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Verdades árduas “in conspectu Dei”

Verdades árduas que só podem ser vistas in conspectu Dei:

1) D. Lefebvre estava fundamentalmente certo sobre o sentido da obra do CVII e da reforma litúrgica, e a FSSPX cumpre um papel providencial na história da Igreja.

2) João Paulo II, apesar dos escândalos no diálogo inter-religioso, de afirmações iniciais equívocas sobre a redenção, do otimismo ingênuo sobre a reforma litúrgica, era um homem que buscava servir a Cristo e a Igreja de coração e com um testemunho moral e apostólico corajoso.

3) O intento de “continuidade à luz da Tradição” de Bento XVI era sincero, e sua obra apontou um possível caminho de conversão da Igreja, mas era muito insuficiente; sua renúncia é um mistério a esclarecer.

4) O que existiu de positivo na Igreja oficial ao longo das últimas décadas dependeu muito mais dos carismas particulares de Wojtyla e Ratzinger do que do CVII em si.

5) A Missa Romana “tridentina” é uma instituição da Tradição apostólica, e está infinitamente acima da autoridade do Concílio Vaticano II e sua reforma litúrgica; ela é indestrutível.

6) Paulo VI foi um Papa ambíguo e na média ruim; escreveu boas encíclicas (sobre a contracepção e a Eucaristia), até consertou alguns documentos conciliares que sairiam piores, fez uma Profissão de Fé (Credo do Povo de Deus) correta, mas sua liturgia é uma tragédia e foi negligente no pós-concílio; sua canonização não tem correlato real.

7) O problema do novo rito paulino não são os abusos, mas sua forma ritual oficial, que é precária em si mesma (independentemente de validade e licitude), e causa ocasional dos abusos.

8 ) Amoris Laetitia, Fratelli Tutti, Traditionis Custodes, etc., ou o magistério de Francisco é infinitamente pior que as ambiguidades dos documentos conciliares.

– Joathas Bello

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Igreja “sinodal”

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Em que sentido o Papa está acima da lei canônica?

Tradução de um texto do blog Unam Sanctam:

Um refrão comum dos hiperpapalistas quando o Papa desconsidera o direito canônico por suas ações é: “E daí? Ele pode fazer isso. O Papa não está sujeito ao direito canônico.”

É claro que é verdade que o Papa não está sujeito a nenhuma lei humana, incluindo a lei eclesiástica. Isto não se deve apenas ao estatuto do Papa como autoridade jurídica suprema dentro da Igreja, mas também porque o próprio Papa é uma fonte do direito canônico. Visto que o direito canônico está sujeito à autoridade do Sumo Pontífice, é claro que este não pode estar vinculado a ele em qualquer sentido coercitivo.

Contudo, isto significa realmente que o Papa pode violar o direito canônico à vontade como um exercício normal da sua autoridade? Quando o Papa viola o direito canônico, deve isto ser entendido como um exercício legítimo da sua autoridade jurídica?

Os cinco poderes do Papa em relação ao direito canônico segundo Cicognani

Para responder a esta questão, recorramos ao comentário do Cardeal Amleto Cicognani (1883-1973), professor de Direito Canônico no Pontifício Instituto de Direito Canônico e Civil de Santo Apolinário, em Roma, e um dos mais importantes ​​juristas canônicos de meados do século XX. A carreira de Cicognani começou sob São Pio X e culminou com ele se tornando Cardeal Secretário de Estado sob João XXIII (1961-1969) e Decano do Colégio Cardinalício sob Paulo VI de 1972 até sua morte.

Em 1934, Cicognani publicou um comentário exaustivo sobre o código de 1917, simplesmente denominado Direito Canônico. Vou trabalhar com a 2ª edição, traduzida pelo Rev. Joseph M. O’Hara e Rev. Francis Bennan (Dolphin Press: Philadelphia, 1935).

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Indo à Missa na China

Todos sabem do quadro de perseguição que a Igreja sofre na China: muitos mártires e restrições sem fim; isso não pode ser negado ou diminuído. Por outro lado, em tempos recentes, o Vaticano tentou chegar a algum grau de acomodação com as autoridades, iniciativa que foi muito criticada, já que aparentou uma espécie de rendição ao Leviatã chinês; sobre o tema meu pensamento é inconclusivo, pois embora tenha um pé atrás com qualquer coisa feita no “papado” atual, também não posso deixar de notar as semelhanças dos termos da acomodação com outras do passado, em que o poder civil ditava muita coisa na vida da Igreja (vide o padroado do tempo do Brasil império).

No meio desse quadro, ao acompanhar um canal do YouTube de um casal formado por um brasileiro e uma chinesa, achei interessantíssima a experiência que eles tiveram ao ir a uma Missa numa cidade da China. Muitas coisas podem ser aprendidas sobre a situação de parte da Igreja por lá nesse vídeo, mas uma se destaca na minha opinião: a complexidade de uma realidade que não se enquadra nas narrativas que estou acostumado a ouvir.

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Na Igreja combatemos ideias, não almas

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Por que o tradicionalismo não prevalece?

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Por que o “tradicionalismo” católico, estando certo no “atacado” sobre os problemas e frutos do CVII, não consegue prevalecer?

1) Uma razão importantíssima, obviamente, é que a direção eclesiástica jamais foi justa com suas legítimas reivindicações e críticas, tendo oscilado entre: a ambiguidade nua e crua (Paulo VI), o conservadorismo dialoguista (JPII), o conservadorismo simpático a certos pleitos tradicionalistas (BXVI), e o progressismo como índole prevalecente (Francisco).

2) Outra é que a maioria dos fiéis não tem condições intelectuais e/ou espirituais para dar-se conta da gravidade (imensa) do problema – ele sequer aparecerá para um católico principiante ou neoconverso (especialmente se veio do protestantismo ou de outras religiões) – ou, dando-se conta, para atinar à via resolutiva, ou então para suportar uma apologética virulenta contra o estado de coisas eclesiástico que parece atacar a Igreja em si.

3) Outra razão é que sua crítica teológica geralmente não faz justiça a todos os aspectos da questão: não conhece bem a nouvelle théologie, sua distinção para o modernismo e suas distinções internas, ignora o sentido do método fenomenológico (e o próprio sentido da gnosiologia aristotélica às vezes) e a diferença das suas escolas, e absolutiza certos aspectos contingentes do magistério anterior.

4) Outro motivo relevante é que, na maioria das vezes, não é capaz de reconhecer os méritos/graças presentes nos papas “conciliares”, mas insistem unilateralmente no “liberalismo” (sic) ou coisa pior, ou nos escândalos (Assis, beijo no Alcorão, etc.), jamais procurando captar com alguma sabedoria ou simples bondade o sentido providencial da realidade eclesial; vários alegarão que isto é “impossível”, mas é perfeitamente possível apreender os méritos objetivos e não é justo sempre imputar intenção má (“Summorum Pontificum é pega-trouxa”), ou total ausência de autoridade, ou então uma intenção idêntica, como se a direção ou “hermenêutica” bergogliana fosse a mesma que a wojtyliana-ratzingeriana, e não 2 vias possíveis no interior da ambiguidade conciliar (como se Fratelli Tutti fosse compatível com Dominus Iesus, ou Traditionis Custodes com Summorum Pontificum!).

5) Também porque, na esteira do anterior, tem dificuldades para reconhecer o valor dos padres e bispos conservadores, que fazem esforços louváveis para fazer brilhar a Tradição no interior do horizonte da pastoralidade conciliar, celebrando com decoro, ensinando e evangelizando com veracidade e coragem, com profundidade espiritual.

6) Algumas vezes o problema é a associação a certa política ideológico-partidária de “direita”, que não constitui um dever católico, e é confundida com a luta pela Realeza Social de Cristo.

7) Enfim, porque aos conservadores perplexos e abertos, não parecem realmente “dóceis”: não fazem toda a defesa abstrata possível dos textos conciliares, para só então demonstrar as aporias, as razões teológicas implícitas que permitem descambar para o erro e a heresia; assim, também não têm em conta o mecanismo psicológico da descoberta da verdade, agem como se a questão estivesse provada autoritativamente de uma vez por todas (uma coisa é saber que se está teologicamente certo, outra é entender que se tem de contar com a inevidência eclesiástica da verdade e o fato da disputa).

Joathas Bello

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Contrarrevolução Cultura Eclesiologia Política

Uma nova contrarrevolução católica está em desenvolvimento na Europa

Tradução de uma reportagem publicada pelo Financial Times no dia 7 de agosto do corrente ano (autor: Jonathan Derbyshire).

Da Itália a Polônia, passando pela Espanha, partidos de direita enfatizam a soberania nacional e valores familiares conservadores

Na semana passada, centenas de milhares de jovens católicos de todo o mundo convergiram para a capital portuguesa, Lisboa, para a Jornada Mundial da Juventude, um encontro religioso internacional que teve lugar pela primeira vez em Roma, em 1986. Num sermão proferido na cidade no dia 3 de agosto, o Papa Francisco lembrou aos presentes que “na Igreja há lugar para todos”.

Mais de 42 mil dos 354 mil peregrinos eram da França (o quarto maior contingente nacional depois de espanhóis, italianos e portugueses). E uma sondagem entre jovens católicos franceses que planeiam viajar para Lisboa, publicada em maio, no jornal religioso La Croix, sugere que poderão não ter sido especialmente receptivos à visão eclesiástica de Francisco.

Embora a frequência à igreja na França continue a atingir níveis que são uma pequena fracção dos observados na década de 1950, a sondagem sugere que os jovens católicos franceses de hoje são altamente observadores das práticas religiosas e ligados às formas mais tradicionais de culto, incluindo a missa em latim. De acordo com o cientista político Yann Raison du Cleuziou, este grupo, que exerce uma influência desproporcional ao seu tamanho (graças às redes sociais e outros efeitos de rede), está no centro do ressurgimento do catolicismo conservador como um força política e também religiosa.

Mas a fusão política da identidade católica com o populismo nativista e “soberanista” que Raison du Cleuziou descreve não é peculiar à França. O sucesso eleitoral de partidos como o Vox, na Espanha, e o Irmãos, de Giorgia Meloni na Itália (o maior partido da coligação no poder), dão outro testemunho disso.

Os resultados da pesquisa francesa apontam para uma concepção da relação entre autoridade religiosa e poder político temporal em desacordo com o que o próprio Francisco identificou como um “secularismo saudável” no qual “Deus e César permanecem distintos, mas não opostos”. Na sondagem do La Croix, 59 por cento veem a Igreja como um “farol que mostra o caminho através da escuridão” da modernidade secular.

Raison du Cleuziou argumenta que a noção de que os políticos democráticos não têm o direito de interferir na “ordem natural” das coisas é central para a “contrarrevolução católica” contemporânea. E para ele as origens deste revanchismo na França residem no movimento Manif pour tous (“Demonstração para todos”) que, em 2012-14, levou milhares de pessoas às ruas para protestar contra o casamento gay.

Na Itália, os protestos do “dia da família” contra o casamento igualitário mobilizaram centenas de milhares de pessoas em Roma em 2016. Este ano, o governo de Meloni instruiu os presidentes das cidades a não emitirem certidões de nascimento que reconheçam casais do mesmo sexo como pais legais das crianças.

Em 2016, uma das ramificações do Manif pour tous, um grupo chamado Sens Commun, desempenhou um papel fundamental na nomeação do candidato a presidência francesa François Fillon. Exibindo sua própria fé, Fillon, cuja campanha mais tarde fracassou em meio a um escândalo financeiro, fez uma apresentação bem-sucedida do que os cientistas sociais Hervé Le Bras e Emmanuel Todd chamaram de forma memorável de “catolicismo zumbi” – um “agente estruturador na educação e na política” que continua a exercer influência apesar do dramático declínio da religião na sua “dimensão ritual”.

Da mesma forma, as incursões eleitorais do Vox na Espanha — que continuam a ser significativas a nível regional e municipal, apesar do desempenho decepcionante do partido nas eleições parlamentares de julho — não podem ser devidamente compreendidas sem prestar atenção ao aspecto religioso (especificamente católico).

Quando o Vox entrou pela primeira vez no Parlamento Europeu em 2019, por exemplo, não aderiu ao grupo Identidade e Democracia, ao qual pertencem o Rassemblement National, de extrema-direita, na França, e a Liga, na Itália. Em vez disso, juntou-se aos Irmãos da Itália no bloco Conservadores e Reformistas Europeus (CRE), ao lado do partido católico-nacionalista Lei e Justiça, no poder na Polônia.

A declaração de princípios e valores do CRE inclui um compromisso com a “importância da família” e com a “integridade soberana do Estado-nação, a oposição ao federalismo da UE e um respeito renovado pela verdadeira subsidiariedade”.

Os estudantes interessados na história política europeia do século XX notarão aqui uma rica ironia. A “subsidiariedade” – a ideia de que o poder deveria vir de baixo, das autoridades locais para as regionais, e daí para cima, para organizações supranacionais – foi um dos valores-chave da Democracia Cristã do pós-guerra. E esta foi uma ideologia política que procurou reconciliar o cristianismo (particularmente o catolicismo) com a democracia liberal, e não se opôs a ela, e que fez mais do que qualquer outra para moldar o projeto de integração europeia que os identitários católicos agora anatematizam.

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