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O governo e a AIDS

Texto do confrade Karlos:

Carnaval é um período interessante. Ele nos preenche de qualquer jeito! Mesmo que não queiramos “brincá-lo”, somos obrigados a assisti-lo na TV. Não há jeito, ele é quase onipresente – infelizmente. Não percebem os responsáveis pela programação das emissoras que, quem não está na folia, é porque não gosta de carnaval e prefere qualquer coisa a assistir carnaval? Na verdade, nem quem gosta dos dias de Momo, se deleita em ver carnaval pela TV.

Despois do desabafo, vamos ao outro, o mais importante. Há quem diga que o governo esta preocupado com a disseminação da AIDS entre os cidadãos. Será mesmo? A única campanha do governo “contra” a AIDS é: “USE CAMISINHA. SE PROTEJA”. Mas será que a lógica recomendaria isso?

governohivUma revista de circulação nacional, uma “referência” em notícias científicas publicou que não é por esse meio que se combate a AIDS. Mas, impressionantemente, é através do que a Santa Igreja prega. Essa notícia pode ser vista aqui. E também foi divulgada aqui e em outros blogs.

A campanha do governo de combate à AIDS se identifica com os seguinte: uma pessoa vai ao Serengeti (região da África onde mamíferos selvagens, como leões e elefantes vivem livremente) e um conhecido lhe diz: “Para você se defender dos leões, leopardos, guepardos, hienas, elefantes, hipopótamos leve uma espingarda”.

Meus caros, não seria muito mais sensato dizer: “Não vá por lá, pois que é extremamente perigoso”? É evidente. Qualquer um diria isso. Por isso o Papa está mais que certo, certíssimo! E como não estaria, se ele apenas disse o que nos ensina o Depósito?

Como o governo quer combater a AIDS e outras doenças e a maternidade irresponsável dizendo: “Transe quanto quiser, mas use preservativo”? E se ele falhar? E se não o usar? A melhor campanha, de fato, não seria: “Cuidado com a promiscuidade. Seja fiel a seu esposo (a)”.

Claro que não estou falando que o governo não deve distribuir os preservativos. Mas o enfoque da campanha não dever ser no seu uso, mas em não precisar usá-lo! Do mesmo jeito que a Doutrina nos ensina. Do mesmo jeito que a melhor maneira de não ser atacado por um leão é não andar em seu habitat.

Por isso me pergunto, o governo realmente quer combater a AIDS?

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Quebrando mitos no paraíso sueco

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Consulta sobre o integralismo

Vários anos atrás, entre o final de minha adolescência e o começo da juventude, como expressão de meu patriotismo, fiquei atraído pelo integralismo e cheguei a fundar um pequeno grupo que estudava os escritos de Plínio Salgado. Isso ficou no passado. Hoje, por mais contraditório que pareça, diria que estou em algum lugar entre o carlismo (ou o integralismo lusitano) e o liberalismo, mas, mesmo assim, achei o texto que segue abaixo (de Lúcio José dos Santos – Panorama, ano I, número 12, 1937) interessantíssimo, pois além de lançar luzes sobre as relações desse tão incompreendido movimento político brasileiro com o catolicismo, ainda mostra como certas interpretações sobre a questão da liberdade religiosa não são novidades surgidas das tentativas de harmonizar o Vaticano II com o ensino tradicional da Igreja, mas já eram correntes na primeira metade do século passado.

Lúcio José dos SantosPerguntas

I. O conceito filosófico e jurídico do Estado, professado pelo integralismo, não colide, nem essencial, nem acidentalmente, com a doutrina definida pela Igreja e poderá um católico, “tuta conscientia”, admiti-lo?

II. O sistema de organização social, propugnado pelo integralismo, responde ao exposto em documentos pontifícios, máxime na Rerum Novarum e Quadragesimo Anno – ou, pelo menos, nada haverá naquele sistema, que entre em conflito com a doutrina social da Igreja? O corporativismo integralista aparta-se, em ponto essencial, do corporativismo de base cristã?

 

 III. Pode um católico, “tuta conscientia”, admitir – como quer o plano integralista – a hipótese da concordata, exigindo-a em tese, e abandonando, de vez, a tese da união da Igreja com o Estado? Pode, ainda, um católico admitir, implicitamente, uma vez que se faça integralista, o princípio da liberdade de cultos, condenado pelo Syllabus? Em suma, nada haverá na doutrina integralista, nos manifestos e planos do Chefe Nacional (v.g. o manifesto-programa de 27 de janeiro de 1936), que explícita ou implicitamente, se encontre entre as proposições condenadas pelo Syllabus?

IV. Em seu livro Humanismo Integral, Jacques Maritain cataloga o fascismo e o nazismo, na mesma linha do comunismo, dizendo que têm, todos, suas raízes na negação dos valores espirituais da Igreja, e que o totalitarismo, seja qual for, contrariará a ideologia cristã. Haverá no integralismo algo que mereça a censura de Maritain?

 

Respostas

 

Antes de responder diretamente à consulta, farei algumas observações preliminares.

 

A) Falo, aqui, exclusivamente em meu nome individual, não tendo autoridade para falar em nome dos católicos nem dos integralistas. Estou pronto a emendar o meu modo de ver, aqui externado, se em contrário se manifestar a Igreja. Além disso, exponho a compreensão, que faço do Integralismo; reconheço, porém, um Chefe Nacional, e este poderá dizer, se bem apreendi o Integralismo ou se me engano.B) Há grande número de sacerdotes integralistas, sem falar no de simpatizantes com ele. Já tenho ouvido, de bispos, declarações favoráveis ao Integralismo.

Não haveria já tempo de serem os católicos premunidos pela autoridade religiosa competente, se errados?

Certamente, em todos os tempos, tem sido a Igreja de grande paciência e longanimidade, mesmo em relação a grandes heresias, tolerando, admoestando, convidando à abjuração, e, só depois de esgotados todos os meios suasórios, condenando definitivamente. Esse, porém, não é o caso do Integralismo. A sua doutrina é bem clara e já está sendo bem conhecida. Os católicos vão aderindo, sem que tenham sido censurados e nem mesmo admoestados pela autoridade competente.

Não é já uma forte presunção em favor do Integralismo, no ponto de vista religioso?

C) Estamos vendo condenarem-se no Integralismo coisas que se aceitam ou pelo menos toleram nos outros partidos. O Integralismo não é composto de anjos e nem pretende realizar o Paraíso na Terra.

A tomar o Syllabus no sentido rígido, a meu ver, errôneo, que se lhe quer dar, deveriam os católicos excluir-se da vida pública no Brasil. Ora, o pensamento da Igreja, como direi mais adiante, não é esse, e nem seria possível que só em relação ao Integralismo, se enchessem de escrúpulos os católicos.

Passarei a tratar dos quatro itens em conjunto.

1. A Igreja tem por missão essencial conduzir os homens à salvação eterna, e, para isso, oferece-lhes uma doutrina – a doutrina de Cristo. O resto é secundário.

A Igreja não condena regime político algum, qualquer que seja a sua forma, desde que se respeitem os princípios fundamentais da organização social cristã, os princípios em que se assenta a concepção cristã de vida.

Na Encíclica Immortale Dei, de 1° de novembro de 1885, Leão XIII, depois de mostrar a origem da sociedade e de demonstrar que a soberania vem de Deus, acrescenta: “Em si mesma a soberania não está ligada a forma alguma política – podendo adaptar-se perfeitamente a esta ou aquela, desde que seja apta para a utilidade e o bem comum”.

2. A sociedade procede da ordem natural das coisas; ora, esta repousa sobre a vontade de Deus; certo é, pois, que o Estado, ou antes, a autoridade do Estado tem como fundamento a vontade de Deus. A sociedade, portanto, repousa diretamente sobre a natureza e indiretamente sobre a vontade de Deus.

O cristianismo afirma a existência de uma vida social, organizada sob uma autoridade e orientada para um bem comum, segundo a ordem natural das coisas, com fundamento na vontade de Deus.

Assim, pois, a sociedade não é o produto da vontade do povo, nem de um contrato, nem de um mero arbítrio. A sociedade não é uma forma de vida, artificialmente estabelecida, ao modo de um mecanismo; ela é um organismo, que resulta certamente de uma atividade fundada sobre leis naturais, mas dotado de uma finalidade própria.

3. Se a existência de uma sociedade é assim fundamentada, o mesmo não acontece à sua forma política. Esta forma tem sido assunto das cogitações e controvérsias de filósofos, historiadores e políticos. Ela depende essencialmente das circunstâncias, e será tanto melhor quanto melhor possibilitar aos homens a efetivação dos seus verdadeiros destinos.

Não há, pois, uma forma do Estado apoiada e reclamada pela Igreja. Dever-se-á apenas exigir, no ponto de vista católico, que o objetivo último e superior dos governos seja o subordinarem-se aos grandes temas da História, como são os mesmos desvendados pela relevação (J. Steffes: Religion und Politik, e Die Staatsauffassung der Modernen).

Nenhuma das encíclicas – Rerum Novarum e Quadragesimo Anno – apregoa ou recomenda uma organização social modelo.

De um certo modo, pois, e feitas essas observações, não será erro dizer, que a Igreja não possui propriamente um conceito filosófico e jurídico do Estado, com o qual possa outro colidir.

4. Isso, porém, não impede que, em determinadas épocas, possa a Igreja considerar tais organizações do Estado preferíveis a tais outras.

De fato, da doutrina da Igreja se deduzem meios sociais, que sejam preferíveis por mais consentâneos com o fim primordial do homem. Analogamente, dadas as circunstâncias de tempo, de meio, de raça, pode ser preferível uma determinada forma política.

A Igreja, porém, não propõe soluções imediatamente práticas, no domínio da política, da economia, da técnica, ou em qualquer outro.

Referindo-se ao parlamentarismo, disse Pio XI que a doutrina da Igreja não condena essa instituição política, como não condena quaisquer outras, desde que sejam conformes ao direito e à razão, sendo, porém, manifesto que se presta, mais do que outras, ao jogo desleal das facções.

Em conclusão, a Igreja deixa liberdade para a escolha entre os regimes políticos, respeitadas as leis divinas e humanas; mas, reclama o direito de manifestar-se sobre tais formas, porque depende da lei moral e porque, na ordem providencial, são outros tantos meios, que podem ajudar o homem a atingir o seu fim, que é a vida eterna, ou deste o afastar.

Em consciência, não posso ser comunista, mas não sou obrigado a dar preferência à monarquia sobre a república, se ambas respeitam os princípios cristãos.

5. De outro lado, jamais se identificou a Igreja com um regime político, por mais íntima que tenha sido a sua união com ele. Nenhuma época histórica conseguiu ainda realizar integralmente o cristianismo, em todos os seus modos de sentir, pensar e agir.

Assim, pois, mesmo aderindo a um regime político, porque lhe pareça mais de acordo com sua convicção religiosa, não deve o católico identificá-lo com a sua religião.

Por melhores que nos se afigurem, podem os regimes políticos deixar de corresponder às necessidades e problemas que vão surgindo.

6. O integralismo afirma a existência de Deus e a imortalidade da alma. Compreende a família e a autoridade segundo os ensinamentos cristãos. Reconhece, no homem, “uma tríplice aspiração – material, intelectual e moral”. É contra os ódios e as lutas de classe. Para ele a sociedade é “a reunião de seres humanos, que devem viver em harmonia, segundo os destinos superiores do homem”. No entender dele, a nação é “como uma sociedade de famílias, vivendo em determinado território, sob o mesmo governo, sob a inspiração das mesmas tradições históricas e com as mesmas aspirações e finalidades”. Para o integralismo, “os elementos morais da nacionalidade são a religião e a família”. O conceito que ele forma da propriedade, é o mesmo de Leão XIII e Pio XI.

Até aqui só encontramos acordo entre o integralismo e a doutrina católica, acordo franco e explícito nos pontos mais importantes e mais graves, nos pontos essenciais.

Mas, o Estado integralista será um Estado corporativo. Que dizer desse corporativismo?

7. Sem ir muito longe, ao grande movimento católico social na Alemanha, principalmente depois de 1848, na Áustria, França, Bélgica, Suíça, etc., vejamos apenas o que há de mais próximo.

Na encíclica Quadragesimo Anno, depois de referir-se ao “vício do individualismo”, fala Pio XI nas associações de classes, nas corporações que o Estado sacrificou e que a prática social deve dedicar-se a reconstituir; e elogia as corporações, lembrando palavras de Leão XIII.

O mesmo Pontífice fala nas vantagens da organização corporativa, como seja a colaboração pacífica das classes, a repressão das organizações e intentos socialistas.

Pio XI combate com energia o erro da economia individualista, de esquecer o lado social e moral do mundo econômico.

Favoravelmente às corporações são também: Leão XIII (na encíclica já citada), Pio X (Breve ao Conde Medolago Albani, a 19 de março de 1904), Bento XV (na carta do Cardeal Gasparri ao Presidente da União Econômica-Social, a 26 de fevereiro de 1915).

Como Estado corporativo, pois, o integralismo está de acordo com a orientação da Igreja.

8. Temem alguns, diz Pio XI, que, na organização corporativa, o Estado se substitua à livre atividade individual e que se torne uma organização excessivamente burocrática, servindo a intuitos meramente políticos. Ai temos mais uma prova da sabedoria do glorioso Pontífice.

Acrescenta ele que, para evitar esse desvio, são necessárias, em primeiro lugar, a bênção de Deus e, depois, a colaboração das boas vontades, desde que seja grande a cooperação das competências técnicas, profissionais e sociais, dos princípios católicos e sua prática.

A Igreja, é ainda Pio XI quem fala, exige apenas que o corporativismo respeite os direitos da personalidade humana, os direitos do cristão, do pai de família e do produtor.

Ora, o integralismo está nitidamente, perfeitamente, dentro desse quadro traçado pelo incomparável Chefe da Igreja.

No integralismo há um regime corporativo integral, abrangendo todas as profissões, menos o clero e a milícia. Os poderes se organizam democraticamente, nos três graus – municipal, provincial e federal -, por eleição corporativa. Quer dizer que o Estado é a resultante das corporações e nenhum interesse pode ter alheio ou contrário a elas. O Estado liberal, ficticiamente, é a resultante da vontade do povo, manifestada em eleições, pelo sufrágio universal. Esse sistema já fez as suas provas e revelou a sua capacidade e impotência. Os eleitos por classes representarão muito mais seguramente os direitos, aspirações e interesses destas.

Portanto, mesmo levando em conta as paixões humanas, é muito menos de esperar que o Estado absorva a atividade individual, no integralismo, que nos regimes vigentes.

O integralismo invoca as bênçãos de Deus; respeita rigorosamente os direitos da personalidade humana; por sua natureza, dá direção às capacidades técnicas, profissionais e sociais; empenha-se pela colaboração das boas vontades e conciliação das classes.

A conclusão é que o integralismo está perfeitamente dentro das condições formuladas por Pio XI.

9. No caso em que se tenha uma organização corporativa paralela a um Estado que não resulte dela e que se tenha organizado de outra forma, compreende-se que esse Estado possa desmandar, agir politicamente sobre as corporações e invadir o domínio da atividade individual. No Estado integralista, isso só poderá acontecer, dadas as contingências humanas, não, porém, como resultado na natureza mesma do regime, o qual, ao contrário, é muito mais propício que qualquer outro a uma perfeita harmonia, porque nele, propriamente falando, o Estado se identifica com a organização corporativa, de que é apenas expressão.

Como diz o Código Social de Malines, a autoridade do Estado deve aplicar-se em fomentar os bens materiais, intelectuais e morais, para o conjunto dos seus membros. Ora, no regime liberal, nada garante que, do voto atômico, do sufrágio universal, resulte no Estado a verdadeira representação daqueles bens e interesses, como é de presumir a esperar na representação corporativa.

10. A idéia da organização corporativa é uma idéia vencedora hoje e se vai espalhando, embora sob modalidades diferentes, sem que contra ela se tenha manifestado a autoridade religiosa. A Igreja entrou em relações com o Estado fascista e com ele resolveu o formidável problema dos estados pontifícios. Certo é, pois, que a Igreja não julga esse Estado, em princípio, contrário a ela. Surgiu um conflito, felizmente dissipado. Esse conflito, porém, não procedeu da natureza do regime, e sim de um modo de ver em determinada direção, e, por isso, pode ser satisfatoriamente resolvido.

11. No regime monárquico, dada a união entre Igreja e o Estado, não tínhamos a liberdade de culto. Dizer que esse regime foi favorável à Igreja, seria desconhecer a realidade. Com a república vieram-nos a liberdade de culto, e, em região mais profunda, a liberdade de consciência, que aliás sempre existiu, a liberdade de imprensa, a liberdade de cátedra, a laicização completa da sociedade brasileira.

Ora, a Igreja condena essas liberdades, como se vê pelo Syllabus. Entretanto, a Igreja aceitou esse regime no Brasil, entrou em relações com ele e não vedou e nem mesmo censurou que os católicos fizessem parte das organizações partidárias que têm surgido, nem que colaborassem com o governo ou mesmo neste figurassem.

Há, pois, necessidade de um exame detido sobre o assunto, antes de condenar o integralismo porque aceita a liberdade culto e o regime de concordata, em vez do regime da união entre a Igreja e o Estado, com todas as suas conseqüências.

12. Preliminarmente devo dizer, que abraço a opinião de muitos, no entender dos quais, o Syllabus é um ato autêntico de Pio IX, obrigando universalmente os fiéis, não, porém, uma definição ex-cathedra (D´Alés: Dictionnaire Apologétique de la Foi Catholique. – Art.: SYLLABUS) como nas definições dogmáticas.

A multiplicidade de religiões jamais será um bem, diz Mgr. Bougaud. Melhor será que todas as almas tenham um só Deus, uma fé, um batismo, uma Igreja, um caminho para a eternidade. Se, pois, a liberdade de culto é estabelecida como uma glorificação da multiplicidade de cultos; se a sociedade declara que concede a todos os cultos a liberdade porque se equivalem, porque são todos igualmente verdadeiros, sendo, portanto, indiferente que se adote este ou aquele ou nenhum, essa liberdade é inaceitável. É nesse sentido que a Igreja condena a liberdade religiosa.

As coisas, porém, não se passam assim. A liberdade de cultos impôs-se como necessidade resultante de circunstâncias, contra as quais foram impotentes os esforços humanos.

Aceitar, pois, a liberdade de cultos como um mal irremovível, de fato, e não como um princípio que se deva sustentar e defender, não é contrário à doutrina da Igreja (Le Christianisme et les temps presents).

Essa distinção entre o princípio e o fato não é meramente escolástica; tem, ao contrário, grande importância prática. Se o Estado reconhece, em princípio, a liberdade de cultos, ele renuncia, ipso facto, a quaisquer meios, procedimentos e intervenções no sentido de fomentar e favorecer a propagação da verdade religiosa, segundo a crença católica, no ensino, na sociedade, na catequese, etc., e dar à Igreja todo o prestígio a que ela tem direito.

A liberdade religiosa, de fato e não de direito, pode e deve significar, que se reconhece existir uma só religião verdadeira, tolerando-se as outras para evitar o mal maior.

Nesse sentido a liberdade de culto não é condenada pela Igreja.

13. As mesmas considerações poderemos, seguindo Mgr, Bougaud, aplicar à liberdade de consciência.

Na realidade não há liberdade de consciência para o indivíduo, diante de Deus. Em presença da verdade e do erro, do bem e do mal, conhecidos, revelados, não há direitos de escolha. Diante, pois, de Deus, que é a fonte, e da Igreja, que é a depositária infalível da verdade, não pode haver liberdade de consciência. Mas, e diante do Estado? Perguntai à própria Igreja, se o Estado tem direito de oprimir a minha consciência. Ela responderá: não.

Foi Jesus Cristo, quem primeiro afirmou a inviolabilidade da consciência individual.

Se, em certas épocas e em certas condições, pode o Estado dirigir os seus vassalos em matéria religiosa, ele o fez em virtude de uma delegação da Igreja e não em virtude de um direito, que lhe seja inerente. Ora, dada a separação entre a Igreja e o Estado, exigida pelas circunstâncias, como se tem dito, não pode o Estado, isolado, intervir no assunto, e deve proclamar a liberdade de consciência. Uma vez, pois, que há uma grande variedade de religiões, representadas freqüentemente no próprio governo, de que resulta a necessidade do regime da separação, a liberdade de consciência se impõe como necessidade absoluta (Bougaud: Ibidem).

As teses 77 e 78 do Syllabus relativas à liberdade de culto, estabelecem que a existência de um Estado católico se justifica ainda em nossos dias, mas não excluem a permissibilidade de outros estados, dadas outras condições (G. Esser e J. Mausbach: Religion, Christentum. Kirche; III Vol. – Die Kirche und die Kultur).

A Igreja Católica é muito sábia. Em todo o conflito entre ela e a cultura moderna se descobrirá facilmente uma interpretação errônea da doutrina da primeira ou uma compreensão viciosa dos resultados da segunda.

14. Jacques Maritain é um escritor católico de grande merecimento, diante do qual nos curvamos reverentes. Não é, porém, a autoridade necessária no caso. Releva notar, que o ilustre escritor se refere ao fascismo e ao nazismo. São esses os tipos que a Europa tem sob as vistas. O integralismo não é a mesma coisa que aqueles dois regimes; é bastante diferente.

Não descubro no integralismo nada que importe na negação dos valores espirituais da Igreja. Se há, é coisa muito sutil, que escapa à minha compreensão. Chegarei, então, a esta conclusão bastante singular, isto é, essa sutileza escapara ao próprio criador do integralismo, ao Chefe Nacional, católico praticante, e a muitos outros católicos entre as principais figuras do integralismo.

Para mim, muito ao contrário, o integralismo visa uma efetivação maior desses valores espirituais da Igreja, em colaboração íntima com ela.

15. Na citada encíclica Quadragesimo Anno, Pio XI condena tanto o liberalismo absoluto como o estatismo exagerado, sem definir a técnica nem os limites do corporativismo. Diz, ainda aí, Pio XI que duas coisas são necessárias: a reforma das instituições e dos costumes, entendendo-se pela primeira, em especial, a reforma do Estado. Exige, porém, que a reforma do Estado se faça pelos meios legítimos, sem violências; e dos costumes, sobre as bases cristãs.

A meu ver, é precisamente isso que o integralismo tem como objetivo.

16. O argumento principal contra o fascismo era, em França, este: Estado totalitário, praticando a economia dirigida, tutelando as atividades individuais.

Digamos, de passagem, que a animosidade contra o fascismo, se não desapareceu de todo, está muitíssima atenuada em França, depois que o mesmo aí se tornou mais conhecido.

Segundo Jean Giraud, um dos principais redatores da “Croix”, de Paris, a essência do governo totalitário é a identificação do Estado com um partido político ou social, sendo dessa natureza o regime em França.

Efetivamente, é o que se tem visto nos estados liberais, é o que se tem visto no Brasil. O Estado resolveu-se no partido vencedor (e vencedor por que processos!); e esse partido absorve tudo, dominando até as consciências. O Estado integralista só é totalitário no sentido de ser a expressão dos interesses legítimos de todas as classes e profissões, de ser a resultante de todas as forças vivas da nação. O Estado integralista não é totalitário no sentido em que, com tanta mágoa, vê Jean Guiraud praticar-se o apregoado regime liberal democrata em França. No Estado integralista não há partidos; portanto, não existe o perigo de apossar-se do governo, pela força, pela astúcia ou pela corrupção, um partido, para oprimir os outros, para destruir a obra, às vezes grande e nobre do partido que o precedeu no poder, para perseguir quem quer que a ele não se submeta.

No Estado integralista, o poder não é o instrumento de um partido, mas o centro vital do organismo corporativo, não superior a este, pois é parte integrante do mesmo, por ele se exercendo e efetivando assim como, pelo corpo humano, em união substancial, a alma se exerce a efetiva. Servindo-me das expressões escolásticas, poderei dizer que, no integralismo, o Estado é a forma e o organismo corporativo a matéria, em união substancial.

17. No Estado integralista, a economia não é deixada aos azares da livre concorrência, como no liberalismo nefasto, nem dirigida e tutelada, como no comunismo mais nefasto ainda; é, porém, uma economia ordenada, capaz de impedir os excessos que hoje vemos.

Totalitarismo, extremismo da direita e outras designações, que se tem empregado para o integralismo, são inadequadas e injustas, visando apenas torná-lo suspeito.

18. Dizer que o totalitarismo, seja qual for, contraria a ideologia cristã, não é exato. É preciso distinguir. Quem não distingue, confunde.

Foi essa distinção que fizemos, colocando a questão nos seus devidos termos.

Não me parece, em conclusão, que o integralismo algo encerre em contrário à doutrina da Igreja, e que o católico não possa, em consciência, a ele aderir.

Lembrei, por fim, as palavras proféticas de um grande católico social francês, La Tour Du Pin: “A revolução histórica, que fez passar a direção do mestre ao patrão e deste ao capitalista, acabará por passá-la à corporação adaptada aos novos tempos”. Esse sucessor será o integralismo.

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Superpopulação

Nas últimas semanas, quando supostamente a população da Terra atingiu 7 bilhões de habitantes, os defensores do controle populacional voltaram a descarregar seus argumentos na mídia, e, por isso, posto aqui o seguintes vídeos (com legendas) que tratam dessa questão:

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Contrarrevolução Política

O homem, animal político

Ao longo do século passado, os católicos fiéis à Tradição tiveram de lidar com as duas “cabeças de Janus” que atormentaram a humanidade: o totalitarismo coletivista (comunismo marxista, fascismo, nazismo) e o liberalismo. Na verdade, essa batalha só intensificou uma problemática que imediatamente vinha do século XIX, e mediatamente do processo revolucionário iniciado com a “reforma” protestante. Hoje em dia parece que o quadro não mudou, e ainda teremos, neste século que acabou de entrar na sua segunda década, uma continuação do embate entre essas duas falsas posturas (só que agora com outras roupagens – fundamentalismo islâmico e diversidade sexo-cultural).

Por isso, certas escolas de pensamento combativo devem se tornar conhecidas, em especial na nossa pátria. Destaco, entre elas, o tradicionalismo hispânico, que, pelo que pude entender até hoje, é uma filha dileta do carlismo dos requetés de Navarra, com adeptos na Espanha e em países da América Latina de língua espanhola (em especial no Chile, na Argentina e no Uruguai).

Sendo assim, postarei minha tradução do primeiro capítulo do livro El hombre, animal político, de Juan Antonio Widow, um destacado pensador chileno, que lutou contra a subversão marxista no seu país, e contra a recente revolução liberal.

JuanWidow

I – Pessoa e Sociedade

1. A sociabilidade humana

Não se tem notícia da existência de um indivíduo humano que tenha podido viver totalmente privado de vínculos com outros homens. Por isso, para entender o que é a sociedade humana e porque ela existe, deve-se partir da evidência, da observação da realidade. É falsa a perspectiva que toma como ponto de referência a idéia de um ser completo e autônomo, desde o qual se estendem os laços até outros entes autônomos que lhe são semelhantes. A sociedade não é uma espécie de mosaico formado mediante a justaposição harmoniosa de suas partes, tendo essas uma existência anterior à obra resultante, e independente dela. Salvo Adão, não se sabe de um homem que tenha tido uma existência anterior aos vínculos que o unem com seus semelhantes. Salvo Adão, todo homem vem à existência por causa de outros homens, estando assim vinculado a eles pelo fato mesmo de existir, e não por alguma decisão posterior.

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Fascistas são os outros

Na semana passada um confrade da comunidade do Orkut, instigado pelo que ouviu em sala de aula, abriu um tópico questionando sobre as relações da Opus Dei com o “fascismo espanhol”. Logo o debate se direcionou para a questão do conceito de fascismo e, nesse âmbito, transcrevi um texto de Hugo Estenssoro publicado na Primeira Leitura de novembro de 2004 que agora posto aqui:

Fascistas são os outros

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“Fascismo” é um termo que se usa com certa leviandade. Tradicionalmente é um insulto usado pela esquerda para desqualificar toda oposição que ofereça um mínimo de resistência a seu monopólio da virtude. Mas o centro e a direita não se privam de usá-lo. Fizeram-no abundantemente para descrever a violência intolerante das manifestações antiglobalização em vários pontos do mundo. E hoje é comum chamar os terroristas muçulmanos – que contam com apoio explícito da imensa maioria da esquerda – de “islamo-fascistas”.

Parece óbvio que não há flexibilidade lingüística que justifique ambos os usos. A confusão é total e não é nova. Há para isso excelentes razões. Antes de 1914, o simbolismo dos fasces – um machado envolto em varetas que os magistrados romanos usavam como símbolo da autoridade e unidade do Estado – era apanágio da esquerda e do republicanismo francês. Em fins do século 19, foi usado pelos sem-terra italianos e por seus compatriotas da esquerda nacionalista. Um deles, Mussolini, cunhou o termo fascismo para descrever seus seguidores, os sindicalistas revolucionários a favor da guerra. A confusão esquerda-direita aumentou quando os comunistas passaram a chamar de “social-fascistas” os esquerdistas opostos ao stalinismo. Desde então as coisas só pioraram.

Um grande historiador americano de esquerda, Robert Paxton, depois de anos dando aulas sobre o fascismo, chegou à conclusão de que, “quanto mais discutia o tema com os estudantes, mais perplexo ficava”, e decidiu esclarecer suas idéias escrevendo um livro a respeito – The Anatomy of Fascism. Para isso suas credenciais são insuperáveis. Em 1972 Paxton conquistou merecida fama com um volume hoje clássico: Vichy France: Old Guard and New Order 1940-1944. Nele Paxton conseguiu elucidar a polêmica questão sobre se o regime de Viechy era fascista ou não, chegando à conclusão de que o general Pétain tinha presidido de fato sobre um regime meramente autoritário.

Para obter esse resultado contrário à opinião estabelecida, Paxton usou uma metodologia pouco revolucionária: examinou fatos, as ações concretas do regime de Vichy, comparando-as às dos regimes fascistas. No seu novo livro – que não é uma história do fascismo, mas uma tentativa de defini-lo -, faz a mesma coisa: “Procuro descobrir como o fascismo funcionava. É por isso que o foco se concentra com maior detalhe nas ações dos fascistas e não nas suas palavras, ao contrário da prática comum”.

Paxton faz questão de se distanciar, apesar de reconhecer-lhe fidalgamente os méritos, da melhor história do fascismo da atualidade, A History of Fascism, 1914-45 (1995), de Stanley G. Payne. Há nisso uma nítida dose de vaidade universitária. A trajetória de Payne é similar à de Paxton, ganhando a sua reputação com uma história do regime de Franco (1987) que deixa claro que quase nada tinha de fascista. Paxton acredita que, como outros historiadores, Payne toma demasiado a sério os programas e textos ideológicos dos regimes fascistas, o que de certa maneira predeterminaria suas conclusões. Não concordo. Aliás, uma das tendências da historiografia do totalitarismo atual é a que assinala que, se os regimes democráticos da época tivessem lido e tomado a sério os escritos e declarações de Hitler (o caso do falastrão Mussolini é diferente), poderiam ter reagido com maior rapidez e eficácia, poupando milhões de vidas, especialmente no caso do Holocausto. Ademais, o método comparativo de Paxton é radicalmente limitado em suas possibilidades de análise, com a recusa do autor de confrontar o nazi-fascismo com o comunismo. O historiador francês, de origem marxista, François Furet e o polêmico alemão Ernst Nolte são mencionados só de passagem nas notas.

Mesmo assim a dissecação do fascismo de Paxton é brilhante e constitui um indispensável complemento ao livro de Payne. De especial importância, tratando-se de um historiador de esquerda, é a distinção que faz entre os fascismos e o conservadorismo, enterrando definitivamente o mito de que são intrinsecamente identificáveis. A examinar o fascismo como um processo – dividido em cinco etapas – e não como uma ideologia, que não era apesar de suas pretensões, Paxton ilumina com impiedosa claridade seus elementos básicos. Daí que, na hora de definir o fascismo, no capítulo final, consiga uma síntese dificilmente superável: “O fascismo pode ser definido como um tipo de conduta política caracterizada por uma preocupação obsessiva com a decadência da comunidade, a humilhação ou o vitimismo, e pelos cultos compensatórios da unidade, energia e pureza, em que um partido de massas com militantes nacionalistas engajados, trabalhando em colaboração difícil mas efetiva com as elites tradicionais, abandona as liberdades democráticas e procura, com violência redentora e sem restrições éticas ou legais, objetivos de purificação interna e expansão externa”.

Rara vez nos é dado ver décadas de estudo e reflexão resumidas com tanta elegância e concisão. Lá estão os fascismos históricos e quase todos as suas derivações atuais. Mas não todas. Por ranço ideológico ou por limitações “acadêmicas”, Paxton rejeita a inclusão aberta de vários setores implicitamente incluídos na sua definição. Um exemplo é literalmente escandaloso. O historiador admite com a maior equanimidade “o potencial do fascismo em Israel”, mas resiste à “tentação” de chamar de fascista o fundamentalismo islâmico. A justificativa é casuística, pois na sua taxionomia não admite usar o termo fascismo com “ditaduras pré-democráticas”.

Mas isso só é aceitável se o fascismo é visto como um fenômeno estático: os fascismos clássicos, de fato, se caracterizaram pela destruição da ordem democrática. A novidade e a eficácia de ver o fascismo como um processo – está é a tese do livro de Paxton – consistem justamente em enfatizar a conduta e ações dos protagonistas além das construções ideológicas e particularidades nacionais ou políticas. Ora, o que define o fundamentalismo islâmico na sua fase atual é seu ataque visceral ao mundo democrático em todas as suas versões (incluída a possibilidade democrática no mundo muçulmano), seguindo palavra por palavra a cartilha estabelecida pela definição de fascismo proposta por Paxton, desde “a preocupação obsessiva com a decadência da comunidade, a humilhação ou o vitimismo”, até a “violência redentora e sem restrições éticas ou legais, objetivos de purificação interna e expansão externa”. Em termos da realidade política atual, o leitor deste excelente livro terá de tirar suas próprias conclusões. O que não é uma má maneira de ler.

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Humor Política

Datena e Dilma

dilma1Em recente entrevista ao Datena, na Band, Dilma foi perguntada pelo apresentador se acreditava em Deus.

A resposta:

“Acredito numa espécie de força superior.”

Não ficou por aí. Para completar a piada, ela emendou:

“Mais do que acreditar nessa força superior, eu acredito nessa Deusa-Mulher que é Nossa Senhora”.

datena1E Datena, para não ficar para trás:

“E, no fundo, no fundo, Nossa Senhora é a síntese da mulher brasileira, batalhadora, sofrida…” e por aí vai.

Link para o vídeo: http://videos.band.com.br/ basta buscar os termos “Datena entrevista Dilma”. São 8 partes e a maior pérola, narrada acima, está no início do primeiro vídeo.

bozo1Não é uma gracinha como os debates típicos de nossos seminários são agora maqueados pelos políticos e figurinhas midiáticas? Como diria meu cabelereiro: “A-D-O-R-O” esse besteirol de fim de civilização (sim, estamos na Kali Yuga).