Propriedade e metacapitalismo

Tenho perfeita consciência de que, no nosso tempo, a palavra “propriedade” foi contaminada pela corrupção dos grandes capitalistas. Ouvindo as pessoas a falar, um homem até pode julgar que os Rothschilds e os Rockefellers estão do lado da propriedade. Mas é óbvio que eles são inimigos da propriedade; porque eles são inimigos dos seus próprios limites. Eles não querem as terras que são deles; querem as terras que são dos outros. Quando eles afastam os marcos das extremas dos vizinhos, também afastam os deles. Um homem que aprecia um pequeno campo triangular, aprecia-o por ser triangular; uma pessoa que lhe destrua esta forma, dando-lhe mais terras, é um ladrão que lhe roubou o triângulo. Um homem que disponha da verdadeira poesia da posse, deseja ver o muro onde o seu jardim confina com o jardim do vizinho; este homem não vê a forma da sua terra, senão quando vê também os contornos da terra do vizinho. É a negação da propriedade que o Duque de Sutherland seja dono de todas as terras da região; tal como seria a negação do casamento se ele tivesse todas as esposas de um harém.

G. K. Chesterton (Disparates do Mundo, 1910)

Disparates do Mundo

Recentemente li um texto de Chesterton (Disparates do Mundo, 1910) que parece explicar muito do que ocorre na vida política nacional e no governo da Igreja nos dias de hoje:

E este é o facto mais notório e mais dominante na moderna discussão das questões sociais: o facto de a controvérsia não dizer respeito apenas às dificuldades, mas também aos objectivos. Estamos todos de acordo acerca do mal; é relativamente à definição do bem que estamos dispostos a arrancar os olhos uns aos outros. Todos reconhecemos que uma aristocracia indolente é um mal; mas estamos longe de afirmar unanimemente que uma aristocracia activa seria um bem. Todos nos sentimos irritados com os sacerdotes ímpios; mas alguns de nós sentiriam profunda aversão se nos deparássemos com um sacerdote verdadeiramente pio. Toda a gente se indigna com a circunstância de termos um exército fraco, incluindo as pessoas que se indignariam ainda mais se o nosso exército fosse forte.

A questão da sociedade é exactamente o oposto da questão da saúde. Diversamente dos médicos, nós não estamos em desacordo acerca da natureza da doença, concordando embora acerca da natureza da saúde; pelo contrário, todos nós concordamos que a Inglaterra está doente, mas aquilo a que metade de nós chamaria um estado de saúde pujante, repugnaria à outra metade. Os insultos públicos são de tal maneira proeminentes e pestilentos, que arrastam as almas generosas numa unanimidade fictícia; esquecemos que, embora estejamos de acordo quanto aos insultos, discordamos profundamente em matéria de elogios. O Sr. Cadbury e eu, não temos dificuldade em concordar sobre o que é um pub inaceitável; mas teríamos uma lamentável altercação se nos encontrássemos diante de um pub aceitável.

Defendo, pois, que o método sociológico habitual – começar por dissecar a pobreza abjecta ou por catalogar a prostituição – é perfeitamente inútil. Ninguém aprecia a pobreza abjecta; o problema surge quando começamos a discutir a pobreza digna e independente. Ninguém aprecia a prostituição; mas nem todos gostamos da pureza. A única maneira de discutirmos os males sociais é passarmos imediatamente ao ideal social. Todos conseguimos identificar a loucura nacional; mas o que é a sanidade nacional? Dei a este livro o título de Disparates do Mundo, e não é difícil identificar o conteúdo do mesmo. Pois o grande despropósito do mundo consiste em não perguntarmos qual é o propósito.