Categorias
Crise Liturgia

Confirmação no rito paulino: exame das críticas tradicionalistas

confirmationLogo que tomei contato com a resistência ao hecatombe pós-conciliar, fiquei “inundado” com tantas informações, com tantas posições. Algumas delas, ao longo dos anos, vi que faziam sentido, outras, hoje, rejeito completamente.

Uma das que mais complicaram meu espírito foi saber que alguns tradicionalistas criticam a validade da Confirmação no rito paulino devido à nova forma do sacramento e devido à mudança da matéria em certos lugares (Índia, por exemplo). Nesta lista de itens destruídos do catolicismo no site Permanência lemos:

A Crisma muda de forma o que torna duvidosa a validade deste sacramento. Muitos bispos negligenciam a administração deste sacramento.

Pois bem, neste post vou trabalhar em cima disso, vendo o que faz e o que não faz sentido nessa crítica.

Um argumento inicial

Embora eu seja um admirador da luta de D. Lefebvre, tenho de advertir que, para mim, esse foi um dos grandes equívocos do arcebispo e seus filhos espirituais (e já debati isso com padres ligados à própria FSSPX).

Realmente, a maioria dos manuais de teologia, ao tratar da questão da forma do sacramento (Signo te signo crucis et confirmo te chrismate salutis, in nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti), diz que para a validade são essenciais as palavras Signo te e confrmo te (as demais para a liceidade), mas, ao mesmo tempo, apresentam a forma em alguns ritos orientais (que sempre foram consideradas válidas e, de fato, o são), como o bizantino: Signaculum doni Spiritus Sancti.

O Manual de Doutrina Católica por Boulanger (1927), por sua vez, explica:

Na Igreja grega, é mais breve a fórmula. O ministro pronuncia simplesmente essa palavras: “Eis o selo do dom do Espírito Santo”.

A Enciclopédia Católica (1913) relata que o próprio Tridentino preferiu não tocar nessa questão e o Magistério que o seguiu nunca duvidou da forma dos orientais. Vejamos o trecho da Enciclopédia:

This guarded language, so different from the definite canons on some of the other sacraments, shows that the council had no intention of deciding the questions at issue among theologians regarding the time and manner of the institution by Christ (direct or indirect institution), the matter (imposition of hands or anointing, or both), the form (“I sign thee”, etc., or “the seal”, etc.), and the minister (bishop or priest).

Sendo assim, sinceramente, acho um exagero afirmar que o sacramento é inválido devido à simples mudança da forma, pois embora a ela não seja mais a tradicional do Ocidente, não vejo como invalidar a do rito “reformado” sem dizer que a bizantina, por exemplo, é inválida, o que seria um absurdo.

É a forma paulina que está errada?

Depois de perceber que uma simples mudança na forma não era o bastante para invalidá-la, passei a achar que o problema estava na nova forma em si ou nas suas traduções.

Antes, um pequeno lembrete: Nosso Senhor só instituiu em detalhes o Batismo e a Eucaristia, de modo que mantida a relação entre determinável e determinante a Igreja pode modificar a matéria e a forma dos outros sacramentos (O Mistério dos Sacramentos, Mons. Teixeira Leite Penido).

Uma boa tradução da forma paulina seria: Recebe o selo do Dom do Espírito Santo.

Segundo a crítica tradicionalista tal forma não garantiria a relação entre determinável e determinante pois “receber o Dom do Espírito Santo” não especifica nada, já que isso também ocorre no Batismo e na Ordem.

Isso não é verdade. Se fosse, nem a forma bizantina, nem a latina primitiva seriam válidas. Embora hoje a expressão “dom do Espírito Santo” queira dizer muitas coisas, na Igreja primitiva se referia, em matéria litúrgica, ao significado do sacramento da Confirmação e como a “reforma litúrgica” caiu no erro do arqueologismo, tem-se que a forma atual é um espelho da forma ocidental antiga, análoga a bizantina, e plenamente capaz de garantir a relação entre determinável e determinante.

O problema está nas traduções?

Dando seguimento a minhas pesquisas sobre essa questão, passei a considerar, então, que o problema estava nas traduções de valor dúbio, como a brasileira: Recebe o Espírito Santo, Dom de Deus.

Ora, aqui se diz que o Espírito é o dom e não que se recebe um dom específico e mais, que se recebe o próprio Espírito, mas isso não é o bastante para especificar o significado do sacramento, pois se recebe o Espírito no Batismo e na Ordem também (esse, inclusive, foi um dos argumentos usados para se demonstrar a invalidade das ordens anglicanas).

Fiquei durante longo tempo com essa posição, considerando que as traduções, como a brasileira, era que invalidavam o sacramento, mas sempre com uma ressalva: submeter-me-ia a qualquer declaração magisterial sanando o assunto no futuro.

Mais um paço

Com o tempo, aprofundei as pesquisas sobre o tema e cheguei à conclusão que o cerne não está na expressão “dom”, mas na “Espírito Santo”.

Vamos por etapas.

Segundo Lwdwig Ott:

A forma da confirmação consiste nas palavras que acompanham a imposição individual de mãos, imposição que vai unida com a unção da fronte. (sentença comum)

Atos VIII, 15 e vários Padres (Tertuliano, Cipriano, Ambrósio) mencionam, juntamente com a imposição de mãos, uma oração pedindo a comunicação do Espírito Santo. Segundo Hipólito, o bispo recita primeiramente uma oração pedindo a graça de Deus, tendo as mãos estendidas sobre os confirmandos. A unção que segue depois e a imposição individual de mãos vão acompanhadas desta fórmula indicativa:

Ungueo te sancto oleo in domino Patre omnipotente et Christo Iesu et Spiritu sancto.

Na igreja latina aparece desde fins do século XII (Sicardo de Cremona, Huguccio) a fórmula corrente até a “reforma”:

N. eu te assinalo com o sinal da Criuz, e te confirmo com o Crisma da salvação, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém .

Entre os de rito bizantino, pelo menos desde o século V, a forma é:

Selo do dom do Espírito Santo.

Ela aparece pela primeira vez no sétimo cânon (inautêntico) do primeiro concílio de Constantinopla (381). O cardeal Bessarion comenta que ela é válida e equivalente à latina.

Tendo em vista o exposto, que retirei tanto de Ott quanto do DTC, vi que a essência da forma está, realmente, na recepção do Espírito Santo. Contudo, isso levava a outra questão:

– Se é assim, como unir essa noção ao fato da forma das ordens anglicanas ter se tornado inválida pelo fato de falar apenas na recepção do Espírito Santo? Se isso não define nada para as ordenações, por que define para as confirmações?

Na minha primeira tentativa de resolver esse ponto, como já disse, achei que a solução estava num complemento para a expressão Espírito Santo, tanto no rito de um sacramento quanto do outro (e na questão da Confirmação me concentrei na noção de “dom do Espírito Santo”).

Estudando mais, vi que a expressão “Espírito Santo” é bastante para uma confirmação, mas não para uma ordenação por não definir o grau da ordem que está sendo recebido e os poderes conferidos. Esse é o motivo da invalidade da forma das ordenações anglicanas (vale notar que mais tarde eles corrigiram esse problema, mas aí já era tarde, e que a isso devemos juntar a falta de intenção de fazer o que faz a Igreja).

Portanto, a forma “reformada” (inclusive na tradução imperfeita da CNBB) possuiria o necessário para garantir sua validade. Isso, contudo, não implicaria em que ela não pudesse ser criticada por ficar no limiar, constituindo um exemplo da presunção dos arqueologistas litúrgicos tão criticados por Pio XII.

Chegando a uma solução: significatio ex adjunctis

Nessa época também comecei a trabalhar em cima da problemática da Anáfora de Addai e Mari e nesse estudo acabei encontrando o arremate final para o que tinha concluído sobre a forma da Confirmação no rito paulino.

Sabemos que Nosso Senhor não determinou os ritos sacramentais em seus mínimos detalhes. Nesse contexto, definiu o tridentino que “a Igreja sempre possui o poder de estatuir ou de modificar, na dispensação dos Sacramentos – ficando-lhes salva a substância – o que ela julgar mais conveniente à utilidade dos fiéis ou à veneração dos próprios Sacramentos, segundo a diversidade dos tempos e lugares” (D. 931). Aduz o Concílio, à guisa de exemplo, a sagrada comunhão, que durante séculos foi distribuída sob as duas espécies e, depois passou a sê-lo, na Igreja latina, sob uma só espécie.

Vejam, por substância está incluída a presença da “forma” e da “matéria”. Não pode haver um sacramento sem “forma” ou “matéria” e ponto!

Respondem unanimamente os teólogos (não-modernistas!!!) que Jesus escolheu a “matéria” e a “forma” específicas do Batismo e da Eucaristia. À Igreja não será permitido batizar com outro líquido que não fosse água; nem consagrar pão de outro cereal, do que trigo. À Igreja não é permitido mudar a forma desses sacramentos (“Eu te batizo em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” e “Isto é Meu Corpo; Isto é (o cálice) do Meu Sangue”), embora palavras similares, em tese, pudessem ser empregadas validamente (mudar “batizo” por “lavo”) e estruturas gramaticais diversas também possam ser alvo de uma utilização válida (como na forma do batismo nos ritos orientais).

No caso dos outros sacramentos, a maior parte dos estudiosos ensinam que o Senhor determinou apenas genericamente a “matéria” e a “forma”, deixando à Igreja a escolha entre diversas, aptas a expressar o efeito sacramental que Ele tinha em vista (o rito se deve a Cristo, a sua organização à Igreja).

Mas elas sempre tem de existir!!!

De outro modo, podem “matéria” e “forma” sofrer certas variações, sem que variem as suas mútuas relações de significação. A escolha, pela Igreja, deste ou daquele elemento sensível, não afetaria em nada a substância do sacramento (que podemos entender como a significação eficaz que a instituição por Cristo imprime a um rito sensível), desde que fosse apenas um modo materialmente diverso de realizar a mesma vontade do instituidor.

Mas elas sempre tem de existir!!! Mesmo que não tão precisas elas tem de existir.

Vamos a um exemplo:

A forma da ordenação episcopal é um tanto vaga, tanto no rito “reformado” de Paulo VI, quanto no rito romano tradicional e nos orientais. O sentido dela, na verdade, é dado pelo conjunto das orações. A interpretação das frases depende da significatio ex adjunctis, ou seja, da significação derivada do contexto.

Uma forma não-vaga, mas válida, poderia ser:

Este padre, Oh Deus, precisa de uma promoção. Através da graça da Terceira Pessoa da Trindade, promova-o a bispo.

Ridículo, mas ilustra a idéia de que vaga ou precisa, tem de haver uma forma.

Uma forma precisa, por si só, atende ao necessário para a validade de um sacramento. É o caso de um batismo de emergência, onde só a forma “Eu te batizo…” é dita, sem nenhuma das orações complementares. Todavia, se as orações adicionais, que fazem referência poder salvífico do Batismo, forem ditas sem a forma, não há sacramento.

Uma forma não-precisa necessita do contexto para que suas palavras possam determinar a matéria.

Esse também é o caso da Confirmação no rito paulino. Mesmo levando em conta as traduções deficitárias, o que está em volta mostra, claramente, que se pretende crismar.

Exemplos de significatio ex adjunctis

Além de toda a cerimônia para a recepção do sacramento da Confirmação remeter a ele, as orações imediatamente anteriores a unção com o Crisma (pronunciadas pelo celebrante – regra geral um bispo) dizem (grifos meus):

Roguemos, caros irmãos e irmãs, a Deus Pai todo-poderoso, que derrame o Espírito Santo sobre estes seus filhos e filhas adotivos, já renascidos no Batismo para a vida eterna, a fim de confirmá-los pela riqueza dos seus dons e configurá-los pela sua unção ao Cristo, Filho de Deus.

Deus todo-poderoso, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, pela água e pelo Espírito Santo, fizestes renascer estes vossos servos e servas, libertando-os do pecado, enviai-lhes o Espírito Santo Paráclito; dai-lhes, Senhor, o espírito de sabedoria e inteligência, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de ciência e de piedade e encheios do espírito do vosso temor. Por Cristo, nosso Senhor.

Nos dois casos, está mais do que clara a referência à Confirmação e, desse modo, mesmo que a forma fosse tão vaga que em si mesma nada significasse, pelo contexto ela ganharia determinação o bastante para garantir a validade do sacramento.

Conclusão

Por tudo isso, considero a crítica tradicionalista à forma da Confirmação no rito paulino sem fundamento sólido.

Para que a dúvida sobre a validade da forma do sacramento seja admissível, não se pode começar pedindo que a própria Igreja prove que o é (pois a presunção é sempre de que ela está certa), mas é necessário levantar argumentos fortes e amplos o bastante que sustentem a dificuldade suscitada (como foi feito em relação a aprovação da Anáfora de Adai Mari). Se D. Lefebvre, como contam alguns, apresentou tais argumentos aos cardeais em Roma, seria bom divulgá-los, pois uma coisa não pode ser inválida (por falta de certa palavras) no rito ocidental e válida num oriental (pode-se questionar a legitimidade, mas não a validade), a não ser se deseje cair num legalismo etnocentrista.

Eu mesmo, na busca pelo correto, parti de um início equivocado, querendo, de todo modo, mostrar que a crítica tradicionalista é que estava certa. Mas no fim a verdade se impôs. Todavia, para muitos que fazem a inversão que fiz e não procuram pesquisar mais, o erro é que fica tomando o lugar da verdade. Daí o cuidado com que se deve levantar críticas.

Agora, tenho de dizer claramente, D. Lefebvre e D. Mayer levantaram tal dúvida na melhor das intenções, pois eram zelosos pastores de almas e estavam baseados em Santo Tomás (só que o Doutor Angélico – e a escolástica – tinha fontes restritas para a avaliação da Crisma; alguns, inclusive, acham que ele pensava que os orientais sequer tinham tal sacramento – confusão que eu reputo derivada do fato de que nos ritos orientais a confirmação se faz após o batismo, havendo, para quem não conhece, um confusão entre as unções exorcísticas e a unção do Crisma). Os grandes culpados são os que fizeram uma “reforma” que não foi reforma, mas fabricação, e que não explicaram devidamente os fundamentos dela segundo os critérios católicos de sempre.

E a matéria?

oleocrismaNa mesma época em que me digladiava na dúvida sobre a validade do sacramento da Crisma no rito paulino por causa da mudança na forma, li a seguinte notícia (divulgada pelo serviço de notícias da Conferência Episcopal da Índia em 2005):

Cochim – A Igreja Siríaca Malabar Católica introduziu alterações nos ritos dos cinco sacramentos do batismo, confirmação, matrimônio, unção dos enfermos e confissão. Os líderes da Igreja dizem que as novas mudanças litúrgicas levarão a Igreja Oriental a mover-se em uma nova direção espiritual.

De acordo com um comunicado divulgado pelo Arcebispo-Maior da Igreja Siro-Malabar, Varkey Cardeal Vithayathil, o novo sacramentário entrou em vigor em todas as paróquias e dioceses a partir de 6 de janeiro. O bispo auxiliar Sebastian Adaynthrath, da diocese de Ernamulam Angamaly, que encabeçou a comissão litúrgica que propôs as novas regras sacramentais, disse que as mudanças ajudariam a Igreja a “indianizar-se em uma nova direção”.

Ele disse que as alterações litúrgicas foram finalizadas após uma longa rodada de discussões envolvendo todos os bispos, teólogos, clérigos e líderes leigos da Igreja.

De acordo com os ritos emendados, o batismo e a confirmação ocorrerão conjuntamente, pois ‘o nascimento e o crescimento são inseparáveis’. Eles eram celebrados em separado anteriormente. O termo confirmação sera substituído por ‘crisma’, pois crisma significa óleo sagrado.

A Eucaristia, geralmente dada na idade de sete ou oito anos, sera igualmente dada no momento do batismo e crisma.

O novo sacramentário reintroduz a unção pré-batismal e autoriza que um padre abençôe os santos óleos usados no batismo, o que anteriormente era feito apenas pelo bispo.

O costume de se usar apenas o azeite da oliveira também foi alterado. Qualquer óleo vegetal, inclusive óleo de coco, pode agora ser usado. Os padres agora dirão “tu estás batizado”, ao invés de “eu te batizo”.

O óleo da unção dos enfermos também poderá ser abençoado por um padre. Até agora, apenas os bispos tinham esse privilégio.

Durante a confissão, os padres agora dirão “Estás perdoado”, ao invés de “Eu te absolvo”.

Os matrimônios também passarão por uma mudança, de acordo com o novo sacramentário. A Igreja agora permitirá a troca de guirlandas de flores entre os noivos, como ocorre nos casamentos hinduístas. O padre que celebrar o matrimônio abençoará as guirlandas.

Só um adendo: na época, lendo a notícia original, notei que havia um erro de tradução, pois no documento é dito “The custom of using only olive oil has also been changed. Any vegetable oil, including coconut oil, can be used for baptism from now.”, ou seja, para ser fiel ao texto, temos de admitir que por ele apenas os ritos suplementares do batismo é que poderiam ser feitos com algum óleo diferente do de oliva.

De qualquer forma, fiquei chocado, já que isso torna possível que outro óleo, que não o de oliva, seja usado na Crisma e na Unção dos Enfermos.

Para mim, portanto, a Igreja Siríaca Malabar Católica, no intuito de inculturar-se, teria aberto a possibilidade de invalidade de um sacramento e caia no erro do “arqueologismo litúrgico” (condenado por Pio XII) ao adotar práticas antigas com muita vantagem superadas (como administrar de uma vez o Batismo e a Confirmação) e esconder sua própria história (deixando de adotar a forma latina do batismo pela oriental).

É como seu quisesse negar que parte da minha família teve escravos até a Lei Áurea ou um viciado em drogas negar que não tem um problema. Fugir da realidade é sempre o começo de algo que não vai ter um bom fim. O romantismo era isso e ele criou o ambiente psicológico que fez fruticar os delírios totalitários que mataram milhões no século passado.

Só que o detalhe é: não há nada de errado com a herança cultural latina da Igreja Siríaca. Inclusive, parte dessa herança cultural também é comum a nós, brasileiros e demais lusófonos, pois, durante muitos anos, os missionários de origem portuguesa tiveram atuação marcante entre os “cristãos de São Tomé”. Se podia haver um ou outro exagero, também não se pode ignorar 500 anos de história eclesial. Não vamos voltar ao 1000! Gostem ou não a história deles foi essa e ponto!

Refletindo, contudo, de forma mais apurada sobre essas mudanças, em especial com os dados que colhi para a análise da mudança da forma no Ocidente, vi que, embora se possa manter a crítica à inculturação e à deslatinização, não se pode sustentar que a validade do sacramento da Confirmação (ou da Unção dos Enfermos) fique afetada pela mudança da matéria (de óleo de oliva para outros óleos vegetais).

É verdade que na maioria dos documentos eclesiais (como o Decreto sobre os Armênios, do Concílio de Florença) ou livros de teologia temos que o óleo (com bálsamo) é a matéria remota da Confirmação e que por “óleo” se considera “óleo de oliva”, mas esse dado tem de se subordinar ao entendimento, também tradicional, de que a Igreja pode mudar o determinante e o determinável dos sacramentos (menos no caso do Batismo e da Eucaristia), de modo que passar de óleo de oliva para óleo de coco ou mesmo, numa hipotese maluca, para “caldo de galinha” não invalidaria o sacramento citado (supondo que a significação eficaz seja mantida).

Claro que considero tal alteração fruto do orgulho desses inculturadores sem critério, mas, de fato, ela não tem as conseqüências graves que achei que poderia ter.

OBS: Salvo engano, a possibilidade de escolher outros óleos vegetais que não o de oliva foi dado por Paulo VI às conferência episcopais.

Bibliografia

Além das obras já citadas aqui (Ott, DTC, O Mistério dos Sacramentos) e as que estão no post deste blog sobre a Anáfora de Addai e Mari, usei de maneira especial na reflexão os seguintes livros:

Manual de Teologia Dogmática, de J. Bujanda S. J., Porto, 1958.

Teologia Moral, Pe. Teodoro Torre del Greco O. F. M. Cap., São Paulo, 1959.

Doutrina Catholica: Meios de Santificação e Liturgia, Boulanger, São Paulo, 1927.

Categorias
Espiritualidade Liturgia Oração

Do Breviário à Liturgia das Horas

breviario

A Liturgia das Horas recebeu vários nomes na história. O mais difundido foi o de Breviário, que indicava a reunião em um só volume, para facilitar a recitação individual, de todos os elementos necessários para celebrar o Ofício Divino, como salmos, leituras, hinos, etc. Esse nome, todavia, também encerrava uma mentalidade privatista e reducionista da prece eclesial que sempre se quis corrigir (pelo menos desde Trento), mas que o caminhar turbulento da Igreja sempre adiava.

Depois do Vaticano II, recuperaram seu significado as expressões Ofício Divino e Liturgia das Horas. Ofício quer dizer serviço cultual e ação litúrgica (ou seja, pública), e divino indica em honra de quem se realiza a celebração. Essa expressão é equivalente à Opus Dei (Obra de Deus), segundo a expressão de São Bento (Regra 43, 3):

“Nada se anteponha à obra de Deus.”

O segundo nome faz alusão à prece eclesial distribuída segundo as horas do dia.

Nesse sentido, o Ofício Divino é verdadeira liturgia, exercício do sacerdócio de Jesus Cristo para a santificação dos homens e para o culto a Deus (Sacrosanctum Concilium 7), e, conseqüentemente, celebração de toda a Igreja, ou seja, oração de Cristo ao Pai com seu corpo eclesial (SC 84). Por esse motivo dever-se-á preferir sempre a celebração comunitária, com assistência e participação ativa dos fiéis, à recitação indivial e quase particular (SC 26-27).

Antecedentes do Ofício Divino

A origem da oração das horas deve ser buscada na oração do Divino Mestre e das comunidades católicas primitivas, que observavam os ritmos da oração judaica.

A oração judaica na época do Novo Testamento

Jesus nasceu num povo que sabia orar, no seio de uma família piedosa que observava com amor e fidelidade os preceitos do Senhor.

“Completados que foram os oito dias para ser circuncidado o menino, foi-lhe posto o nome de Jesus, como lhe tinha chamado o anjo, antes de ser concebido no seio materno.

Concluídos os dias de sua purificação segundo a Lei de Moisés, levaram-no a Jerusalém para o apresentar ao Senhor, conforme o que está escrito na lei do Senhor: ‘Todo primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor‘ (Êx. XIII, 2); para oferecerem o sacrifício prescrito pela lei do Senhor, um par de rolas ou dois pombinhos.” (Lucas II, 21-24)

Num mundo politeísta, que desprezava a oração como absurda e inútil, e que reduziu a religião a um conjunto de práticas sangrentas e obscenas, Jesus participava na prece do povo instruído na oração pelo próprio Deus através da Revelação.

A prática judaica da prece compreendia três momentos de oração durante o dia: ao cair da tarde, ao amanhecer e ao meio dia.

“Pela tarde, de manhã e ao meio-dia lamentarei e gemerei; e ele ouvirá minha voz.” (Salmo LIV, 18)

“Ouvindo essa notícia, Daniel entrou em sua casa, a qual tinha no quarto de cima janelas que davam para o lado de Jerusalém. Três vezes ao dia, ajoelhado, como antes, continuou a orar e louvar Deus.” (Daniel VI, 11)

Desses momentos, dois estavam unidos aos sacrifícios perpétuos, que eram oferecidos todos os dias no Templo.

“O Senhor disse a Moisés: ‘Ordena o seguinte aos israelitas: cuidareis de apresentar no devido tempo a minha oblação, o meu alimento, em sacrifícios de agradável odor consumidos pelo fogo.’

‘Dir-lhes-ás: eis o sacrifício pelo fogo que oferecereis ao Senhor: um holocausto quotidiano e perpétuo de dois cordeiros de um ano, sem defeito. Oferecerás um pela manhã e outro entre as duas da tarde, juntando, à guisa de oblação, um décimo de efá de flor de farinha amassada com um quarto de hin de óleo de olivas esmagadas. Este é o holocausto perpétuo tal como foi feito no monte Sinai, um sacrifício pelo fogo de suave odor para o Senhor. A libação será de um quarto de hin para cada cordeiro; é no santuário que farás ao Senhor a libação de vinho fermentado. Oferecerás, entre as duas tardes, o segundo cordeiro; e farás a mesma oblação e a mesma libação como de manhã: este é um sacrifício pelo fogo, de suave odor para o Senhor.’ ” (Números XXVIII, 2-8)

Desse modo, a oração era santificada pelo sacrifício.

Ao se deitar e ao se levantar se recitava o Shemá Ysrael (Escuta Israel), a profissão de fé no Deus único.

“Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças. Os mandamentos que hoje te dou serão gravados no teu coração. Tu os inculcarás a teus filhos, e deles falarás, seja sentado em tua casa, seja andando pelo caminho, ao te deitares e ao te levantares. Atá-los-ás à tua mão como sinal, e os levarás como uma faixa frontal diante dos teus olhos. Tu os escreverás nos umbrais e nas portas de tua casa.” (Deuteronômio VI, 4-9)

“Se obedecerdes aos mandamentos que hoje vos prescrevo, se amardes o Senhor, servindo-o de todo o vosso coração e de toda a vossa alma, derramarei sobre a vossa terra a chuva em seu tempo, a chuva do outono e a da primavera, e recolherás o teu trigo, o teu vinho e o teu óleo; darei erva aos teus campos para os teus animais, e te alimentarás até ficares saciado. Tende cuidado para que o vosso coração não seja seduzido e vos desvieis do Senhor para servir deuses estranhos, rendendo-lhes culto e prostrando-vos diante deles. A cólera do Senhor se inflamaria contra vós e ele fecharia os céus: a chuva cessaria de cair, e não haveria mais colheita, no vosso solo, de modo que não tardaríeis a perecer nesta boa terra que o Senhor vos dá. Gravai, pois, profundamente em vosso coração e em vossa alma estas minhas palavras; prenderas às vossas mãos como um sinal, e levaras como uma faixa frontal entre os vossos olhos. Ensinai-as aos vossos filhos, falando-lhes delas seja em vossa casa, seja em viagem, quando vos deitardes ou levantardes. Escreve-as nas ombreiras e nas portas de tua casa, para que se multipliquem os teus dias e os dias de teus filhos na terra que o Senhor jurou dar a teus pais, e sejam tão numerosos como os dias do céu sobre a terra.” (Deuteronômio XI, 13-21)

“O Senhor disse a Moisés: ‘Dize aos israelitas que façam para eles e seus descendentes borlas nas extremidades de suas vestes, pondo na borla de cada canto um cordão de púrpura violeta. Fareis essas borlas para que, vendo-as, vos recordeis de todos os mandamentos do Senhor, e os pratiqueis, e não vos deixeis levar pelos apetites de vosso coração e de vossos olhos que vos arrastam à infidelidade. Desse modo, vós vos lembrareis de todos os meus mandamentos, e os praticareis, e sereis consagrados ao vosso Deus. Eu sou o Senhor vosso Deus, que vos tirei do Egito para ser o vosso Deus. Eu sou o Senhor vosso Deus.’ ” (Números XV, 37-41)

Jesus também o recitava.

“Jesus respondeu-lhe: ‘O primeiro de todos os mandamentos é este: Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor; amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu espírito e de todas as tuas forças.’ ” (Marcos XII, 29-30)

Ao meio dia se diziam as bênçãos da Thepillah. Essa prece pertencia ao culto da sinagoga (que, salvo engano, só surgiu no exílio babilônico).

A liturgia judaica incluía, além disso, uma ampla variedade de hinos, salmos e orações para as festas, para as peregrinações ao Templo e para a liturgia doméstica, na qual se destacavam as bênçãos ao cair da tarde (lucernário) e ação de graças da ceia. Nesse ambiente de oração Jesus viveu, de modo que “o louvor a Deus ressoa no coração de Cristo com palavras humanas de adoração, propiciação e intercessão” (Instrução Geral sobre a Liturgia das Horas 3).

A oração de Jesus

“Cristo Jesus, ao assumir a natureza humana, trouxe para este exílio terreno aquele hino que é cantado por todo o sempre nas habitações celestes” (IGLH 3; SC 83). A oração de Nosso Senhor em sua vida terrena foi a expressão do colóquio eterno do Verbo com o Pai no Espírito Santo, e o anúncio da mediação sacerdotal que continua agora nos Céus.

a) A pureza de intenção.

“Quando orardes, não façais como os hipócritas, que gostam de orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa. Quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê num lugar oculto, recompensar-te-á.” (Mateus VI, 5-6)

“Ele lhes dizia em sua doutrina: Guardai-vos dos escribas que gostam de andar com roupas compridas, de ser cumprimentados nas praças públicas e de sentar-se nas primeiras cadeiras nas sinagogas e nos primeiros lugares nos banquetes. Eles devoram os bens das viúvas e dão aparência de longas orações. Estes terão um juízo mais rigoroso.” (Marcos XII, 38-40)

b) A união da mente com a voz, para não se cair na censura de Isaías XXIX, 13.

“Este povo somente me honra com os lábios; seu coração, porém, está longe de mim. Vão é o culto que me prestam, porque ensinam preceitos que só vêm dos homens.” (Mateus XV, 8)

c) A confiança no Pai.

“Quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê num lugar oculto, recompensar-te-á. Nas vossas orações, não multipliqueis as palavras, como fazem os pagãos que julgam que serão ouvidos à força de palavras.” (Mateus VI, 7-8)

“Portanto, eis que vos digo: não vos preocupeis por vossa vida, pelo que comereis, nem por vosso corpo, pelo que vestireis. A vida não é mais do que o alimento e o corpo não é mais que as vestes? Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam, nem recolhem nos celeiros e vosso Pai celeste as alimenta. Não valeis vós muito mais que elas? Qual de vós, por mais que se esforce, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida? E por que vos inquietais com as vestes? Considerai como crescem os lírios do campo; não trabalham nem fiam. Entretanto, eu vos digo que o próprio Salomão no auge de sua glória não se vestiu como um deles. Se Deus veste assim a erva dos campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé? Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso.” (Mateus VI, 25-32)

“Jesus voltou-se então para seus discípulos: Portanto vos digo: não andeis preocupados com a vossa vida, pelo que haveis de comer; nem com o vosso corpo, pelo que haveis de vestir. A vida vale mais do que o sustento e o corpo mais do que as vestes. Considerai os corvos: eles não semeiam, nem ceifam, nem têm despensa, nem celeiro; entretanto, Deus os sustenta. Quanto mais valeis vós do que eles? Mas qual de vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida? Se vós, pois, não podeis fazer nem as mínimas coisas, por que estais preocupados com as outras? Considerai os lírios, como crescem; não fiam, nem tecem. Contudo, digo-vos: nem Salomão em toda a sua glória jamais se vestiu como um deles. Se Deus, portanto, veste assim a erva que hoje está no campo e amanhã se lança ao fogo, quanto mais a vós, homens de fé pequenina! Não vos inquieteis com o que haveis de comer ou beber; e não andeis com vãs preocupações. Porque os homens do mundo é que se preocupam com todas estas coisas. Mas vosso Pai bem sabe que precisais de tudo isso.” (Lucas XII, 22-30)

Outros ensinamentos dizem respeito à necessidade da oração (Lucas XXII, 40; VI, 28), à oração em seu nome (João XIV, 13-14), à oração de petição (Mateus V, 44; VII, 7), à humildade (Lucas XVIII, 9-14 e à perseverança (Lucas XI, 5-13).

Mas o ensinamento mais original e importante é o que se refere ao próprio conteúdo da oração. Esse conteúdo está condensado numa palavra: Abba, Pai!, expressão da relação filial a título único entre o Filho Jesus Cristo e o Pai. A revelação dessa relação foi seguida da doação do Espírito Santo, que torna possível a filiação divina adotiva e que todos os discípulos do Divino Mestre possam invocar a Deus. Por isso, o Pai-Nosso é o supremo modelo da oração cristã.

“Um dia, num certo lugar, estava Jesus a rezar. Terminando a oração, disse-lhe um de seus discípulos: Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou a seus discípulos. Disse-lhes ele, então: Quando orardes, dizei: Pai, santificado seja o vosso nome; venha o vosso Reino; dai-nos hoje o pão necessário ao nosso sustento; perdoai-nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos àqueles que nos ofenderam; e não nos deixeis cair em tentação.” (Lucas XI, 1-4)

A Didaché, em fins do século I, é testemunha da substituição do Shemá pelo Pai-Nosso nos círculos judeu-católicos, também três vezes ao dia.

“Também não rezeis como os hipócritas, mas como o Senhor mandou no seu Evangelho: Nosso Pai no céu, que teu nome seja santificado, que teu reino venha, que tua vontade seja feita na terra, assim como no céu; dá-nos hoje o pão necessário (cotidiano), perdoa a nossa ofensa assim como nós perdoamos aos que nos têm ofendido e não nos deixeis cair em tentação, mas livra-nos do mal, pois teu é o poder e a glória pelos séculos.

Assim rezai três vezes por dia.” (Didaché 8, 2-3)

A oração na Igreja primitiva

Os Apóstolos, instruídos pelo Senhor depois da Ressurreição (Atos I, 3), também ensinaram a orar e organizaram no Espírito de Jesus a oração das primeiras comunidades da Igreja. Desde os primeiros momentos a “perseverança nas orações” foi uma característica da comunidade que se transformou em Pentecostes.

“Perseveravam eles na doutrina dos apóstolos, na reunião em comum, na fração do pão e nas orações.” (Atos II, 42)

Como Nosso Senhor, os primeiros cristãos acorriam ao Templo e à sinagoga, embora depois celebrassem a “fração do pão” em suas casas.

“Unidos de coração freqüentavam todos os dias o templo. Partiam o pão nas casas e tomavam a comida com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e cativando a simpatia de todo o povo. E o Senhor cada dia lhes ajuntava outros que estavam a caminho da salvação.” (Atos II, 46-47)

Observavam o costume de rezar privadamente ou em comum no cômodo principal, em certas horas do dia e também da noite.

“Refletiu um momento e dirigiu-se para a casa de Maria, mãe de João, que tem por sobrenome Marcos, onde muitos se tinham reunido e faziam oração.” (Atos XII, 12)

“Pela meia-noite, Paulo e Silas rezavam e cantavam um hino a Deus, e os prisioneiros os escutavam.” (Atos XVI, 25)

A oração era dirigida geralmente ao Pai celestial. Mas com o passar do tempo sobreveio na comunidade eclesial a consciência de que o Divino Mestre não somente é mediador e “lugar” único para adorar o Pai em Espírito e verdade (João II, 19-22, IV, 23-24), mas também termo da oração cristã. Exemplo disso são as doxologias, os agradecimentos ao Pai pela obra realizada em Cristo, e os hinos cristológicos.

A Liturgia das Horas na história

A história do Ofício Divino significa a perseguição, ao longo dos séculos, do ideal (Lucas XVIII, 1):

“É preciso orar sempre.”

As primeiras tentativas de organização (séculos I– IV)

Os primeiros séculos da história católica oferecem pouquíssima informação sobre a oração em certas horas. Contudo, sabe-se que a Missa dominical acabou tendo uma vigília estendida, que consistia em leituras e cantos de Salmos.

A partir do século III os testemunhos são cada vez mais abundantes e mencionam, junto com os ofícios matutino e vespertino, sem dúvida comunitários, as horas terça, sexta e nona, fixas e determinadas na recordação da Santíssima Trindade e em memória dos momentos da Paixão de Cristo e de alguns acontecimentos narrados nos Atos dos Apóstolos.

Na etapa que se seguiu à paz de Constantino o desenvolvimento do Ofício foi favorecido. Dois foram os modelos organizados:

1. O eclesial: celebrado nas catedrais e paróquias, era centrado nas celebrações da manhã e da tarde, isto é, nas laudes e nas vésperas presididas pelo bispo ou por um presbítero, com assistência do restante do clero e do povo.

2. O monástico: marcado pelo desejo de dedicar o maior tempo possível do dia à oração, seguindo os conselhos evangélicos e buscando o equilíbrio entre a oração e o trabalho. Assim, foram introduzidas, junto com as laudes e as vésperas e as horas intermediárias, a hora prima, as completas e as vigílias noturnas.

Finalmente, a organização monástica configurou todo o Ofício.

Detalhando o desenvolvimento monástico

Para os estudiosos, a oração que precedia a Eucaristia pós-apostólica, eventualmente, ficou organizada em quatro partes: uma que acabou originando a parte preparatória do Sacrifício (a Missa dos Catecúmenos do rito gregoriano), uma que se tornou as Vésperas do final da tarde, uma da qual nasceu as Matinas da meia noite e, finalmente, uma que se tornou as Laudes do começo da manhã. Esse grupo, originalmente noturno, constituiu as “Grandes Horas”, as outras cinco, as “Horas Menores”. As Matinas poderiam ser chamadas de “pai de todas as horas” e as Vésperas e Laudes de “irmãs gêmeas”, dada sua estrutura similar.

Mais tarde, o grupo diurno, Terça, Sexta e Noa foi instituído para a santificação ao longo do dia. Elas também são como gêmeas por terem uma estrutura idêntica.

Por fim, as Completas e a Prima foram criadas para servirem de oração noturna e matutina no dormitório. Elas ainda mantém um sabor monástico maior que as outras horas e podem ser consideradas um irmão e uma irmã, pois embora sejam semelhantes, não possuem uma estrutura idêntica.

Desse modo, originalmente, as horas do Ofício tinham uma correspondência com as horas do dia (segundo nossos parâmetros) um tanto diversa da que hoje possuem.

Nas minhas pesquisas encontrei a seguinte tabela:

Matinas – meia-noite

Laudes – 3 da madrugada

Prima – 6 da manhã

Terça – 9 da manhã

Sexta – meio-dia

Vésperas – 6 da tarde

Completas – 9 da noite

Ela não faz referência à Noa.

Ainda segundo essa mesma fonte, após alguns séculos, as horas adquiriram a seguinte configuração nas casas religiosas:

Matinas e Laudes – 2 e 3 da madrugada

Prima – ao se acordar

Terça – 9 da manhã

Sexta – meio-dia

Noa – 3 da tarde

Vésperas – ao anoitecer

Completas – antes de dormir

Comentando

Como se pode notar, no apanhado que fiz, há uma certa falta de sistemática na consideração do surgimento das horas. Todavia, acredito que a seguinte ordem é plausível:

1) Laudes e Vésperas

2) Matinas

3) Terça, Sexta e Noa

4) Completas

5) Prima

Sete vezes por dia eu Vos louvei, no meio da noite me levantei para Vos louvar.

Por fim, o esquema ficou assim:

Matinas (com seus três noturnos) – durante a noite

Laudes – 5 da manhã

Prima – 7 da manhã

Terça – 9 da manhã

Sexta – meio-dia

Noa – 3 da tarde

Vésperas – 5 da tarde

Completas – 8 da noite

OBS:

1) Em alguns ritos orientais (como o siríaco) o modelo eclesial, com duas horas, é que se consolidou como referência.

2) No modelo eclesial também se conhecia a oração noturna e as orações ao longo do dia, só que, em geral, elas não eram litúrgicas, posto que não assumidas pela igreja local sob a autoridade do bispo.

Do Ofício completo e solene ao Ofício particular

Nos séculos VI-IX o Ofício era a oração da Igreja local, do clero e do povo. Quando ainda não se havia generalizado a celebração diária da Eucaristia, as horas do Ofício serviam para a santificação dos dias da semana. Aconteceu, então, uma grande criação de elementos não-bíblicos: antífonas, hinos, responsórios e orações, paralela à que acontecia na Missa e nos ritos dos sacramentos.

Durante esses anos, as liturgias receberam sua estrutura definitiva.

Nós sabemos pouco sobre o Ofício Romano primitivo, mas podemos distinguir entre os das igrejas presbiterais e os das basílicas (cuidadas por comunidades mais ou menos regulares). Esse último Ofício serviu, provavelmente, de modelo ao da Regra de São Bento. Nessas comunidades das basílicas, o Ofício era composto de Salmos, antífonas, leituras da Sagrada Escritura e dos Padres, responsórios, e, em certas igrejas, como nos mosteiros, de hinos. Também nesse tempo, os aniversários dos mártires e confessores começaram a ser celebrados nas suas tumbas por meio de um Ofício votivo sem relação com o Ofício do dia.

A partir de tal base, no tempo de São Gregório Magno, a liturgia das basílicas foi aperfeiçoada (lecionário das Matinas e música para as antífonas e responsórios), ganhando sua estrutura essencial (até o pós-Vaticano II) e se espalhou para o resto de Roma e além: a Gália, a Inglaterra e a Alemanha. O Ofício das basílicas romanas tendia a virar o Ofício do clero nos diferentes países.

Pelo meio do século VIII, o curso completo das Horas, incluindo as Matinas, se tornou a prática geral, e os clérigos foram obrigados a participar dela inteiramente. O tipo de vida canônica necessária para essa celebração recebeu sua organização principalmente de São Chrodegang e do Concílio de Aix-la-Chapelle. Com Pepino, o Pequeno, a monarquia franca favoreceu e, mais tarde, Carlos Magno impôs ao seu Império, os usos romanos. Amalario e a schola cantorum da diocese de Metz tiveram um papel importante na correção e difusão do Antifonário romano.

Desse modo, com seu conteúdo fixado, a Liturgia das Horas cantada pelas comunidades, monásticas ou diocesanas, era solene na sua forma e requeria muitos livros (o Psalterium, o Antiphonale, o Collectarium, o Hymnarium, o Lectionarium, etc.) e ministros (que desempenhavam papéis diferentes durante a celebração); a congregação participava recitando Salmos e respostas decorados ou respondendo aos Salmos por refrãos. Nesse quadro, adaptações e adições passaram a ocorrer (como Salmos suplementares para cada Hora, Ofícios para a Virgem e os defuntos, comemorações diversas, preces, etc.).

Tudo isso, apesar das boas intenções, foi um desastre. As complicações nas rubricas, a quantidade de livros e o tempo necessários para se celebrar as Horas acabou afastando o clero dedicado ao cuidado direto das almas do Ofício (quanto ao povo, nem se fala). A decadência era patente e já no século X apareceram tentativas de reforma (com a redução da salmodia e das leituras nas Matinas).

Desse modo, foi natural que surgisse o Breviário.

Ela era uma experiência de juntar todas as partes do Ofício num formato “breve” – um ou mais volumes com todos os elementos dispostos numa seqüência racional. Encontramos os primeiros Breviários compilados pelos monges de Monte Cassino nos século X e XI. Embora certos Breviários mais antigos incluam alguns elementos musicais do Ofício, no geral, eles só continham o texto (enquanto os elementos musicais ficavam em outros livros, como o Antiphonale).

Mas a verdadeira difusão do Breviário só veio com seu uso pela Curia papal e, mais tarde, pela sua adoção pelos mendicantes, em especial os franciscanos.

A solução praticada na capela do Palácio de Latrão, em Roma, de usar uma abreviação (aprovada por Inocêncio III) dos livros litúrgicos empregados na Basílica foi imitada em outros lugares. O exemplar mais antigo, conhecido como Breviário de Santa Clara, se intitula assim: Incipit ordo et officium breviarii ecclesiae Curiae, quem consuevimus observare tempore Inocentii tertii papae el aliorum pontificum. Esse breviário, adotado por São Francisco em 1223 (dada sua portabilidade) e revisado por Haymo de Faversham (geral da ordem em 1240), com a imprensa, se espalhou por toda a Europa (os breviários não-romanos acabaram com sua publicação proibida).

No Breviário da Curia Romana poucas mudanças foram feitas nos textos antigos, mas numerosas seções ad libitum desapareceram. Além disso, novas tendências na vida espiritual tiveram grande influência no seu desenvolvimento posterior; elas se manifestaram na multiplicação das festas e legendas históricas e na diminuição do número de leituras e de outros elementos.

Todavia, a vantagem real do livro litúrgico único trouxe consigo o inconveniente da introdução da recitação particular. Já no século XIII canonistas e teólogos passaram a justificar a prática da recitação privada e o que no começo foi exceção se transformou em norma.

Mais tarde, no século XV, como conseqüência da Devotio Moderna, acentuou-se na espiritualidade sacerdotal a orientação intimista e subjetiva, que tendia a fazer da própria Missa e do Ofício o cumprimento de uma obrigação pessoal. Desse modo, as ordens e as congregações religiosas que foram fundadas a partir do século XVI não tinham o Ofício Divino como oração comum. E, por outro lado, a introdução das vigílias, oitavas, comemorações e ofícios duplos e semiduplos complicou novamente a celebração das Horas.

O sentimento de que uma reforma profunda devia ocorrer voltou a crescer.

Tentativas de renovação

Fazia-se necessária uma renovação do Ofício. Esse sentimento não atingia apenas o clero, obrigado a ele, mas os leigos mais instruídos também se incomodavam com a maneira como as coisas estavam; daí a multiplicação de “Pequenos Breviários” para os fiéis.

Nesse clima, surgiram algumas iniciativas mais ou menos efêmeras, como uma levada a cabo pelos teatinos, e uma que teve mais impacto, feita pelo cardeal Quiñones.

O “Breviarium Sanctae Crucis”

O Papa Clemente VII, que tinha como um dos programas de seu governo a reorganização da oração oficial, encomendou ao espanhol Francisco Quiñones, cardeal da Santa Cruz, de Jerusalém, e ex-geral dos franciscanos, o encargo de reformar as Horas, reconduzindo-as, até onde fosse possível, à sua forma antiga e, mantendo-se fiel aos princípios que marcaram o Ofício ao longo do tempo, suprimir pontos complicados e prolixos (de maneira que os clérigos não tivessem mais desculpas para descuidar da Liturgia das Horas).

Quiñones iniciou seu trabalho em 1529 e com a ajuda de Diego Meyla e Gaspar de Castro, terminou sua tarefa em 1534, pouco antes da morte do Papa; mas não o publicou até 1535, acompanhado de um breve do novo Pontífice, Paulo III. O autor o apresentou como um projeto, intitulado: Breviarium romanum ex sacra potissimum Scriptura et probatis Sanctorum historiis, collectum et concinnatum.

A acolhida do clero, em geral, foi muito positiva. As críticas e censuras feitas, no geral pelo teólogos da Sorbone, em Paris, foram levadas em conta pelo cardeal para a segunda edição do seu Breviário, a definitiva, saída em julho de 1536, com uma aprovação de Paulo III que permitia seu uso para a recitação privada por sacerdotes que tinham obtido autorização da Santa Sé. Isso respondia plenamente ao critério usado por Quiñones na sua compilação: ela não devia servir para o uso público, em igrejas, mas só para os clérigos que já estavam obrigados à recitação individual.

Conforme isso, suprimiu todas as partes do Ofício que derivavam sua origem ou tinham em vista o uso público, ou seja, as antífonas, os versículos, os responsórios, as lições breves e os capítulos, conservando apenas alguns hinos e uma parte das antífonas dos noturnos das Matinas.

Em relação à estrutura do novo Breviário, podemos destacar:

a) Uma nova distribuição dos Salmos, de maneira que em cada semana se pudesse recitar o saltério inteiro sem nenhuma repetição. Para isso, em cada hora canônica, não excluídas as Matinas, havia apenas três Salmos; mas nas Laudes, em lugar do terceiro Salmo, se devia ler um cântico. Segundo a tradição, o cântico das Laudes era o Benedictus, o das Vésperas o Magnificat e os das Completas o Nuc dimittis. Finalmente, tanto nas festas de Nosso Senhor quanto nas da Santíssima Virgem, embora de primeira classe, se deviam recitar os Salmos assinalados no saltério para o dia em que caia a comemoração. Assim, por exemplo, se a Assunção cai numa sexta-feira, nas Matinas se dizia os Salmos 21 (Deus, Deus meus, respice…), o 68 (Salvum me fac) e o 70 (In te speravi…), que expressam as tristezas e amarguras da Paixão.

b) A reforma das lições da Sagrada Escritura, de modo que se lessem no curso do ano todos os livros ao menos em suas partes principais. Desse modo, as lições, mesmo reduzidas a três, no único noturno, eram bem maiores que as do futuro Breviário tridentino. A primeira era tomada do Antigo Testamento, a segunda do Novo testamento e a terceira variava: nas festas dos Santos era algo sobre suas vidas e nos domingos, férias e festas de Nosso Senhor e da Santíssima Virgem era uma leitura dos Padres correspondente ao Evangelho da Missa correspondente. No que se refere as lições históricas dos Santos, o cardeal teve o cuidado de descartar tudo quanto tinha sabor de lenda, levando em conta o estado da crítica histórica no seu tempo.

c) A abreviação do Ofício, de modo que sua duração, no máximo possível, resultasse uniforme em cada dia da semana (a antiga Liturgia das Horas era muito maior no domingo). Para tanto suprimiu uma série de coisas, mas eu não posso relacionar quais pois não entendi a colocação sobre isso na fonte em que estou pesquisando (M. Righetti, Historia de la Liturgia. Tomo I. Madrid, BAC, 1955, n. 349, pp. 1144-1147). Quem puder, pode tentar:

Abrevió el oficio, de manera que su duración, en cuanto fuese posible, resultase uniforme en cada día de la semana, porque el antiguo oficio era mucho más largo el domingo que los otros días de la semana. Suprimió los salmos y los oficios adicionales, substituyendo al pequeño oficio de la Virgen una simple conmemoración, y al oficio de los difuntos, la fórmula todavía en uso: Et fidelium animae…

A boa acolhida do Breviarium Sanctae Crucis pode ser atestada pelo fato de que, entre 1536 e 1558, quando Paulo IV proibiu sua reimpressão, ele teve mais de 100 edições, com milhares de cópias cada. Essa grande aceitação se explica, especialmente, pela elegância da forma, que o fazia aceitável pelos mais calorosos humanistas, e por sua brevidade, que, por um lado, o tornava compatível com a tibieza de muitos, e, por outro, não desagradava aos piedosos que tinham pouco tempo disponível devido aos deveres de seu ministério. O Breviário de Quiñones contribiu para fazer ainda mais freqüente entre os sacerdotes a recitação privada do Ofício (mesmo que não tenham faltado catedrais e mosteiros que o adotaram para a recitação colegial).

Todavia, é preciso reconhecer que pessoas sábias e experimentadas não dissimularam sua reprovação, como Domingo Soto e Juan de Arce, consultores do Concílio de Trento. Para eles o novo Breviário continha uma reação demasiada às venerandas tradições que a oração litúrgica da Igreja seguia a mais de 12 séculos. Além disso, o critério adotado por Quiñones (sugerido, diga-se de passagem, por Clemente VII) de propor um formulário de oração para o uso privado, parecia que tirava da recitação particular seu caráter oficial – o que era uma crítica infundada, pois um Breviário, seja que forma assuma, é oração pública da Igreja devido a delegação que ela dá a seus ministros.

Com a reforma piana, que aboliu qualquer rito da Missa ou versão do Ofício com menos de 200 anos, a obra do cardeal Quiñones foi abandonada, mas influenciou a Oração Matutina e a Vespertina do clássico Livro de Oração Comum anglicano (versão brasileira de 1950):

Ordem para a Oração Matutina

Ordem para a Oração Vespertina

Breviarium Pianum

Como a obra de Quiñones encontrou a resistência descrita, a questão da reforma do Breviário ficou em aberto, mas alguma tinha de ser feita (tanto que as propostas mais ridículas possíveis, em especial vindas dos “humanistas”, ganharam certo destaque – como uma que pedia a substituição das leituras dos Padres pela dos autores clássicos), seja pelos motivos que eu já citei ao longo desses posts, seja porque o santoral continuava a crescer, obscurecendo a centralidade dos mistérios da vida de Cristo no Ofício.

Desse modo, São Pio V, em 1568, de acordo com a reforma proposta pelo Concílio de Trento, impôs um novo Breviário universalmente (só respeitando, como já foi dito, os existentes a mais de 200 anos). A comissão que formulou o novo esquema do Ofício se guiou pelos seguintes princípios:

1) Não inventar um novo Breviário.

2) Ser guiada pela tradição eclesiástica.

3) Manter tudo de bom que foi adicionado ao longo do tempo, mas, ao mesmo tempo, corrigir os inúmeros erros que levantavam tantas reclamações.

Seguindo essas linhas, a nova Liturgia das Horas foi caracterizado pela redução do calendário, da hora da Prima, das preces e dos ofícios suplementares e que, com as inovações da imprensa, teve rápida difusão. O Saltério, foco do Ofício, foi valorizado novamente (da maneira que estava a recitação semanal era quase impossível e certos Salmos nunca eram recitados) e as legendas dos Santos e as homilias foram cuidadosamente revisadas.

Com o passar dos séculos, o Breviário tridentino passou por pequenas modificações.

A principal delas começou durante o pontificado de Sixto V (e terminou sob Clemente VIII), consistindo na mudança dos textos bíblicos, que adotaram a Vulgata revisada, e emendas nas rubricas: ao Comum dos Santos foi adicionada a das Santas Mulheres não Virgens, o rito de certas festas foi alterado e algumas festas adicionadas. A Bula Cum Ecclesia que aplicou as alterações é datada de 10 de maio de 1602.

Outro conjunto de mudanças foi promovido por Urbano VIII. Ele nomeou uma comissão que revisou as lições e homilias segundo os manuscritos mais antigos. Até aí tudo bem, só que esse Papa acabou indo muito além, pois, como humanista e poeta, ele considerava o Breviário com um estilo trivial e uma prosódia irregular, e acabou decidindo por uma grande revisão gramatical (segundo os parâmetros clássicos) e métrica. As correções feitas pelos puristas de sua equipe (no geral, jesuítas) chegaram ao número de 952, alterando profundamente o caráter de alguns hinos que, embora ganhassem um estilo mais literário, perderam boa parte de seu antigo charme e fervor.

Essa revisão acabou sendo muito criticada, pelo desrespeito aos antigos textos, como se a pureza gramatical pudesse substituir o sabor do latim expressado por um Ambrósio, Prudentius, Sedulius, Sidonius Apollinaris, Paulinos de Aquileia ou Venantius Fortunatus. E até o latim mais bárbaro de um Rhabanus Maurus tem sua razão de ser.

Qualquer semelhança com as opções de certas “reformas” pós-Vaticano II não é mera coincidência.

O estrago só não foi maior porque os revisores, ao se depararem com um número imenso de hinos que para eles tinham pouco valor poético (o interessante é que os progressos na filologia demonstraram que os hinos “corrigidos” seguiam regras rítmicas, só que, na época, elas ainda não tinham sido sistematizadas – um claro exemplo do que o formalismo pode fazer com a liturgia), mas já eram lugar comum na cultura católica, decidiram por uma via média, não os eliminando ou substituindo.

Nada foi feito após Urbano VIII, a não ser a adição de novos ofícios, fazendo, novamente, a comemoração dos Santos ganhar espaço.

Todavia, entre ele e a reforma de São Pio X encontramos uma grande confusão que passarei a abordar em seguida.

Breviários de espírito galicano e/ou jansenista

Na metade do século XVIII, encontramos outra tentativa de reforma ampla.

Inicialmente, o Breviário romano revisado por São Pio V foi recebido na França sem oposição. Contudo, no reinado de Luiz XIV, o espírito de resistência e antagonismo a Roma inspirou idéias tendentes a modificar o Ofício. Elas vieram dos partidos que faziam profissão pública do galicanismo e do jansenismo (que não são a mesma coisa) e, deve-se ressaltar, não eram de todo negativas (numa perspectiva objetiva).

Um dos primeiros esquemas modificativos foi o do chamado “Breviário de Paris”, publicado em 1680. Nele a história dos Santos e as homilias foram corrigidas e muitas outras partes sofreram pequenas alterações. Em 1736 a diocese de Paris lançou outro Breviário (que ficou em uso até a metade do século XIX), fruto do trabalho (pelo menos em parte) de jansenistas e influenciado pelo de Quiñones. Embora tal versão do Ofício não pretendesse ser ideal, acabou relegando muitas tradições litúrgicas.

Em outras dioceses da França breviários produzidos com os mesmos pressupostos foram postos em uso.

A baderna francesa teve reflexo em outros países (Itália e Alemanha).

Uma reação a tudo isso surgiu entre 1830 e 1840, inspirada pelo trabalho do eminente liturgista D. Guérranger, Abade de Solesmes, que, nas suas Instituições Litúrgicas, expôs os erros de construção desses breviários e provou que seus autores agiram sem mandato. Os argumentos apresentados tiveram tanto sucesso que, em 20 anos, um grande número de dioceses deixou de usar sua Liturgia das Horas galicana: em 1791, 80 dioceses tinham abandonado a liturgia romana; em 1875 Orléans foi a última a voltar ao uso romano.

Fora da França também teve lugar um processo semelhante de volta à unidade litúrgica.

Em Roma

Enquanto jansenistas e galicanos criavam uma nova liturgia, Bento XIV, seguindo e exemplo de seus antecessores, determinou uma reforma cuidadosa do Breviário. Para isso uma congregação especial foi instituída, mas, embora o trabalho dela tenha sido de reconhecido valor (servindo de parâmetro para estudos futuros), na prática, deu em nada. Pio VI, Pio IX e Leão XIII também tentaram, sem sucesso, colocar a reforma do Ofício como objetivo de seus reinados.

Só São Pio X conseguiu efetivar esse intento.

A reforma de São Pio X

Dentro desse quadro, ao sucessor de Leão XIII pareceu que o tempo da reforma tinha chegado.

Pela Constituição Apostólica Divino Afflatu, de 1 de novembro de 1911, São Pio X fez uma mudança no Saltério do Breviário Romano. Os Salmos foram impressos juntos e distribuídos de maneira que possam ser recitados ou cantados a cada semana (quando muito longos, foram divididos, para que cada dia do Ofício tenha aproximadamente o mesmo número de versos). Desse modo, restaurava-se o uso original da Liturgia das Horas romana, novamente alterado pelo crescimento das comemorações dos santos desde o tridentino, que fazia alguns salmos serem recitados raramente.

As porções do Ofício que requerem rubricas, ao invés de serem impressas junto com os Salmos, como os invitatórios, os hinos para as diferentes épocas, bênçãos, absolvições, capítulos, sufrágios, preces dominicais, o Benedictus, o Magnificat, o Te Deum, etc., passaram a ter um lugar próprio sob o nome de Ordinário.

Infelizmente, a reforma não pôde ser completa e uma comissão especial foi formada para o exame do calendário, a revisão histórica das lições, a retirada das lições não autenticadas, a correção dos textos, novas rubricas gerais e um Comum para certas classes de santos, como os confessores, santas mulheres e outros, em ordem a comemorar todos num dia, ao invés de um dia para cada.

Mudanças pós-São Pio X e até o Ofício Paulino

Entre essa última reforma e a Liturgia das Horas do rito de Paulo VI uma série de modificações (em especial sob João XXIII) ocorreu no Ofício romano tradicional (elas são muito criticadas pelos tradicionalistas mais radicais que, até hoje, usam o Breviário segundo as rubricas de São Pio X).

Primeiramente, em 1945, no reinado de Pio XII, uma nova versão do Saltério latino, feito pelo Pontifício Instituto Bíblico, foi difundida. A recepção dela foi péssima, tanto que alguns editores adotaram a tal versão e outros não (em livros maiores, como num Pontifical da metade dos anos 50 que tive em mãos, os Salmos foram publicados nas duas versões, em colunas paralelas, para o celebrante escolher a que lhe agradava mais).

No que se refere ao reinado de João XXIII, podemos destacar as seguintes modificações:

1. Redução das Matinas a três lições na maioria dos dias. Isso reduziu em 1/3 as porções da Sagrada Escritura, 2/3 das vidas dos Santos e boa parte dos comentários dos Padres (as Matinas, é claro, formavam uma boa parte do Ofício).

2. Substituição de formulas eclesiásticas por fórmulas de estilo escriturístico.

3. Remoção das festas dos Santos do domingo. Das 32 que a reforma de São Pio X previa, apenas nove ficaram (duas de São José, três de Nossa Senhora, a de São João Batista, a dos Apóstolos São Pedro e São Paulo, a de São Miguel e a de Todos os Santos).

4. Preferência do ofício ferial sobre as festas dos Santos. João XXIII suprimiu 10 festas do calendário (onze na Itália, com a festa de Nossa Senhora de Loreto), reduziu a classificação de 29 festas e transformou 9 festas em simples comemorações (assim, o ofício ferial podia tomar precedência). Quase todas as oitavas e vigílias foram abolidas e outros 24 dias em memória de Santos foram substituídos pelo ofício ferial. Com as novas regras para a Quaresma (que só manteve as festas de primeira e segunda classe) nove festas (como a de Santo Tomás de Aquino, a de São Gregório, São Patrício, São Gabriel, etc) , embora no calendário, nunca eram celebradas.

5. Vários milagres foram retirados da biografia dos Santos e várias festas foram supressas por não se adequarem à chamada crítica histórica.

6. Uma das duas festas da Cátedra de São Pedro foi abolida (18 de Janeiro), bem como a oitava de São Pedro.

7. Reforma da quinta-feira santa, da sexta-feira santa e do sábado santo (mas não sei os detalhes).

8. As rubricas de João XXIII obrigavam o sacerdote, quando recitando em privado, a dizer Domine exaudi orationem meam ao invés de Dominus vobiscum.

9. Fim das longas petições chamadas preces e de alguns outros elementos como as Antífonas de Nossa Senhora e o Credo Atanasiano.

Como se pode notar, as reformas de João XXIII procuraram deixar o Breviário mais curto e sem repetições. Alguns críticos dizem que isso é um sinal da influência do liturgicismo, que refletiria os parâmetros anteriormente rejeitados de Quiñones e dos breviários galicanos e jansenistas . Todavia, como vimos, uma linha de reflexão que observa no tamanho desmedido do Ofício um desvio de seu sentido original é algo constante na vida da Igreja (o que ocorre é que, talvez, João XXIII tenha passado dos limites).

A Reforma do Ofício após o Vaticano II

Para entender a reforma que o Concílio Vaticano II pediu para o Ofício e o que, de fato, foi feito, a leitura dos seguintes documentos é imprescindível:

1. Sacrosanctum Concilium (de 4 dezembro de 1963), capítulo IV, artigos 83-101.

2. A Constituição Apostólica Laudatis canticum (de 1 de novembro de 1970).

3. A Instrução Geral sobre a Liturgia das Horas.

Em primeiro lugar, devemos notar que o Vaticano II tinha em vista uma revisão do Ofício que levasse em conta uma pessoa engajada num trabalho pastoral ativo, que não celebra as Horas num coro.

Levando isso em conta e remetendo ao que falei no começo deste estudo, é bom saber que durante o Concílio duas tendências entraram em confronto: uma (representada especialmente por bispos do “Terceiro Mundo”) que pretendia a valorização do modelo eclesial (que possui um ethos instrutivo) e outra que, admitindo modificações, não abria mão do modelo monástico (de caráter eminentemente cultual). Os beneditinos, a despeito de seu número reduzido, conseguiram que o modelo monástico fosse mantido como parâmetro para toda a Liturgia das Horas (com seus agradecimentos e intersessões); um Ofício cultual foi considerado a melhor ferramenta apostólica.

Sendo assim, a noção de santificação de vários momentos do dia foi mantida, embora a Prima tenha sido abolida, as Matinas (vigílias) terem se transformado no Ofício de Leituras (que, fora do contexto monástico, pode ser recitado a qualquer hora do dia) e das três “Horas Menores” apenas uma poder ser escolhida (isso, também, fora de um contexto monástico). Os “momentos” obrigatórios, portanto, passaram de oito para cinco (só que um pode ser recitado quando for mais conveniente).

Agora, o partido em favor do modelo eclesial não perdeu totalmente, pois as Laudes (oração da manhã) e as Vésperas (oração do anoitecer) foram valorizadas. A oração da manhã celebra as duas criações, a segundo a natureza e a segundo a graça; a do anoitecer reflete sobre a presença de Deus na nossa vida. Essas duas horas foram chamadas “os dois polos do Ofício quotidiano” (SC 89a).

Seguindo, ainda, a via monástica, a reforma pós-conciliar manteve a abrangência de todo o Saltério no Ofício (no modelo eclesial é evidente que isso não se dá), só que, fugindo do uso romano, o novo ciclo é de quatro semanas. Desse modo, nem uma hora tem mais de três Salmos ou três seções de um Salmo (no Breviário tradicional podem ser até cinco).

Uma grande atenção foi dada à seleção e distribuição das porções da Sagrada Escritura (retirados da Neo Vulgata) , bem como aos escritos dos Padres e de outros autores eclesiásticos.

O destaque da Escritura é mais um ponto de contato com o modelo monástico, visto que os monges sempre possuíram uma leitura contínua da Bíblia junto à Liturgia das Horas. No Ofício de Leituras temos uma boa oferta de trechos bíblicos e há um suplemento opcional (não sei se existe em português) que estabelece um ciclo bianual de leituras de passagens bíblicas que raramente encontramos na liturgia.

Já os textos dos Padres e dos outros autores que dedicaram suas vidas a edificação da Igreja militante, e que possuem um inestimável valor catequético, litúrgico, poético, místico e pastoral, sofreram um aumento cuidadoso e passaram a incluir uma quantidade maior de autores orientais.

Os hinos também foram revisados e, em muitos casos (em latim), restaurados à sua forma pré-Urbano VIII (embora alguns deles tenham sido encurtados).

Em relação à vida dos Santos, o conteúdo foi revisado segundo os padrões históricos vigentes nos nossos dias (para alguns, aqui houve uma abertura ao naturalismo).

Como dissemos, agradecimentos e intersessões são a base do Ofício, mas o elemento contemplativo não foi esquecido. No que se refere aos Salmos, por exemplo, o título de alguns deles (como o 86) e o versículo do Novo Testamento que os acompanha foram cuidadosamente escolhidos para incentivar a meditação. O mesmo se diga da manutenção das antífonas e da pausa opcional após a recitação de um Salmo. A oração que muitas vezes segue um Salmo acompanha esse esforço de incentivo a reflexão; ela tem origem numa prática dos monges orientais que, após a recitação, prostravam-se em silêncio, para adicionar a contemplação à sua oração vocal, o silêncio, então, era quebrado por uma pequena oração que vinculava o Salmo recitado ao Mistério de Cristo e/ou da Igreja.

Por fim, como novidades temos as orações de intercessão que acompanham as Laudes e as Vésperas e a oração do Pai Nosso ao final delas (com várias maneiras de ser introduzida), o que, junto com a oração na Missa, promove a repetição do Pai Nosso três vezes ao dia, uma prática da Igreja primitiva.

Comentário

A reforma pós-Conciliar do Ofício foi feliz em vários pontos, em especial na recuperação de um maior número de leituras dos Padres e da Escritura, perdidos pelas mudanças de João XXIII, e por buscar mecanismos que ajudam sua recitação pelo fiel comum (eu, particularmente, acho que ela podia ainda ser mais simples).

Por outro lado, a crítica histórica na vida dos Santos, a tradução da Neo Vulgata (que, mesmo em latim, para muitos, tornou o texto de vários Salmos efeminados e politicamente corretos) e o ciclo mensal do Saltério são modificações que, no mínimo, devem ser melhor discutidas.

Conclusão

Ao longo da História vimos como, na “consciência da Igreja”, a importância do Ofício nunca deixou de ser lembrada (mesmo quando isso só tinha um valor formal) e também notamos como certos problemas se repetem pelos séculos.

Agora, com a convivência, no Ocidente, de duas grandes versões Ofício adaptadas à mentalidade moderna (a tradicional, segundo as rubricas de João XXIII, e a pós-Vaticano II – pelo menos oficialmente pois, como disse, o Breviário de São Pio X tem muitos entusiastas), acho que não há desculpa para que um trabalho pastoral que vise sua divulgação não seja feito.

Bibliografia

Só para se ter uma idéia, sem seguir nenhuma regra da ABNT:

A Liturgia na Igreja, Julian Lopez Martin (Paulinas).

Breviarium Romanum ex decreto Sacrosancti Concilii Tridentine, pars aestiva, 1922 (Ratisbonae).

Enciclopédia Católica (Catholic Encyclopedia) 1917: verbete Breviary e Reform of the Roman Breviary.

Enciclopédia Católica (Catholic Encyclopedia) 1967: verbetes Quinõnes, Francisco; Roman Divine Office e Roman Breviary.

Historia de la Liturgia, Tomo I, M. Righetti, 1955 (BAC) in Enciclopédia Franciscana: verbete Francisco de Quiñones.

Liturgia diária das Horas, setembro de 2008 (Paulus).

Liturgical Revolution, Pe. Francesco Ricossa (The Roman Catholic, February–April 1987)

Liturgy of the Hours, dia 2 de outubro, 3:23h.

Livro da Oração Comum

Missal Quotidiano e Vesperal D. Gaspar Lefebvre, 1936 (Desclée de Brouwer & Cie).

Some Essential Elements of the Vatican II Renewal of the Liturgy of the Hours, Rev. Sam Anthony Morello, O.C.D., STL, 1983.

The Divine Office — Its History and Development

The Saint Mark´s Lion (unofficial news letter of Saint Mark´s Parish, Denver, Colorado – uma paróquia ortodoxa de rito ocidental pertencente à Igreja Ortodoxa Antioquena ) maio de 2003, volume CXXVIII, nº 5.