz parte de Uma Modesta Proposta para Evitar que as Crianças dos Pobres Sejam um Fardo aos Seus Genitores e ao Seu País, escrita em 1729 – época em que a carestia devastava a terra natal do autor. Seguindo o esquema de um rigoroso argumento lógico, Swift sugere que os irlandeses desvalidos transformem seus filhos em guisados e os vendam aos conterrâneos ricos, em nome do equilíbrio econômico e dietético da nação. Será preciso explicar que o elogio ao canibalismo é uma figura de linguagem, que Swift estava criticando a incompetência das autoridades e que o sarcasmo selvagem era uma forma de sublinhar uma realidade igualmente intolerável? Não duvido que o caro leitor seja capaz de captar a ironia; mas, hoje em dia, há sempre o risco de alguém lavar as coisas ao pé da letra. Continuar lendo

Sobre a efeméride de hoje

Nota

Hoje é dia dos democratas celebrarem um golpe militar, feito por um protegido (Deodoro) contra seu benfeitor (Dom Pedro II), para implementar um regime cujos primeiros atos foram perseguir a imprensa e aumentar em 1/3 o salário do presidente em comparação com o soldo imperial.

A república fez do Brasil um corpo convulsionado. Desde 1889 vivemos de revolução em revolução, ditadura em ditadura, de moedas em moedas, de constituições em constituições, sempre numa espiral degenerativa de instabilidade.

Encaixar a república no Brasil é como forçar um quadrado num círculo. Somos um povo monárquico por cultura e DNA. Não à toa a casa do presidente é chamada de “palácio” quando não haveria necessidade alguma de sê-la; não à toa o povo vê nos governantes uma figura paterna (ou materna, no caso de Dona Dilma I, a louca); não à toa nosso período de maior estabilidade democrática foi durante o segundo reinado.

Um dos maiores problemas do Brasil é o desconforto psicológico de um povo inteiro forçado a viver sob um regime que não encontra eco no inconsciente coletivo.

Nas nossas terras república é apenas um fetiche. E daqueles que não valem o preço.

Jardim na UFPE

O Jardim das Aflições, o filme que não deveria existir, mostra parte da vida e do pensamento do filósofo Olavo de Carvalho, autor de livros como O Imbecil Coletivo, Aristóteles em nova perspectiva, o best seller O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota e O Jardim das Aflições, livro que serviu de base ao documentário.

A exibição acontecerá na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), dia 27/10, sexta feira, às 16h, no Auditório Barbosa Lima Sobrinho, CFCH. Contará com a presença do escritor Ronaldo Castro de Lima Júnior e de Josias Teófilo, diretor do filme.

Idolatria Moderna

Todas as coisas criadas são intermediários, sinais, aparências. Mas algumas, dentre elas, são intermediários em segundo grau, sinas de sinais, aparências de aparências. Assim sucede com o dinheiro, as honrarias, os títulos, os prazeres artificiais, etc. E são precisamente estes fantasmas o objeto preferido da idolatria moderna, são estes bens ultra-relativos os que mais captam o nosso desejo de absoluto. Já se não adora o sol, as plantas ou os animais (que pelo menos têm o mérito de serem intermediários necessários entre o homem e o seu fim supremo), mas sim uma etiqueta política, uma condecoração, uma nota de papel.

Como o culto antigo de Cybelis, o de Cypris, ou mesmo o de Príape, que correspondiam às profundas realidades naturais, se revelam sãos e vivos em comparação com o culto actual dos mais vãos elementos da nossa existência! A idolatria moderna rege-se pela lei do menor coeficiente de realidade. E ainda quando se abate sobre coisas necessárias e naturais, as despoja da sua realidade, da sua substância, fá-las sobras e joguetes. Assim, a idolatria do amor sexual não adora, na mulher, a esposa ou a mãe tal como Deus a quis; substitui-a, segundo incida sobre o corpo ou sobre a alma, quer por um instrumento de prazer estéril, isto é, um ser degradado, quer por um produto de sonhos impossíveis, isto é, um ser imaginário. A idolatria antiga (pelo menos na sua fase inicial) elevava para Deus as coisas da natureza, enquanto que a idolatria moderna as degrada até ao nada.

– Gustave Thibon (O pão de cada dia. Colecção Éfeso, Lisboa: Editorial Aster)