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O Rosário soa a trombeta do Novo Israel

Tradução e adaptação de um texto do Dr. Peter Kwasniewski:

Se saírdes de vosso país para fazer a guerra contra os inimigos que vos atacam, fareis soar, com estrépido, as trombetas, e o Senhor vosso Deus se lembrará de vós, para vos livrar das mãos dos vossos inimigos. (Números X, 9)

Na tradição judaica, a trombeta, ou o shofar, era tocada para anunciar a lua nova, o novo mês e o novo ano; anunciar a vinda do Senhor (lembremos de como a Festa das Trombetas é celebrada antes do Dia da Expiação); reunir o povo para o Senhor (os judeus até acreditavam que esse seria o mecanismo que convocaria os mortos para virem ao Julgamento Final); e para soar o alarme e começar o ataque (lembremos das histórias sobre os muros de Jericó e as outras batalhas do Antigo Testamento onde a Arca da Aliança foi levada para a batalha).

O livro do Apocalipse nos dá uma palavra sobre a trombeta. Em dois versículos particulares, São João identifica a trombeta com as palavras de um anjo: “Cai em êxtase, no dia do Senhor, e ouvi por detrás de mim uma grande voz, como de trombeta” (Apocalipse I, 10); “Depois disto tive uma visão: Uma porta estava aberta no céu, e a voz, aquela primeira voz que eu tinha ouvido, como de trombeta, falava comigo, dizendo: ‘Sobe aqui e mostrar-te-ei as coisas que devem acontecer depois destas'”.

O Apóstolo João, que certamente celebrou a Festa das Trombetas (Rosh Hashanah), entendia que essa festa não podia ser simplesmente abolida, antes deveria encontrar um significado no Evangelho, segundo o princípio: “Não julgueis que vim abolir a lei ou os profetas; não vim para os abolir, mas sim para os cumprir” (Mateus V, 17). As festas deveriam continuar de alguma maneira no tempo da graça. Mas o que corresponderia a essa festa no Novo Testamento, a na Igreja atual?

Uma resposta convincente a essa pergunta foi dada num artigo brilhante publicado no Rorate Caeli em 31 de agosto do ano passado. A autora, Alisa Kunitz-Dick, mostra como cada uma das comemorações judaicas tem um paralelo no rito romano tradicional. Ela não faz a observação, mas eu farei, que muitos desses paralelos estão ausentes no rito de Paulo VI, sugerindo não só uma ruptura não só com o rito romano e com costumes imemoriais, mas também com o culto divinamente revelado da Antiga Aliança: um caso de abolição e não de desenvolvimento do significado. Assim como os “reformadores” mantiveram apenas 13% das orações do antigo Missal, eles também retiveram apenas uma pequena porção da herança judaica presentes nos ritos ocidentais e orientais. A Quarta-Feira das Têmporas de Setembro do rito romano tradicional faz três referências ao Rosh Hashanah: o Introito fala sobre tocar a trombeta; o Gradual honra Deus como Rei, que é o tema principal dessa festa judaica; e a Comunhão se refere ao costume de comer coisas doces para que se tenha um “ano novo doce”.

No entanto, gostaria de sugerir uma maneira mais sutil e ao mesmo tempo mais abrangente pela qual a Festa das Trombetas e o papel do shofar foram assumidos no catolicismo.

As palavras do Arcanjo Gabriel à Bem-Aventurada Virgem Maria na Anunciação são a mais poderosa das trombetas, pois anunciam a vinda do Senhor em carne [1]. A Virgem é a flor mais bela de Israel; ela é a Noiva de Javé; ela é aquela de quem o Senhor “lembra” acima de todas as outras, e salva do antigo Inimigo.

Com isso em mente, considere rezar a Ave Maria como se estivesse tocando o Grande Shofar. Pense na perspectiva de Números X, 9: quando você sai da sua terra para lutar contra o inimigo, você deve soar o alarme da trombetas, e o Senhor, seu Deus, se lembrará de você, e te salvará. Perceba o poder da Saudação Angélica no meio da batalha, bem como no meio da alegria; perceba o poder do Rosário que soa a trombeta de Gabriel repetidamente. Quando você reza o Rosário, você toca o shofar celestial e invoca o poder de Deus para lutar sua batalha, nossa batalha. Não importa tanto o quão emocionalmente “conectado” você se sinta em sua oração, pois os sentimentos vêm e vão; o simples ato de recitar a Ave Maria em si tem um poder tremendo!

O arcebispo Viganò mencionou esse simbolismo em uma mensagem em que falava de “uma espécie de cerco de Jericó, não com sete trombetas feitas de chifres de carneiro tocadas pelos sacerdotes, mas com as Ave-Marias dos pequeninos e dos inocentes para derrubar os muros do estado profundo e da igreja profunda” [2].

Outra “palavra de um anjo” que é como o som de uma trombeta é o nome de Jesus. Foi São José quem recebeu o nome de Jesus das palavras de um anjo. Assim, a mensagem a Maria e a mensagem a José se combinam para formar uma trombeta poderosa, uma arma invencível apoiada pelo poder do Céu.

No Magnificat, a Bem-Aventurada Virgem Maria faz uma profecia que é uma pista para uma das maneiras pelas quais devemos passar nosso tempo na terra: “…eis que, de hoje em diante, TODAS as gerações me chamarão bem-aventurada” (Lucas I, 48). ). Do Espírito Santo, falando em e através de Nossa Senhora, descobrimos como é importante repetir a Ave Maria, que inclui as palavras de sua prima Isabel: “Bendita és tu entre todas as mulheres…” (Lucas I, 42). Os “pequeninos” que estão no Reino de Deus (cf. Mateus XIX, 14), os que habitarão no Seu reino eterno, a chamarão bem-aventurada para todo o sempre.

No Rosário, somos convidados a meditar os mistérios. Não se trata de algo elaborado, como os meticulosos “métodos de oração mental” encontrados em alguns antigos manuais jesuítas que podem nos fazer sentir inadequados para orar, assim como ler sobre como alcançar a fluência em uma língua estrangeira pode ser desencorajador para os linguisticamente medianos. O Rosário é dado para os pequeninos, ou para quem entende a necessidade de ser pequeno. Muitos jovens ardentes que se orgulham de seguir os métodos em várias etapas se transformarão num ancião que manuseia suavemente as contas do Rosário diante do Santíssimo Sacramento.

Como uma criança pequena, podemos ir até a Mãe Santíssima, nossa Rainha, segurar sua mão e deixá-la nos guiar pelo jardim do Evangelho. Podemos pedir-lhe que nos mostre as maravilhas da sua vida e da vida do seu Filho. Ela nos abraçará como filhos de Deus que fomos e somos. Há tanta liberdade nesta simplicidade. Como crianças, podemos encarar a Rainha e senti-la sorrindo para nós, porque ela ama todas as crianças, assim como seu divino Filho os amou e os convidou a vir a Ele.

Quando a Mãe me traz ao seu Filho, uma grande gratidão floresce em meu coração, porque me sinto amado, sem medo, como um passarinho descansando em Sua mão. Tento não me preocupar com o que vou comer ou vestir, ou com o que o amanhã pode trazer. Ele proverá tudo, quando e como for necessário. Posso continuar meu trabalho – ou meu sofrimento – com a confiança de que Ele está me usando agora para construir Seu reino nas almas, começando na minha, e que Seu reino, que não é deste mundo, não terá fim .

A Mishna afirma que os rabinos continuaram esperando o dia em que o Senhor “deixaria Seu trono de julgamento e tomaria Seu trono de misericórdia”. Maria é a Misericórdia: é isso que vemos em cada imagem onde o menino Jesus está sentado em seu colo. Para chegar ao Senhor da misericórdia temos que passar por Maria, assim como Ele veio até nós por Maria. Não sejamos negligentes em assumir esta trombeta angelical e arma brilhante, o shofar católico: Ave Maria, gratia plena, Dominus tecum.

[1] Assim como a música é composta de proporções inteligíveis como 1:2, 2:3, 3:4, traduzidas em sons físicos por meio de objetos vibrantes ou colunas de ar, a Encarnação é o Verbo invisível assumindo uma natureza visível, tangível e audível.

[2] SCAPEGOATING FRANCIS: How the Revolution of Vatican II serves the New World Order.

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