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A construção e destruição dos ciclos culturais

Gravação de uma pequena palestra de Mário Ferreira dos Santos, na qual ele analisa as etapas de destruição e construção dos ciclos culturais, dando destaque às fases histórico-sociais pelas quais eles passam e às forças antagônicas representadas pelo termo médio (aquele que dá coesão ao ciclo = consenso constituído por uma teovisão, a autoridade que promana dela e a comunidade de interesses éticos) e pelos elementos antitéticos (conceitos remanescentes de outros ciclos, valorização excessiva do cosmológico, a centralidade do homem, a negação de nossa capacidade cognoscitiva – agnosticismo, niilismo -, valorização da filosofia contra a teologia, a ciência prática tomada apenas no seu aspecto empirista):

Gostaria muito de ouvir à outra palestra sobre a qual ele se refere no final e que trata de como se pode restaurar o termo médio sem cair na ilusão romântica.

É interessante como o fim de um ciclo da maneira descrita por Mário se encaixa perfeitamente na situação atual do Ocidente e de como isso remete à obra clássica de Guenon A crise do mundo moderno.

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Entrevista do Patriarca Russo

Nos últimos anos, devido à continuidade dos problemas na Esposa de Cristo, muitos bons católicos foram atraídos pelo canto de sereia das igrejas autoproclamadas ortodoxas. Infelizmente isso pode até ter sido incentivado pela mais alta autoridade, já que desde o pontificado de João Paulo II uma noção equivocada de ecumenismo com os membros de tais grupos se espalhou. Todavia, fazendo essa ressalva, temos de reconhecer o certo e o justo quando ele aparece na nossa frente venha de onde vier, pois de alguma maneira misteriosa ele é sempre um reflexo de Deus; assim sendo, vi com grande interesse a entrevista abaixo com o Patriarca da Igreja Ortodoxa Russa, filmada em novembro do ano passado e ainda atualíssima.

Na entrevista, o Patriarca fala sobre o domínio do politicamente correto no mundo Ocidental e de como isso é um empecilho para que as pessoas professem a fé cristã, fala sobre as perseguições aos cristãos no Oriente Médio, analisa o fato das sociedade de muitos países, pela primeira vez na história, estarem fazendo leis dissociadas de qualquer justificativa moral objetiva, enfim, ele reflete sobre nossa crise civilizacional. Vale a pena ver:

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A boa companhia dos mortos

Um ótimo texto do tradutor José Francisco Botelho (Veja, 17 de maio de 2017):

Alguns meses atrás, um interlocutor bastante perspicaz me perguntou por que dedico tanto tempo e energia à tarefa de traduzir clássicos da literatura. A questão, na verdade, foi elaborada com menos palavras e mais pungência: “Por que você faz isso consigo mesmo?”, Meu amigo pressupunha, de forma bastante razoável, que os espinhos do ofício sejam bastante afiados e que não raro nos machuquem os dedos. Não pretendo ostentar cilícios nem posar de flagelante, mas a pergunta está longe de ser ociosa: se vamos nos dedicar à escrita, por que nos prender às sombras do passado? Não seria mais simples dizer de uma vez o que queremos sobre o nosso tempo e a nossa vida? Felizmente, não tenho de responder sozinho a essas questões perturbadoras: no que se refere à tradução dos clássicos, nossa língua vive um momento de ebulição. Intrépidos desbravadores buscam novas edições para textos canônicos, redescobrindo frescor e surpresa em território que pensávamos conhecer muito bem; ou nos revelam grandezas que só podíamos entrever ou imaginar, em obras nunca antes vertidas para o português. Em todos esses casos, a provocação persiste, oh amigos e amigas cravejados de espinhos: por que insistimos em dar voz aos mortos – e, ainda mais, numa hora destas?

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Cultura

A raiz do mal do século

É indubitável que nunca como hoje está tão difundido no mundo o conhecimento das grandes ideias da humanidade. Nunca, contudo, foi a sua influência também tão diminuta. Os pensamentos de Platão e Aristóteles, dos Profetas e de Cristo, de Espinoza e de Kant são hoje conhecidos por milhões de pessoas cultas na Europa e na América. Eles são ensinados em inúmeras Escolas, sobre alguns deles fazem-se prédicas em todo o mundo nas Igrejas de todas as confissões. E tudo isto se verifica simultaneamente num mundo em que se presta obediência aos princípios de um egoísmo sem limites, se cultiva um nacionalismo histérico e se prepara um tresloucado genocídio. Como é possível explicar semelhante contradição?

– Eric Fromm no seu livro Über den Ungehorsam (Apud Cartas a Lucílio, Calouste Gulbenkian, 2004)

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Cultura e salvação

Texto do professor Flávio Brayner (Jornal do Commercio, Recife, 15 de fevereiro de 2017):

Há 75 anos, fevereiro de 1942, o escritor austríaco Stefan Zweig e sua 2ª esposa, Lotte, davam fim às suas vidas em Petrópolis, quando souberam dos horrores que os nazistas estavam praticando na Europa. A última novela de Zweig foi escrita no Brasil – O Jogador de Xadrez. O personagem principal, um campeão mundial de xadrez, Czentovic, dá seu lugar de protagonista a um outro, um obscuro passageiro que se encontra no navio (onde se passa a história) que faz a viagem de Nova Iorque para Buenos Aires. Czentovic, um arrogante enxadrista aceita, para passar o tempo, jogar uma partida contra vários adversários e, no meio deles, encontra-se alguém que – embora não jogue há mais de 20 anos – sopra jogadas que forçarão o campeão a declarar um desmoralizante “empate”.

O narrador descobre, numa longa conversa de convés com esse estranho, tratar-se de um advogado austríaco que conseguira esconder dos nazistas os bens de instituições religiosas e que, denunciado, é preso pela Gestapo em condições aterradoras: um quarto sem janelas, apenas com uma cama e a proibição de que qualquer pessoa lhe dirija a palavra. Meses de silêncio e isolamento, a perda das noções de tempo e espaço, morto em vida, um homem diante do nada, até que… é chamado para o primeiro interrogatório. Na espera, que dura várias horas antes de ser interrogado, descobre no casaco de um oficial, posto a secar, um livro! Rouba-o e descobre mais tarde, já em sua cela, tratar-se de um manual de xadrez repertoriando as mais importantes partidas dos dez maiores enxadristas mundiais. Em seu absoluto isolamento, refaz na imaginação cada partida, coloca-se no lugar dos adversários, joga contra si mesmo, imagina “simultâneas”, compreende as estratégias, as armadilhas, prevê lances futuros, tudo isso sem uma peça sequer de um tabuleiro real! Próximo à loucura é libertado e… encontra-se, agora, a caminho da Argentina.

Zweig, autor de O Mundo de Ontem – uma elegia sobre a derrocada dos valores morais e intelectuais que forjaram a Europa até a 1ª Guerra – retoma nesta novela a crença que lhe foi cara (e para tantos intelectuais daquela Europa): a de que poderíamos ser salvos pelos livros e pelos padrões elevados de cultura. Há, hoje, algum “livro” que poderia nos salvar da barbárie já a caminho? Pessoas religiosas diriam que sim, mas, numa sociedade tão secularizada como a nossa, que destruiu o Inferno e não crê nas vantagens do Céu, penso que perdemos a noção da importância dos valores transcendentes que a cultura proporciona.

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“Apropriação cultural”: ensinando a uma afro-burrinha

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No Carnaval só vai dar isso

Faço minhas as palavras de José Teles (Jornal do Commercio, Recife, 1 de fevereiro de 2017):

quoteA Som Livre decreta o fim da marchinha, do frevo e do samba como gêneros carnavalescos. A gravadora global reuniu a sertaneja Marília Mendonça, com a dupla Maykow & Bruno, e lança sexta-feira, dia 3, o single digital Eu tô com Ismo, apostando que este será o hit do Carnaval 2017. A produção faz uso do voraz mimetismo do sertanejo, dito universitário, num ritmo indefinido, mas dançante, com temática surrupiada às bandas de fuleiragem music, e da batidinha de estúdio de fundo de quintal dos MCs do Youtube. O refrão é de uma indigência lamentável: “É cachacismo, mulherismo, senvergonhismo, cervejismo, no Carnaval só vai dar isso”. Não demora, os sertanejos dominarão também as prévias carnavalescas, como já dominam quase todas as festas no país. É um novo gênero musical, que cada vez mais lembra o crack: droga extremamente prejudicial à saúde, cuja duração da lombra, ou efeito, como queiram, é só de alguns minutos.

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Estamos de volta ao normal

quoteO que se discute menos é a polarização da cultura, e as novas câmeras de eco dentro das quais ouvimos e vivenciamos os atuais sucessos culturais. (…) Agora não existe nada tão popular quanto as antigas séries; as únicas partes da cultura compartilhada que chegam perto são eventos esportivos periódicos, vídeos virais e paroxismos ocasionais de indignação política.

Em vez disso, estamos voltando à era cultural que antecedeu o rádio e a televisão, período no qual o entretenimento era fragmentado e sob medida, quando satisfazer um nicho era um imperativo econômico maior do que entreter a sociedade como um todo.

“Estamos de volta ao normal, de certa forma, porque antes de existir o rádio ou a teledifusão, não havia uma cultura compartilhada”, diz Lance Strate, professor de comunicação da Universidade Fordham. “Durante a maior parte da história da civilização, não houve nada como a televisão. Foi um momento realmente ímpar da história ter tantas pessoas assistindo à mesma coisa ao mesmo tempo.”

Farhad Manjoo (Público na TV se pulveriza cada vez maisNew York Times/Jornal do Commercio, Recife, 27 de janeiro de 2017)