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Qual foi o pecado de Satanás (e dos outros demônios)?

Quando se trata de falar sobre o pecado de Satanás e dos outros anjos caídos nós sempre ouvimos muitas hipóteses que, devido à falta de argumentação nas suas apresentações, podem até mesmo ser classificadas de “lendas católicas”. Já me falaram que o pecado dos demônios era o de terem apoiado seu líder no intento de tomar o lugar de Deus ou de terem se revoltado após saberem que a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade se encarnaria numa criatura inferior, o homem. Como resposta a isso tudo, apresento abaixo um texto recente do confrade Rui num debate na  comunidade do Orkut onde ele põe os “pingos nos is” em torno deste tema:

quoteNão houve uma guerra no céu à semelhança das guerras na terra. Isso é uma metáfora. Há coisas que, meditando sobre a natureza puramente espiritual dos anjos, notamos de cara serem impossíveis. Por exemplo, Satanás não desejou o lugar de Deus. Sto. Tomás deixa claro que uma inteligência como a dele jamais desejaria isso, pois, como Thiago explicou muito bem, o anjo mira a essência e não os acidentes. Ora, a superioridade de um anjo sobre outro, e de Deus sobre todos, é essencial e nunca acidental, como é a superioridade de um homem sobre outro. Ascender à posição de outro anjo é, na realidade, deixar de ser este anjo e passar a ser aquele anjo. O homem, por sua vez, deseja ascender a uma posição superior enquanto às suas condições acidentais sem que se destrua o sujeito, e assim também imagina o anjo e Deus como compartilhando das mesmas condições acidentais. Mas isso é um engano da imaginação. Deus e o anjo são essencialmente diferentes, de sorte que, se o anjo desejasse ser outra coisa que não aquilo que é, na realidade, estaria desejando a sua própria aniquilação.

Assim, o pecado de Satanás não pode ter sido querer ser semelhante a Deus em essência, e sim semelhante a Deus naquilo que não estava apto para ser. E, nesse caso, sugere Santo Tomás, ele quis o bem da sua natureza como fim último de sua bem-aventurança, ou, se desejou a bem-aventurança sobrenatural (o que concorda com Sto. Anselmo, que diz que desejou aquilo a que teria chegado se houvesse perseverado), quis alcançá-la pela capacidade de sua natureza, e não pela graça, conforme a disposição divina.

Os demais anjos devem ter tido o mesmo pecado, contudo, como Satanás era o maior deles, ficou sendo-lhes o chefe, o superior no pecado, como também é o superior dos homem que pecam. Mais do que isso, em razão dessa sua superioridade natural, exerceu influência sobre o pecado dos outros anjos, e, se alguém peca sugestionado por outro, como castigo, fica sobre seu domínio, como está em II Pd II,19, “Pois o homem é feito escravo daquele que o venceu”. A que pese a sua soberba, os anjos maus aceitaram essa subordinação a Satanás, pois, com ela, almejavam conseguir a bem-aventurança com suas próprias forças, e, sobretudo, porque, na ordem natural, que foi a razão do seu pecado, estavam já submetidos ao anjo supremo.

Outra coisa: esse pecado de Satanás e dos anjos deu-se como primeiro ato voluntário após a sua criação, sem mediação de tempo entre o primeiro instante de sua criação e o seu pecado. Dado que foi criado bom e de posse da graça santificante, teria merecido o céu com um único ato meritório, como os anjos bons, e se condenado também por único ato de pecado, como Sto. Tomás explica em S. Th., I, q.62, a.5 e q.63, a.5 e 6. Os anjos não precisam de tempo para eleger, exortar ou consentir, logo, os anjos maus também pecaram imediatamente, sugestionados pelo pecado de Satanás, fazendo-o seus próprios os desígnios daquele.

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Apostila de Crisma

Apostila de Crisma do confrade Karlos Guedes.

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A Revelação e as fontes da fé

1 – O homem é capaz de Deus

“Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência, por suas obras; de modo que não se podem escusar.” (Romanos I, 20)

“O desejo de Deus está inscrito no coração do homem, já que o homem é criado por Deus e para Deus; e Deus não cessa de atrair o homem para si, e somente em Deus o homem há de encontrar a verdade e a felicidade que não cessa de procurar…” (Catecismo da Igreja Católica – 27).

“Deve-se dizer que está impresso naturalmente em nós algum conhecimento geral e confuso da existência de Deus, isto é, Deus como felicidade do homem, pois o homem deseja naturalmente a felicidade” (Santo Tomás de Aquino – Suma Teológica).

1.1 – A lei natural e o ser humano

A experiência cotidiana permite ao indivíduo intuir que não é ele o começo do mundo nem a medida de todas as coisas, pelo contrário, fá-lo perceber que por todos os lados encontra-se debaixo de leis físicas, de leis biológicas e de leis sociais.

Ao emergir na existência, cada ser está fadado a realizar uma finalidade específica, finalidade insculpida na sua própria essência por Aquele que criou todas as essências. Não é por acaso que o Sol centraliza todo um sistema planetário e ninguém duvida que o caos sobreviria a todo esse sistema, fazendo desaparecer a vida, se ele, fugindo à finalidade citada, deixasse de expandir energia, luz, calor para a Terra.

É lógico, portanto, admitir a existência de uma ordem (lei) no Universo, e, dentro dela, a ordem (lei) específica de cada ser.

Inserido nesse quadro, o ser humano também se direciona para a busca da perfeição de sua própria natureza, isto é, para cumprir com a finalidade que está inscrita na sua essência. Diversamente, porém, do que ocorre com o Sol, os vegetais e outros seres, que possuem seu processo de existir predeterminado, de modo fatal e incondicionado, o homem tem o curso do seu existir e sua finalidade ordenados não de um modo irresistível, irrecorrível e predeterminado, mas condicionado ao exercício do livre-arbítrio. Isso equivale a dizer que para nós a lei natural impõe-se como uma forma de exigência do dever (como algo que se deve fazer, como algo que é melhor que seja feito) e não como um fato de que não se pode fugir. O Sol não pode subtrair-se à lei natural, fatalmente ele ilumina, aquece e preside o sistema planetário do qual é o centro; nós, por outro lado, existindo também debaixo de uma ordem que nos impele ao um fim, temos a possibilidade de subtrair-nos aos preceitos dela.

1.1.2 – O fim último do homem

Por uma imposição metafísica, o ser humano carrega em todos os seus instintos uma atração para certos objetos e certos fins. É arrastado por uma sede insaciável de se realizar plenamente.

Subjetivamente considerado, o fim último que o homem persegue inconscientemente, em todos os seu movimentos voluntários, está na felicidade. “O princípio comum que domina todos os estudos e todas as discussões dos filósofos e teólogos” – lembra-nos Jolivet (Tratado de Filosofia – Tomo IV Moral, p. 55) – “é que a perfeição do homem, se acaso é possível, deve coincidir necessariamente com a felicidade perfeita.”

Objetivamente, porém, consistirá em que o fim último? Estará situado onde?

Se os homens aspiram todos a felicidade, ensina-nos a experiência também que nem todos procuram-na nos mesmos bens concretos e que essa felicidade não é constante ao longo da vida. O que na linguagem vulgar se costuma designar como felicidade nada mais é do que um conjunto de momentos fugazes e instáveis de bem-estar, de êxito ou de sucesso, não se podendo, pois, de forma alguma identificá-los com nosso fim último.

“Entre os diversos objetos que uns e outros procuram como beatificantes, não poderá haver mais do que um, o qual satisfaça plenamente e ordenadamente suas tendências naturais, que, em suma, seja sua verdadeira felicidade objetiva, e em face da qual as demais serão enganadoras e apenas isso. Impõe-se como uma exigência da razão determinar em que consistirá esse bem supremo, causa necessária e suficiente do estado subjetivo de felicidade, cuja possessão aperfeiçoa e satisfaz ao máximo e em relação com o qual se fará em concreto a distinção entre bem e mal” (Abbé Henri Collin, Manuel de Philosophie Thomiste, p. 199).

Na indagação sobre o fim último em termos objetivos, várias soluções foram cogitadas. Os estóicos situavam o bem supremo na virtude, a qual consistiria no homem se tornar insensível às afeições da alma. Os epicuristas situavam-no gozo dos prazeres, entendendo-se, como tais, tanto os prazeres sensíveis como os espirituais. Para Kant, o fim supremo consistiria no alcance da constituição política perfeita (na vontade se conformar com as leis). Para os utilitaristas (Benthan, Stuart Mill) seria obter a maior porcentagem de felicidade subjetiva para o maior número de pessoas possível. Aristóteles e Platão, por sua vez, consideravam como fim supremo a compreensão de Deus. Já para Santo Tomás e os filósofos católicos, o fim último e o bem supremo pelo qual toda criatura aspira é a posse e a contemplação de Deus.

Seguindo esse último grupo, em argumentação silogística, Mercier demonstrava assim a racionalidade da opinião de que Deus é o fim último do homem: “O objeto capaz de fazer o homem feliz deve satisfazer a todos os seus desejos, a possessão dele deve ser tranqüila e segura, e, finalmente, deve estar ao alcance de todos. Ora, nenhum bem criado constitui o objeto suficiente de nossa felicidade”. Já Santo Agostinho, em seus Solilóquios, dizia: “Fizeste-nos, Senhor, para Ti, e o nosso coração, enquanto não repousar em Ti, estará sempre desassossegado” (Tratado Elemental de Filosofia, tomo II, Filosofia Moral, p. 258).

1.1.3 – O fim último do homem e a religião

Do impulso em direção ao fim último é que em todas as épocas e em todos os povos os homens buscam a Deus. Buscam-No para aprender Dele uma compreensão do mundo e de si próprios. Todo ser humano com honestidade intelectual reconhece a mão eficiente do Senhor na ordem diversificada da Criação. As obras são reflexo Daquele que as criou.

Nisso está a origem natural das várias tradições religiosas, desde as menos elaboradas até as mais difundidas nos nossos dias.

Todavia, a razão humana, após identificar a existência do Criador e algumas exigências éticas derivadas de tal conclusão, não consegue ir além, pois nas verdades que se referem a Deus e às relações entre Ele e os homens muitos conceitos transcendem completamente a ordem das coisas sensíveis, e, desse modo, faz-se necessária uma grande autodisciplina na reflexão sobre eles ou uma iluminação externa. No decorrer dos séculos isso ficou patente, pois mesmo grandes civilizações, como a grega e a romana, caíram em erros gravíssimos a respeito da religião. As mitologias ensinam-nos que não somente esses povos eram politeístas ou idólatras, mas que concebiam os deuses à sua imagem e semelhança, cheios de vícios e crimes, na intenção de encontrar um estímulo, ou uma desculpa, para os piores excessos. Até o culto servia de pretexto para a devassidão (bacanais, lupercais, saturnais, etc.).

Assim sendo, aprouve a Deus iluminar os seres humanos, seja para lhes manifestar verdades e deveres que não podem ser conhecidos pela razão, seja para explicitar verdades e deveres que são perceptíveis pela razão, mas a que, em geral, só se chega com dificuldade. Essa iluminação nos chamamos Revelação.

1.2 – A Revelação e as fontes da Fé

“Muitas vezes e de modos diversos, falou Deus outrora a nossos pais pelos profetas. Nos últimos dias nos falou pelo Filho…” (Hebreus I, 1-2).

1.2.1 – A Revelação

Ao iniciar um estudo da doutrina católica, é preciso, antes de tudo, saber de onde vem essa doutrina. Se nossa adesão ao catolicismo deve ser total, irrestrita e amorosa, é preciso que haja na própria Igreja as garantias necessárias para essa adesão tão definitiva. Em outras palavras, só poderemos dar nosso assentimento aos princípios católicos quando compreendermos que não se trata de conceitos inventados pelo homem, mas revelados por Deus.

Eis, então, a primeira noção importante a conhecer: a de Revelação.

Etimologicamente, revelar significa “tirar o véu que encobre um objeto e nos impede de o ver”.

Ao criar os homens em Adão e Eva, retomando um conceito já estudado, Deus formou a natureza humana com certas características particulares. Uma dessas características é o sentimento religioso, natural, horizontal, que nos leva a praticar, de algum modo, um culto ao Criador. Assim vemos, desde o início da história, sacrifícios oferecidos, como o de Caim e Abel, como o de Noé e de Abraão.

Se é verdade que o povo eleito se forma a partir de Abraão, segundo a promessa que Deus lhe fez, é com Moisés que se estabelece, por revelação divina, uma religião ensinada e exigida pelo Senhor a seu povo. Já não mais natural e horizontal, mas vertical, divina, vinda de Deus para nós e não apenas de nós para Deus. Esta Revelação vai dar ao culto um valor novo, um valor que não existia quando ele era movido apenas pelo sentimento natural de religião. A partir daí, o Criador vai exigir do seu povo a realização do culto como Ele determinou e vai condenar vigorosamente toda a idolatria.

Mais tarde, ao recusar o Messias e crucificá-lo, os judeus rompem com a Revelação, revoltam-se contra Deus e perdem o valor sobrenatural e divino de sua religião. É a Igreja, então, que recebe de Jesus a autoridade para levar a frente a religião revelada (Mateus XVI, 18-19).

1.2.2 – Revelação Pública

Deus falou – o que Ele diz só pode ser a verdade por excelência. Ele não pode errar e não pode nos enganar. O que o Senhor disse forma o conjunto objetivo das verdades reveladas. É chamada Revelação Pública aquela que foi entregue por Deus ao homens, dando-lhes autoridade para falar em seu nome, através de uma instituição fundada para este fim. Temos assim:

1) A Revelação Pública Particular: é o que está no Antigo Testamento, restringindo-se ao povo eleito.

2) A Revelação Pública Universal: é a que Jesus Cristo e os Apóstolos ensinaram, e pertence (obriga) a todos os homens.

O ato da Revelação termina com a morte do último Apóstolo (São João). Aos Apóstolos foi entregue, por Nosso Senhor Jesus Cristo, o Depósito Sagrado, para que eles, com sua autoridade divina, pregassem a todo os povos até os confins da Terra. São diversas as passagens do Evangelho em que Jesus manifesta essa autoridade da Igreja, mas fiquemos com essa: “Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda criatura. O que crer e for batizado será salvo, o que porém não crer, será condenado” (Marcos XVI, 15-16).

Cabe, então, à Igreja Católica o papel de guardar, pregar e explicar a verdade revelada. A Igreja não pode inovar, não pode acrescentar nada, só pode desenvolver explicações. E este trabalho se faz mediante declarações autorizadas. É a isso que se dá o nome de dogma. Dogma é uma explicitação de algo que está implícito na Revelação. O Depósito Sagrado completa-se com a morte de São João, mas as explicações desenvolvidas a partir dele continuam, sob a autoridade da Igreja e com a assistência do Espírito Santo.

Assim, por exemplo, o dogma da transubstanciação. A Igreja, mediante a palavra revelada por Deus, chega a uma conclusão teológica que, por ser essencialmente unida à Revelação, é declarada como dogma de fé. Se fosse possível que a substância do pão não se transformasse na substância de Cristo, estaria negada a divindade da Revelação. A nossa adesão ao dogma é, então, a mesma adesão à Revelação. Seria um pecado grave contra a fé negar um dogma católico, pois estaríamos negando a própria palavra revelada pelo Senhor.

1.2.3 – Revelações privadas

Existem ainda as chamadas revelações privadas que são revelações divinas que ocorrem mesmo nos nossos dias, dirigidas à santificação de uma pessoa ou de uma pequena coletividade, e que, por isso mesmo, não são de adesão obrigatória (uma pessoa pode ser salva sem levar em conta qualquer revelação privada). As revelações privadas sempre estão subordinadas ao conteúdo da Revelação Pública como ensinado pela Igreja.

1.3 – As duas fontes da Revelação e o “tripé” da Fé

A Revelação Pública Universal tem como fonte uma pessoa: Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele é a Revelação. O que Jesus ensinou, os Apóstolos passaram a frente. Então, temos como fonte primária da Palavra de Deus o próprio Deus Encarnado e, como fonte secundária, o Magistério Apostólico.

O ensino dos Apóstolos, por sua vez, foi guardado em dois conjuntos que são explicados pelo Magistério Eclesiástico:

1) A Santa Tradição.

2) A Sagrada Escritura ou Bíblia.

Com isso, de maneira didática, podemos dizer que nossa Fé está galgada num tripé formado pela Tradição, pela Bíblia e pelo Magistério da Igreja.

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Natureza humana e seus estados

Vejam, a natureza humana pode existir em seis estados:

1 – Estado de natureza pura: só se constitui das perfeições essenciais à natureza humana. Lutero, Baio e Jansênio negaram que fosse possível semelhante estado de natureza pura, mas a Igreja o afirma com certeza.

2 – Estado de natureza íntegra: além das perfeições essenciais à natureza humana, o homem possuiria dons preternaturais que o ajudariam a alcançar mais fácil e seguramente o seu fim natural. Tais dons preternaturais foram dados ao primeiro homem: a imortalidade corporal, a impassibilidade, a imunidade de concupiscência, etc.

3 – Estado de natureza elevada: além dos dons preternaturais, possui-se também o dom sobrenatural da graça santificante. Nesse estado, Adão foi criado.

4 – Estado de natureza caída: estado que se seguiu a perda da graça santificante e dos dons preternaturais, como castigo pelo pecado.

5 – Estado de natureza reparada: estado do homem reparado pela graça redentora de Cristo, em que se possui a graça santificante, mas não os dons preternaturais.

6 – Estado de natureza glorificada: é o estado daqueles que alcançaram a visão beatífica, que é o fim sobrenatural do homem neste e nos últimos três estados descritos. Compreende a graça santificante em toda sua perfeição, e, após a ressurreição, também os dons preternaturais de integridade, em toda sua perfeição.

Estados meramente possíveis:

1 – Estado de natureza pura
2 – Estado de natureza íntegra

Estados reais (ou realmente criados):

3 – Estado de natureza elevada
4 – Estado de natureza caída
5 – Estado de natureza reparada
6 – Estado de natureza glorificada

Em todos os estados reais, dependentes da doação da graça santificante, o fim sobrenatural do homem é a visão beatífica.

O homem, após a queda, encontrava-se no estado de natureza caída; após o batismo, encontra-se em estado de natureza reparada, ou seja, possui a graça santificante, que o torna semelhante a Deus, filho adotivo de Deus, capaz de vê-lo quando esta graça for transformada em glória.

– Rui Ribeiro Machado

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O Deus “mau” do Antigo Testamento

Antigo 1

Um dos grandes cavalos de batalha da militância ateísta é a maneira como Deus é retratado no Antigo Testamento. Segundo eles, temos um Deus que manda enforcar, saquear, fazer sacrifícios e matar crianças. Para dar base a essa argumentação, citam trechos das Escrituras como os seguintes:

Êxodo XXXII, 27: Aos quais disse: Eis aqui o que diz o Senhor Deus de Israel: Cada um cinja a sua espada sobre a sua coxa: passai, e tornai a passar de porta a porta pelo meio do campo; e cada qual mate a seu irmão, a seu amigo, e a seu vizinho.

Números XXV, 4: Disse a Moisés: Toma todos os príncipes do povo, e pendura-os em forcas contra o sol: para que o meu furor se aparte de Israel.

Números XXXI, 17-18: Matai pois a todos os machos, ainda os que são crianças; e degolai as mulheres que tiveram comércio com os homens. Mas reservai para vós as meninas e todas as donzelas.

Deuteronômio II, 33-34: E o Senhor nosso Deus nô-lo entregou: e nós o derrotamos com seus filhos e com todo o seu povo. Tomamos-lhe ao mesmo tempo todas as suas cidades, mortos os seus habitantes, homens mulheres e meninos: e nela não deixamos nada.

Isaías XIII, 18: Mas eles matarão as crianças com as suas setas, e não se compadecerão das mães em cujo ventre elas andarem, e a seus filhos não perdoará o olho deles.

Jeremias XIX, 9: E dar-lhes-ei a comer as carnes de seus filhos, e as carnes de suas filhas: e cada um comerá a carne de seu amigo, no cerco, e no aperto, em que os terão encerrados os seus inimigos, e os que buscam as almas deles.

Ezequiel IX, 6: O velho, o moço e a donzela, o menino e as mulheres, todos matai, sem que nenhum escape; mas não mateis nenhum daqueles sobre quem virdes o thau, e começarei pelo meu santuário. Começaram pois a matança pelos homens mais velhos que estavam diante da casa.

Melhor que tratar cada versículo de modo específico (coisa que poderei fazer futuramente neste blog), o ideal é dar uma visão exegética geral que engloba a eles e a muitos outros.

Em primeiro lugar, devemos saber que a inspiração divina se dá por meio do arcabouço cultural e das limitações pessoais do escritor sagrado. Nesse sentido, uma das características da linguagem semita era o uso de hipérboles; dada a sua vivacidade, o israelita era muito propenso às expressões fortes, exageradas e contrastantes.

Daí ocorrerem no Antigo Testamento, principalmente nos Salmos, fórmulas em que o autor sagrado ou outro personagem deseja mal àqueles que o angustiam. Diz D. Estevão Bettencourt:

Em verdade, os autores sagrados, ao pleitear sua causa perante o Senhor, advogavam os interesses do bem, da justiça ou da verdadeira religião; por conseguinte, explícita ou implicitamente a sua causa se identificava com a de Deus, e os seus inimigos vinham a ser adversários do próprio Deus. Assim entendida a situação, não podiam ver motivo para abrandar o rigor dos termos com que os antigos orientais, dotados de ânimo fervido, costumavam pedir a extirpação dos adversários; não pode haver compatibilidade entre o bem e o mal, o reino de Deus e o do pecado; a toda instituição que se opõe a Deus, o homem justo não pode deixar de desejar completa ruína.

Ou seja, eles procuravam mostrar qual o caminho reto, mas faziam isso imbuídos de toda a sua carga cultural.

Tal postura ainda é mais patente pelo fato de que não diferenciavam entre a pessoa que fazia o mal e o mal em si. Desconheciam o adágio retirado por Santo Agostinho da Lei aperfeiçoada e definitiva (o Evangelho):

Odeia o pecado, mas ama o pecador.

Daí, fazendo um parêntese, já se observa que a dicotomia promovida pelos protestantes liberais entre “o Deus do Antigo Testamento” e o “Deus revelado por Jesus” é falsa e absurda. É falsa porque deriva de conceitos que, em geral, não têm nenhuma relação com a religião, representando, tão somente, uma perspectiva culturalmente fechada. É absurda porque pressupõe a possibilidade de contradição num texto inspirado.

Antigo 2

Isso é muito perigoso. As críticas que se fazem em torno dessa idéia levaram alguns a negar a necessidade de Cristo para nos salvarmos. Principiam contestando a “intolerância religiosa” presente na Antiga Aliança e disso passam a ver negativamente a exclusividade do culto ao Deus verdadeiro.

Mais uma ilusão dos hereges… eles não vão “descobrir a roda” e, no mínimo, deveriam procurar saber qual o status quaestionis antes de abrir a boca, seja para evitar erros conceituais, seja para não cair na posição orgulhosa de quem procura adaptar Deus a si.

A Sagrada Escritura é patrimônio da Igreja, sua penetração, sendo função da fé na Encarnação, não pode deixar também de estar intimamente associada à fé vivida eclesialmente. O Novo Testamento não é “complemento” do Antigo, mas ápice. O dedo de Deus na Bíblia só se torna visível a quem considere a direção geral da mesma ou a quem observe as fases da história bíblica se encaminhando aos poucos para um termo único: o Messias. Isto é particularmente belo, pois para tal convergência Deus não violenta a natureza humana: a miséria humana atua sem pudor no Antigo Testamento, perfazendo uma base para a plena manifestação do Bem.

O Deus do Antigo Testamento é Jesus (que é a Revelação).

Bem, para continuar vale a leitura de um texto do Pe. Elílio de Faria Matos Júnior que certa vez foi postado pelo confrade Ricardo na comunidade Apologética Católica do Orkut:

A concepção que Israel alcançou de Deus se deu no âmbito da história, não da reflexão filosófica. Foi a experiência da ação de Deus em sua história que revelou o rosto de Deus ao povo, experiência esta que se acha documentada de forma canônica nos livros bíblicos do Antigo Testamento. O conjunto desses livros indica uma evolução que se elaborou durante quase mil anos, e, por isso mesmo, como registro da experiência de Deus que age poderosamente na história de Israel, não se presta a um tratado sistemático ou catecismo sobre Deus. Tal evolução percorre um caminho que vai desde o ‘Deus da história’, experimentado como aquele que age junto de seu povo, ao ‘Deus cósmico’, criador do céu e da terra. No entanto, ao estudioso perspicaz, é possível detectar certos atributos que pretendem dizer qual é o rosto desse Deus que age na história de Israel e manifesta, no percurso mesmo da história, sua identidade.

De acordo com os estratos mais antigos do Antigo Testamento, a experiência de Deus primeiramente se dá como uma experiência familiar: Deus é o Deus dos pais, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó. Deus escolhe a família para si e mantém relações pessoais com ela e promete-lhe descendência [Cf. Gn 46,3]. Entretanto, a experiência decisiva de fé no Antigo Testamento se dá por ocasião da libertação da escravidão do povo hebreu do Egito, da Aliança estabelecida no Sinai e da promessa da terra de Canaã. É nesse acontecimento, a libertação do Egito, a Aliança e a promessa da terra, que Israel experimenta com vigor inédito a ação de Deus em seu favor e se constitui como o povo da Aliança. O nome do Deus que liberta o povo com poder e majestade, é Iahweh [Cf. Ex 3,14]. Segundo a tradição javista, o culto a Iahweh remonta aos tempos anteriores ao dilúvio [Cf. Gn 4,26]. Pela tradição sacerdotal, Iahweh ter-se-ia dado a conhecer aos patriarcas com o nome de El-Shaddai [Cf. Gn 17,1; Ex 6,2-3] . Para o texto de Ex 3,12ss, de tradição eloísta, é no momento da libertação egípcia que Deus revela seu verdadeiro nome – Iahweh – pelo qual deseja ser reconhecido doravante pelos israelitas.

Iahweh, ao que tudo indica, segundo os estudiosos, é uma forma primitiva do verbo ser. A tradição o traduziu por Aquele que é. Essa designação, na tradição filosófica, se tornaria a noção mais apropriada que o homem pode aplicar a Deus, no sentido de, por ela, designar o Ser Absoluto, o Ato Puro de existir. Entretanto, certamente a designação de Deus como Iahweh não foi fruto de especulações filosóficas entre os israelitas. Há várias interpretações para o nome: indicaria a solicitude de Deus para com o povo, e, assim, deveria ser traduzido por “Eu sou aquele que é convosco”; indicaria a existência do Deus verdadeiro em contraposição ao nada dos outros deuses; ou mesmo seria um artifício para evitar nomear Deus, pois Deus não se deixa nomear pelos homens, para que o dominem. Como quer que seja, Iahweh indica positividade e concretude, porque está associado à ação divina na libertação de Israel por meio de Moisés, com os atributos divinos de bondade que supõe.

Com os profetas, os atributos de Deus, tais como o poder sobre Israel, sobre outras nações e sobre o mundo inteiro, a misericórdia, a justiça, a santidade, desenvolvem-se. A partir do século VI, por ocasião dos reveses do Exílio, a idéia do Deus único, criador e organizador da matéria afirma-se de vez. Os escritos apocalípticos vétero-testamentários enfatizam a providência de Deus, em cujas mãos está a sorte de todos os povos e o domínio direto sobre todas as coisas.

A fé vétero-testamentária no Deus único, criador do céu e da terra, ao mesmo tempo transcendente e imanente ao mundo, é o resultado da experiência histórica da ação de Iahweh, que, por sua vez, mostra-se, cada vez mais, no decorrer dos acontecimentos, o Soberano dos povos e da natureza, o Princípio último de toda realidade.

Em síntese, podemos dizer que o Antigo Testamento apresenta-nos Deus como único [“Ouve, Israel, Iahweh, nosso Deus, é o único” (Dt 6,4)], pessoal [sua personalidade não implica limitação, no sentido de ser uma entre outras pessoas, mas é experienciada como presença do Mistério no âmago da história e da vida das pessoas, Mistério este que é consciência, liberdade, vontade, palavra dirigida], transcendente, santo, eterno [Cf. Hab 1,12; Dt 32,40; Ex 15,18], imutável [Cf. Sb 7,27; Is 40,8; Sl 102,26-28], como alguém que ultrapassa os limites corpóreos [‘Mesmo se a Escritura fala, várias vezes, de Deus como se ele tivesse um corpo, membros corpóreos, atribui a Deus coisas que não podem convir a um ser corpóreo: transcendência, eternidade, imutabilidade, onipresença’ (Patfoort, A. O mistério do Deus vivo. Rio de Janeiro: Lumen Christi, 1983, p.43)], solícito para com os homens, benevolente, justo e sábio [Cf. Dt 10,14-15; Sl 116,6; Jr 24,6-7, Ez 11,19-20; Gn 18,25]; criador de tudo o que existe, infinito, como o Primeiro e o Último [Cf. Is 44,6; 48,12], como o Bem e a Beleza inebriante que causa gozo e admiração para quem o conhece e felicidade para quem o serve. Associado à idéia da beleza de Deus, o termo glória (kabod) é freqüentemente usado e designa propriedade exclusiva de Deus, significando a riqueza e a transcendência do divino Ser e o esplendor inebriante e terrificante de suas teofanias [Cf. Is 6,3-5; Ex 29,43; 33,18.20; 40,34ss]. O livro da Sabedoria, partindo da observação da beleza das criaturas, convida a reconhecer a fonte de toda beleza, a Beleza mesma que as criou: ‘aprendam quanto lhes é superior o Senhor dessas coisas, pois foi a própria fonte da beleza que as criou’ [Sb 13, 3].

Enfim, percebemos um eixo central da auto-revelação de Deus no Antigo Testamento: transcendente ao mundo, Deus interessa-se por ele em sua ilimitada autodisponibilidade, não para ter mais alguma coisa, mas para que o mundo e o homem sejam e tenham em Deus mesmo a sua plenitude.

Alguém, então, frente a esse texto, pode perguntar:

– Essa visão historicista não é perigosa? Ela não esvazia o conteúdo revelado presente nos Livros Sagrados?

Não, não esvazia.

Essa perspectiva, tão somente, leva em conta o conceito de inspiração nos Livros Sagrados. A inspiração não torna o hagiógrafo (aquele que recebe a inspiração) numa espécie de “caneta”, mas respeita suas características particulares e seu arcabouço cultural.

Por exemplo, se Deus inspirasse um agricultor sertanejo, ele poderia passar a mensagem divina em forma de poesia de cordel e jamais falaria sobre a neve (já que isso não faz parte de seu imaginário).

O conteúdo espiritual, sobre fé ou moral, deve ser “peneirado” no meio disso. Historicismo seria querer ver esse conteúdo como algo condicionado (condicionada é a moldura dele).

Deus quis se acomodar na educação do seu povo. Já antes de receberem a lei de Moisés, os filhos de Israel praticavam o talião, em meio a muitas outras nações que consideravam tal praxe como normal. Pois bem, ao promulgar a Lei de Israel, o Senhor se dignou respeitar a tradição da sua gente; haveria de reformá-la, sim, mas aos poucos. Com efeito, os historiadores extrabíblicos referem que, entre os judeus próximos à era cristã, o talião podia ser susbstituído pela indenização pecuniária. É o que atesta, por exemplo, o historiador judeu Flávio Josefo no século I da nossa era (Ant. IV, 8, 35):

Aquele que mutilar o próximo padecerá pena idêntica, sendo despojado daquilo que tiver tirado ao próximo. Dado, porém, que a pessoa lesada prefira receber uma quantia monetária, a lei lhe reconhece pleno direito de avaliar a perda sofrida, e autoriza-a a proceder assim, caso tema cometer alguma crueldade.

Por fim, o Messias, rematando o processo pedagógico do Antigo Testamento, aboliu a prática, aconselhando mesmo aos discípulos que perdoassem gratuitamente a quem os ofendessem (Mateus V, 39).

Um só tipo de talião continua em voga na legislação de Cristo:

Quem pratica a misericórdia, obterá misericórdia. (Mateus V, 7)

Quem não julga, não será julgado; cada qual será julgado conforme tiver ele mesmo julgado; de modo geral, a cada um será aplicada a medida que ele tiver aplicado ao próximo. (Mateus VII, 1s; Marcos IV, 24; Lucas VI, 37s)

Novamente, podemos ouvir o questionamento:

– Hum… mas permitir que se matem inocentes é um bem?

A isso eu respondo de maneira mais teórica, sem me ater ao contexto do Antigo Testamento.

Na Redenção, a grande Vítima inocente que se imolou por nossos pecados foi Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele é o Inocentíssimo por excelência, que Se fez vítima para nos salvar. E sua imolação foi de um valor divinamente infinito, e superabundante para resgatar os pecados de toda humanidade passada, presente e futura. Tal não significa porém que “não precisamos sofrer, porque Ele já sofreu por nós”. Para que os méritos infinitos de Jesus Cristo sejam aplicados a cada um de nós individualmente, torna-se indispensável unirmos os nossos sofrimentos aos Sofrimentos d´Ele. Daí que a cada um de nós cabe nesta vida a sua quota de expiação e de sofrimento.

Antigo 3Mas aqui entra outro mistério de nossa santa religião: o da Comunhão dos Santos. Deus convoca os justos para completar em sua carne a quota de reparação e sofrimentos que os outros não preencheram. Por isso se diz que os justos pagam pelos pecadores. E é uma honra fazermos isso, pois estamos atendendo ao apelo de Deus em favor de nossos irmãos, ou seja, “amando nosso próximo como nós mesmos”. Nessa misteriosa substituição dos justos pelos pecadores se vislumbra a explicação das vítimas inocentes que o Senhor suscita neste mundo. O sofrimento de tantos inocentes (aos quais Deus muitas vezes, não revela o motivo de seu sofrimento) não é porém sem sentido aos olhos do Criador.

Se nós sentimos comiseração por essas vítimas inocentes, a bondade e a consideração de Deus para com elas é infinitamente maior do que a nossa. E assim, ao permitir sofrimentos tão dilacerantes, aufere deles mérito para a salvação de incontáveis almas. Não obstante, é preciso confessar que estamos diante de um mistério de Deus, que só no Céu entenderemos perfeitamente.

Nesse quadro, no que se refere ao extermínio dos inimigos, temos ainda de lembrar que o fato dos hebreus possuírem a verdadeira religião num mundo idólatra fazia com que a sorte desse povo viesse a ser nada menos que a do Reino de Deus em meio do erro e do pecado.

E isso não é falar em evolução na Revelação (no que discordo do texto do Pe. Elílio). Não há “evolução” em nada. O que há é “desenvolvimento”. Evolução denota uma mudança ontológica e isso, no que tange a princípios revelados, é impossível.

Finalmente, trago uma colocação que um protestante certa vez escreveu num debate no Orkut:

– Mas Thiago, sendo Deus um pai amoroso como Ele pode permitir tantas mortes injustas nesses trechos criticados do Antigo Testamento? Nosso bem maior não é a vida?!? E a perspectiva universalista dos judeus, como interage com xenofobia demonstrada nessas passagens?

A vida não é o maior bem, o maior bem que podemos ter é a salvação. E isso, é bom lembrar, não vai de encontro ao entendimento da sacralidade da vida humana, pelo contrário, é o que dá razão a essa valorização.

A morte dos inocentes é mistério, como já expliquei.

Não conheço nenhuma perspectiva universalista judaica, tanto hoje como nos tempos antigos. Aliás, o desvio deles em relação ao Projeto de Deus tem haver com isso: de um povo que devia servir aos outros como testemunha profética e sacerdotal, passaram a se considerar os únicos escolhidos para a Salvação.

Vamos, mais uma vez, tentar entender um pouco melhor o quadro do Antigo Testamento.

No oriente antigo, ao povo vencedor de uma guerra reconhecia-se a faculdade de dispor das posses e da vida dos vencidos, mesmo de mulheres e crianças; felizes se poderiam considerar aqueles que, derrotados na batalha, fossem apenas despojados de suas posses e reduzidos à escravidão.

Além disso, aqueles povos (e também os de outras partes da terra) julgavam que na guerra a honra de seus deuses estava em jogo. Uma derrota militar seria escárnio para as divindades da nação vencida, assim como a vitória um triunfo. Por conseguinte, aos deuses do vencedor deviam ser religiosamente imolados, por um ato de extermínio total, os homens, as famílias, as cidades, os haveres.

Ora, tal praxe, familiar aos antigos, foi também respeitada pela Lei de Moisés; a mentalidade rude seria paulatinamente corrigida… Deve-se dizer que para os hebreus essa prática (chamada herém) se tornava particularmente necessária e imperiosa: este povo possuía a verdadeira fé, para um dia transmiti-la ao mundo (o que esqueceram); por conseguinte, era de sumo interesse que Israel não corrompesse sua religião. Todavia, a fim de manter incontaminada sua crença, não havia outra alternativa aos hebreus que a separação absoluta dos demais povos; a experiência mais de uma vez comprovou que, ao habitar pacificamente com tribos subjugadas em guerra, os judeus se deixaram seduzir pelas suas pompas religiosas. Em conseqüência, era absolutamente necessário que a legislação de Israel apelasse para o hérem e o sancionasse (repita-se: a fidelidade dos filhos de Abraão ao verdadeiro Deus era, na história, um valor insubstituível, que não podia ficar exposto a risco nenhum).

Apoiando-se nestas idéias, eis como o legislador sagrado incutia o hérem a Israel (Deuteronômio XX, 16-18):

Quanto àquelas cidades porém, que te hão-de ser dadas, nenhum absolutamente deixarás com vida. Mas passá-los-as todos ao fio de espada; convém a saber, aos heteus e aos amorreus, e aos cananeus, aos fereseus, e aos heveus, e aos jesubeus, assim como o Senhor teu Deus te mandou: para que não suceda que vos ensinem a cometer todas as abominações, que eles mesmos fizeram a seus deuses, e venhais a pecar contra o Senhor vosso Deus.

O fato de que os hebreus possuíam a verdadeira religião num mundo idólatra, fazia que a sorte desse povo viesse a ser nada menos que a do Reino de Deus em meio ao reino do erro e do pecado. Noutros termos: já que o Senhor decretaria realizar o seu plano salvífico através das vicissitudes de Israel, os hebreus não podiam evitar a conclusão de que os seus sucessos militares seriam vitórias do Reino de Deus. Dentro da mentalidade do Antigo Testamento, portanto, podia-se com toda razão dizer que o reino das trevas triunfava sobre o Reino da Luz cada vez que Israel sucumbia na guerra; nessas ocasiões parecia estar em perigo a causa messiânica, a salvação do gênero humano. Eis por que os judeus diziam que os inimigos de Israel eram inimigos de Javé e vice-versa; que as suas guerras eram “as guerras de Javé” (Êxodo XVII, 16) ou que “Javé combatia em favor de Israel” (Josué X, 14 e 42). Eis igualmente por que se afirmava, segundo um modo típico, que Deus mesmo inculcava o hérem (Josué X, 40) e, caso não fosse devidamente executado (o que geralmente se dava por desejo ganancioso que os israelitas tinham de se aproveitar dos bens alheios), puniria os próprios judeus.

É de notar, como já foi dito, que o extermínio dos homens e mulheres em guerra não implicava na condenação póstuma deles; podiam estar inocentes em sua consciência e merecerem o agrado divino.

Mais uma observação se impõe: embora a legislação de Israel reconhecesse o hérem, ela o abrandava assaz, em confronto do que faziam as outras.

Os monumentos e os textos assírios dão testemunho da maneira realmente bárbara como os soldados pagãos tratavam seus prisioneiros de guerra: crivavam-lhes os olhos, tomavam-nos como supedâneos para os pés dos monarcas, etc.

Na Sagrada Escritura mesma, o profeta Amós repreende os amonitas porque, entre outros crimes cometidos, abriram os ventres das mulheres israelitas grávidas (Amós I, 13).

O simples fato de que o extermínio dos inimigos figurava no catálogo das leis religiosas, devia concorrer para coibir a eventual tendência dos chefes hebreus ao seu abuso. Assim, tolerando o hérem, mas um hérem mitigado, o Senhor dava a entender que imperfeito era tal procedimento. Eis alguns testemunhos:

a) O Deuteronômio (Deuteronômio XX, 10-18) muito insiste na humanização do código militar de Israel; recomenda, por exemplo, que na campanha de conquista da terra prometida, ao defrontar uma cidade inimiga, não-cananéia, o povo eleito procure reduzir os seus habitantes a tributo e serviço temperados pela benevolência, evitando o derramamento de sangue; caso, porém, o adversário obrigue a uma campanha militar e seja derrotado, Israel vitorioso é exortado a poupar mulheres e crianças.

O modo de tratar as cidades cananéias seria outro, pois, estando localizadas na terra que os hebreus deviam habitar, a coexistência oferecia grave perigo de contaminação. Não era, portanto, permitido aos judeus abster-se do hérem ao vencer os cananeus, como inculca Deuteronômio VII, 2-5; XX, 15s. Isto vem confirmar a observação de que em Israel o preceito em análise era ditado principalmente pelo ideal religioso; era em vista da fidelidade de homens rudes ao verdadeiro Deus que ele fora sancionado.

b) A mulher não-cananéia feita prisioneira de guerra, podia ser tomada como esposa de um judeu, que a trataria com todo carinho; abusar de tal prisioneira era estritamente vedado (Deuteronômio XXI, 10-14).

c) Dois episódios da História Sagrada, um do período dos Juízes (Juízes XXI, 13) e o outro do reinado de Davi (II Samuel XX, 14-22), dão a ver que as exortações à brandura não ficaram sendo letra morta: em ambos os casos, os chefes israelitas entram em acordo com inimigos não-cananeus.

d) Houve também varões do povo de Deus que espontaneamente se mostraram humanitários para com os adversários. Por exemplo: conforme II Samuel VIII, 2, Davi, animado de louvável compaixão, não hesitou em romper o costume de matar todos os prisioneiros; resolveu exterminar “apenas” a metade dos cativos moabitas, metade designada pela sorte…! Para os padrões da época isso é o que explica que, em I Reis XX, 31, os sírios reconheçam a clemência rara de que dão provas os reis de Israel; com efeito, diziam os soldados a seu monarca Ben-Hadad, vencido por Acab:

Ouve: nós temos ouvido dizer que os reis de Israel são clementes. Ponhamos sacos sobre nossos rins e cordas ao nosso pescoço, e vamos ter com o rei de Israel; talvez ele te poupe a vida.

Acontecia também que os israelitas, ao aplicarem a lei do hérem, por vezes deixavam-se levar não pelo zelo de Deus, mas por paixão humana. É o que se verifica, entre outros casos, na história de Jeú: este general foi, por mandado divino, ungido rei de Israel e recebeu a incumbência de exterminar a Casa de Acab, mas, embora intencionasse zelar pelo interesses de Javé, cedeu a crueldade horrorosa (II Reis X, 1-17). Ora, o feito de Jeú foi, um século mais tarde, explicitamente repreendido pelo Senhor mesmo, mediante o profeta Oséias (Oséias I, 4s). Este episódio permite concluir que nem tudo que a Sagrada Escritura refere ter sido mandado por Deus foi executado de maneira correspondente à vontade divina.

Também Davi parece ter-se deixado arrastar a excessos no episódio relatado em I Samuel XXVII, 8-11. Certa vez, perseguido por Saul, o futuro monarca se refugiou nas terras do rei filisteu Aquis, que o recebeu benevolamente; de sua nova mansão, porém, Davi fazia incursões contra populações vizinhas: os amalecitas, que Samuel condenara ao anátema (I Samuel XV, 3); os gessuruianos e os gezrianos, que eram provavelmente tribos amalecitas. O grande guerreiro tudo devastava, matando homens e mulheres, roubando gado e vestes. A seguir, voltava à presença do rei Aquis e, temendo o controle ou represálias da parte deste, dizia-lhe ter feito expedições nas regiões do Negeb, regiões que pertenciam à tribo de Judá e seus aliados. Tais depredações procediam realmente zelo religioso? E a mentira subseqüente que as encobria, poderia ser justificada?

De resto, a Bíblia fornece indícios de que os constantes derramamentos de sangue cometidos por Davi nem sempre corresponderam ao Plano Divino; antes, desagradaram ao Senhor. Com efeito, quando o rei de Israel desejou edificar o Templo de Javé em Jerusalém, recebeu formal recusa de Deus, pois, como reconheceu o próprio monarca, não convinha que o Templo, santuário da paz, fosse erguido por mãos que haviam feito correr tanto sangue (I Crônicas XXII, 8-10; XXVIII, 3).

Era igualmente a necessidade de manter pura a religião de Israel que fazia que o hérem fosse praticado entre os próprios hebreus, caso um ou mais indivíduos caíssem na idolatria ou em outro pecado grave. Tal sanção é prescrita por Moisés em Deuteronômio XIII, 13-19; foi a aplicação da mesma que motivou a guerra fraticida contra a tribo de Benjamim (Juízes XX, 1-48; XXI, 1-14). À medida, porém, que ia se elevando o nível cultural e moral dos hebreus, abrandava-se a praxe do hérem entre conacionais; assim na época de Esdras (século V/VI), implicava não já a morte do réu, mas a confiscação dos seus bens e sua exclusão das assembléias do povo (Esdras X, 8).

O hérem existe até hoje. No final do ano passado nosso país foi abalado pela notícia de um ataque contra 80 compatriotas (alguns foram mortos e muitos ficaram feridos) no interior do Suriname, como vingança coletiva pelo fato de um nativo daquele país ter sido assassinado por um imigrante brasileiro.

Ainda outro elemento que deve ser levado em conta para se entenderem devidamente as façanhas bélicas do Antigo Testamento é a mentalidade do clã. Entre os antigos, de modo geral, o indivíduo costumava ser prezado não somente como tal, mas também (e, não raro, preponderantemente) como membro de uma coletividade; dava-se muita importância à solidariedade natural que une todo homem à família, tribo ou nação. Isso se explica, em grande parte, pelo gênero de vida nômade que levavam os primitivos. De fato, os nômades vivem da grei, dos rebanhos que os acompanham, e isto (dizem os psicólogos) não pode deixar de imprimir um caráter coletivista à vida do clã, fazendo com que o indivíduo como tal desapareça na engrenagem do todo. Ademais, nesse modo de vida é mais difícil que na vida sedentária descobrir o autor de um crime (fora os casos de delito flagrante); por conseguinte, julgava-se muitas vezes na antigüidade que os fatores da história não são “este” e “aquele indivíduo”, mas “este” e “aquele clã”. Este modo de ver implicava que, ao se cometer um crime contra determinado sujeito, todo o grupo respectivo se julgava atingido. Por conseguinte, era a tribo inteira que se levantava para reagir, e reagir não contra o agressor isolado, mas contra a coletividade de que fazia parte o ofensor. É o que explica os freqüentes choques de grupo contra grupo, choques em que nem as mulheres, nem as crianças eram poupadas; é também este o motivo por que muitas vezes filhos, netos e ulteriores descendentes da geração criminosa eram por um legislador condenados à maldição.

A História Sagrada apresenta disto um exemplo significativo em I Samuel XV, 1-3: Samuel manda a Saul que extermine os amalecitas – homens, mulheres e crianças – e todo o seu gado, pois em três ocasiões durante a travessia do deserto, havia mais de dois séculos, se tinham oposto à passagem do povo de Deus (Êxodo XVII, 8-13; Números XIV, 45; Juízes III, 13; VI, 3); Moisés, em conseqüência, os tinha condenado a completo extermínio (Deuteronômio XXV, 17-19; Números XXIV, 20). Segundo a ordem de Samuel, pois, uma geração bem posterior pagaria pela culpa de antepassados longínquos!

Vale notar que resquícios desse tipo de mentalidade existem até hoje no nosso país, em especial nas regiões rurais (quem nunca ouviu falar de “guerras de famílias” no Nordeste?).

Aos poucos, porém, Deus quis corrigir também essa postura imperfeita. Acontecia no século VI que os judeus, punidos por guerras de deportações, se queixavam de que seus pais haviam “comido uvas amargas e os dentes dos filhos sofriam em decorrência” (um provérbio que os exilados aplicavam a si mesmos, lançando sobre os pais a falta cujo castigo suportavam – Ezequiel XVIII, 2; Jeremias XXXI, 29); apoiados em tal tese, dispensavam-se hipocritamente de qualquer propósito de penitência, pois se apregoavam inocentes. Foi então que o Senhor se dignou explicitamente negar a veracidade do pressuposto (Ezequiel XVIII, 4; cf, Jeremias XXXI, 30):

Eis que todas as almas Me pertencem: a alma do filho como a alma dói pai é minha; a alma que pecar, essa morrerá.

Ainda mais uma vez se manifestava a paciência divina em lenta tarefa educacional.

Os dizeres de Ezequiel e Jeremias indicam bem que a mentalidade do clã está abolida. Não se diga, pois, que alguém está pagando pelos pecados de seus antepassados.

Sendo assim, podemos afirmar que a mensagem revelada tinha de ser passada segundo o grau de civilização em que estavam os ouvintes ou não seria entendida.

Consideremos uma criança.

A sua consciência é rudimentar, poucos deveres indica e poucas restrições impõe. O pequeno conhece, sem dúvida, o preceito fundamental da lei moral: “Faze o bem, evita o mal.” Todavia, em que consiste exatamente o bem a praticar e o mal a evitar ele não sabe dizer com clareza; poucas são as conclusões práticas que ele deduz daqueles mandamento básico; assim o bem, para ele, vem a ser primeiramente o que os mais velhos lhe indicam como tal; o mal será desobedecer a estes. Só aos poucos é que o adolescente vai percebendo as conseqüências do princípio “Faze o bem, evita o mal.”

Pois bem, Deus quis que se desse com o gênero humano inteiro algo semelhante ao que se verifica com toda criança: nos primórdios da história, os homens tinham uma consciência moral pouco desenvolvida, a qual através dos séculos foi se tornando mais apurada, minuciosa.

Também os membros do Povo de Deus, que o Criador se dignou tornar portadores da verdadeira fé, possuíam, apesar da sua sublime vocação, uma consciência moral ainda embrionária. Percebiam bem que é preciso “fazer o bem e evitar o mal”, obedecer a tudo que vissem ser a Vontade de Deus; mas a maioria das aplicações concretas deste princípio escapavam à sua percepção. Não há dúvida, o Senhor poderia ter revelado tudo que a Lei Natural nos incute; preferiu, porém, um lento desabrochar que, de resto, mais condizia com a maneira como Ele criou e rege o mundo.

Ao chamar Abraão, Deus não quis cortar bruscamente todas as suas tradições de família (isso seria antipedagógico); eliminou em termos severos o que era estritamente politeísta; quanto às outras observâncias, preferiu ir contemporizando, tomando o israelita como era; permitiu, pois, que o povo vivesse, em parte, à semelhança dos demais povos orientais; às práticas antigas não politeístas, o Mestre Divino apenas quis insuflar novo espírito, comunicando nobres idéias e aspirações. Assim fazia com que o povo se fosse elevando espiritualmente, até um dia poder ouvir a mensagem do Evangelho (João XV, 12):

Este é o meu preceito: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei.

É muito importante frisar, ainda, que uma consciência moral ora mais, ora menos embrionária, como tinham os homens do Antigo Testamento, não é incompatível com a santidade, e elevada santidade, pois esta consiste em cumprir generosamente a vontade de Deus manifestada através da consciência reta e sincera. Notemos o caso de Abraão, que não hesitou em deixar sua terra e sua parentela para ir à região à qual Deus o chamava (Gênesis XII, 1-4). Também não vacilou quando o Senhor lhe pediu que oferecesse seu filhos em sacrifício (Gêneses XXII, 1-18).

Em conclusão: a História Sagrada é, sim, apesar de todos os escândalos e vicissitudes que os homens nela disseminaram, um movimento ascensional contínuo, que tem por fundamento uma mensagem perene: Cristo. Infelizmente a má vontade para se entender essas coisas é muito grande; para tudo se tem condescendência, menos para se entender a Palavra de Deus. Façamos a nossa parte, expliquemos a verdade para quem tem um coração aberto, os outros que assumam a responsabilidade de sua falta de zelo no estudo da Revelação no dia de prestarem conta a Deus.

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Catequese Teologia

A penitência no sacramento da Confissão

Pergunta recebida:

“Como explicar o que é a penitência no âmbito do sacramento da Confissão?”

A satisfação ou penitência é uma obra boa imposta pelo confessor (assistir à Missa, comungar, rezar alguns Pai Nossos, etc.) para reparar a injúria feita a Deus pelos pecados e que é modulada conforme a gravidade das faltas acusadas. Assim, o confessor tem obrigação de impor penitência grave (rezar um rosário) pelos pecados mortais, e leve (rezar um terço) pelo veniais; e o penitente, por sua vez, tem obrigação de aceitar a penitência que se lhe impuser, a menos que por impossibilidade física ou moral não possa cumprir o que lhe manda o confessor. Neste caso deve pedir-lhe outra penitência. O penitente que omitir culpavelmente uma penitência grave, pecará gravemente. Se, porém, se esquecer da penitência, deverá voltar ao confessor, se o puder fazer sem grave incômodo, caso contrário, cessará a obrigação. A penitência pode ser cumprida antes ou depois da comunhão, a não ser que o confessor determine o tempo. Adiar o cumprimento dela sem causa justa é pecado venial.

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Catecismo da Virgem Santíssima

Ícone etíope

De forma lapidar, mas breve, o autor do catecismo que transcreverei (Pequeno Catecismo da Virgem Santíssima – Charles Journet; Ave Maria, 1996) põe no texto – pelo método de perguntas e respostas – as bases bíblicas e da Tradição da devoção do povo à Mãe de Deus, a Virgem Maria.

A veneração pela Mãe do Senhor, enquanto viveu aos cuidados de João e dos irmãos, é atestada em Atos I, 14 e em fontes cristãs do primeiro século.

Após a sua Dormição, a Igreja apostólica e pós-apostólica guardou com carinho a veneração pela mulher que gestou em seu corpo o Filho de Deus, Jesus Cristo.

Amar Maria é o sentimento mais natural entre os cristãos. É possível amar nosso Deus, Jesus Cristo, sem amar Maria, a mulher que lhe proporcionou um corpo humano?

Quanto mais se quer bem a Jesus, mais se quer bem a essa Mulher excelsa que Deus amou como filha quando a criou cheia de graça, que Deus amou como esposa quando ela aquiesceu dizendo: Faça-me em mim segundo a tua palavra , e que Deus amou como Mãe quando por ela veio à luz a Luz do mundo: Jesus.

Este pequeno catecismo põe-nos ao alcance dos olhos e do coração os motivos da veneração especial que por ela nutrimos e igualmente o porquê dos dogmas mariológicos definidos solenemente pela Igreja.

Todas as criaturas foram feitas para servir a Deus, e Deus em relação a cada uma reservou para si o modo de servir-se dela.

Maria, da qual nos foi dito que é essencialmente a serva, serve a Deus; por que Deus não se serviria dela?

O que ela faz, não é de fato Deus que o faz por ela?

Paul Claudel (A Rosa e o Rosário)

ÍNDICE

Introdução

Capítulo I – Maria, Mãe de Deus

O amor de Deus – Princípio da maternidade divina

Maria, verdadeira Mãe de Deus

O momento da encarnação

A maternidade divina, causa de todos os privilégios de Maria

Capítulo II – A Santíssima Virgem

A digna Mãe de Deus

Plenitude da graça

Isenta de todo pecado pessoal

Imaculada Conceição

Assunção

Capítulo III – Maria, Mãe dos homens

Maria, nossa Mãe segundo a graça

Maria nos dá Jesus, fonte da graça

Maria, co-redentora

Maria, medianeira de todas as graças

Capítulo IV – A vida da Virgem Santíssima

Infância da Virgem

A Virgem no Evangelho durante a infância de Jesus

A Virgem durante a vida pública de Jesus

Morte da Virgem

Capítulo V – Nosso amor à Santíssima Virgem

A Santíssima Virgem é digna de nosso amor

O verdadeiro amor à Santíssima Virgem é inseparável do amor de Deus

A oração da Ave Maria

As principais orações marianas

O verdadeiro amor da Santíssima Virgem abre as portas do Céu.

Introdução

O último capítulo da Constituição sobre a Igreja do Concílio Vaticano II, sem pretender propor doutrina completa sobre a Virgem Maria, lembra seu desempenho no mistério de Cristo e da Igreja: sua presença no Antigo Testamento como Mãe do esperado Messias, sua maternidade virginal, sua presença na vida de Jesus, a concepção imaculada e a assunção ao Céu. Pela participação que teve no drama da Redenção do mundo, Maria tornou-se nossa Mãe na ordem da graça; continua no Céu a interceder como Advogada, Auxiliadora, Cooperadora, Medianeira. Ela é primícias da Igreja futura e sinal de esperança da Igreja presente. “É a primeira vez – diz o Soberano Pontífice Paulo VI – que um Concílio Ecumênico apresenta uma síntese tão ampla da doutrina católica sobre o lugar que Maria Santíssima ocupa no mistério de Cristo e da Igreja”.

Para solenizar este acontecimento, o Soberano Pontífice acrescenta: “Para a glória da Virgem e para nosso próprio conforto, Nós proclamamos Maria Santíssima, Mãe da Igreja, ou seja, Mãe de todo o povo de Deus, tanto dos fiéis quanto dos pastores, que a invocam como sua Mãe amantíssima; queremos, de hoje em diante, com esse título dulcíssimo, que a Virgem seja ainda mais honrada e invocada por todo o povo cristão”.

Aos pés da Cruz, a Virgem assumiu, com maior intensidade do que ninguém, o desejo que seu Filho nutria de salvar o mundo inteiro. Ela intercede – mais empenhadamente do que em Caná – para que esse desejo se realize em todos os homens, para que todos aqueles que não se recusam a isso sejam salvos; nesse sentido, ela é a Mãe de todos os homens, quer o saibam quer o ignorem. Mas para aqueles que são claramente membros do Corpo místico, do qual Cristo é a Cabeça, sua intercessão se tinge e aquece com uma nova chama. Ela pede que, de acordo com sua força, eles possam ser um pouco por Cristo, com Cristo, em Cristo, não somente salvos, mas também salvadores dos outros homens; precisamente nesse sentido, Maria é invocada como Mãe da Igreja.

Fribourg, Natal de 1964

P.S. – Este pequeno catecismo, reimpresso tal qual pela terceira vez, foi traduzido ao polonês, ao italiano, ao português no Brasil e ao urundi.

Capítulo I

MARIA, MÃE DE DEUS

SUMÁRIO: O amor de Deus por Maria, tão excepcional, está no princípio de sua maternidade divina (questões 1-3). Verdadeiramente pertence por direito à Santa Virgem o título de Mãe de Deus (4-7). Em que momento ela, livremente e cheia de graça, se tornou a Mãe de Deus? (8-10). Assim como a Encarnação é o princípio de todas as graças que Jesus recebeu, assim também a maternidade divina é o princípio de todas as graças recebidas por Maria (11).

O amor de Deus – Princípio da maternidade divina

1. Qual é a criatura mais amada por Deus?

A criatura mais amada por Deus é a Virgem Maria.

2. Como Deus no-lo mostrou?

Escolhendo-a para ser a Mãe do Menino Jesus. É Maria, diz-nos o Evangelho, “de quem nasceu Jesus, chamado o Cristo” (Mateus I, 16).

3. Deus devia amar muito a Santíssima Virgem para pedir-lhe que fosse a Mãe do Menino Jesus?

Sim. Essa é a tarefa mais santa que Deus podia confiar a uma criatura. Deus, pois, amou a Santa Virgem mais que os anjos e a todos os Santos.

Maria, verdadeira Mãe de Deus

4. A Santíssima Virgem pode ser chamada Mãe de Deus?

Por certo que sim, pois ela é a Mãe de Jesus; e Jesus é Deus. Vendo-a, Isabel exclamou: “Donde me vem que a mãe de meu Senhor me visite?” (Lucas I, 43)

5. Por que se começou a chamar Maria Mãe de Deus?

Para responder aos que afirmavam: “Jesus não é Deus. Então Maria, Mãe de Jesus, não é Mãe de Deus!”

6. Quando se começou a chamá-la assim?

Começou no Oriente já no século III. No século IV, São Gregório de Nazianzeno escreveu: “Se alguém não crê que a Santa (Virgem) Maria é Mãe de Deus, esse está separado da Divindade!”

7. Que vida deu a Santa Virgem a Jesus?

Ela não lhe deu a vida divina, pois Ele a possuía desde toda a eternidade no Céu. Ela lhe deu a vida humana, que Ele veio buscar na terra.

O momento da Encarnação

8. Quando se tornou Mãe de Deus a Santa Virgem?

No dia da Anunciação, em que Deus enviou a ela o anjo Gabriel, em Nazaré, para dizer-lhe que ela ia ser a Mãe do Salvador.

9. O que a Santa Virgem respondeu ao anjo Gabriel?

“Eu sou a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.” (Lucas I , 38)

10. A Santa Virgem terá então entendido quanto Deus a amava?

Sim, por que ela disse: “Eis que daqui em diante todas as gerações me chamarão de bem-aventurada, porque o Todo-poderoso fez em mim maravilhas.” (Lucas I, 48-49)

A maternidade divina, causa de todos os privilégios de Maria

11. A Virgem Santíssima recebeu outras graças?

Sim. Mas a graça de ser Mãe de Deus é a causa de todas as outras.

Capítulo II

A SANTÍSSIMA VIRGEM

SUMÁRIO: A Santa Virgem cumpriu muito santamente sua missão de Mãe de Deus. Ela foi, de acordo com a Revelação, digna Mãe de Deus. Assim entendida, a idéia da maternidade divina (questões 1-4) encerra a idéia de uma tal plenitude de graça (5-9), que exclui a presença, na alma da Virgem, de todo pecado pessoal, tanto o mortal quanto o venial (10-13), e mesmo do pecado original, ao qual ela deveria estar submetida como filha de Adão, mas cuja falta, mancha, nódoa jamais atingira sua alma: eis a Imaculada Conceição (14-17) e cujas conseqüências serão poupadas a seu corpo após a morte: eis a Assunção (18-23).

A digna Mãe de Deus

1. Como a Virgem Santa desempenhou a sua missão de Mãe de Deus?

A Santa Virgem desempenhou santamente a missão de Mãe de Deus. Ela se tornou a digníssima Mãe de Deus.

2. O que vem a ser: digna Mãe de Deus?

Isso quer dizer: 1º) que Maria compreendeu o que significava a mensagem do anjo; 2º) que ela consentiu livre e plenamente ao que Deus esperava dela; 3º) que ela desde então esteve à altura de sua inaudita missão, tarefa radiante mas aflitiva, e superior às simples forças humanas.

3. Tudo isso está contido na narração de São Lucas?

Sim, se se lhe procura toda a profundidade, ou seja, se o lemos: 1º) crendo no mistério da Encarnação; 2º) observando com que delicadeza, com que respeito, com que amor Deus se dirige a Maria.

4. Os Santos Padres compreenderam que Maria foi digna Mãe de Deus?

Sim, Santo Agostinho escreveu que Maria foi Mãe de Jesus “mais ainda pela alma do que pelo corpo”.

Plenitude de graça

5. Qual o primeiro dom que Maria recebeu para ser digna Mãe de Deus?

Deus, segundo o Evangelho, a torna a Mãe de Jesus por meio de um milagre. Isso é afirmado duas vezes: em São Lucas e em São Mateus (Lucas I, 34-37; Mateus I, 20). É por isso que dizemos que Maria é Virgem e Mãe. É o privilégio da maternidade virginal de Maria.

6. Que outros dons recebeu ela para ser a digna Mãe de Deus?

Deus lhe deu o ser cheia de graça, o que quer dizer cheia de santidade: eis por que a chamamos de Santa Virgem.

7. A Virgem podia ser digna Mãe de Deus sem ser cheia de graça?

Não! Isso seria impossível quando se compreende tudo o que significa a expressão: digna Mãe de Deus.

8. O anjo Gabriel sabia que a Virgem Maria era cheia de graça?

Sim. Ele lhe anuncia que ela foi distinguida pela graça, que o Senhor está com ela (Lucas I, 28), e que ela encontrou graça diante de Deus (Lucas I, 28).

9. Santa Isabel, sua prima, soube que a Virgem Maria era cheia de santidade?

Sim. Ela diz à Virgem Maria que é bendita entre todas as mulheres, que é a Mãe do Senhor, e que é bem-aventurada por ter acreditado no anjo (Lucas I, 42-45).

Isenta de todo pecado pessoal

10. A Virgem Maria cometeu ao menos alguns pecados?

Não. Ela jamais cometeu pecado algum, nem mortal nem venial.

11. Como sabemos que a Virgem não cometeu pecado algum?

Se ela tivesse cometido o menor pecado, não seria verdadeiramente cheia de graça, nem teria sido digna Mãe de Deus.

12. A Virgem não foi indiscreta ao pedir o milagre de Caná?

Não, porque Jesus a atendeu e adiantou-se em relação à hora de sua manifestação.

Quando Ele lhe diz: “Mulher, que há entre mim e ti? Minha hora ainda não chegou” (João II, 4), isso quer dizer: Tais coisas são mínimas, Mulher! O momento de me manifestar e fazer milagre ainda não chegou. Não obstante, vou atender-te.

13. Quando é que Jesus fala à sua Mãe com solenidade, dizendo-lhe: Mulher?

Em duas ocasiões, quando ele vai agir exteriormente na plenitude do seu poder divino.

Em Caná, onde sua hora começa, e quando faz o milagre que ela pediu.

No Calvário, onde sua hora chega ao fim, e então ele no-la dá por Mãe (João XIX, 26).

Imaculada Conceição

14. Se a Santa Virgem não cometeu pecado algum, não herdou ao menos a nódoa do pecado original?

Não! Para que ela seja verdadeiramente cheia de graça e digna Mãe de Deus, Deus a preservou da mancha do pecado original; ela não teve necessidade de ser purificada, como nós, pelo Batismo.

15. A Virgem também foi resgatada pela oração de Jesus na Cruz?

Sim, por causa da oração que Jesus faria mais tarde sobre a Cruz é que, por antecipação, Deus preservou a Virgem da nódoa original.

16. Como se chama o privilégio da Santa Virgem?

Chama-se a Imaculada Conceição. Isso quer dizer que no momento de sua concepção, isto é, no momento em que sua alma foi criada e unida a seu corpo, ela foi Imaculada, isto é, preservada da mancha original.

17 A Bíblia não diz nada que anuncie a Imaculada Conceição?

Sim! A Bíblia narra que o Demônio levou a pecar a primeira mulher, que era imaculada. No entanto, depois do pecado, Deus não abandona nossos primeiros pais. Ele lhes promete uma outra oportunidade, e anuncia que, por seu turno, a Mulher e sua descendência vencerão o Demônio (Gênesis III, 15). São João explica, no Apocalipse, que a Mulher vitoriosa sobre o Demônio é sobretudo a Virgem; sua descendência é sobretudo seu Filho Jesus (Apocalipse XII, 1-5).

Assunção

18. Que acontece por ocasião de nossa morte, como conseqüência do pecado original?

Nosso corpo se decompõe e não ressuscitará antes do fim do mundo.

19. Que aconteceu, ao invés, por ocasião da morte de Jesus?

O corpo de Jesus não se decompôs, mas ressuscitou e subiu ao Céu do dia da Ascensão.

20. O que aconteceu por ocasião da morte da Virgem?

O corpo da Virgem não se decompôs, mas Jesus o ressuscitou e o recebeu no Céu no dia da Assunção.

21. A revelação da Assunção é fundamentada na Escritura?

Sim, especialmente em dois pontos de vista: um de São Paulo, e outro de seu discípulo São Lucas.

22. Qual é o ensinamento de São Paulo sobre a ressurreição de Cristo e a dos cristãos?

São Paulo ensina que Deus, que ressuscitou e glorificou a Cristo, ressuscitará e glorificará também os fiéis a Cristo; Cristo, que é inteiramente sem pecado, foi ressuscitado e glorificado logo em seguida; mas os fiéis, porque foram tocados pelo pecado, não poderão ser ressuscitados e glorificados senão no fim do mundo, quando serão vencidos plenamente o pecado e a morte (Romanos VIII, 11; I Coríntios XV, 22-26).

23. Quando ocorrerá a ressurreição e glorificação da Virgem?

Deveria ser no fim do mundo, conosco, se tivesse sido alcançada pelo pecado. Mas tudo acontece em seguida, tal qual Cristo, se, como ensina São Lucas, ela é sem pecado e verdadeiramente cheia de graça.

Capítulo III

MARIA MÃE DOS HOMENS

SUMÁRIO: Assim como Eva é responsável por nossa infelicidade, Maria é responsável por nossa salvação. Ela é nossa Mãe segundo a graça (1-2). Ela intervém na terra para a aquisição da graça. Na primeira vez de forma mais afastada, ao aceitar ser a Mãe do Salvador (3-4). Na segunda vez de uma forma próxima, ao participar do sacrifício redentor, sendo Reparadora e Co-redentora com Jesus (5-10). Ela intervém no Céu na distribuição das graças, como Dispensadora ou Medianeira de todas as graças (11-12).

Maria, nossa Mãe segundo a graça

1. Pode-se comparar Eva com Maria?

Sim. Eva, que dá ouvidos ao Demônio e desobedece a Deus, tem a maior parte, depois de Adão, na infelicidade de todos os homens. Maria, que ouve o anjo e obedece a Deus, tem a maior parte, depois de Jesus, na salvação de todos os homens.

Santo Irineu escreve lá pelo ano 200: “Assim como Eva, tendo Adão por esposo, mas ainda virgem, foi por sua desobediência causa da morte para ela e para todo o gênero humano; assim também Maria, destinada a um esposo mas ainda virgem, foi por sua obediência causa de salvação para ela e para todo o gênero humano”.

Tertuliano escreveu lá pelo ano 210: “Eva acredita na Serpente; Maria acredita em Gabriel; onde a credulidade de uma peca, a fé da outra repara”.

2. Quem quis que a Virgem tivesse tão grande parte na Salvação dos homens?

Foi Jesus. Ele quis esperar a resposta da Virgem ao Anjo, antes de descer à terra para salvar os homens.

Maria nos dá Jesus, fonte da graça

3. Quando a Virgem Santíssima se tornou, pela primeira vez, a Mãe de todos os homens segundo a graça?

Quando se tornou a Mãe de Jesus, Autor e Fonte da graça para todos os homens.

4. A Virgem Santíssima amava já muito os homens?

Sim, ela estava radiante de felicidade ao saber que Jesus vinha salvar os homens de seus pecados (Mateus I, 21), e ela estava preparada a muito sofrer pela nossa salvação (Lucas II, 35).

Maria, co-redentora

5. Depois do nascimento de Jesus, a Santíssima Virgem fez ainda grandes coisas para a salvação dos homens?

Sim, ela se uniu a todos os sofrimentos da vida e morte de Jesus.

6. Quando a Santíssima Virgem, pela segunda vez, foi a Mãe de todos os homens segundo a graça?

No Calvário, suplicando que o sacrifício de Jesus traga a graça para todos os homens.

7. Jesus, nesse momento, pensava no grande sofrimento de sua Mãe?

Sim, Ele pensava nos grandes sofrimentos de sua Mãe: Ele os unia ao que Ele próprio sofria para nos salvar.

8. Que diferença há entre os sofrimentos de Jesus e os da Virgem?

Os sofrimentos de Jesus, que é Deus, têm um valor infinito: são sofrimentos redentores.

Os mais santos sofrimentos da Virgem e dos cristãos têm valor finito: são somente co-redentores.

9. Jesus não é nosso único Salvador, nosso único Mediador, nosso único Redentor?

Sim. Jesus, que é Deus, é nosso único Salvador: Ele que salva primeiro a Virgem, e a envia em nosso socorro.

Jesus, que é Deus, é o único Mediador que nos pode resgatar, o que vem a ser: dar ao Pai celeste uma compensação infinita por nossos pecados. Ele é, de acordo com São Paulo, “o único Mediador… que se entregou em resgate por nós” (I Timóteo II, 5-6). A Virgem, que é a mais santa das criaturas, não podia dar ao Pai celeste senão mais santa das orações finitas.

Assim Jesus é o nosso único Redentor e a Virgem é nossa suprema co-redentora.

Jesus, que é Deus, é nosso único Mediador na linha da redenção infinita; e a Virgem, que é criatura, é nossa suprema mediadora na linha da co-redenção finita.

10. Jesus falou da Virgem Santíssima quando ele estava na Cruz?

Sim. Ele deu a Santíssima Virgem por Mãe a São João, e, por ele, também a todos os homens: “Jesus, vendo sua Mãe, e junto delo o discípulo que amava, disse à sua Mãe: – Mulher, eis teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis tua Mãe” (João XIX, 26-27).

Maria, medianeira de todas as graças

11. A Virgem Santíssima do alto do Céu se ocupa de nós?

Sim, ela continua a interceder pelo mundo junto de seu Filho Jesus. Em nome da oração co-redentora que ela fez aos pés da cruz, ela obtém todas as graças de salvação que, sem cessar, chegam aos homens.

12. Deus tinha necessidade da Santíssima Virgem?

Deus jamais precisa de qualquer criatura, mas para que saibamos até que ponto Ele ama o mundo, Ele quis escolher a Santíssima Virgem, para associá-la estreitamente a seu nascimento e seu sacrifício, para dispensação de suas graças.

Capítulo IV

A VIDA DA VIRGEM SANTÍSSIMA

SUMÁRIO: O nascimento e a infância da Virgem (1-3). O Evangelho fala muito da Virgem quando trata da infância de Jesus (4-10). Mas também fala dela quando trata da vida pública de Nosso Senhor, ainda que a vocação de Maria Santíssima tenha sido a da vida oculta (11-12). A morte da Virgem (13.

Infância da Virgem

1. O que dizem as Sagradas Escrituras dos antepassados de Maria?

As Sagradas Escrituras nos dizem que Maria descendia de Davi, porque Jesus era “da casa de Davi segundo a carne” (Romanos I, 3).

2. Quais são as duas primeiras festas da Santíssima Virgem?

É a festa da Imaculada Conceição a 8 de dezembro e a festa da Natividade de Nossa Senhora a 8 de setembro.

3. Além do que dizem os Livros Sagrados, sabemos algo mais sobre a infância da Virgem?

Acredita-se que sua mãe era Santa Ana e seu pai São Joaquim, e que foi conduzida ao Templo de Jerusalém para aí ser educada. A Igreja festeja a Apresentação da Virgem Santíssima ao Templo no dia 21 de novembro.

A Virgem no Evangelho durante a infância de Jesus

4. Em que momento o Evangelho começa a falar da Virgem Santíssima?

No momento em que o mistério da Encarnação ia cumprir-se e em que o anjo lhe anuncia que ela vai tornar-se, por milagre, a Mãe do Salvador (Lucas I, 26-38); é a festa da Anunciação a 25 de março. A Virgem responde ao anjo: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lucas I, 38).

5. A quem a Virgem Santíssima vai visitar em primeiro lugar?

A Santa Virgem vai, em primeiro lugar, visitar sua prima Santa Izabel; é a festa da Visitação a 2 de julho. Izabel diz a Maria: “Tu és bendita entre as mulheres e é bendito o fruto de teu ventre. E de onde me vem que venha me visitar a Mãe do meu Senhor?” (Lucas I, 42-43). É então que a Virgem entoa o cântico de ação de graças que se chama Magnificat (Lucas I, 46-55).

6. São José era o verdadeiro pai do Menino Jesus?

Não. O Menino Jesus tinha por verdadeiro pai o Pai celeste; São José era seu protetor e seu pai diante da lei (Mateus I, 18-25).

7. Jesus teve verdadeiros irmãos?

Não. Jesus não teve verdadeiros irmãos; São Tiago, seu mais próximo parente (Gálatas I, 19), teve por mãe uma outra que não a dele (Marcos XV, 40); a expressão “irmãos de Jesus” significa, no Evangelho, primos e parentes de Jesus.

8. Que fez a Virgem Santíssima depois do nascimento de Jesus?

A Virgem Santíssima o levou ao Templo de Jerusalém para consagra-Lo a Deus; é a festa da Apresentação do Menino Jesus no Templo e da Purificação da Santíssima, no dia 2 de fevereiro. É então que o velho Simeão toma o Menino Jesus em seus braços e canta o Cântico de adeus, conhecido como Nunc dimittis: ele prediz a Maria que o Menino será um sinal de contradição, e que “a sua alma será transpassada por um gládio” (Lucas II, 29-35).

9. Que fazem a Santíssima e São José após a visita dos Magos a Belém?

Depois da visita dos Magos a Belém, a Virgem Santíssima e São José fogem para o Egito, para escapar ao massacre dos pequeninos ordenado por Herodes (Mateus II, 13-14).

10. Qual é o último acontecimento da infância de Jesus narrado pelo Evangelho?

O Evangelho nos conta que, quando o Menino Jesus tinha 12 anos, seus pais o perderam em Jerusalém, e o reencontraram no Templo. É então que lhes diz: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?” Mas eles não “compreenderam” ainda como, nem quanto, seus corações iam ser dilacerados pelas exigências da missão divina de seu filho (Lucas II, 41-50).

A Virgem durante a vida pública de Jesus

11. Falou-se da Santa Virgem a propósito da vida pública de Jesus?

Sim, sobretudo em duas passagens: no início de sua vida pública, Jesus realizou seu primeiro milagre em Caná, a pedido da Virgem Santa (João II, 1-11); e por fim, no momento de morrer na Cruz, Jesus dá a Virgem Santíssima por Mãe a São João (João XIX, 26-27).

12. Falou-se em outro lugar da Virgem no Evangelho?

São Marcos conta que, numa casa cercada pelo povo, Jesus foi acusado por seus inimigos de estar endemoninhado. Ouvindo isso, os seus vieram para apoderar-se dele, porque se dizia: “Ele está fora de si!” (…) Disseram-Lhe: “Eis que lá fora estão tua mãe e teus irmãos que te procuram”. E respondendo-lhes, Ele disse: “Quem são minha mãe e meus irmãos?” E lançando um olhar sobre os que estavam sentados em círculo ao seu redor, diz: “Eis minha mãe e meus irmãos. Quem quer que faça a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã, minha mãe” (Marcos III, 20, 31-35). Jesus não nega os laços de parentesco temporal entre maridos e esposas, entre pais e filhos, mas vem fundar algo bem maior que isso, liames de um parentesco novo, que é espiritual, e que supera o primeiro por seu esplendor como o sol supera a luz dos círios. Doravante a Virgem não mais deverá agir visivelmente no plano do parentesco temporal para defender Jesus e consolá-Lo, mas somente invisivelmente no plano do parentesco espiritual para unir-se a seu zelo pelas coisas de Deus e a seus sofrimentos redentores. Mas nesse plano como no outro, ela continuará sendo a primeira.

São Lucas narra que, noutra ocasião, uma mulher de grande coração, tendo tomado defesa de Jesus, gritou: “Feliz o ventre que te trouxe e os seios que te amamentaram!” Mas Ele respondeu: “Felizes, antes, os que escutam a palavra de Deus e a põem em prática” (Lucas XI, 27-28). Escutar a palavra de Deus e pô-la em prática, eis o que vinha fazer essa mulher magnânima. E Jesus lhe faz entender que é precisamente isso que Ele mais ama em sua Mãe.

13. O papel da Santa Virgem era público como o dos apóstolos?

Não. O papel da Virgem Santa era velar sobre a vida oculta de Jesus, acompanhá-lo à sua morte. Depois era orar e sofrer em silêncio pela Igreja: é uma atuação oculta.

Morte da Virgem

14. Falou-se da Virgem, depois da partida de Jesus para o Céu?

Narra-nos o livro dos Atos dos Apóstolos que, depois da Ascensão, os onze Apóstolos se retiraram para o Cenáculo e “todos numa só alma perseveravam na oração, com as mulheres e Maria, Mãe de Jesus, e seus irmãos com eles” (Atos I, 14). É ali que virá visitá-los o Espírito Santo no dia de Pentecostes (Atos II, 1). Mas diversamente. Para os Apóstolos, príncipes da hierarquia, Pentecostes é um início, uma partida para a conquista do espaço e do tempo. Para a Virgem, completamente oculta na grandeza de sua santidade, Pentecostes é um termo, o anúncio de sua partida para o Céu.

15. Quando festejamos a morte, a ressurreição e a subida ao Céu da Santíssima Virgem?

Festejamos a morte, a ressurreição e a subida ao Céu da Santíssima Virgem no fim do verão (hemisfério norte) e no fim do inverno (hemisfério sul), no dia da Assunção a 15 de agosto.

Capítulo V

NOSSO AMOR À SANTÍSSIMA VIRGEM

SUMÁRIO: É preciso amar a Santíssima Virgem porque é a Mãe de Deus e a Mãe dos homens (1-2). O amor à Santíssima Virgem introduz no amor a Deus e às suas profundezas (3-8). Esse amor exprime-se na oração corrente da Ave-Maria (9-10) e nas orações marianas (11). O amor à Virgem Santíssima, para os seus verdadeiros servidores, é penhor de predestinação (12-13).

A Santíssima Virgem é digna de nosso amor

1. Quem nos ensina a amar a Santíssima Virgem?

É Deus, que a amou mais que a todas as criaturas.

2. Qual deve ser nosso maior amor, depois do amor a Deus?

Após o amor de adoração reservado a Deus, Criador do universo e Autor de nossa salvação, há o amor de veneração que nós temos pela Santíssima Virgem, a Mãe de Deus e nossa Mãe.

3. Pode-se amar muito a Santíssima Virgem?

Quanto mais se ama, na Virgem, o que ela foi para Jesus, mais nos assemelhamos a Nosso Senhor. Todavia, jamais a conseguiremos amar como o Cristo amou.

O verdadeiro amor à Santíssima Virgem é inseparável do amor a Deus

4. O amor à Virgem desvia do amor a Deus?

Não. Se a Santa Virgem é caminho para Deus, mais se ama a Deus, mais se ama à Virgem, e o verdadeiro amor à Santa Virgem deve sempre aumentar.

5. Não se pode amar a Deus sem amar a Santa Virgem?

Não. É impossível amar a Deus sem amar a Santa Virgem, desde que se saiba que é verdadeiramente a Mãe de Deus.

6. É necessário pensar expressamente na Santíssima Virgem todas as vezes que se pensa em Deus?

Não, porque a Virgem Santa, mesmo que não seja nomeada, sente-se feliz com toda oração que sobe a Deus.

7. A verdadeira devoção à Santíssima Virgem contraria a adoração devida a Jesus?

Ao contrário, temos visto que onde a devoção à Santíssima Virgem é abandonada, a fé na divindade de Jesus tende a desaparecer.

8. O que se deve freqüentemente pedir à Santíssima Virgem?

É preciso pedir freqüentemente à Santíssima Virgem que nos tome sob seu manto e nos leve a compreender e amar, um pouco como ela os compreendeu e amou, os mistérios da vida de Jesus, suas alegrias, seus sofrimentos, seus triunfos.

A oração da Ave-Maria

9. Quando a Ave-Maria foi introduzida na liturgia?

A primeira parte, que está no Evangelho, aparece num Introito da Missa, no século VI; ela começa a difundir-se entre os fiéis a partir do século XIII.

A segunda parte: Santa Maria, cujos elementos preexistiam em estado separado, começa a se reunir a partir de 1400 e torna-se corrente entre os fiéis um pouco depois de 1500.

10. Como se deve rezar a Ave-Maria?

É preciso rezar a Ave- Maria não somente com os lábios, mas com o coração; não somente por si, mas por todos os homens; e pensando que a salvação do mundo começou por esta oração.

É preciso rezar a Ave-Maria como ela ocorreu pela primeira vez, ou seja, como na Anunciação do Anjo e na Visitação a Izabel.

As principais orações marianas

11. De quando datam as principais orações que dirigimos à Virgem?

A maior parte dos autores é desconhecida. Elas testemunham a devoção de toda a sucessão de séculos cristãos. Surgiram espontaneamente, como flores diferentes em cada estação.

No século III, aparece o texto grego de Sub tuum praesidium, oração popular para pedir a intercessão da Mãe de Deus (Theotokos) em nossas necessidades e em nossos perigos.

No século X, o hino Ave Maris Stella pede àquela, que é nossa Mãe, atenda às nossas orações, pois será ouvida por seu Filho. A antiga Regina Coeli laetare canta a alegria da Virgem no dia da Páscoa.

No século XI, a antífona Alma Redemptoris Mater é um pedido de socorro do povo pecador, que procura se reabilitar, à Virgem tão eminente que, um dia, deu vida a seu Criador. A antífona Salve Regina, Mater misericordiae suplica, àquela que é doçura de nossa vida, que nos mostre seu Filho Jesus, depois do exílio deste vale de lágrimas.

No século XII, o Ave Regina coelorum celebra a glória da Rainha do Céu, que deu nascimento a Cristo, a Luz do mundo.

No século XIV, o Stabat Mater dolorosa é o grande hino pungente dos sofrimentos de compaixão da virgem aos pés da Cruz.

No século XV define-se a versão atual da Ladainha da Santa Virgem, Mãe em relação a Cristo, Vigem em relação ao mundo, Socorro para nós, Rainha para os anjos. Ao mesmo tempo o Rosário recebe sua forma atual, no qual pedimos à Virgem que una as nossas orações às suas, para imergi-las nas alegrias, nas dores, nas vitórias de seu filho: nossas pobres alegrias, para que não sejam dissipadas; nossas pobres dores, para que não sejam amargas; nossas pobres vitórias, para que sejam sempre magnânimas. Na mesma época aparece a tocante oração popular do Memorare ou Lembrai-vos.

O verdadeiro amor à Santíssima Virgem abre as portas do Céu

12. Como agradar sobretudo à Virgem Maria?

Purificando do pecado nosso coração; e imitando sua fé, seu amor, sua obediência e sua grandeza de alma; porque amar é imitar.

13. A Santíssima Virgem é assaz poderosa para obter para seus servidores a salvação?

Sim, a Santíssima Virgem é bastante poderosa para obter a salvação de seus servidores, ou seja, daqueles que do fundo do seu coração, sem se cansar, lhe pedem que os ajude a sair do pecado, para viver à luz do Evangelho, e para morrer no amor de Deus.

OBS: Este catecismo está como editado em 1996, exceto por uma ou outra correção ortográfica (no sistema anterior ao do acordo), uma ou outra opção textual diferente (como no caso dos pronomes pessoais referentes a Jesus com letra maiúscula) e organização alternativa de alguns períodos.
Anexo: Catecismo Mariano