A antiguidade e universalidade do tempo da Septuagésima (parte 4 – final)

Este é o último post desta série sobre a Septuagésima. O primeiro pode ser lido aqui, o segundo aqui e o terceiro aqui.

Tendo demonstrado a antiguidade e universalidade da Septuagésima nos vários ritos, vamos concluir destacando os temas mais usados pelas liturgias ocidentais e orientais neste período.

A leitura do Gênesis: meditação sobre a Queda do homem e a necessidade de Redenção

septuagesima-1Adão foi privado das delícias do Paraíso * pelo amargor do fruto; * sua gula o fez rejeitar * o mandamento do Senhor; * ele foi condenado a trabalhar * na terra da qual foi formado; * pelo suor da sua testa * foi obrigado a ganhar o pão que comia. * Olhemos para a temperança, para que não fiquemos, como ele, a chorar na porta do Paraíso; mas, antes, lutemos para nele entrar. (Kathisma das Matinas do Domingo da Tyrophagia, também conhecido como Domingo da Expulsão de Adão).

Os hinos bizantinos do domingo que precede o início da Quaresma, que coincide com o da Quinquagésima, são dedicados à Criação e ao pecado de Adão e Eva, e contrastam a glutonaria de nossos primeiros pais com os 40 dias de jejum de Nosso Senhor no deserto. De fato, frequentemente encontramos leituras do livro do Gênesis no começo da própria Quaresma, ou nas três semanas da Septuagésima. No rito romano, o começo do Gênesis é lido nas Matinas do Domingo da Septuagésima; tanto o rito ambrosiano quanto o bizantino possuem uma série de leituras do Gênesis e dos Provérbios nas Vésperas de boa parte da Quaresma.

A lembrança da morte e dos novíssimos

A meditação sobre a queda de Adão é naturalmente acompanhada de considerações sobre a fragilidade humana, a morte e a necessidade de penitência antes do Julgamento Final. Isso é colocado de maneira eloquente no Introito da Missa do Domingo da Septuagésima no rito romano:

Circundederunt me gemitus mortis, dolores inferni circundederunt me: et in tribulatione mea invocavit Dominum, et exaudivit de templo santo suo vocem mea.

Cercaram-me as agonias da morte e as dores do infeno me cingiram. Invoquei o Senhor na minha aflição e lá do seu templo santo ouviu a minha voz.

O Media vita é outro texto frequentemente cantando durante a Septuagésima no rito romano. Essa antífona, que parece datar do século VIII, mais tarde foi transformada num responsório, e em muitos usos do rito romano integrada à liturgia da Quaresma. Na Idade Média, esse texto dramático era frequentemente cantado nos campos de batalha para encorajar as tropas.

media-vitaAo meio da vida na morte estamos/A quem pediremos ajuda
Senão a Vós, Senhor,/Que por nossos pecados justamente Vos irais?/Deus Santo/Deus Forte/Deus misericordioso Salvador/Não nos arraste uma morte amarga/Em Vós esperaram nossos pais,/esperaram e Vós os salvastes./Deus Santo/Deus Forte/Deus misericordioso Salvador/Não nos arraste uma morte amarga/A Vós clamaram nossos pais,/Clamaram e não foram confundidos./Deus Santo/Deus Forte/Deus misericordioso Salvador/Não nos arraste uma morte amarga/Glória ao Pai…/Deus Santo/Deus Forte/Deus misericordioso Salvador/Não nos arraste uma morte amarga

Na mesma linha, o rito bizantino lê o Evangelho do Juízo Final (Mateus XXV, 31-46) para convocar os fiéis a pensarem nos novíssimos.

A oração pelos mortos

A liturgia da Septuagésima nos lembra de nossa condição mortal derivada da queda e, por isso, em muitas tradições litúrgicas ele se tornou um tempo especial de oração pelos falecidos.

No rito armênio, a quinta-feira da Quinquagésima (o último dia antes do início da Quaresma) é dedicada à comemoração de todos os fiéis falecidos. O mesmo vale para o sábado anterior ao Domingo do Juízo Final no Rito Bizantino; isto é atestado no Typikon da Grande Igreja, dos séculos IX ou X, o documento mais importante que descreve a liturgia em Hagia Sophia. O rito caldeu tem uma observância semelhante na sexta-feira da segunda semana antes da Quaresma.

memento-morisEntre os maronitas, os três domingos da Septuagésima são dedicados à comemoração dos mortos; o primeiro aos sacerdotes falecidos, o segundo aos “justos e corretos” e o último a todos os fiéis falecidos. A organização desde tempo litúrgico entre os jacobitas sírios é indubitavelmente o mais primitivo: o jejum dos ninivitas (Sawmo d’ninwoyé) da segunda a sexta-feira da semana da Septuagésima, o domingo da Sexagésima pelos sacerdotes falecidos (Kohné) e o da Quinquagésima por todos os fiéis que repousam no Senhor (‘Aneedé).

Conclusões

Os criadores do Missal reformado de Paulo VI inexplicavelmente suprimiram o tempo da Septuagésima, um elemento venerável do rito romano, sem levar em conta sua antiguidade e universalidade, até mesmo preservada no Livro de Oração Comum dos anglicanos e em muitas igrejas luteranas. Estes posts procuraram destacar e explicar os seguintes pontos:

1. Em todas as tradições litúrgicas a Quaresma é precedida de um período penitencial, originalmente formado pelo jejum dos Ninivitas na terceira semana antes e pela Quinquagésima (jejum de Heráclito, semana da Tyrophagia) na semana anterior. Os testemunhos mais antigos deste período são do século IV: São Gregório Iluminador, São Efrém, a peregrinação da Egeria a Jerusalém. Os coptas do Egito e da Etiópia têm os dois jejuns, o rito moçárabe tem apenas a Quinquagésima, os caldeus têm apenas as Rogações dos Ninivitas. A partir do começo do século VI, a Septuagésima foi desenvolvida e estendida até o período completo de três semanas nos ritos romano, ambrosiano, bizantino, armênio, sírio-jacobita e maronita.

2. Este tempo é considerado uma entrada progressiva na Quaresma, permitindo uma abordagem gradual, e a preparação espiritual, dos os exercícios ascéticos daquele tempo litúrgico. Este aspecto é explicado pelo Protopresbítero Alexander Schmemann em sua descrição dos domingos de Septuagésima:

Três semanas antes da Grande Quaresma começar oficialmente, entramos em um período de preparação. É uma característica constante da nossa tradição litúrgica que cada grande evento litúrgico – Natal, Páscoa, Quaresma – seja anunciado e preparado com muita antecedência. Conscientes da nossa falta de concentração e da condição “materialista” de nossa vida, a Igreja chama a atenção para os aspectos importantes do evento que se aproxima, convidando-nos a meditar sobre as suas “dimensões”; portanto, antes que possamos começar a guardar a Grande Quaresma, recebemos a base teológica para ela. (A Estrutura Litúrgica da Quaresma)

3. Meditação sobre a Queda do Homem e as Últimas Coisas e, consequentemente, a instituição de orações pelos fiéis falecidos, são elementos recorrentes nos vários ritos.
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