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O que perdemos… e o caminho para a restauração

Uns 8 anos atrás, quando a internet começava a se tornar popular, vi o vídeo What we have lost and the road to restauration (O que nós perdemos e o caminho para a restauração) pela primeira vez. Já tinha ouvido falar dele num relato sobre o apostolado da Fraternidade de São Pio X na Lituânia, e, por isso, minha curiosidade era tremenda.

Num primeiro momento o documentário impressiona, mas é sempre bom ter cuidado com certos exageros e mesmo erros, como quando ele fala sobre uma suposta modificação da forma da Confirmação no rito paulino que teria invalidado o sacramento. Em geral, contudo, acho que essa produção põe os “pingos nos is” sobre muita coisa e mostra que a restauração da vida católica não é um trabalho só para especialistas, mas é uma tarefa ao alcance de todos.

Vejam o filme:

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Catecismo sobre o sedevacantismo

sedevacantism

O sedevacantismo é uma das conseqüências mais estranhas da crise que ocorreu após o Vaticano II. Neste texto vou postar em forma de catecismo as informações que acumulei ao longo dos anos em fontes escritas (tudo que está citado, tudo que está em hiperlink, o catecismo sobre o mesmo tema dos dominicanos de Avrillé, etc.), vivências e entrevistas sobre esse “fenômeno” e fazer a crítica delas (sempre levando em conta os referenciais católicos – Revelação + Magistério infalível + vida dos Santos).

1. O que é o sedevacantismo?

Sedevacantismo é a teoria dos que pensam que os papas mais recentes, os papas do Concílio Vaticano II, não foram realmente papas. Conseqüentemente, a Cátedra de Pedro não estaria ocupada. Isso é expresso pela fórmula latina “sede vacante”.

2. Qual a origem dessa teoria?

Essa teoria foi concebida em reação à grave crise na qual a Igreja foi jogada desde o Concílio, crise que o Arcebispo Lefebvre chamou de “terceira guerra mundial”. A principal causa dessa crise tem sido a negligência dos Pontífices Romanos, que ensinam ou deixam que se propaguem sérios erros em matérias como o ecumenismo, a liberdade religiosa, a colegialidade, etc.

Os sedevacantistas pensam que papas genuínos não poderiam ser responsáveis por uma conjuntura como essa e, decorrentemente, eles não os consideram verdadeiros.

3. Os sevacantistas concordam entre si?

Não, longe disso. Há muitas posições diferentes, existem diferentes escolas. Alguns pensam que o Papa atual é um antipapa, outros que ele é apenas parcialmente Papa, um Papa “materialiter” mas não “formaliter”.

Alguns sedevacantistas consideram sua posição como uma “mera opinião” e consentem em receber os sacramentos de padres não-sedevacantistas, enquanto outros, chamados “ultra”, transformam isso numa matéria de fé e recusam a assistir uma Missa onde o padre reza pelo Papa. O que é comum entre todos os sedevacantistas é que eles pensam que não se deve rezar pelo Papa em público.

4. O que quer dizer ser papa “materialiter”?

A principal dificuldade do sedevacantismo é explicar como a Igreja pode continuar a existir de uma maneira visível (já que ela recebeu de Nosso Senhor a promessa de que duraria até o fim do mundo) estando privada da sua cabeça. Os partidários da autoproclamada “Tese Cassiciacum”, os sedeprivacionistas (opostos aos totalistas), surgiram com uma solução muito sutil: o corrente Papa foi validamente eleito, mas não recebeu a autoridade devido a um obstáculo interior (a heresia). Assim, de acordo com essa teoria, ele é capaz de agir de algumas maneiras para o bem da Igreja, como na escolha dos cardeais (que são cardeais “materialiter”), mas não é realmente Papa.

5. Que pensar dessa solução?

Os críticos dizem, em primeiro lugar, que essa solução não é baseada na Tradição. Teólogos (Caetano, São Roberto Bellarmino, João de São Tomás, etc.) já teriam examinado a possibilidade de um papa herege, mas nenhum antes do Concílio divisou tal teoria. Segundo eles, ela também não resolveria a principal dificuldade do sedevancatismo: saber como a Igreja continua visível se o Papa, os cardeais, os bispos, etc. são privados de sua “forma”, ou seja, com nenhuma hierarquia visível tendo sobrado. Além disso, tais críticos também apontam “sérios defeitos filosóficos” em tal solução, pois ela supõe que a cabeça pode ser cabeça apenas “materialiter”, isto é, sem autoridade. Um texto negativo mais elaborado, em forma de dissertação de mestrado, feita por um padre do IBP, pode ser lida aqui.

Já os seus defensores explicam que tal solução é a única que preenche as exigências dos dogmas católicos e, ao mesmo tempo, não nega a realidade, pois garante a permanência da sucessão material de São Pedro e não esconde os erros dos últimos pontífices romanos. Se ela não tinha sido pensada antes é pelo simples fato de uma situação como a atual nunca ter ocorrido. Um resumo pode ser lido aqui.

6. Os sedevacantistas são cismáticos?

Não, pois não negam o poder de jurisdição do sucessor de Pedro, “só” dizem que X ou Y não é Papa.

7. Os sedevacantistas são hereges?

Não, pois não negam nenhuma verdade de Fé (é verdade que haverá sucessores de Pedro até o fim do mundo, mas não é verdade que um interregno não se poderia prolongar).

8. O que são os sedevacantista e qual o problema deles?

Os sedevacantistas são católicos que aderiram a um erro teológico com conseqüências graves.

9. Os “conclavistas” são sedevacantistas?

Não, não são. Eles não são sedevacantistas e nem são católicos, pois, ao elegerem um Papa, se tornaram uma seita no sentido teológico do termo.

10. Os feneítas são sedevacantistas?

Não, os feneítas (pelo menos os que o são de maneira pura) são hereges e, portanto, não são católicos, sedevacantistas ou não. Na prática, esses hereges se apresentam como católicos neo-conservadores (no estilo Legionários de Cristo) ou como sedevacantistas. Daí a confusão.

11. Os sedevacantistas têm alguma particularidade litúrgica?

Sim, de maneira geral eles usam as rubricas de São Pio X para o rito romano tradicional na celebração da Missa, dos outros sacramentos e para o Ofício Divino.

Uma grande exceção a essa regra é da Congregação de Maria Rainha Imaculada (CMRI, em inglês), um dos maiores grupos sedevacantistas, que adota todas as modificações feitas por Pio XII. 

12. Qual a origem dos principais grupos sedevacantistas?

Ela é muito variada. De maneira simplista eu poderia dizer o seguinte:

Em Econe havia três tendências entre os seminaristas:

1) A dos que seguiam estritamente o que dizia D. Lefebvre.

2) A dos que procuravam um reconhecimento oficial para a resistência.

3) A dos que que rejeitavam tudo que tivesse relação com o que acreditavam ser modernismo.

No começo da FSSPX essas tendências conviveram sobre a mesma estrutura.

O primeiro grupo deu origem a atual FSSPX e comunidades amigas.

O segundo à Fraternidade de São Pedro e similares.

O terceiro aos sedevacantistas.

Já nos anos 70 eles eram reconhecidos pela ligação com as rubricas de São Pio X, tanto para a Missa quanto para o Breviário.

O atual distrito da FSSPX nos EUA, entre os anos 70 e 80, era dividido em dois. Num deles o terceiro grupo comandava e teve muito sucesso em seu apostolado (o primeiro Capítulo da FSSPX deixa livre para cada distrito decidir que rubricas usar).

Com o tempo, D. Lefebvre entendeu que para a resistência era bom ter uma uniformidade e foi surpreendido pela resistência dos americanos. Pesquisando sobre o assunto, ele descobriu que a ligação com as rubricas era relacionada com um sedevacantismo velado e não com uma mera preferência.

Chamou a atenção dos padres, mas eles não aceitaram as colocações do Arcebispo e, então, foram expulsos. Logo em seguida, D. Lefebvre ordenou alguns seminaristas americanos e se surpreendeu com o fato deles, um dia depois, abandonarem a FSSPX e se juntarem ao grupo de padres expulsos.

Esse grupo formou a FSSPV e se tornou famoso nos EUA pela qualidade acadêmica de suas escolas e apostolado agressivo. Contudo, havia um sério problema: não tinham um bispo!

No debate que se seguiu, a FSSPV se dividiu e uma parte dele acabou conseguindo uma sagração pela linha do Arcebispo vietnamita Thuc. É a dos bispos Dolan e Sanborn, que, para mim, formaram o grupo sedevacantista mais dinâmico do mundo.

Ele mantém contato com outras organizações no México, Argentina, França, Bélgica, República Tcheca e Itália e possui um dos melhores (academicamente, apesar do erro sedevacantista) seminários da resistência. Alguns sites:

http://www.traditionalmass.org/

http://www.sgg.org/

http://www.mostholytrinityseminary.org/

O resto do grupo continuou a se denominar FSSPV e acabou conseguindo a sucessão por meio de um bispo de Porto Rico. Esse grupo sofre de um certo sectarismo sociológico.

O bispo emérito de Arecibo, em Porto Rico, D. Alfred Mendez, sempre foi um crítico da situação da Igreja no pós-concílio. Não sei se ele era sedevacantista, mas o fato é que apoiou a FSSPV, seja financiando o famoso programa que esse grupo tinha na TV americana, seja ordenando padres e, por fim, ordenando um bispo (mas a ordenação desse bispo só foi divulgada após a morte de D. Mendez). Conheço algumas críticas as atitudes dele, mas após 12 anos de estudos da questão não as considero válidas. Recentemente a FSSPV ganhou um novo bispo. Para saber mais, leiam este documentário.

O Arcebispo emérito de Hué P.M. Ngo-dinh-Thuc tem uma história mais longa e complicada. No começo dos anos 70 ele teve contato com D. Lefebvre, mas por já apresentar tendências sedevacantistas, não foi acolhido pela FSSPX. Se envolveu com as supostas aparições de Palmar de Tróia na Espanha e, por causa disso, acabou sagrando inúmeros bispos entre as pessoas que divulgavam as mensagens. Vendo, depois, seu erro (os malucos de Palmar de Tróia passaram a ser uma seita, com Papa e outras coisas estranhas) ele se arrependeu e pediu o perdão a Paulo VI. O Papa deu seu perdão. Contudo, após isso, o clero passou a rejeitá-lo e ele viveu um período isolado (ele era irmão do antigo presidente do Vietnã do Sul e, após a guerra, na qual boa parte de seus parentes foram mortos, não podia voltar a seu país). Vendo que a crise da Igreja continuava e agora com aquele escandaloso ecumenismo de João Paulo II, o Arcebispo Thuc se declarou sedevacantista e sagrou dois bispos: o francês Guérard des Lauriers e o mexicano Moises Carmona. Deles deriva toda uma linha bem variada de bispos sedevacantistas. É interessante que o Arcebispo Thuc era uma figura muito querida por Pio XII. Para saber mais:

http://www.traditionalmass.org/articles/article.php?id=60&catna

Um quadro esquemático sobre as principais linhagens episcopais de bispos com esta posição teológica pode ser visto abaixo:

Por fim, vale notar que alguns outros grupos sedevacantistas conseguiram a sucessão por meio de bispos vétero-católicos convertidos e de bispos que tem sua linhagem derivada dos primeiros bispos sagrados na ICAB (e, portanto, com validade inatacável). Em fevereiro de 2002, um bispo da Igreja Ortodoxa Ucraniana, D. Yurii Yurchyk, teria se tornado católico e sedevacantista (mas as informações são desencontradas). Na República Tcheca temos bispos sedevacantistas que (antes de o serem, é claro) foram sagrados com autorização de Roma, mas secretamente, durante o regime socialista nesse país.

13. Algum grande teólogo se tornou ou apoiou sedevacantistas?

guerrard
Guérard des Lauriers

Sim, o dominicano Guérard des Lauriers, que ajudou Pio XII na formulação do dogma da Assunção, era sedevacantista e foi sagrado bispo. Dele vem a “Tese Cassiciacum”. O famoso exorcista e bispo sedevacantista Robert Fidelis McKenna (também dominicano) foi sagrado por Guérard. Questionado certa vez sobre a sagração de Guérard des Lauriers, D. Antônio Castro Mayer disse:

– Se é válido para Guérard, é válido para mim.

14. Fora do clero, há algum sedevacantista conhecido?

Sim, Mel Gibson.

15. Com as mudanças em Roma durante o pontificado de Bento XVI algum grupo sedevancantista mudou de posição?

Sim, todo um grupo de freiras deixou o sedevacantismo em julho de 2008.

Conheço dois bispos (D. Terence Robert Peter Fulham, da Flórida, e D. Tom Sebastiam, de Los Angeles) que mudaram de posição (atualmente estão como a FSSPX) e, dependendo do que ocorrer, pretendem regularizar sua situação em Roma.

Antes do pontificado de Bento XVI, a Fraternidade de São Vicente Férrer, um grupo de inspiração dominicana, tinha abandonado o sedeprivacionismo.

16. Existem sedevacantistas no Brasil?

Existem alguns leigos. Sempre houve um pequeno grupo,  que era formado, em grande parte, por jovens um tanto imaturos no conhecimento teológico e na vida espiritual, mas que nos últimos tempos, com as tempestades causadas pelo Papa Francisco, apresenta um crescimento numérico e qualitativo constante.

17. Mas existem padres com essa posição no Brasil?

Muitos anos atrás tive contato com um padre próximo a essa posição, era o Frei Matias, dos Franciscanos Menores. Homem inteligente e piedoso, na época do Concílio ele tinha um programa de rádio aqui em Recife no qual tecia comentários positivos sobre o que estava acontecendo em Roma; mais tarde, vendo a autodemolição, se desencantou com a nova Igreja e se isolou em Campina Grande (PB). Lá, construiu um colégio e passou a celebrar a Missa tridentina na capela do mesmo para quem tivesse interesse e para frades idosos de sua ordem; infelizmente, por ter uma personalidade pouco sociável e pela falta de meios de comunicação que unissem os tradicionalistas, Frei Matias acabou se isolando e, nesse isolamento, sendo influenciado pelas heresias de cunho aparicionista da seita de Palmar de Troya. Mas ele não era um palmariano no sentido estrito, e, com o passar dos anos, devido às melhoras na comunicação entre quem resistia ao neomodernismo,  teve contato com padres da FSSPX e com D. Lourenço da Permanência.

Desde julho de 2018 o Pe. Rodrigo Silva, que era da Resistência, e que conheci na juventude como seminarista da Arquidiocese de Olinda e Recife, se tornou sedevacantista e está começando a organizar grupos de fieis, um seminário e comunidades religiosas com essa posição em todo o país.

Nos EUA, há um seminarista brasileiro, Charbel Sant´Anna, que pertence a um grupo sedevacantista minoritário, a Sociedade do Espírito Santo. Ele mantém este blog e este canal.

18. Me explique por favor como interpretar esta bula de Paulo IV, a famosa Cum ex Apostolatus:

Se em qualquer tempo que seja aparecer um Bispo… ou ROMANO PONTÍFICE, que antes da sua assunção… houvesse se desviado da Fé ou incidido em alguma heresia, a sua assunção seja NULA, INVÁLIDA e VAZIA, inclusive se foi feita com o consentimento unânime de todos os cardeais… Não seja ela tida por légitma em parte alguma. Seja julgado ter-se atribuído a tais pessoas promovidas a Bispo ou Romano Pontífice uma faculdade nula para administrar em coisas ESPIRITUAIS e TEMPORAIS. Sejam sem força, todas e cada uma das coisas por elas faladas, feitas, praticadas e administradas de qualquer modo… Atribuam a elas uma firmeza inteiramente nula. Nem outorguem direito algum a elas. Sejam as mesmas pessoas…, SEM QUE DEVA SER FEITA ALGUMA DECLARAÇÃO superveniente, privadas, IPSO FACTO, de toda dignidade, posição, honra, título, autoridade, cargo e poder.

A Cum ex Apostolatus é um documento normativo, que só pode ser aplicado por uma corte legal, não por você ou por mim. O nosso discernimento pode ser usado para a proteção pessoal, mas não para ser transformado num interdito legal contra X ou Y. Resumindo: a não ser que alguém tenha sido declarado por uma corte legal como herege manifesto, sua subida ao trono papal é legítima.

19. Ok, mas isso não seria cair no legalismo? Não é claro que um herege não faz parte da Igreja e, portanto, não pode ser a cabeça visível dela?

Não, isso não é cair no legalismo, é só dar o real valor que a bula citada tem.

E, de fato, um herege não faz parte da Igreja e não pode ser a cabeça dela. O problema dos sedevacantistas é não entender a complexidade do que isso significa. Veja, a bagunça começa com um falso princípio: alguém que ensina uma heresia é herege / um herege não pode ser membro da Igreja / o Papa ensinou uma heresia, portanto não é membro da Igreja.

Isso está errado, quem ensina uma heresia não é necessariamente um herege (no sentido estrito do termo).

Para ser herege essa pessoa, em primeiro lugar, tem de ter consciência que está falando uma heresia (portanto tem de se provar que pela sua formação ela teria a compreensão de negar uma verdade de fé), em segundo, isso teria de ser pertinaz e, no caso de alguém que ocupe um posto na hierarquia, teria de ser um comportamento público (em eventos públicos).

Aprofundando mais um pouco, podemos dizer que em diversos períodos conturbados da história da Igreja, gozou de grande atualidade a questão teológica da eventual queda de um Papa em heresia. Nesses períodos, tanto teólogos quanto moralistas e canonistas se empenhavam no aprofundamento do delicado problema, sem nunca chegarem, entretanto, a um acordo unânime e definitivo.

Passados esses momentos difíceis, os debates sobre a possibilidade de um Papa herege cessavam de atrair a atenção dos estudiosos. Em geral os autores lhe dedicavam, então, apenas umas poucas linhas, como quem recordasse um problema acadêmico e curioso, que provavelmente nunca amais voltaria a gozar de atualidade. Sobretudo do século XVII para cá, são raros os teólogos que se empenharam em aprofundar o assunto.

A partir do Pontificado de João XXIII, um observador atento poderia, entretanto, notar que o delicado assunto voltava aos poucos a interessar, não só nos meios especializados, mas também para os fiéis comuns. Todavia, pelo fato de tal problema ter ficado “dormente” por longo tempo, várias pessoas têm uma visão parcial dele, referindo-se a posição de algum teólogo famoso como a correta; não tendo uma visão de conjunto.

Na análise das diversas sentenças dos teólogos sobre a hipótese de um Papa herege, a classificação de São Roberto Bellarmino parece ser a mais aceita. Baseado nas considerações dele, Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira, sistematizou a seguinte relação de sentenças:

1- O Papa não pode cair em heresia (seus defensores se subdividem em três grupos: a) autores segundo os quais esta sentença constitui verdade de fé; b) autores segundo os quais está sentença é de longe a mais provável; c) autores aos quais esta sentença parece apenas mais provável que as outras);

2- Teologicamente não se pode excluir a hipótese de um Papa herege. Possui as seguintes variantes:

  1. A) Em razão de sua heresia, o Papa nunca perde o pontificado (dos 136 teólogos examinados por Arnaldo Xavier, apenas Bouix é defensor desta sentença);
  1. B) O Papa herege perde o Pontificado:

I- Perde assim que cai em heresia interna, isto é, antes de manifesta-la externamente (sentença que tinha como defensor o famoso teólogo Torquemada – tio do inquisidor de mesmo nome -; hoje está abandonada pelos teólogos);

II- Perde quando sua heresia se torna manifesta. Seus adeptos se subdividem em três grupos: a) autores que entendem por “manifesta” a heresia apenas exteriorizada; b) autores que entendem por “manifesta” a heresia que, além de exteriorizada, chegou ao conhecimento de outrem; c) autores que entendem por “manifesta” a heresia que se tornou notória e divulgada de público. OBS: alguns autores não deixam inteiramente claro a qual desses três grupos se filiam.

III- Perde apenas quando intervém uma declaração de sua heresia por um Concílio, pelos Cardeais, por um grupo de Bispos, etc. Possui duas vertentes: a) Essa declaração será uma deposição propriamente dita (tal sentença é considerada herética, foi condenada pela Igreja, por aderir ao “conciliarismo”; é defendida por autores ditos progressistas nos dias atuais); b) Essa declaração não será uma deposição propriamente dita, mas mero ato declaratório da perda do Pontificado pelo Papa.

20. E qual dessas posições você adota?

Dentre essas várias sentenças me inclino (já que a Igreja não se manifestou oficialmente por nenhuma delas, todas podem ser aceitas, exceto a 2 B III a) pela 2 B II c, que é defendida por numerosos teólogos de renome, como o próprio São Roberto Bellarmino, Sylvius, Pietro Ballerini, Wernz-Vidal, Cardeal Billot, etc.

Vejamos a defesa dessa posição por São Roberto Bellarmino:

Logo, a opinião verdadeira é a quinta, de acordo com a qual o Papa herege manifesto deixa por si mesmo de ser Papa e cabeça, do mesmo modo que deixa por si mesmo de ser cristão e membro do corpo da Igreja; e por isso pode ser julgado e punido pela Igreja. Esta é a sentença de todos os antigos Padres, que ensinam que os hereges manifestos perdem imediatamente toda jurisdição, e nomeadamente de São Cipriano (lib. 4, epist. 2), o qual assim se refere a Novaciano, que foi Papa (antipapa) no cisma havido durante o Pontificado de São Cornélio: “Não poderia conservar o Episcopado, e, se foi anteriormente feito Bispo, afastou-se do corpo dos que como ele eram Bispos e da unidade da Igreja”. Segundo afirma São Cipriano nessa passagem, ainda que Novaciano houvesse sido verdadeiro e legítimo Papa, teria contudo decaído automaticamente do Pontificado caso se separasse da Igreja.

Esta é a sentença de grandes doutores recentes, como João Driedo (lib. 4 de Script. Et dogmat. Eccles. cap. 2, par. 2, sent. 2), o qual ensina que só se separam da Igreja os que são expulsos, como os excomungados, e os que por si próprios dela se afastam e a ela se opõem, como os hereges e os cismáticos. E, na sua sétima afirmação, sustenta que naqueles que se afastaram da Igreja, não resta absolutamente nenhum poder espiritual sobre os que estão na Igreja. O mesmo diz Melchior Cano (lib. 4 de loc., cap. 2), ensinando que os hereges não são partes nem membros da Igreja, e que não se pode sequer conceber que alguém seja cabeça e Papa, sem ser membro e parte (cap. ult. ad argument. 12). E ensina no mesmo local, com palavras claras, que os hereges ocultos ainda são da Igreja, são partes e membros, e que portanto o Papa herege oculto ainda e Papa. Essa é também a sentença dos demais autores que citamos no livro 1 “De Eccles.”.

O fundamento desta sentença é que o herege manifesto não é de modo algum membro da Igreja, isto é, nem espiritualmente nem corporalmente, o que significa que não o é nem por união interna nem por união externa. Pois mesmo os maus católicos estão unidos e são membros, espiritualmente pela fé, corporalmente pela confissão da fé e pela participação nos sacramentos visíveis; os hereges ocultos estão unidos e são membros, embora apenas por união externa; pelo contrário, os catecúmenos bons pertencem à Igreja apenas por uma união interna, não pela externa; mas os hereges manifestos não pertencem de modo nenhum, como já provamos.

(São Roberto Bellarmino, “De Romano Pontífice”, lib. II, cap. 30, p. 420).

21. Quais as saídas apresentadas pelos sedevacantistas?

Em geral eles apresentam três maneiras da Igreja sair da situação em que acreditam que ela está:

  1. Uma intervenção direta de Deus;
  2. A renúncia pelo Papa das heresias do pós- Vaticano II (naturalmente que está hipótese só vale para a ala que adota a  “Tese Cassiciacum” – ver questão 4);
  3. Um concílio geral imperfeito (Caetano e outros ensinam que, se o Colégio dos Cardeais ficasse extinto, o direito de eleger um Papa passaria para o clero de Roma, e depois para a Igreja universal – de Comparatione 13, 742, 745).

OBS: este texto passa por acréscimos e atualizações constantes.

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Exegese da continuidade na Nostra Aetate

nostraO Concílio pastoral Vaticano II produziu o documento Nostra Aetate, que tratou do relacionamento do catolicismo com outras religiões, como o hinduísmo, o budismo, o islã e o judaísmo. Nele elementos positivos e negativos de cada uma delas foram abordados.

No que tange aos muçulmanos, diz o Concílio que eles adoram o Deus único, vivo e subsistente em si próprio.

Mas como pode ser isso, já que eles não crêem na Trindade e não aceitam Nosso Senhor como filho de Deus? Como podemos dizer que os muçulmanos adoram o mesmo Deus que nós? Vou analisar essa questão me baseando num texto do famoso apologeta Michael Jacob.

Bem, muitos dos críticos da Nostra Aetate passam ao largo da nota que ela faz a carta que o Papa Gregório VII escreveu ao rei Anzir da Mauritânia (Papa Gregório VII, Epístola 21, Migne´s Patrologia Latina). Nela está dito (a tradução é minha e é livre):

Vós e Nós estamos unidos, por uma caridade peculiar, comparada com o resto das nações, pois nós acreditamos e confessamos o Deus único, mas duma maneira diferente, a Quem nós louvamos e veneramos diariamente como Criador do tempo e Governante do Mundo.

Texto original:

Hanc itaque charitatem nos et vos specialibus nobis quam caeteris gentibus debemus, qui unum Deum, licet diverso modo, credimus et confitemur, qui eum Creatorem saeculorum et gubernatorem hujus mundi quotidie laudamus et veneramur.

Esse texto, contudo, ainda não responde a questão. Nosso Deus é trino e temos a tendência de gritar:

– Heresia!

Prossigamos.

O jornal Sim, Sim, Não, Não no ano de 2003, na sua série de reportagens sobre os supostos erros do Vaticano II, disse que as palavras do Papa derivavam da sua ignorância sobre a essência do islã e que o elogio ao rei não impediu que esse Papa louvasse uma expedição feita por países católicos contra os muçulmanos a fim de proteger católicos de rito oriental.

Esse argumento não satisfaz, pois vem do mesmo campo que insiste que os papas atuais são pessoalmente responsáveis por seus erros e que a ignorância não é desculpa, pois o Pontífice deve saber mais (na opinião deles). Além de que o fato do Papa Gregório VII ter lançado uma expedição contra os muçulmanos não tem relação direta com as crenças deles, mas de como as ações delas derivadas atingem os outros. É o mesmo que o combate medieval aos cátaros, que foi lançado após se constatar não o erro de fé deles, mas suas ações nefastas, como o assassinato de grávidas.

Uma resposta mais satisfatória pode ser dada ao nos aplicarmos a análise da forma e estrutura do texto conciliar. Ela começa falando do hinduísmo e do budismo e termina com o judaísmo; no meio é que encontramos as referências ao islã. Essa estrutura é importante, pois revela certa progressão: dos que são panteístas ou ateus práticos, aos que acreditam no Deus único, o Deus de Abraão (mas não de Isaac), e aqueles que crêem no Deus único, o Deus de Abraão, de Isaac e Jacó, o Deus do Antigo Testamento.

Indo do hinduísmo e budismo ao islã e do islã ao judaísmo, o Concílio começa com o que é mais distante da verdadeira religião e termina com o que é mais próximo. Nesse contexto é que a Nostra Aetate deve ser analisada: é uma consideração sobre a crença islâmica justaposta ao hinduísmo e budismo. Ela apresenta um contraste: hindus e budistas não acreditam no Deus único e Criador, eles acreditam em muitos deuses ou em nenhum deus; os muçulmanos, por sua vez, acreditam num deus único criador do universo.

Há um texto das Escrituras do livro dos Salmos geralmente citado contra o documento do Concílio (Salmo XCV, 4-5) :

Porque o Senhor é grande, e mui digno de ser louvado; terrível é sobre todos os deuses; Porque todos os deuses das gentes são demônios; mas o Senhor fez os céus.

Esse trecho, na verdade, dá razão a Nostra Aetate! Geralmente as pessoas se concentram na primeira parte do versículo 5, “…os deuses das gentes são demônios…”, e se esquecem dos resto, “…mas o Senhor fez os céus”. Aqui temos o contraste claro: o Deus único, o Deus verdadeiro, o Deus que está apartado dos “deuses” que são demônios, é o Deus que fez os céus. A criação é o ponto de identificação. O fato dos muçulmanos acreditarem no Deus único criador dos céus os coloca na segunda parte do versículo. Eles acreditam no único Deus, não em “deuses”; eles acreditam num Deus que criou o universo (significado de “céus” na Bíblia). Se nós dissermos que eles cultuam demônios, temos um sério problema: que demônio criou os céus?

Por essa conexão entre o Deus único e sua criação ser tão importante é que ela é alvo de reflexão por Gregório VII e pelo Concílio pastoral.

Mesmo assim, como adoramos o mesmo Deus se nosso Deus é trino?

Urge, então, fazer uma distinção entre fé e vontade. A virtude da fé pertence ao intelecto, o culto pertence à vontade. A Igreja sempre ensinou que um homem pode ser salvo ao cumprir a Lei Natural, quando sua vontade está voltada fundamentalmente para o Criador, mesmo quando sua fé não tem um caráter explícito. Se sua vontade está voltada ao Bem Supremo, sua fé na Verdade pode ser implícita.

Isso quer dizer que um homem pode sofrer de um defeito do intelecto que faz com que seu culto seja direcionado para aquilo que ele conhece imperfeitamente e, ao mesmo tempo, ter sua vontade suficientemente dirigida ao Deus verdadeiro.

Façamos uma analogia. Tenho um amigo e acredito firmemente que ele tem um pai. Acredito que ele tem um pai porque esse meu amigo existe, o fato dele ser criado indica que há um criador. Entretanto, acredito que seu pai seja obeso, tem outros 7 filhos, afina pianos e se chama José.

Respondamos, então, a questão: acredito no pai de meu amigo ou não? Claro que sim. Conheço todas as especificidades dele? Provavelmente não. Mas a falta dessa percepção intelectual perfeita implica que eu não acredite do pai de meu amigo? Não.

Consigo o endereço de meu amigo e de sua família e passo a mandar cartas para seu pai, todas endereçadas a José, perguntando sobre pianos, regimes e sobre seus outros 7 filhos. Minhas catas foram mandadas para o homem certo? Evidente. Ele recebeu minhas cartas? Sim. Ele gostou de minha correspondência? Provavelmente não, ele deve achar que sou um doido e minhas cartas lhe causaram aborrecimento e desconforto.

Aqui temos uma distinção importante. Se o Concílio pastoral nos diz que os muçulmanos cultuam nosso mesmo Deus, isso não implica que tal culto Lhe seja agradável e que Ele o aceita. Afinal, Caim cultuou o Deus verdadeiro e Ele não aceitou seus sacrifícios, pois eles foram feitos inapropriadamente.

Ensina Garrigou Lagrange (O nosso salvador e seu amor):

Não podemos deixar de enfatizar esse ponto: no momento que a vontade fundamental de um homem está eficazmente direcionada para o Deus verdadeiro, este homem está justificado, ele está no estado de graça, ele possui o germe da vida eterna.

Ensina D. Lefebvre (Carta aberta aos católicos confusos):

A doutrina da Igreja também reconhece implicitamente o batismo de desejo. Ele consiste em fazer a vontade de Deus. Deus conhece todos os homens e conhece aqueles entre protestantes, muçulmanos e budistas que são de boa vontade. Eles recebem a graça do batismo, mesmo sem conhecê-lo, de uma maneira efetiva. Nesse sentido eles se tornam parte da Igreja.

Diz o Espírito Santo (Lucas II, 13-14):

E subitamente apareceu com o anjo uma multidão numerosa da milícia celestial, que louvavam a Deus e diziam: Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens de boa vontade.

Sendo assim, podemos dizer que os muçulmanos cultuam o Deus verdadeiro, Criador do universo, distinto dos falsos “deuses” que são demônios e que não criaram os céus e a terra, mas eles não possuem a fé verdadeira.

Conhecimento exato e fé não são um pré-requisito para um culto verdadeiro, contanto que a vontade esteja direcionada ao Sumo Bem. Isso também não implica que Deus aceite tal culto. Só pela razão (os muçulmanos não têm Revelação) ninguém chega a Trindade, mas chega-se ao Deus único, remunerador e criador de todas as coisas.

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intelecto – fé

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Confirmação no rito paulino: exame das críticas tradicionalistas

confirmationLogo que tomei contato com a resistência ao hecatombe pós-conciliar, fiquei “inundado” com tantas informações, com tantas posições. Algumas delas, ao longo dos anos, vi que faziam sentido, outras, hoje, rejeito completamente.

Uma das que mais complicaram meu espírito foi saber que alguns tradicionalistas criticam a validade da Confirmação no rito paulino devido à nova forma do sacramento e devido à mudança da matéria em certos lugares (Índia, por exemplo). Nesta lista de itens destruídos do catolicismo no site Permanência lemos:

A Crisma muda de forma o que torna duvidosa a validade deste sacramento. Muitos bispos negligenciam a administração deste sacramento.

Pois bem, neste post vou trabalhar em cima disso, vendo o que faz e o que não faz sentido nessa crítica.

Um argumento inicial

Embora eu seja um admirador da luta de D. Lefebvre, tenho de advertir que, para mim, esse foi um dos grandes equívocos do arcebispo e seus filhos espirituais (e já debati isso com padres ligados à própria FSSPX).

Realmente, a maioria dos manuais de teologia, ao tratar da questão da forma do sacramento (Signo te signo crucis et confirmo te chrismate salutis, in nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti), diz que para a validade são essenciais as palavras Signo te e confrmo te (as demais para a liceidade), mas, ao mesmo tempo, apresentam a forma em alguns ritos orientais (que sempre foram consideradas válidas e, de fato, o são), como o bizantino: Signaculum doni Spiritus Sancti.

O Manual de Doutrina Católica por Boulanger (1927), por sua vez, explica:

Na Igreja grega, é mais breve a fórmula. O ministro pronuncia simplesmente essa palavras: “Eis o selo do dom do Espírito Santo”.

A Enciclopédia Católica (1913) relata que o próprio Tridentino preferiu não tocar nessa questão e o Magistério que o seguiu nunca duvidou da forma dos orientais. Vejamos o trecho da Enciclopédia:

This guarded language, so different from the definite canons on some of the other sacraments, shows that the council had no intention of deciding the questions at issue among theologians regarding the time and manner of the institution by Christ (direct or indirect institution), the matter (imposition of hands or anointing, or both), the form (“I sign thee”, etc., or “the seal”, etc.), and the minister (bishop or priest).

Sendo assim, sinceramente, acho um exagero afirmar que o sacramento é inválido devido à simples mudança da forma, pois embora a ela não seja mais a tradicional do Ocidente, não vejo como invalidar a do rito “reformado” sem dizer que a bizantina, por exemplo, é inválida, o que seria um absurdo.

É a forma paulina que está errada?

Depois de perceber que uma simples mudança na forma não era o bastante para invalidá-la, passei a achar que o problema estava na nova forma em si ou nas suas traduções.

Antes, um pequeno lembrete: Nosso Senhor só instituiu em detalhes o Batismo e a Eucaristia, de modo que mantida a relação entre determinável e determinante a Igreja pode modificar a matéria e a forma dos outros sacramentos (O Mistério dos Sacramentos, Mons. Teixeira Leite Penido).

Uma boa tradução da forma paulina seria: Recebe o selo do Dom do Espírito Santo.

Segundo a crítica tradicionalista tal forma não garantiria a relação entre determinável e determinante pois “receber o Dom do Espírito Santo” não especifica nada, já que isso também ocorre no Batismo e na Ordem.

Isso não é verdade. Se fosse, nem a forma bizantina, nem a latina primitiva seriam válidas. Embora hoje a expressão “dom do Espírito Santo” queira dizer muitas coisas, na Igreja primitiva se referia, em matéria litúrgica, ao significado do sacramento da Confirmação e como a “reforma litúrgica” caiu no erro do arqueologismo, tem-se que a forma atual é um espelho da forma ocidental antiga, análoga a bizantina, e plenamente capaz de garantir a relação entre determinável e determinante.

O problema está nas traduções?

Dando seguimento a minhas pesquisas sobre essa questão, passei a considerar, então, que o problema estava nas traduções de valor dúbio, como a brasileira: Recebe o Espírito Santo, Dom de Deus.

Ora, aqui se diz que o Espírito é o dom e não que se recebe um dom específico e mais, que se recebe o próprio Espírito, mas isso não é o bastante para especificar o significado do sacramento, pois se recebe o Espírito no Batismo e na Ordem também (esse, inclusive, foi um dos argumentos usados para se demonstrar a invalidade das ordens anglicanas).

Fiquei durante longo tempo com essa posição, considerando que as traduções, como a brasileira, era que invalidavam o sacramento, mas sempre com uma ressalva: submeter-me-ia a qualquer declaração magisterial sanando o assunto no futuro.

Mais um paço

Com o tempo, aprofundei as pesquisas sobre o tema e cheguei à conclusão que o cerne não está na expressão “dom”, mas na “Espírito Santo”.

Vamos por etapas.

Segundo Lwdwig Ott:

A forma da confirmação consiste nas palavras que acompanham a imposição individual de mãos, imposição que vai unida com a unção da fronte. (sentença comum)

Atos VIII, 15 e vários Padres (Tertuliano, Cipriano, Ambrósio) mencionam, juntamente com a imposição de mãos, uma oração pedindo a comunicação do Espírito Santo. Segundo Hipólito, o bispo recita primeiramente uma oração pedindo a graça de Deus, tendo as mãos estendidas sobre os confirmandos. A unção que segue depois e a imposição individual de mãos vão acompanhadas desta fórmula indicativa:

Ungueo te sancto oleo in domino Patre omnipotente et Christo Iesu et Spiritu sancto.

Na igreja latina aparece desde fins do século XII (Sicardo de Cremona, Huguccio) a fórmula corrente até a “reforma”:

N. eu te assinalo com o sinal da Criuz, e te confirmo com o Crisma da salvação, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém .

Entre os de rito bizantino, pelo menos desde o século V, a forma é:

Selo do dom do Espírito Santo.

Ela aparece pela primeira vez no sétimo cânon (inautêntico) do primeiro concílio de Constantinopla (381). O cardeal Bessarion comenta que ela é válida e equivalente à latina.

Tendo em vista o exposto, que retirei tanto de Ott quanto do DTC, vi que a essência da forma está, realmente, na recepção do Espírito Santo. Contudo, isso levava a outra questão:

– Se é assim, como unir essa noção ao fato da forma das ordens anglicanas ter se tornado inválida pelo fato de falar apenas na recepção do Espírito Santo? Se isso não define nada para as ordenações, por que define para as confirmações?

Na minha primeira tentativa de resolver esse ponto, como já disse, achei que a solução estava num complemento para a expressão Espírito Santo, tanto no rito de um sacramento quanto do outro (e na questão da Confirmação me concentrei na noção de “dom do Espírito Santo”).

Estudando mais, vi que a expressão “Espírito Santo” é bastante para uma confirmação, mas não para uma ordenação por não definir o grau da ordem que está sendo recebido e os poderes conferidos. Esse é o motivo da invalidade da forma das ordenações anglicanas (vale notar que mais tarde eles corrigiram esse problema, mas aí já era tarde, e que a isso devemos juntar a falta de intenção de fazer o que faz a Igreja).

Portanto, a forma “reformada” (inclusive na tradução imperfeita da CNBB) possuiria o necessário para garantir sua validade. Isso, contudo, não implicaria em que ela não pudesse ser criticada por ficar no limiar, constituindo um exemplo da presunção dos arqueologistas litúrgicos tão criticados por Pio XII.

Chegando a uma solução: significatio ex adjunctis

Nessa época também comecei a trabalhar em cima da problemática da Anáfora de Addai e Mari e nesse estudo acabei encontrando o arremate final para o que tinha concluído sobre a forma da Confirmação no rito paulino.

Sabemos que Nosso Senhor não determinou os ritos sacramentais em seus mínimos detalhes. Nesse contexto, definiu o tridentino que “a Igreja sempre possui o poder de estatuir ou de modificar, na dispensação dos Sacramentos – ficando-lhes salva a substância – o que ela julgar mais conveniente à utilidade dos fiéis ou à veneração dos próprios Sacramentos, segundo a diversidade dos tempos e lugares” (D. 931). Aduz o Concílio, à guisa de exemplo, a sagrada comunhão, que durante séculos foi distribuída sob as duas espécies e, depois passou a sê-lo, na Igreja latina, sob uma só espécie.

Vejam, por substância está incluída a presença da “forma” e da “matéria”. Não pode haver um sacramento sem “forma” ou “matéria” e ponto!

Respondem unanimamente os teólogos (não-modernistas!!!) que Jesus escolheu a “matéria” e a “forma” específicas do Batismo e da Eucaristia. À Igreja não será permitido batizar com outro líquido que não fosse água; nem consagrar pão de outro cereal, do que trigo. À Igreja não é permitido mudar a forma desses sacramentos (“Eu te batizo em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” e “Isto é Meu Corpo; Isto é (o cálice) do Meu Sangue”), embora palavras similares, em tese, pudessem ser empregadas validamente (mudar “batizo” por “lavo”) e estruturas gramaticais diversas também possam ser alvo de uma utilização válida (como na forma do batismo nos ritos orientais).

No caso dos outros sacramentos, a maior parte dos estudiosos ensinam que o Senhor determinou apenas genericamente a “matéria” e a “forma”, deixando à Igreja a escolha entre diversas, aptas a expressar o efeito sacramental que Ele tinha em vista (o rito se deve a Cristo, a sua organização à Igreja).

Mas elas sempre tem de existir!!!

De outro modo, podem “matéria” e “forma” sofrer certas variações, sem que variem as suas mútuas relações de significação. A escolha, pela Igreja, deste ou daquele elemento sensível, não afetaria em nada a substância do sacramento (que podemos entender como a significação eficaz que a instituição por Cristo imprime a um rito sensível), desde que fosse apenas um modo materialmente diverso de realizar a mesma vontade do instituidor.

Mas elas sempre tem de existir!!! Mesmo que não tão precisas elas tem de existir.

Vamos a um exemplo:

A forma da ordenação episcopal é um tanto vaga, tanto no rito “reformado” de Paulo VI, quanto no rito romano tradicional e nos orientais. O sentido dela, na verdade, é dado pelo conjunto das orações. A interpretação das frases depende da significatio ex adjunctis, ou seja, da significação derivada do contexto.

Uma forma não-vaga, mas válida, poderia ser:

Este padre, Oh Deus, precisa de uma promoção. Através da graça da Terceira Pessoa da Trindade, promova-o a bispo.

Ridículo, mas ilustra a idéia de que vaga ou precisa, tem de haver uma forma.

Uma forma precisa, por si só, atende ao necessário para a validade de um sacramento. É o caso de um batismo de emergência, onde só a forma “Eu te batizo…” é dita, sem nenhuma das orações complementares. Todavia, se as orações adicionais, que fazem referência poder salvífico do Batismo, forem ditas sem a forma, não há sacramento.

Uma forma não-precisa necessita do contexto para que suas palavras possam determinar a matéria.

Esse também é o caso da Confirmação no rito paulino. Mesmo levando em conta as traduções deficitárias, o que está em volta mostra, claramente, que se pretende crismar.

Exemplos de significatio ex adjunctis

Além de toda a cerimônia para a recepção do sacramento da Confirmação remeter a ele, as orações imediatamente anteriores a unção com o Crisma (pronunciadas pelo celebrante – regra geral um bispo) dizem (grifos meus):

Roguemos, caros irmãos e irmãs, a Deus Pai todo-poderoso, que derrame o Espírito Santo sobre estes seus filhos e filhas adotivos, já renascidos no Batismo para a vida eterna, a fim de confirmá-los pela riqueza dos seus dons e configurá-los pela sua unção ao Cristo, Filho de Deus.

Deus todo-poderoso, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, pela água e pelo Espírito Santo, fizestes renascer estes vossos servos e servas, libertando-os do pecado, enviai-lhes o Espírito Santo Paráclito; dai-lhes, Senhor, o espírito de sabedoria e inteligência, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de ciência e de piedade e encheios do espírito do vosso temor. Por Cristo, nosso Senhor.

Nos dois casos, está mais do que clara a referência à Confirmação e, desse modo, mesmo que a forma fosse tão vaga que em si mesma nada significasse, pelo contexto ela ganharia determinação o bastante para garantir a validade do sacramento.

Conclusão

Por tudo isso, considero a crítica tradicionalista à forma da Confirmação no rito paulino sem fundamento sólido.

Para que a dúvida sobre a validade da forma do sacramento seja admissível, não se pode começar pedindo que a própria Igreja prove que o é (pois a presunção é sempre de que ela está certa), mas é necessário levantar argumentos fortes e amplos o bastante que sustentem a dificuldade suscitada (como foi feito em relação a aprovação da Anáfora de Adai Mari). Se D. Lefebvre, como contam alguns, apresentou tais argumentos aos cardeais em Roma, seria bom divulgá-los, pois uma coisa não pode ser inválida (por falta de certa palavras) no rito ocidental e válida num oriental (pode-se questionar a legitimidade, mas não a validade), a não ser se deseje cair num legalismo etnocentrista.

Eu mesmo, na busca pelo correto, parti de um início equivocado, querendo, de todo modo, mostrar que a crítica tradicionalista é que estava certa. Mas no fim a verdade se impôs. Todavia, para muitos que fazem a inversão que fiz e não procuram pesquisar mais, o erro é que fica tomando o lugar da verdade. Daí o cuidado com que se deve levantar críticas.

Agora, tenho de dizer claramente, D. Lefebvre e D. Mayer levantaram tal dúvida na melhor das intenções, pois eram zelosos pastores de almas e estavam baseados em Santo Tomás (só que o Doutor Angélico – e a escolástica – tinha fontes restritas para a avaliação da Crisma; alguns, inclusive, acham que ele pensava que os orientais sequer tinham tal sacramento – confusão que eu reputo derivada do fato de que nos ritos orientais a confirmação se faz após o batismo, havendo, para quem não conhece, um confusão entre as unções exorcísticas e a unção do Crisma). Os grandes culpados são os que fizeram uma “reforma” que não foi reforma, mas fabricação, e que não explicaram devidamente os fundamentos dela segundo os critérios católicos de sempre.

E a matéria?

oleocrismaNa mesma época em que me digladiava na dúvida sobre a validade do sacramento da Crisma no rito paulino por causa da mudança na forma, li a seguinte notícia (divulgada pelo serviço de notícias da Conferência Episcopal da Índia em 2005):

Cochim – A Igreja Siríaca Malabar Católica introduziu alterações nos ritos dos cinco sacramentos do batismo, confirmação, matrimônio, unção dos enfermos e confissão. Os líderes da Igreja dizem que as novas mudanças litúrgicas levarão a Igreja Oriental a mover-se em uma nova direção espiritual.

De acordo com um comunicado divulgado pelo Arcebispo-Maior da Igreja Siro-Malabar, Varkey Cardeal Vithayathil, o novo sacramentário entrou em vigor em todas as paróquias e dioceses a partir de 6 de janeiro. O bispo auxiliar Sebastian Adaynthrath, da diocese de Ernamulam Angamaly, que encabeçou a comissão litúrgica que propôs as novas regras sacramentais, disse que as mudanças ajudariam a Igreja a “indianizar-se em uma nova direção”.

Ele disse que as alterações litúrgicas foram finalizadas após uma longa rodada de discussões envolvendo todos os bispos, teólogos, clérigos e líderes leigos da Igreja.

De acordo com os ritos emendados, o batismo e a confirmação ocorrerão conjuntamente, pois ‘o nascimento e o crescimento são inseparáveis’. Eles eram celebrados em separado anteriormente. O termo confirmação sera substituído por ‘crisma’, pois crisma significa óleo sagrado.

A Eucaristia, geralmente dada na idade de sete ou oito anos, sera igualmente dada no momento do batismo e crisma.

O novo sacramentário reintroduz a unção pré-batismal e autoriza que um padre abençôe os santos óleos usados no batismo, o que anteriormente era feito apenas pelo bispo.

O costume de se usar apenas o azeite da oliveira também foi alterado. Qualquer óleo vegetal, inclusive óleo de coco, pode agora ser usado. Os padres agora dirão “tu estás batizado”, ao invés de “eu te batizo”.

O óleo da unção dos enfermos também poderá ser abençoado por um padre. Até agora, apenas os bispos tinham esse privilégio.

Durante a confissão, os padres agora dirão “Estás perdoado”, ao invés de “Eu te absolvo”.

Os matrimônios também passarão por uma mudança, de acordo com o novo sacramentário. A Igreja agora permitirá a troca de guirlandas de flores entre os noivos, como ocorre nos casamentos hinduístas. O padre que celebrar o matrimônio abençoará as guirlandas.

Só um adendo: na época, lendo a notícia original, notei que havia um erro de tradução, pois no documento é dito “The custom of using only olive oil has also been changed. Any vegetable oil, including coconut oil, can be used for baptism from now.”, ou seja, para ser fiel ao texto, temos de admitir que por ele apenas os ritos suplementares do batismo é que poderiam ser feitos com algum óleo diferente do de oliva.

De qualquer forma, fiquei chocado, já que isso torna possível que outro óleo, que não o de oliva, seja usado na Crisma e na Unção dos Enfermos.

Para mim, portanto, a Igreja Siríaca Malabar Católica, no intuito de inculturar-se, teria aberto a possibilidade de invalidade de um sacramento e caia no erro do “arqueologismo litúrgico” (condenado por Pio XII) ao adotar práticas antigas com muita vantagem superadas (como administrar de uma vez o Batismo e a Confirmação) e esconder sua própria história (deixando de adotar a forma latina do batismo pela oriental).

É como seu quisesse negar que parte da minha família teve escravos até a Lei Áurea ou um viciado em drogas negar que não tem um problema. Fugir da realidade é sempre o começo de algo que não vai ter um bom fim. O romantismo era isso e ele criou o ambiente psicológico que fez fruticar os delírios totalitários que mataram milhões no século passado.

Só que o detalhe é: não há nada de errado com a herança cultural latina da Igreja Siríaca. Inclusive, parte dessa herança cultural também é comum a nós, brasileiros e demais lusófonos, pois, durante muitos anos, os missionários de origem portuguesa tiveram atuação marcante entre os “cristãos de São Tomé”. Se podia haver um ou outro exagero, também não se pode ignorar 500 anos de história eclesial. Não vamos voltar ao 1000! Gostem ou não a história deles foi essa e ponto!

Refletindo, contudo, de forma mais apurada sobre essas mudanças, em especial com os dados que colhi para a análise da mudança da forma no Ocidente, vi que, embora se possa manter a crítica à inculturação e à deslatinização, não se pode sustentar que a validade do sacramento da Confirmação (ou da Unção dos Enfermos) fique afetada pela mudança da matéria (de óleo de oliva para outros óleos vegetais).

É verdade que na maioria dos documentos eclesiais (como o Decreto sobre os Armênios, do Concílio de Florença) ou livros de teologia temos que o óleo (com bálsamo) é a matéria remota da Confirmação e que por “óleo” se considera “óleo de oliva”, mas esse dado tem de se subordinar ao entendimento, também tradicional, de que a Igreja pode mudar o determinante e o determinável dos sacramentos (menos no caso do Batismo e da Eucaristia), de modo que passar de óleo de oliva para óleo de coco ou mesmo, numa hipotese maluca, para “caldo de galinha” não invalidaria o sacramento citado (supondo que a significação eficaz seja mantida).

Claro que considero tal alteração fruto do orgulho desses inculturadores sem critério, mas, de fato, ela não tem as conseqüências graves que achei que poderia ter.

OBS: Salvo engano, a possibilidade de escolher outros óleos vegetais que não o de oliva foi dado por Paulo VI às conferência episcopais.

Bibliografia

Além das obras já citadas aqui (Ott, DTC, O Mistério dos Sacramentos) e as que estão no post deste blog sobre a Anáfora de Addai e Mari, usei de maneira especial na reflexão os seguintes livros:

Manual de Teologia Dogmática, de J. Bujanda S. J., Porto, 1958.

Teologia Moral, Pe. Teodoro Torre del Greco O. F. M. Cap., São Paulo, 1959.

Doutrina Catholica: Meios de Santificação e Liturgia, Boulanger, São Paulo, 1927.

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Frutos do "novo Pentecostes"

Hoje meu pároco não pôde celebrar a última Missa do dia e, em substituição a ele, veio o reitor de uma instituição de ensino superior católica (formado em centros de estudo da França e Itália). Pois bem, esse sacerdote só fez abusos atrás de abusos. Eu vi o seguinte (tem a parte que não vi, pois estava dando uma de porteiro e segurança da igreja): não elevou o Corpo e o Sangue após a consagração e não se ajoelhou para adorar; quase negou a Comunhão a um jovem que se ajoelhou para recebê-la; não purificou o cálice, as âmbulas e as patenas; e, por fim, foi atender a confissão de um seminarista que, depois, me disse que achava que ela tinha sido inválida por falta de forma!

Um amigo que teve aulas de teologia com esse padre (que, em passado recente, negou um pedido de colocação de crucifixos nas salas da instituição de ensino da qual é reitor para “não chocar” os não-católicos) contou que aula dele é uma sucessão de heresias ou de colocações com “bombas-relógio” escondidas (nada mais modernista). De negação da Trindade como categoria teológica a considerar Nietzsche como referencial filosófico tem de tudo.

São precisamente esses os frutos das reformas pós-conciliares! E ninguém venha dizer que isso é radicalismo de minha parte ou que esse padre não passa de uma excessão. Vou explicar porque não é assim: dada sua formação, ele representa o paradigma daquilo que a educação teológica católica quer produzir hoje.

Aí, quando pessoas assim ocupam cargos na burocracia romana e soltam absurdos como o da validade da Anáfora de Addai e Mari, os neoconservadores querem que nos calemos por prudência… é o fim da picada.

Pelo menos, pude rir um pouco quando o rapaz a que ele quase negou a Comunhão, após a Missa, cumprimentou o tal sacerdote pedindo sua benção e beijando sua mão. Que susto ele levou