Respondo a partir da lição de Frederico Tillman (A Moral Católica, Vozes, 1953).
A temperança é uma virtude moral que modera a atração para o prazer sensível, em particular para os prazeres do gosto e do tato, e conserva-os nos limites da honestidade.
Quando modera o paladar, a temperança chama-se sobriedade; compreende também o uso de bens voluptuários (fumo, álcool, etc.). Moderando o prazer anexo à propagação da espécie, chama-se virtude da castidade.
Os vícios contrários são a gula e a luxúria. Peca-se por gula quando o excesso de comida e bebida prejudica a saúde, ou perturba o domínio da razão sobre o instinto (inebriação completa).
Vamos desenvolver um pouco essas informações básicas:
a) O objeto da temperança é moderar todo prazer sensível, em particular os que se ligam às funções principais da vida orgânica: o comer e beber que conservam a vida do indivíduo, e os atos sexuais que visam a conservação do gênero humano. A temperança faz-nos usar desses prazeres para um fim honesto e sobrenatural. Por isso é que subordina o seu uso às prescrições da razão e da fé.
Como o prazer é atraente, e pode arrastar para além dos justos limites, a temperança nos leva à mortificação, até em coisas lícitas, a fim de nos assegurar o domínio da alma sobre a paixão.
b) A desordem da gula consiste em procurar o alimento por si mesmo, a exemplo daqueles que do ventre fazem um deus (Filipenses III, 19), ou em procurá-lo em excesso, sem respeitar as regras da sobriedade (por exemplo: comer fora das horas, com muito requinte, com demasia, com sofreguidão, etc.).
c) Sua malícia está em escravizar a alma ao corpo, embrutecer as faculdades intelectuais, abalar a saúde, desperdiçar os dons de Deus (defraudar os pobres sem pão). O excesso de comida não passa, geralmente, de culpa venial. O excesso de bebida é mortal se levar à plena inconsciência (inebriação completa). Como vício capital, a gula provoca as seguintes faltas e pecados: rixas e blasfêmias, impureza e volubilidade, dissolução e loquacidade.
É sempre bom lembrar que a medida da alimentação não pode ser a mesma para todos. Muitas pessoas precisam de alimentação mais abundante (por exemplo: trabalhadores manuais, pessoas anêmicas e propensas à tuberculose, etc.). Outras há que devem restringi-la, para combaterem o artitrismo, a esclerose, etc. Sigam-se, nesse ponto, os conselhos do médico. É natural que as pessoas mais novas, durante o crescimento, também precisem de uma alimentação mais forte e abundante.
É nosso dever moral acostumar-nos à temperança, por meio de mortificações voluntárias. Convém, portanto, submeter-nos de vez em quando a pequenas privações que fortifiquem a vontade ,sem nenhum dado para a saúde. Quem as omite habitualmente, vicia o estômago a superalimentar-se. A superalimentação, porém, abala a saúde e exacerba a sensualidade. A guerra contra a luxúria não pode vingar enquanto não for vencida a glutonaria. Assim, os pais devem habituar os filhos a um passadio frugal.
O mesmos princípios devem ser aplicados ao uso de entorpecentes medicamentosos (morfina, éter, etc.; no passado a cocaína e a maconha também eram usados com fins médicos, e se um dia voltarem a ser, deverão obedecer aos limites citados). Quando necessário, deve estar sob rigorosa vigilância (receita e assistência médica).
Seguir a consciência significa realizar todos os nossos gostos? O conceito de autoridade exclui o conceito de liberdade? O então Cardeal Ratzinger fala sobre essas e outras questões nesse conjunto de reflexões tirado do posfácio do livro Joseph Ratzinger: uma biografia (e publicado no site da editora Quadrante):
A unidade do homem tem um órgão: a consciência. Foi uma ousadia de São Paulo afirmar que todos os homens têm a capacidade de escutar a sua consciência, separando assim a questão da salvação da questão do conhecimento e da observância da Torah e situando-a no terreno da comum exigência da consciência em que o Deus único fala e diz a cada um o que é verdadeiramente essencial na Torah: Quando os gentios, que não têm lei, cumprem naturalmente as prescrições da lei, sem ter lei são lei para si mesmos, demonstrando que têm a realidade dessa lei escrita no seu coração, segundo o testemunho da sua consciência… (Rom 2, 14 e segs.). Paulo não diz: “Se os gentios se mantiverem firmes na sua religião, isso é bom diante do juízo de Deus”. Pelo contrário, ele condena grande parte das práticas religiosas daquele tempo. Remete para outra fonte, para aquela que todos trazem escrita no coração, ao único bem do único Deus.
Seja como for, aqui se enfrentam hoje dois conceitos contrários de consciência, que na maioria das vezes simplesmente se intrometem um no outro. Para Paulo, a consciência é o órgão da transparência do único Deus em todos os homens, que são um homem. Em contrapartida, atualmente a consciência aparece como expressão do caráter absoluto do sujeito, acima do qual não pode haver, no campo moral, nenhuma instância superior. O bem como tal não seria cognoscível. O Deus único não seria cognoscível. No que diz respeito à moral e à religião, a última instância seria o sujeito.
Isto seria lógico, se a verdade como tal fosse inacessível. Assim, o conceito moderno da consciência equivale à canonização do relativismo, da impossibilidade de haver normas morais e religiosas comuns, ao passo que, pelo contrário, para Paulo e para a tradição cristã, a consciência sempre foi a garantia da unidade do ser humano e da cognoscibilidade de Deus, e assim da obrigatoriedade comum de um mesmo e único bem. O fato de que em todos os tempos houve e há santos pagãos baseia-se em que em todos os lugares e em todos os tempos – embora muitas vezes com grande esforço e apenas parcialmente – a voz do coração era perceptível; a Torah de Deus se nos fazia perceptível como obrigação dentro de nós mesmos, no nosso ser criatural, e assim tornava possível que superássemos a mera subjetividade na relação de uns com os outros e na relação com Deus. E isto é a salvação (1).
CONSCIÊNCIA E VERDADE
A vida e a obra do Cardeal Newman poderia ser realmente definida como um extraordinário e extenso comentário ao problema da consciência <…>. Quem não se recorda <…> da famosa frase acerca da consciência na carta que dirigiu ao duque de Norfolk? Diz assim: “Se tivesse de brindar pela religião, o que é altamente improvável, fá-lo-ia pelo Papa. Mas em primeiro lugar pela consciência. Só depois o faria pelo Papa” (2). Newman queria que a sua resposta fosse uma adesão clara ao Papado em face da contestação de Gladstone, mas também queria que fosse, em face das formas errôneas do “ultramontanismo”, uma interpretação do Papado que só pode ser concebido adequadamente quando visto de forma conjunta com o primado da consciência, não como oposto a ela, mas como algo que a funda e lhe dá garantia. É difícil para o homem moderno, que pensa sempre na subjetividade como oposta à autoridade, entender esse problema. Para ele, a consciência está do lado da subjetividade e é expressão da liberdade do sujeito, enquanto a autoridade aparece como sua limitação e, inclusive, como sua ameaça e negação. É preciso aprofundar mais em tudo isso para entender de novo a perspectiva em que tal oposição não é válida.
O conceito central de que Newman se serve para unir autoridade e subjetividade é a verdade. Não tenho reparos em dizer que a verdade é a idéia central da sua luta espiritual. A consciência ocupa para ele um lugar central porque a verdade está no centro. Dito de outra maneira: em Newman, a importância do conceito de consciência está unida à excelência do conceito de verdade e deve ser entendida exclusivamente a partir dele. A presença constante da idéia de consciência não significa a defesa, no século XIX e em contraposição à neo-escolástica “objetivista”, de uma filosofia ou uma teologia da subjetividade. O sujeito merece, a seu ver, uma atenção como não havia despertado talvez desde Santo Agostinho. Mas é uma atenção na linha de Santo Agostinho, não na da filosofia subjetivista da modernidade. Ao ser elevado ao cardinalato, Newman confessou que toda a sua vida tinha sido uma luta contra o liberalismo. Poderíamos acrescentar: e também contra o subjetivismo cristão tal como o encontrou no movimento evangélico do seu tempo, e que constituiu o primeiro degrau de um caminho de conversão que duraria toda a sua vida.
A consciência não significa para Newman a norma do sujeito frente às demandas da autoridade num mundo sem verdade, que vive entre as exigências do sujeito e da ordem social, mas, antes, a presencia clara e imperiosa da voz da verdade no sujeito. A consciência é a anulação da mera subjetividade no ponto em que se tangenciam a intimidade do homem e a verdade de Deus. São significativos os versos que escreveu na Sicília em 1833: “Eu amava o meu próprio caminho. Agora Te peço, ilumina-me para Te seguir” (3). A conversão ao catolicismo não foi para ele uma questão de gosto pessoal ou de uma necessidade anímica subjetiva. Já em 1844, no umbral de sua conversão, falava sobre isso com estas palavras: “Ninguém pode ter uma opinião mais desfavorável que eu da situação atual dos católicos” (4). Mas a Newman importava mais obedecer à verdade, inclusive contra o seu próprio sentir, que seguir o seu gosto, os vínculos de amizade e os caminhos trilhados.
Parece-me muito significativo que ele tenha sublinhado a prioridade da verdade sobre o bem na série das virtudes, ou, expresso de forma mais compreensível para nós, a sua primazia em face do consenso e dos pactos de grupo. Eu diria que essas atitudes são comuns quando falamos de um homem de consciência. Homem de consciência é aquele que não compra tolerância, bem-estar, êxito, reputação e aprovação públicas renunciando à verdade. Nisso Newman coincide com outra grande testemunha britânica da consciência, com Thomas More, para quem a consciência nunca foi expressão da sua vontade de obstinação nem de heroísmo caprichoso. Thomas More contava-se a si mesmo entre os mártires temerosos que só depois de muitos atrasos e inumeráveis questionamentos conseguiu levar a alma a obedecer à consciência: a obediência à verdade, que deve estar acima das instâncias sociais e dos gostos pessoais. Aparecem então dois critérios para distinguir a presença de uma verdadeira voz da consciência: que não coincida com os desejos e gostos próprios nem com o que é mais benéfico para a sociedade, o consenso do grupo ou as exigências do poder político ou social.
Chegados a este ponto, parece natural lançar um olhar aos problemas da nossa época. O indivíduo não deve trair a verdade reconhecida para comprar o progresso e o bem-estar. A humanidade não o permite. Com isto, tocamos o ponto verdadeiramente crítico da modernidade: o conceito de verdade foi praticamente abandonado e substituído pelo de progresso. O progresso “é” a verdade. Mas com essa aparente elevação desmente-se e anula a si próprio, pois quando não há direção, o mesmo movimento pode ser tanto progressivo como retrógrado. É assim que a teoria da relatividade formulada por Einstein vê o cosmos físico. Mas penso que também descreve com acerto a situação do cosmos espiritual do nosso tempo. A teoria da relatividade estabelece que não há nenhum sistema de referência fixo; cabe a nós considerar um ponto qualquer como referência e a partir dele tentar medir a totalidade, pois apenas assim poderemos obter resultados; da mesma maneira que escolhemos um, poderíamos ter escolhido qualquer outro.
O que se diz a respeito do cosmos físico reflete também o segundo giro “copernicano” que se deu na nossa relação fundamental com a realidade: a verdade, o absoluto, o ponto de referência do pensamento deixou de ser evidente. Por isso, já não há – tampouco do ponto de vista espiritual – nem norte nem sul. Não há direção num mundo sem pontos de medida fixos. O que consideramos direção não assenta numa medida verdadeira, mas numa decisão nossa e, em última análise, no ponto de vista da utilidade. Num tal contexto “relativista”, a ética teleológica ou conseqüencialista converte-se numa ética niilista, mesmo quando não se percebe. O que numa cosmovisão como essa se chama “consciência” é, considerada em profundidade, um modo de dissimular que não há autêntica consciência, isto é, unidade de conhecimento e verdade. Cada um cria os seus próprios critérios, e, na situação de relatividade geral, ninguém pode ajudar os outros, e menos ainda dar-lhes instruções.
Agora se percebe a enorme radicalidade do debate ético atual, cujo centro é a consciência. Penso que o paralelismo mais aproximado na história das idéias é a controvérsia entre Sócrates e Platão, por um lado, e os sofistas, por outro, na qual se põe à prova a resolução originária de duas atitudes fundamentais: a confiança na capacidade humana de verdade e uma visão do mundo na qual o homem cria os seus próprios critério.
O motivo pelo qual Sócrates, um pagão, se converteu em certo sentido num profeta de Jesus Cristo é, a meu ver, essa questão primordial: a sua disposição de acolher a verdade foi o que permitiu ao modo de fazer filosofia inspirado na sua figura o privilégio de ser de algum modo um elemento da História Sagrada, e o que fez dele um recipiente idôneo do Logos cristão, cuja finalidade é a libertação pela verdade e para a verdade. Se separarmos a luta de Sócrates das contingências históricas do momento, perceberemos rapidamente com que intensidade intervém – com outros argumentos e nomes – nos assuntos da polêmica do presente. <…>
em muitos lugares já não se pergunta o quê um homem qualquer pensa. Basta-nos dispor de uma idéia sobre o seu modo de pensar para incluí-lo na categoria formal conveniente: conservador, reacionário, fundamentalista, progressista ou revolucionário. A inclusão num esquema formal torna desnecessária qualquer explicação do seu pensamento. Algo parecido, mas reforçado, se observa na arte. O que expressa é indiferente: pode glorificar Deus ou o diabo. O único critério é que seja formalmente conhecido.
Com isto, chegamos ao verdadeiro núcleo do nosso assunto. Quando os conteúdos não contam e a pura fraseologia assume o comando, o poder converte-se em critério supremo, isto é, transforma-se em categoria – revolucionária ou reacionária – dona de tudo. Esta é a forma perversa de semelhança com Deus de que fala o relato do pecado original. O caminho do mero poder e da pura força é a imitação de um ídolo, não a realização da imagem de Deus. O traço essencial do homem enquanto homem não é perguntar pelo poder, mas pelo dever, e abrir-se à voz da verdade e suas exigências. Esta é, a meu ver, a trama definitiva da luta de Sócrates. Também é o argumento mais profundo do testemunho dos mártires: os mártires manifestam a capacidade de verdade do homem como limite de qualquer poder e como garantia da sua semelhança com Deus. É assim que os mártires se constituem nas grandes testemunhas da consciência, da capacidade outorgada ao homem para perceber o dever acima do poder e começar o progresso verdadeiro e a ascensão efetiva (5).
A CONSCIÊNCIA “INFALÍVEL”
A consciência é apresentada como o baluarte da liberdade em face das constrições da existência causadas pela autoridade. <…> Desse modo, a moral da consciência e a moral da autoridade parecem enfrentar-se como duas morais contrapostas em luta recíproca. A liberdade do cristão ficaria a salvo graças ao postulado original da tradição moral: a consciência é a norma suprema que o homem deve seguir sempre, mesmo quando vai contra a autoridade. Quando a autoridade, nesse caso o Magistério da Igreja, falasse sobre problemas de moral, estaria submetendo um material à consciência, que reservaria sempre para si mesma a última palavra <…>. Essa concepção da consciência como última instância é recolhida por alguns autores na fórmula “a consciência é infalível”. <…>
Por um lado, é inquestionável que devemos sempre seguir o veredito evidente da consciência, ou pelo menos não o infringir com as nossas ações. Mas é muito diferente sustentar a convicção de que o ditame da consciência, ou o que consideramos como tal, sempre estaria certo, sempre seria infalível. Semelhante afirmação significaria o mesmo que dizer que não há verdade alguma, ao menos em matéria de moral e religião, isto é, justamente no âmbito que é o fundamento constitutivo da nossa existência. Como os juízos da consciência se contradizem uns aos outros, só haveria uma “verdade do sujeito” <…>.
A pergunta pela consciência nos transporta, na prática, para o domínio essencial do problema moral e a interrogação acerca da existência do homem. Não gostaria de pôr esses problemas em forma de considerações estritamente conceituais e, por conseguinte, completamente abstratas, mas preferiria avançar de modo narrativo.
Primeiramente, contarei a história da minha relação pessoal com esse problema. Ele pôs-se pela primeira vez com toda a sua urgência no começo da minha atividade acadêmica. Um meu colega mais velho <…>, expressou durante uma disputa a opinião de que devíamos dar graças a Deus por conceder a muitos homens a possibilidade de fazer-se não-crentes seguindo a sua consciência; se lhes abríssemos os olhos e eles se fizessem crentes, não seriam capazes de suportar neste nosso mundo o peso da fé e das suas obrigações morais. Mas, como todos seguiram de boa-fé um caminho diferente, poderiam alcançar a salvação.
O que mais me chocava nessa afirmação não era a idéia de uma consciência equivocada concedida pelo próprio Deus para poder salvar os homens mediante esse estratagema, isto é, a idéia de uma ofuscação enviada por Deus para a salvação de alguns. O que me perturbava era a idéia de que a fé fosse uma carga insuportável que só naturezas fortes poderiam suportar, quase um castigo ou, em todo o caso, uma exigência difícil de cumprir. A fé não facilitaria a salvação, antes a dificultaria. Livre seria aquele que não carregasse com a necessidade de crer e de dobrar-se ao jugo da moral que decorre da fé da Igreja Católica. A consciência errônea, que permitiria uma vida mais leve e mostraria um caminho mais humano, seria a verdadeira graça, o caminho normal da salvação. A falsidade e o afastamento da verdade seriam melhores para o homem do que a verdade. O homem não seria libertado pela verdade, mas deveria ser libertado dela. A morada do homem seria mais a obscuridade do que a luz, e a fé não seria um dom benéfico do bom Deus, mas uma fatalidade.
Porém, se as coisas fossem assim, como poderia surgir a alegria da fé? Como poderia surgir a coragem de transmiti-la aos demais? Não seria melhor deixá-los em paz e mantê-los distantes dela? Foram idéias como essa que paralisaram, com cada vez mais força, a tarefa evangelizadora. Quem encara a fé como uma carga pesada ou como uma exigência moral excessiva não pode convidar outras pessoas a abraçá-la. Prefere deixá-los na suposta liberdade da sua boa consciência.
<…> O que inicialmente me estarreceu no argumento mencionado era, sobretudo, a caricatura de fé que me pareceu haver nele. Mas, numa segunda consideração, pareceu-me igualmente falso o conceito de consciência que pressupunha. A consciência errônea protege o homem das exigências da verdade e o salva: assim soava o argumento. A consciência não aparecia nele como uma janela que abre para o homem o panorama da verdade comum que sustenta a cada um e a todos, tornando possível que sejamos uma comunidade de vontade e de responsabilidade apoiada na comunidade do conhecimento. Nesse argumento, a consciência também não é a abertura do homem ao fundamento que o sustenta nem a força que lhe permite perceber o supremo e essencial. Trata-se antes de uma espécie de invólucro protetor da subjetividade <…> que não dá acesso à estrada salvadora da verdade, que ou não existe ou é exigente demais; e converte-se assim em justificação da subjetividade, que não se quer ver questionada, e do conformismo social, que deve possibilitar a convivência como valor médio entre as diversas subjetividades. Desaparecem assim o dever de buscar a verdade e as dúvidas quanto às atitudes e costumes dominantes: bastariam o conhecimento adquirido individualmente e a adaptação aos outros. O homem é reduzido às convicções mais superficiais, e quanto menor a sua profundidade, melhor para ele. <…>.
Pouco depois, numa disputa entre um grupo de colegas sobre a força justificadora da consciência errônea, alguém objetou contra essa tese que, se fosse universalmente válida, estariam justificados – e deveríamos procurá-los no céu – os membros das SS que cometeram os seus crimes com um conhecimento fanatizado e plena segurança de consciência. <…> Não haveria a menor dúvida de que Hitler e os seus cúmplices, que estavam profundamente convencidos do que faziam, não podiam ter agido de outra forma. Apesar do horror objetivo das suas ações, teriam agido moralmente do ponto de vista subjetivo. Como seguiam a sua consciência, embora esta os tivesse guiado erroneamente, deveríamos reconhecer que as suas ações eram morais para eles; não poderíamos duvidar, em suma, da salvação eterna das suas almas.
A partir dessa conversa, sei com segurança absoluta que há algum erro na teoria sobre a força justificadora da consciência subjetiva; em outras palavras, que um conceito de consciência que conduz a semelhantes resultados é falso. A firme convicção subjetiva e a segurança e falta de escrúpulos que dela derivam não tiram a culpa do homem. Quase trinta anos depois, lendo o psicólogo Albert Görres, descobri resumida em poucas palavras a idéia que então tentava penosamente reduzir a conceitos e cujo desenvolvimento forma o núcleo das nossas reflexões. Görres indica que o sentimento de culpabilidade, a capacidade de sentir culpa, pertence de forma essencial ao patrimônio anímico do homem. O sentimento de culpa, que rompe a falsa tranqüilidade da consciência <…>, é um sinal tão necessário para o homem como a dor corporal, que permite conhecer a alteração das funções vitais normais. Quem não é capaz de sentir culpa está espiritualmente doente, é um “cadáver vivente, uma máscara do caráter”, como diz Görres (6). “Os animais e os monstros, entre outros, não têm sentimento de culpa. Talvez Hitler, Himmler ou Stalin também não o tenham tido. Com certeza, os chefões da máfia também carecem dele. Mas, na verdade, é bem possível que os seus cadáveres estejam ocultos no sótão, junto com os sentimentos de culpa rejeitados… Todos os homens necessitam de um sentimento de culpa” (7).
Além do mais, uma rápida olhada na Sagrada Escritura poderia ter evitado esses diagnósticos e as teorias da justificação pela consciência errônea. No Salmo 19, 13 encontramos uma proposição eternamente digna de reflexão: “Quem será capaz de reconhecer os seus deslizes? / Limpa-me <, Senhor,> dos que me são ocultos”. Isso não é um “objetivismo veterotestamentário”, mas profunda sabedoria humana: negar-se a ver a culpa ou fazer emudecer a consciência em tantos assuntos é uma doença da alma mais perigosa que a culpa reconhecida como culpa. Aquele que é incapaz de perceber que matar é pecado cai mais baixo do que aquele que reconhece a ignomínia da sua ação, pois está muito mais distante da verdade e da conversão. Não é em vão que, diante de Jesus, o orgulhoso aparece como alguém verdadeiramente perdido. O fato de o publicano, com todos os seus pecados indiscutíveis, parecer mais justo diante de Deus que o fariseu, com todas as suas obras verdadeiramente boas (Lc 18, 9-14), não significa que os pecados do publicano não sejam pecados nem que não sejam boas as obras boas. <…> O fundamento desse juízo paradoxal de Deus revela-se precisamente a partir do nosso problema: o fariseu não sabe que também tem pecados. Está inteiramente quite com a sua consciência. Mas o silêncio da consciência torna-o impermeável a Deus e aos homens, ao passo que o grito da consciência que aflora no publicano torna-o capaz da verdade e amor. Jesus pode atuar nos pecadores porque eles não se fazem inacessíveis às mudanças que Deus espera deles – de nós – escondendo-se atrás do biombo da sua consciência errônea. Mas não pode atuar nos “justos”, que não sentem necessidade nem de perdão nem de conversão; a sua consciência, que os exculpa, não acolhe nem o perdão nem a conversão.
Voltamos a encontrar a mesma idéia, ainda que exposta de outro modo, em Paulo, que nos diz que os gentios, quando guiados pela razão natural, sem Lei, cumprem os preceitos da Lei (Rom 2, 1-16). Toda a teoria da salvação pela ignorância fracassa diante desses versículos: no homem, existe a presença inegável da verdade, da verdade do Criador, que se oferece também por escrito na revelação da História Sagrada. O homem pode ver a verdade de Deus no fundo do seu ser criatural. É culpado se não a vê. Só se deixa de vê-la quando não se quer vê-la, ou seja, porque não se quer vê-la. Essa vontade negativa que impede o conhecimento é culpa. Que o farol não brilhe é conseqüência de um afastamento voluntário do olhar daquilo que não queremos ver.
A estas alturas das nossas reflexões, é possível tirar as primeiras conseqüências para responder à pergunta sobre o que é a consciência. Agora já podemos dizer: não é possível identificar a consciência humana com a autoconsciência do eu, com a certeza subjetiva de si e do seu comportamento moral. Essa consciência pode ser às vezes um mero reflexo do meio social e das opiniões nele difundidas. Outras vezes, pode estar relacionada com uma pobreza autocrítica, com não ouvir suficientemente a profundidade da alma. O que se deu no Leste Europeu após a derrocada dos sistemas marxistas confirma este diagnóstico. Os espíritos mais claros e despertos dos povos libertados falam de um imenso abandono moral, produzido por muitos anos de degradação espiritual, e de um embotamento do sentido moral, cuja perda e os perigos que acarreta pesariam ainda mais que os danos econômicos que produziu. O novo patriarca de Moscou pôs energicamente em evidência esse aspecto, no começo da sua atividade, no verão de 1990: as faculdades perceptivas dos homens que vivem num sistema de engano turvam-se inevitavelmente. A sociedade perde a capacidade de misericórdia e os sentimentos humanos desaparecem. <…> “Temos de conduzir de novo a humanidade aos valores morais eternos”, isto é, desenvolver de novo o ouvido quase extinto para escutar o conselho de Deus no coração do homem. O erro, a consciência errônea, só são cômodos num primeiro momento. Depois, o emudecimento da consciência converte-se em desumanização do mundo e em perigo mortal, se não reagimos contra eles.
Em outras palavras: a identificação da consciência com o conhecimento superficial e a redução do homem à subjetividade não libertam, mas escravizam. Fazem-nos completamente dependentes das opiniões dominantes e reduzem dia após dia o nível dessas mesmas opiniões dominantes. Aquele que iguala a consciência à convicção superficial identifica-a com uma segurança aparentemente racional, tecida de fatuidade, conformismo e negligência. A consciência degrada-se à condição de mecanismo exculpatório, em vez de representar a transparência do sujeito para refletir o divino, e, como conseqüência, degrada-se também a dignidade e a grandeza do homem. A redução da consciência à segurança subjetiva significa a supressão da verdade. Quando o salmista, antecipando a visão de Isaías sobre o pecado e a justiça, pede para libertar-se dos pecados que se nos ocultam, chama a atenção para o seguinte fato: deve-se, sem dúvida, seguir a consciência errônea, mas a supressão da verdade que a precede, e que agora se vinga, é a verdadeira culpa, que adormece o homem numa falsa segurança e por fim o deixa só num deserto inóspito (8).
FORMAR A CONSCIÊNCIA
Certamente a fé cristã vai além daquilo que a pura razão é capaz de reconhecer, mas faz parte das suas convicções fundamentais que Cristo é o Logos, quer dizer, a razão criadora de Deus da qual procede o mundo e que se reflete na nossa racionalidade. O apóstolo Paulo, que falou com tanta ênfase da novidade e da unicidade do cristianismo, destacou ao mesmo tempo que o preceito moral registrado na Sagrada Escritura coincide com aquele que “está inscrito nos nossos corações, segundo o testemunho da nossa consciência” (Rom 2, 15). É verdade que, com freqüência, esta voz do nosso coração, a consciência, é sufocada pelos ruídos secundários da nossa vida. A consciência pode, por assim dizer, tornar-se cega. Precisamos assistir às “aulas de recuperação” da fé, que volta a despertá-la, e assim torna novamente perceptível a voz do Criador em nós, suas criaturas (9).
O RESPEITO HUMANO, TRAIÇÃO DA PRÓPRIA CONSCIÊNCIA
O Juiz do mundo, que um dia voltará para nos julgar a todos nós, está ali, aniquilado, insultado e inerme diante do juiz terreno. Pilatos não é um monstro de maldade. Sabe que esse condenado é inocente, e procura um modo de libertá-lo. Mas o seu coração está dividido. E, por fim, faz prevalecer a sua posição, a si mesmo, acima do direito. Também os homens que gritam e pedem a morte de Jesus não são monstros de maldade. Muitos deles, no dia de Pentecostes, sentir-se-ão emocionados até ao fundo do coração (At 2, 37) quando Pedro lhes disser: a Jesus do Nazaré, homem acreditado por Deus junto de vós, <…>, vós o matastes, cravando-o na cruz pela mão de gente perversa (At 2, 22-23). Naquele momento, porém, sofrem a influência da multidão. Gritam porque os outros gritam e tal como os outros gritam. E assim a justiça é espezinhada pela covardia, pela pusilanimidade, pelo medo do diktat da mentalidade predominante. A voz sutil da consciência fica sufocada pelos gritos da multidão. A indecisão, o respeito humano dão força ao mal (10).
FALSAS PROMESSAS
Cristo diz: Guardai-vos dos falsos profetas que vêm a vós sob disfarce de ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes. Pelos seus frutos os conhecereis. Parece uma advertência contra as seitas e heresias.
É uma interpretação possível. Mas também é uma advertência contra qualquer regra fácil. Jesus nos previne contra os “curandeiros do espírito”. Diz que a nossa norma deve ser perguntarmo-nos: “Como vive essa pessoa? Quem é na realidade? Que frutos produzem ele e o seu círculo? Analise isso e verá a que conduz”.
Essa norma prática, ditada por Cristo à vista do momento em que viveu, projeta-se sobre a História. Pensemos nos pregadores da salvação do século passado, quer se trate de Hitler ou dos pregadores marxistas; todos vieram e disseram: “Trazemos a justiça para vós”. No princípio, pareciam mansas ovelhas, mas acabaram sendo grandes destruidores. Mas também diz respeito aos numerosos pequenos pregadores que nos dizem: “Eu tenho a chave, age assim e em pouco tempo conseguirás a felicidade, a riqueza, o êxito”.
William Shakespeare, evidentemente um católico, viveu com intensidade a roda da existência. Como bom pedagogo, no fim ofereceu uma recomendação, algo assim como a essência do seu conhecimento mundano: “Compra tempo divino, vende horas do triste tempo terrenal”. São palavras sábias, como as que se esperam de um grande homem. O tempo mais bem aproveitado é o que se transforma em algo duradouro: é o tempo que recebemos de Deus e a Ele devolvemos. O tempo que é pura transição desmorona e se transforma em mera caducidade (11).
A REGRA DE OURO
O Sermão da Montanha não corresponde necessariamente às idéias tradicionais. Opõe-se até às nossas definições de sorte, grandeza, poder, êxito ou justiça. E, no seu final, oferece ao seu público um resumo, quase que uma lei das leis, a “regra de ouro” da vida. Diz assim: “Portanto, tudo o que quiserdes que os homens vos façam, fazei-o também vós a eles; porque esta é a Lei e os Profetas”.
A regra de ouro já existia antes de Cristo, embora formulada de maneira negativa: “Não faças a ninguém o que não queres que te façam”. Jesus a supera com uma formulação positiva que, como é lógico, é muito mais exigente.
Na minha opinião, o que é grandioso é que já não se volta a comparar quem fez o que, quando, como, a quem; que a pessoa já não se perde em diferenciações, mas compreende a missão essencial que nos foi confiada: abrir bem os olhos, abrir o coração e encontrar as possibilidades criativas do bem. Já não se trata de perguntar que é o que eu quero, mas de trasladar para os outros o meu desejo. E esta entrega autêntica, com toda a sua fantasia criativa, com todas as possibilidades que abre diante de nós, está recolhida numa regra muito prática, para que não fique reduzida a um sonho idealista qualquer (12).
VIVER AS VIRTUDES
Creio que todo o mundo gostaria de saber como levar uma vida correta, <…>, como levá-la ao cume sentindo-se à vontade consigo mesmo. Antes de morrer, o grande ator Cary Grant deixou à sua filha Jennifer uma carta de despedida comovente. Quis dar-lhe nela algumas recomendações adicionais para o caminho. “Queridíssima Jennifer”, escreveu, “viva a sua vida plenamente, sem egoísmo. Seja comedida, respeite o esforço dos outros. Esforce-se para conseguir o melhor e o bom gosto. Mantenha puro o juízo e limpa a conduta”. E prosseguia: “Dê graças a Deus pelos rostos das pessoas boas e pelo doce amor que há por trás dos seus olhos… Pelas flores que ondulam ao vento… Um breve sono e despertarei para a eternidade. Se não despertar como nós o entendemos, então continuarei a viver em você, filha queridíssima”.
De certa forma, soa a católico. Seja como for, é uma carta belíssima. Se era católico ou não, não sei, mas certamente é a expressão de uma pessoa que se tornou sábia e compreendeu o significado do bem, e tenta transmiti-lo, além disso, com uma assombrosa amabilidade (13).
NOTAS:
(1) Fe, verdad y cultura. Reflexiones a propósito de la encíclica Fides et ratio, Primeiro Congresso Internacional da Faculdade San Dámaso de Teologia, Madrid, 16.02.00.
(2) Letter to Norfolk, pág. 261.
(3) Do conhecido poema Lead, kindly light.
(4) Correspondence of J. H. Newman with J. Keble and Others, págs. 351 e 364.
(5) Verdad, valores, poder, págs. 56-64.
(6) A. Görres, “Schuld und Schuldgefühle”, em Internationale katolische Zeitschrift “Communio”, 13 (1948), pág. 434.
(7) Ibid., pág. 142.
(8) “Se quiseres a paz, respeita a consciência de cada um (Consciência e verdade)”, em Wahrheit, Werte, Macht. Prüfsteine der pluralistischen Gesellschaft, Herder, Friburgo, 1993; trad. esp. Verdad, valores, poder. Piedras de toque de la sociedad pluralista, Rialp, Madrid, 2000, págs. 40-55.
(9) Entrevista a Jaime Antúnez Aldunate.
(10) Via-sacra no Coliseu, Primeira estação: meditação, Departamento para as Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice, Roma, 14.04.05.
(11) La fe, de tejas abajo.
(12) La fe, de tejas abajo.
(13) La fe, de tejas abajo.
Comentando
Esse artigo “mata dois coelhos com uma cajadada só”, pois critica o que chamo de “pensamento burocrático do século XIX” na Igreja e, ao mesmo tempo, vai de encontro a uma tendência crescente nos meios progressistas de usar a consciência como desculpa para qualquer ato (sentido amplo) contrário aos Mandamentos.
Para Paulo, a consciência é o órgão da transparência do único Deus em todos os homens, que são um homem. Em contrapartida, atualmente a consciência aparece como expressão do caráter absoluto do sujeito, acima do qual não pode haver, no campo moral, nenhuma instância superior. O bem como tal não seria cognoscível. O Deus único não seria cognoscível. No que diz respeito à moral e à religião, a última instância seria o sujeito.
Aqui o artigo explica que a consciência não é algo que depende do indivíduo, mas que, partindo das condições particulares de cada um, remete a um plano transcendente.
Do mesmo modo, o Magistério pós-apostólico, a consciência da Igreja, uma espécie de faculdade de estabelecer julgamentos no âmbito da Fé, não depende de si mesmo ou de quem o “encarne” num determinado contexto, mas se fundamenta na própria Revelação.
Sendo assim, num nível básico, nós podemos até dizer que aderimos a algo porque o Papa ou o bispo falou, mas, numa perspectiva aprofundada, nós aderimos porque o Papa ou o bispo, nas condições particulares X ou Y, repetiram, explicaram, o Depósito da Fé. Uma verdade não é verdade porque o Papa disse, ela é porque é, independente do que ele fale ou deixe de falar.
Nessa última parte é que está o eixo dos problemas em torno do ultramontanismo e do neo-conservadorismo de nossos dias: até onde vai a obediência? Qual o limite entre pecar por desobediência e pecar por excesso de obediência?
A consciência não significa para Newman a norma do sujeito frente às demandas da autoridade num mundo sem verdade, que vive entre as exigências do sujeito e da ordem social, mas, antes, a presença clara e imperiosa da voz da verdade no sujeito.
A consciência do católico não pode ser o objeto das demandas da autoridade momentânea, mas deve focar na Verdade, independente de quem esteja no poder.
Quando os conteúdos não contam e a pura fraseologia assume o comando, o poder converte-se em critério supremo, isto é, transforma-se em categoria – revolucionária ou reacionária – dona de tudo. Esta é a forma perversa de semelhança com Deus de que fala o relato do pecado original. O caminho do mero poder e da pura força é a imitação de um ídolo, não a realização da imagem de Deus. O traço essencial do homem enquanto homem não é perguntar pelo poder, mas pelo dever, e abrir-se à voz da verdade e suas exigências.
No momento em que a consciência deixa de buscar a Verdade e se acostuma com o conforto de ceder para a autoridade seu direito de reflexão, há o perigo da idolatria. Quantos católicos, durante o carismático pontificado de João Paulo II, não promoviam um verdadeiro culto à personalidade do Sumo Pontífice? Algo é bem diferente do verdadeiro respeito e amor que se deve ter ao Sucessor de Pedro (é até complicado falar isso, dadas as reações emocionais em torno do tema, mas não podemos esconder esse dado).
A consciência é apresentada como o baluarte da liberdade em face das constrições da existência causadas pela autoridade. <…> Desse modo, a moral da consciência e a moral da autoridade parecem enfrentar-se como duas morais contrapostas em luta recíproca. A liberdade do cristão ficaria a salvo graças ao postulado original da tradição moral: a consciência é a norma suprema que o homem deve seguir sempre, mesmo quando vai contra a autoridade. Quando a autoridade, nesse caso o Magistério da Igreja, falasse sobre problemas de moral, estaria submetendo um material à consciência, que reservaria sempre para si mesma a última palavra <…>. Essa concepção da consciência como última instância é recolhida por alguns autores na fórmula “a consciência é infalível”. <…>
Nesse trecho o artigo critica o fato de alguns tomarem a consciência como sinônimo de exteriorização da subjetividade e, desse ponto, a transformarem em referência no campo ético. Isso é uma distorção do axioma verdadeiro que ensina: a consciência é a norma suprema que o homem deve seguir sempre, mesmo quando vai contra a autoridade.
A consciência fundada na Verdade objetiva, na Revelação como explicada pela Igreja, a depender da circunstância, pode se opor à autoridade eclesiástica. Isso é bem diferente de considerar como referencial os “gostos” de alguém.
Na comunidade Apologética Católica no Orkut um confrade fez um comentário sobre o filme A Fita Branca (Das weisse band, 2009), ganhador da Palma de Ouro em Cannes, perguntando como seria uma avaliação dele à luz da moral católica.
Movido por essa pergunta, pela curiosidade de um trecho que vi na internet e por comentários que li na imprensa fui ver o filme numa sessão noturna de um “cinema de arte” de minha cidade. Realmente, A Fita Branca não é tipo de obra cinematográfica capaz de agradar ao público médio (viciado em coisas que atiçam a sensibilidade o tempo todo), pois não possui nenhum rol de efeitos especiais rocambolescos e mais sugere do que mostra (é um trabalho sobre idéias). É filme que deixa uma estranha sensação (talvez, em tempos de Avatar, seja realista demais)… mas vamos por partes.
Lenta e suntuosa, essa narrativa visual enche os olhos. O domínio do preto-e-branco é sublime, glacial, sólido, faz pensar em Bergman.
No filme há um narrador que esquadrinha os anos que o fizeram ser o que é. Temos um professor de aldeia que tenta, de alguma maneira, entender fatos que sente terem sido importantes na sua vida, na de seus contemporâneos, na de seu próprio país. Titubeante, alerta no começo sobre sua falta de certezas sobre o que é ou não verdade no que vai contar. A Fita Branca começa assim, duvidando de si mesma.
Daí em diante somos apresentados à descrição da vida numa comunidade rural do norte da Alemanha, onde as relações sociais são determinadas por estreitos laços de fidelidade que circulam em torno de um médico, um barão, um pastor e, enfim, do próprio professor. Nesse local a inocência (representada por uma fita branca amarrada no braço ou cabelo das crianças) é um valor nobre no qual se crê com afinco, e, ao mesmo tempo, uma violência velada, sugerida, permeia todo o ambiente.
Em seguida, estranhos incidentes passam a perturbar a ordem: um atentado derruba o médico de um cavalo e dois garotos são seqüestrados e torturados. A tensão cresce, descosturando as teias do aparente marasmo e fazendo a civilidade formal despencar de seu pedestal de barro. Mas o que interessa não é a violência em si, e sim a cultura, a educação, as relações humanas que conduzem a ela, paulatinamente. Muitos atos de violência acontecem na narrativa, mas nenhum deles é mostrado explicitamente, tudo o que sabemos são relatos, sinais e suposições.
A Fita Branca reflete sobre o horror… o horror praticado entre as paredes de nossas casas, no íntimo do coração, que só o Senhor sonda. Michael Haneke, o diretor, não faz coro com cineastas ingênuos que, a pretexto de discutir a violência, nada mais fazem do que contribuir com o seu fetiche. O mal, na sua obra, se faz invisível na medida em que se dilui entre todos, em que é compartilhado e tolerado com surpreendente “vista grossa”.
Como, então, avaliar esse enredo numa perspectiva católica?
Primeiramente, temos uma crítica ao puritanismo. É sempre bom lembrar que a austeridade, acalentada pelo orgulho exacerbado (“não peco, não me misturo com os pecadores”), reage exageradamente contra a sensualidade, mas essa reação, por obstinada que seja, é estéril: cedo ou tarde, por inanição, será destroçada pelos falsos princípios.
Em segundo lugar, observamos as conseqüências do cerceamento da individualidade. O indivíduo é o sujeito moral irredutível, é o único que pode assumir responsabilidades perante o Criador, responsabilidades que são intransferíveis a qualquer outra entidade (Igreja, Estado, família, etc.); sem a consciência dessa verdade a instrumentalização dos melhores valores (como a inocência) torna-se uma perigosa possibilidade.
Por fim, temos uma desconstrução do humanismo ingênuo que desde o século XVIII vez ou outra retorna com força ao debate público, contrapondo a utopia à realidade atingida pelo pecado original.
É um bom filme. Bom como um romance clássico. Mas não é para todos.
Fazendo eco à postura que tenho no Orkut, onde nunca temi tocar em temas doutrinários polêmicos, mas sempre refletindo segundo os parâmetros católicos (Revelação + Magistério + vida dos Santos), acho que uma análise dos trechos bíblicos ordinariamente associados a homossexualidade/homossexualismo é uma necessidade.
Por que é uma necessidade?
Por dois motivos:
1) Hoje em dia temos, refletindo o modernismo católico e o liberalismo protestante, uma linha de exegetas que se rendeu “ao século”, que adota uma visão naturalista, cientificista e historicista da Bíblia, sempre buscando fissuras na Sagrada Doutrina para justificar os mais variados desregramentos que são comuns na existência humana e que foram amplificados na nossa triste época afastada de Deus.
2) Como reação aos exageros da exegese modernista-liberal e por influência do evangelicalismo norte-americano, ganhou corpo nos meios tradicionalistas, neo-conservadores ou carismáticos da Igreja uma leitura literalista da Escritura, completamente contrária à postura clássica católica.
Esses dois grupos se batem como cegos (não conseguem enchergar a luz da Verdade) no meio das reivindicações do movimento homossexual. São incapazes de responder satisfatoriamente, ou seja, teologicamente, às questões levantadas; suas respostas ou parecem uma rendição de quem acredita em algo completamente irracional ou frias e fechadas em si mesmas.
Vou tentar quebrar isso! Deus me ajude.
Agora, preliminarmente, a leitura de tudo que eu escrever aqui tem de ser na perspectiva destes dois pontos:
1) O exame de trechos específicos não deve interferir na noção de que o verdadeiro sentido da Sagrada Escritura só pode ser tomado na análise sistemática dela e em consonância com a Sagrada Tradição.
2) Nada do que for dito aqui deve ser interpretado num sentido mais laxista ou rigorista do que aquilo que a Igreja já definiu sobre o assunto e que está devidamente exposto no Catecismo.
Geralmente são mencionadas cerca de 15 passagens:
Gênesis I, 27-28 e II, 18-25
Dois relatos da criação do primeiro homem e da primeira mulher.
Gênesis XIX
A história de Sodoma e Gomorra.
Juízes XIX
Registra uma história dos dias em que Israel colonizara a terra de Canaã, mas ainda não tinha um rei.
Levítico XVIII, 22 e XX, 23
Preceitos do assim chamado Código da Santidade referentes à moralidade sexual.
Deuteronômio XXIII, 17
Uma proibição no sentido de que “os filhos de Israel” não se tornassem prostitutos do Templo.
I Reis XIV, 24; XV, 12; XXII, 47 e II Reis XXIII, 7
Relatos sobre a instalação e abolição da prostituição no Templo em diversas épocas durante o período da monarquia.
Romanos I, 18-32
Uma reflexão sobre a ira de Deus contra a “impiedade e maldade” da humanidade.
I Coríntios VI, 9-11
Um alerta de que “malfeitores não herdarão o Reino de Deus”.
Efésios V, 33
A relação matrimonial ideal.
Judas VII
Uma referência a Sodoma e Gomorra.
Nenhum dos profetas do Antigo Testamento fez qualquer referência a relações entre pessoas do mesmo sexo.
Embora essa lista possa impressionar a uma primeira olhada, na verdade, comparado com outros assuntos, como a injustiça ou a cobiça, os textos bíblicos que tratam a questão homossexual são relativamente poucos. É sintomático também que importantes dicionários (Vocabulário Bíblico, de Leon-Dufour) e importantes estudos bíblicos (A mensagem moral do Novo Testamento, de R. Schnackenburg) nem apresentem o termo homossexualidade. Em si nada há de surpreendente na parcimônia da Bíblia, pois ela não é um catálogo de proibições, e muito menos se destina a dar resposta pronta para todos os problemas de todos os tempos (ela até dá resposta, mas não diretamente).
O que causa surpresa é o completo silêncio de Nosso Senhor Jesus Cristo. E este silêncio do Cristo é ainda mais surpreendente quando se sabe que a prática do sexo homossexual, por influxo do mundo helênico, estava presente na sociedade judaica da época e era veementemente condenada pelos rabinos. O silêncio, no caso, não significa consentimento (como querem certos modernistas), mas sugere, antes, uma postura mais global. Trata-se de uma verdadeira revolução na maneira de enfocar todos os problemas. Jesus não se pergunta propriamente pelo que as pessoas são no momento, se são santas ou pecadoras. O que importa para o Divino Mestre é que estejam dispostas a abrir os olhos para divisar os vastos horizontes da vida que Ele oferece para todos. A partir desses novos horizontes, até as pedras podem se transformar em filhos de Abraão e até uma prostituta pode transformar-se em primeira mensageira da Ressurreição.
Vou seguir a postura de Cristo neste texto.
Gênesis I, 27-28 e II, 18-25
Muito mais que os textos de São Paulo ou o relato sobre Sodoma (passíveis de um exegese liberal), o que encontramos na história da criação, para mim, é o principal ponto no que se refere a considerar as relações homossexuais (mesmo as que subjetivamente perfazem o ideal ético de oblatividade) como desviantes.
No Gênesis fica bem claro qual o o desejo do Senhor e tal desejo perfaz o fim objetivo a que tudo deveria se subordinar. Explica o Pe. Lodi:
Como coroamento de sua obra, Deus fez o homem “à sua imagem”. E o fez “varão e mulher”. Prossegue a Escritura: “Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a” (Gn 1, 27-28). Esta passagem encerra a um dos fins da diferenciação sexual: a procriação. Será esta a única razão pela qual Deus criou dois sexos na espécie humana? Não. Homem e mulher são diferentes também para que se possam completar mutuamente. O isolamento do homem é descrito pelo Gênesis como um mal: “Não é bom que o homem esteja só. Vou fazer-lhe uma auxiliar que lhe corresponda” (Gn 2,18). Ao ver a mulher, tirada de seu lado, o homem exclama exultante: “Esta sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne!” (Gn 2,23), ao contrário dos irracionais, que sendo inferiores a ele em natureza, não lhe podiam servir de companhia adequada. A união sexual é descrita no versículo seguinte: “Por isso um homem deixa seu pai e sua mãe, se une a sua mulher, e eles se tornam uma só carne” (Gn 2,24).
Aí está, de maneira magnífica, descrita a instituição do matrimônio e seu duplo fim: a geração da vida e a complementação dos cônjuges. Por natureza, homem e mulher são diferentes e complementares. O que falta no homem, sobeja na mulher e vice-versa. Daí sua atração mútua e a tendência de formar uma união estável e perpétua, apta à procriação e à educação da prole.
Esse explicação nos remete ao dever ser e é o que, de fato, torna heterodoxas quaisquer tentativas de trabalhar a homossexualidade como se ela fosse um bem em si mesma.
Não é a toa que onde esse tipo de perspectiva foi esquecido ou contestado, seja dentro da Igreja (jesuítas), seja fora dela (parte da Comunhão Anglicana), todas as outras referências negativas ao comportamento homossexual acabem se relativizando ou deixando de existir. E, após muito estudo, vi que essa é uma conseqüência lógica necessária mesmo. Sem o entendimento de que há um fim objetivo que representa o ideal, qualquer outra alegação nesse campo perde seu sentido de ser.
Agora, dito isso, cabe notar que a presença da homossexualidade no mundo é tão objetivamente desviante quanto a existência da miopia ou de cabelos brancos. Provavelmente essa declaração deve ter impressionado alguns, mas é assim mesmo. Sempre me pareceu um tanto estranho como algumas pessoas enchem a boca para dizer a um homossexual que “seu comportamento é uma desordem objetiva”, mas não percebem que tudo que não se adequa àquilo que Deus queria lá no Paraíso também o é. O fato de termos doenças, de “tudo cair” quando envelhecemos, de precisarmos tomar banho para não feder, etc., tudo isso é desordem objetiva!
Refletir assim, embora jamais leve a uma justificativa da homossexualidade como ideal, ajuda a por as coisas no seu devido lugar e a tratar os problemas humanos sem exageros e neuroses (que, no mais das vezes, são o resultado de falta de amor mesmo ou projeção).
É digno de nota que no mais antigo dos relatos (Gênesis II), a relação entre Adão e Eva é descrita no sentido de destinar-se ao seu companheirismo total. Isso mostra como, em termos subjetivos, a partir do companheirismo, podemos ter relacionamentos homossexuais mais exemplares que um heterossexual, assim como podemos ter relacionamentos de casais “em segunda união” mais exemplares que relacionamentos sobre o manto do sagrado matrimônio. O que a maioria não entende hoje é que nada disso muda aquilo que deveria ser e que considerar o dever ser é o primeiro passo numa reflexão sobre a moral.
Eu não tenho problemas em lidar com essa tensão entre o ser e o dever ser e fazer julgamentos concretos no campo da moralidade a partir de tal constatação. Mas muita gente parece não lidar bem com isso, talvez um reflexo da antiga teologia manualística ou de medo irracional mesmo (homofobia)… não sei.
O que falta na teologia de categorias abstratas é um mínimo de comoção pastoral com as pessoas concretas que vivem esse drama. Por isso, a maioria dos autores atuais, admitem a distinção entre moralidade objetiva, formulada em termos de malícia intrínseca e pecado gravo, e a moralidade subjetiva, na qual admitem uma grande margem de diminuição de culpa.
Portanto, podemos dizer que no Gênesis temos a principal referência bíblica sobre o tema deste post.
Gênesis XIX – Sodoma
Já há algum tempo venho refletindo sobre a passagem que trata do castigo de Sodoma. Nesse tempo em que venho estudando a questão da homossexualidade retornei várias vezes a Gênesis XIX. Recentemente, relendo todo o Pentateuco a partir da Bíblia de Jerusalém, tive nova oportunidade de pensar sobre o castigo dos habitantes de Sodoma a partir dos referenciais católicos para a exegese.
Inicialmente, eu era um radical, que repetia o lugar comum: “é evidente que os sodomitas foram condenados por seu homossexualismo, uma abominação anti-natural que clama aos Céus por vingança”. Depois, fiquei negativamente impressionado com a exegese que certos liberais davam a esse episódio, dizendo que a questão ali era a hospitalidade e o estupro coletivo, e procurei combatê-la. Mais tarde, comecei a estudar mais e mais essa nova linha exegética, em especial depois que descobri que autores católicos de grande honestidade intelectual e com uma Fé verdadeira a levavam em conta, e cheguei mesmo a pensar que ela era a mais coerente. Graças a Deus isso foi um lapso que passou bem rápido, pois eu não poderia levar em conta a exegese liberal e esquecer o que a Igreja já disse sobre o assunto, isso seria livre-exame.
Qual então o estado da questão ao se fazer uma leitura sem preconceitos (conceitos prévios), mas levando em conta o que já foi dito sobre o tema? É isso que vou tentar enfrentar agora.
Primeiramente, como falei, sempre foi divulgado que a destruição de Sodoma (e Gomorra) tinha relação com o homossexualismo. Isso não pode ser negado pelo católico (Congregação para a Doutrina da Fé, Carta aos bispos da Igreja Católica sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais, 1987, n. 6).
Contudo, uma leitura sistemática, que leva em conta o que veremos sobre Juízes XIX e o que temos em Gênesis XIII, 13, que aponta para a maldade em geral dos habitantes de Sodoma, mostra que o pecado sexual no episódio que estamos abordando é mais um instrumental que o fim em si mesmo.
Ezequiel XVI, 49 deixa isso explícito:
Eis qual foi a causa da iniqüidade de Sodoma, tua irmã: a soberba, a fartura de pão e a abundância, a ociosidade dela e de suas filhas, e o não estender a mão para o pobre indigente.
Outros textos veterotestamentários, lidos no seu contexto, aludem muito mais a essa maldade geral que a qualquer pecado puramente sexual (Isaías I, 9 e III, 9; Jeremias XLIX, 18; Amós IV, 11; Sofonias II, 9).
Em Isaías I, 10-20 temos:
Ouvi a palavra de Iahweh, chefe de Sodoma, prestai atenção à instrução do nosso Deus, povo de Gomorra! Que me importam os vossos inúmeros sacrifícios?, diz Iahweh. Estou farto de holocaustos de carneiros e da gordura de bezerros cevados; no sangue de touros, de cordeiros e de bodes não tenho prazer. Quando vindes à minha presença quem vos pediu que pisásseis meus átrios? Basta de trazer oferendas vãs: elas são para mim incenso abominável. Lua nova, sábado e assembléia, não posso suportar falsidade e solenidade! Vossas luas novas e vossas festas, minha alma detesta: elas são para mim um fardo; estou cansado carregá-lo. Quando estendeis vossas mãos, desvio de vós meus olhos; ainda que multipliqueis a oração não vos ouvirei. Vossas mãos estão cheias de sangue; lavai-vos, purificai-vos! Tirai de minha vista vossas más ações! Cessai de praticar o mal, aprendei a fazer o bem! Buscai o direito, corrigi o opressor! Fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva! Então, sim, poderemos discutir, diz Iahweh: Ainda que vossos pecados sejam como escarlate, torna-se-ão alvos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim torna-se-ão como a lã. Se quiserdes obedecer, comereis o fruto precioso da terra. Mas se vos recusardes e vos rebelardes, sereis devorados pela espada! Eis o que a boca de Iahweh falou.
No texto fica claro um problema geral de maldade e o fato dele estar inserido numa parte de Isaías que trata da ingratidão é mais um reforço para essa percepção.
As duas referências do Novo Testamento encontram-se em Judas VII, um texto um tanto obscuro, acenando para uma espécie de comércio carnal entre seres humanos e anjos, e II Pedro II, 6-10, indicando a libertinagem geral.
Desse modo, o texto sobre Sodoma aponta mais para a violação da hospitalidade que para qualquer outra coisa. Afinal, se fosse pela questão da castidade, o fato de Ló querer dar suas duas filhas virgens em lugar dos anjos (que os habitantes de Sodoma não sabiam que eram anjos) para serem estupradas seria de uma contradição bem maluca (o paralelo do que temos aqui com que está em Juízes não é uma mera coincidência).
Pode-se pensar, também, numa certa correlação entre a rejeição do estrangeiro e a rejeição da alteridade. Na compreensão bíblica, o reconhecimento da diferença sexual descentraliza o sujeito de si mesmo e lhe mostra seus limites; já o desconhecimento desta diferença ameaça aprisionar a pessoa no círculo encantado e mortal de si mesma, ou seja, promove a idolatria (por isso o Código da Santidade, que veremos em Levítico, aborda o tema).
A principal falha dos novos “exegetas”, então, é não levar em conta que um pecado tem relação com outros. Assim como a prática heróica de uma virtude geralmente leva à prática das outras virtudes, ficar obstinadamente num pecado leva o pecador a cair em outros pecados relacionados por natureza ou circunstância.
Realmente, os habitantes de Sodoma caíram na falta de caridade e hospitalidade, glutonaria e imoralidade geral. Contudo, isso não permite concluir que o homossexualismo não é pecaminoso como querem alguns (atentem para a palavra “pecaminoso”!).
Cornélio a Lapide, grande estudioso católico da Bíblia (se não o maior, pelo tamanho de seu trabalho e pela fidelidade à Igreja), ensina-nos (a tradução é minha e, portanto, deve ter problemas) :
O primeiro entre os vícios de Sodoma é o orgulho. Em seguida a fartura do pão, ou melhor de comida, comidas delicadas, banquetes. Em terceiro, a abundância de bens, de luxo e prazer. Em quarto, preguiça. Em quinto, falta de misericórdia…
Ouçamos São Jerônimo: “Arrogância, fartura de pão, a abundância de todas as coisas, preguiça, prazeres, esses foram os pecados de Sodoma. Por causa deles, eles esqueceram de Deus, pois a presença contínua de riquezas parece perene e então não há necessidade de recorrer a Deus para obtê-las.” (…) Por isso, nós encontramos primeiro orgulho entre os pecados de Sodoma. Então Deus castiga os orgulhosos, permitindo que eles caiam numa grande e ignomiosa luxúria, como pode ser deduzido de Rom. 1, 27… Também, a gula levou a queda de Sodoma, pois é a matéria pela qual a luxúria nasce. São Jerônimo diz: “A lava dos vulcões Etna, Vesúvio ou Olimpo não faz os jovens queimar de luxúria, mas o vinho e pratos delicados.” (…) Sobre a preguiça, São João Crisóstomo diz: “Preguiça ensina toda a malícia.”
(…)
Quinto, falta de misericórdia, que foi a causa da luxúria dos sodomitas: então aqueles que são cruéis com os outros são também cruéis com sua própria natureza, violando as leis da geração. Os que são cruéis com seus vizinhos e coisas como seu sustento ou mesmo sua vida, também são cruéis com seus corpos, abusando deles libidinosamente. Assim, os sodomitas que eram cruéis com seus convidados e com os peregrinos (neste caso os anjos que assumiram corpos humanos e se apresentaram como peregrinos a Lot) queimam de desejos maus (Gen. XIX, 5). Falta de misericórdia e crueldade fazem, então, que aqueles que são cruéis não respeitem nem a modéstia nem a reputação, o corpo, ou a vida do vizinho, especialmente estranhos e peregrinos. Em substituição, eles os tratam como seus, como comida para suas lascívias – algo vil e sem valor.
Como se observa, a interpretação que vê no homossexualismo um instrumental para a maldade não é um exemplo de “modernismo laxista”, mas, acima de tudo, um fruto do comprometimento com a verdade.
Quais as conseqüências disso tudo?
A primeira, como já ressaltei, é que tomar o caso de Sodoma como o principal na rejeição da prática homossexual como ideal é um equívoco. O relato da criação cumpre muito mais esse papel.
A segunda é saber que se for para considerar a questão da castidade como o principal aqui, então, por analogia, teremos de considerar que as chicotadas nas costas de Nosso Senhor são piores do que aquilo que as motivou (a impiedade geral que levou ao não reconhecimento do Messias). Uma pessoa inteligente não pode fazer isso.
A terceira é que a tentativa de relações homossexuais aqui não tem nada haver com uma homossexualidade estrutural.
Uma questão mais sutil, mas associada, é a avaliação daquele preceito catequético sobre os pecados que clamam ao Céu por vingança que diz: “Pecado sensual contra a natureza”. Algumas pessoas gostam de ver aqui a “sodomia” (sexo anal), mas, supondo que estivessem certas, associar isso a homossexuais seria um erro, já que existem homossexuais masculinos que não fazem sexo anal (sobre as lésbicas nem se fala) e heterossexuais que o fazem. Todavia, não é isso que o texto diz; ele, numa referência a exegese nem sempre aprimorada da Escritura, sobre episódios como o de Sodoma e o de Onan (Gênesis XXXVIII, 4-10 – equivocadamente associado à masturbação), trata de qualquer pecado (e pecado, ou seja, a um comportamento que preencha todas as condições para o pecado mortal) contra a natureza no âmbito sexual: masturbação, homossexualismo, coito interrompido, bestialismo, etc.
Sendo assim, considero que focar o episódio de Sodoma e Gomarra só no homossexualismo é um reducionismo.
Juízes
No capítulo XIX desse livro temos um texto que também é associado a questão da homossexualidade. Considero isso uma maluquice.
O que temos aqui é um relato chocante sobre um crime. Um levita que ia para casa com seu servo e sua concubina acaba tendo de passar uma noite na cidade benjamita de Gabaá. Nessa cidade os habitantes faltam gravemente com a lei da hospitalidade. O levita salienta a ironia de sua situação: ele, que tem acesso à cada de Javé, não encontra ninguém para acolhê-lo.
Ele acaba encontrando um conterrâneo que vive entre os benjamitas e este lhe oferece asilo. À noite, aparecem uns vagabundos querendo manter relações sexuais com o levita (é aqui que alguns associam esse episódio com homossexualismo). O levita acaba dando sua concubina para eles a “conhecerem” e está acaba sendo morta e disso deriva uma série de conseqüências que representa bem a mentalidade da época (de punição coletiva).
O que temos aqui não é um caso de homossexualismo, mas de estupro. A vítima, afinal de contas, é uma mulher! Não importa se tal ato é cometido por héteros, gays ou bissexuais, o estupro é errado e é isso que o episódio nos passa.
Uma coisa estranhíssima na exegese que vê aí um caso de “abominação homossexual” é que ela não atenta para o fato de que o levita dá sua concubina para ser estuprada!!! Querer condenar relacionamentos homossexuais livres e estáveis com base num episódio de estupro e não tirar nenhuma conseqüência do fato de uma mulher ser usada como objeto é uma completa doideira. É preciso ter muito, muito, muito preconceito (no sentido literal da palavra) para ver nesse episódio uma lição moral sobre a homossexualidade. É preciso muito, muito, muito preconceito para ficar picotando da Escritura segundo um dado cultural prévio para aplicar, sem mais nem menos, o Antigo Testamento para os homossexuais e não fazer isso, na mesma medida, para as mulheres. Pois se desse trecho se tirar alguma lição sobre a homossexualidade, também teremos de tirar sobre a mulher (que ela não passa de uma coisa na mão do marido).
Desse modo, Juízes não apresenta nenhuma lição verdadeira sobre a sexualidade humana.
Deuteronômio, Reis, Efésios e Judas
As referências citadas de Deuteronômio e dos dois livros de Reis referem-se todas à prostituição cúltica no Templo, que era uma característica da religião cananéia contra a qual os israelitas foram repetidamente advertidos. Essas condenações e proibições, seja da prostituição heterossexual, seja da homossexual, evidentemente nada significam no tocante a relações de longo prazo de qualquer tipo.
O versículo citado de Efésios refere-se à afirmação da relação entre Cristo e seu corpo, isto é, a Igreja, e a relação entre marido e mulher. O escritor sagrado não menciona aqui qualquer outra espécie de relação humana, e caso daí se queira concluir – como fazem alguns – que a relação marido-mulher é a única possível para cristãos, a conseqüência seria considerar o celibato tão pecaminoso quanto um relacionamento homossexual.
A passagem em Judas usa Sodoma (como fizeram todos os principais profetas e Jesus) como ilustração da destruição que inevitavelmente sucede ao pecado. O escritor não menciona “desejos sexuais não naturais” como um dos pecados de Sodoma. É necessária considerável carga de juízo prévio para encará-la como referência ao que atualmente conhecemos como relações homossexuais.
Levítico
Os textos do Levítico direta ou indiretamente ligados ao comportamento homossexual aparecem na seção desse livro conhecida como Código da Santidade, que estabelece como o comportamento dos israelitas, enquanto povo eleito de Deus, deveria distinguir-se daquele de outras nações.
Nessa via de santidade, relações homossexuais entre homens estavam proibidas. A razão por que não se mencionam mulheres (sugerem os estudiosos) é que se acreditava naquela época que a fonte total da vida vinha do homem, sendo que a mulher servia apenas de receptáculo no qual a semente se desenvolvia em nova vida. Numa pequena nação, cercada de poderosos vizinhos e almejando o crescimento, qualquer ação na qual as sementes de possível nova vida fossem desperdiçadas tinha de ser declarada pecaminosa.
Os liberais usam isso para tentar desqualificar o valor do que temos em Levítico, como se ele fosse um mero fruto da cultura do momento. Em certo sentido isso é até verdade, pois é evidente que a inspiração passou por uma filtragem cultural mas a conseqüência de saber disso não é jogá-la fora e sim descobrir o sentido espiritual profundo.
Mas vamos por partes.
O grande problema que aparece no Código da Santidade, em especial para quem se esqueceu como a Igreja lê a Bíblia (hereges modernistas e protestantes de um lado e rigoristas neo-conservadores, carismáticos e tradicionalistas do outro), é tomar os versículos que tratam da homossexualidade como algo sobre o qual não se pode fazer nenhuma reflexão e, ao mesmo tempo, ignorar os adjacentes, ou, por causa dos adjacentes, ignorar os que se referem a relações homossexuais.
Um falso dilema.
Os rigoristas, que gostam de citar o Levítico como algo autoritativo em si mesmo, costumam insistir em que pessoas que apresentam o comportamento que estamos analisando precisam ser tratadas com amor e compaixão e receber apoio num processo de mudança (é interessante como muitos, por baixo dos panos, não se furtam de encher a boca para falar “viados” em tom de ameaça). Entretanto o livro declara explicitamente que as pessoas que praticam o sexo com um igual precisam ser executadas.
Os liberais, por sua vez, observam a contradição (verdadeira) de que outras partes do Código de Santidade proíbem toda uma série de outras coisas que, ao que sei, não são levadas a sério por qualquer católico com a cabeça no lugar – por exemplo, comer carne contendo sangue, usar roupa feita de dois tipos de fibra ou designar para o sacerdócio alguém que tenha qualquer defeito físico, mesmo que seja uma sobrancelha torta.
Tudo isso, inevitavelmente, levanta a seguinte questão: como é possível determinar que um versículo deve ser considerado como tendo autoridade divina, ao passo em que se rejeita vários outros como sendo inaplicáveis para nós hoje? Resposta: lendo a Sagrada Escritura da maneira católica, isto é, sistematicamente e em conjunto com a Santa Tradição.
Por essa leitura, por exemplo, é que sabemos que a masturbação não faz parte do ideal cristão de santidade. Não há nenhuma passagem bíblica sobre ela, Jesus não falou nada contra a masturbação!!! e, mesmo assim, ela é alvo de proibição. Por quê? Porque não se adequa àquilo que se tira da visão sistemática da Escritura (uma sexualidade objetivamente regrada – visando a reprodução – e dentro do matrimônio) e dos princípios que o Divino Mestre nos deixou (afinal, se olhar com más intenções uma mulher já é pecado, imaginem fazer uma auto-estimulação erótica a partir disso).
Sendo assim, o que deve importar no Código da Santidade não são suas regrinhas em concreto, mas o sentido profundo espiritual, ou seja, o de se preservar de tudo que afaste do ideal que Deus tem para nós, como seu povo (a Igreja é o novo Israel de Deus), e sempre lendo na perspectiva do Cristo, que tem por horizonte o Reino, ao qual todos são convocados.
Romanos
Nesse trecho de Romanos (I, 18-32) a questão da homossexualidade parece direta e bem estruturada (inclusive, temos aqui a única referência em toda a Bíblia ao lesbianismo). Parece… novamente temos o sexo entre iguais como um instrumental e não como o problema central.
Mas vamos por partes, entendendo pouco a pouco todo esse trecho do livro.
A perícope (conjunto de versículos que formam uma unidade temática) está definida em seu caráter forense pelo começo, “ira-condenação”, e pelo final, “réus de morte”. A ira é tema freqüentíssimo no Antigo Testamento (Sofonias I, 15). O delito é enunciado, primeiro de modo genérico: todo tipo de impiedade (contra Deus) e injustiça (contra o próximo). Por serem gerais, abrangem tudo, e mostram um Deus ativamente inconciliável com o pecado (Salmo X, 5).
Depois desenvolve um processo. Primeira fase: o homem conhece (naturalmente, sem Revelação) a Deus, e não o reconhece como é devido. Como castigo – segunda fase – o Senhor abandona o homem a suas paixões; repete-o três vezes (versículos 24, 26, 28). Conseqüência – terceira fase – um catálogo de vícios, tirados em parte da cultura pagã greco-romana. Desenlace: como não podem alegar a rejeição nem o atenuante da ignorância (versículo 32), são réus de morte.
No Antigo Testamento, como castigo, Javé “entrega” o povo ao inimigo (Juízes II, 1-4/20-23), aqui o entrega “a seus desejos, a suas paixões, à sua mente depravada”: levam dentro o inimigo e o castigo abrange “o corpo e a mente”.
Desse modo, quando chega a falar de relações homossexuais, São Paulo as enquadra no contexto geral de decadência moral que encontra na sociedade romana. É bom não forçar demais a passagem, entendendo que ele se refere especificamente ao fato de pessoas que tinham vivido em relações heterossexuais abandoná-las em favor de relações homossexuais. Em termos práticos, qual era a origem disso? Era a chamada prostituição cúltica: na época de Paulo eram comuns as orgias grupais nos cultos de fertilidade; nas sociedades vinculadas a Roma, a pedofilia e a prostituição faziam parte das práticas sexuais entre homens (não haveria o inconveniente de uma gravidez), que se inflamavam mutuamente. Homens livres heterossexuais ou bissexuais desprezavam as suas esposas e praticavam orgias sexuais com seus escravos, prestando culto aos ídolos (o mesmo no que se refere às mulheres).
Por que o culto aos ídolos, na visão cristã, como que “exigia” isso? Bem, a “abominação” das práticas descritas não é só moral, mas, especialmente, teológica. No início havia o caos… ou seja, não havia diferenciação, mas uma mistura desordenada de elementos; Deus, então, começa a colocar ordem, justamente estabelecendo a diferenciação dos elementos: terra, ar, água… A expressão máxima da diferenciação organizadora e fecunda encontra-se justamente na diferenciação sexual: Ele os criou homem e mulher. Ora, nessa perspectiva, relações homossexuais seriam uma volta atrás, uma volta da confusão e da esterilidade. E esquecer a diferença, como ressaltei na análise do episódio de Sodoma, é a expressão da idolatria, posto que o reconhecimento dela descentraliza o sujeito de si, mostrando seus limites; o desconhecimento da diferença aprisiona a pessoa no círculo encantado de si mesma.
Temos, então, nesse trecho de Romanos um eco do “sereis como deuses” do Gênesis (por isso já escrevi mais de uma vez: sem levar ele em conta, nada faz sentido na consideração da homossexualidade como algo que não é ideal). O que se encontra na raiz de todos os pecados (o orgulho), transparece de maneira mais clara no campo da sexualidade. Por isso, se a antropologia paulina aponta para o: “não sabeis que vossos corpos são membros de Cristo? E então vão tomar membros de Cristo para faze-los membros de uma prostituta? Jamais!” é exatamente no modo como o ser humano vivencia sua sexualidade que vai se manifestar ou não a consciência de sua dignidade; se este ser se entrega às obras da carne ou às obras do espírito: eis o critério. Esse é o foco de Paulo, as relações homossexuais citadas aqui (periféricas, não oblativas) são um exemplo, não o ponto essencial.
I Coríntios
Entro agora no último trecho bíblico associado a questão homossexual.
Vamos a ele (segundo a tradução de quatro versões católicas e duas protestantes):
Vulgata (Matos Soares): “Porventura não sabeis que os injustos não possuirão o reino de Deus? Não vos enganeis: Nem os fornicadores, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os que se dão à embriaguez, nem os maldizentes, nem os roubadores possuirão o reino de Deus. E tais éreis alguns de vós; mas fostes lavados, mas fostes santificados, mas fostes justificados em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, e pelo Espírito de nosso Deus.”
Ave Maria: “Acaso não sabeis que os injustos não hão de possuir o Reino de Deus? Não vos enganeis: nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os devassos, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os difamadores, nem os assaltantes hão de possuir o Reino de Deus. Ao menos alguns de vós tem sido isso. Mas fostes lavados, mas fostes santificados, mas fostes justificados, em nome do Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito de nosso Deus.”
Peregrino: “Não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos iludais: nem os fornicadores nem os idólatras nem adúlteros nem efeminados nem homossexuais nem ladrões nem avarentos nem beberrões nem caluniadores nem exploradores herdarão o reino de Deus. Alguns de vós no passado eram desses; mas fostes lavados, consagrados e absolvidos pela invocação do Senhor nosso Jesus e pelo Espírito do nosso Deus.”
Jerusalém (edição revista e ampliada): “Então não sabeis que os injustos não herdarão o Reino de Deus? Não vos iludais! Nem os impudicos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os depravados, nem as pessoas de costumes infames, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os injuriosos herdarão o Reino de Deus. Eis o que vós fostes, ao menos alguns. Mas vós vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados em nome do Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito de nosso Deus.”
Almeida Revisada e Corrigida: “Não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus? Não erreis; nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o Reino de Deus. É o que alguns têm sido, mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito de nosso Deus.”
Almeida Edição Contemporânea: “Não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus? Não erreis: nem os impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem roubadores herdarão o reino de Deus. E tais fostes alguns de vós. Mas fostes lavados, mas fostes santificados, mas fostes justificados em nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito nosso Deus.”
De maneira preliminar, digo que a tradução da Bíblia de Jerusalém é a ideal, mas, por desencargo de consciência, vou fazer um exercício intelectual avaliando o trecho segundo a traducão das outras versões antes de ir ao argumento central.
Em primeiro lugar, cabe notar que esse trecho se une com a lista presente em V, 11 (que acrescenta outras categorias) compondo uma espécie de “decálogo negativo” (também encontrado em Gálatas V, 19-21; Efésios V, 5; I Timóteo I, 9-11; Apocalipse XXII, 15). Nesse sentido, as duas palavras que podem ser associadas a homossexualidade na perícope (efeminados e sodomitas) não são ressaltadas. Quem as enfatiza deveria ser enfático com todo o resto da lista.
Vale salientar que a tradução que encontramos na Bíblia do Peregrino, onde “sodomitas” vira “homossexuais” é fruto de grande subjetivismo, pois na época de São Paulo a palavra “homossexual” não existia e o que entendemos por ela, mesmo se for levada em conta a exegese duvidosa que identifica o “pecado de Sodoma” apenas com relacões sexuais entre pessoas do mesmo sexo, não é o mesmo que se infere de “sodomitas”. O termo “homossexual” pode se referir a uma orientacão sexual, enquanto “sodomita” sempre fará mencão de uma conduta.
Por outro lado, a palavra “efeminado” não pode ser usada para tratar da questão homossexual pelo simples fato de que nem todo efeminado é gay.
Tomando, pois, as coisas desse modo, só a palavra “sodomitas” teria algo a dizer sobre os homossexuais e, mesmo assim, com as limitações que já expliquei sobre o “episódio de Sodoma”, e com o fato de que um pecado para se enquadrar nela teria de contar com os elementos subjetivos (livre querer e consciência do ato), pois o simples enquadramento objetivo não satisfaz (ou teríamos de inferir que ficar bêbado excluiria alguém do Reino).
Só que tudo isso cai por terra quando vamos ao centro da questão.
E esse centro é o fato de que traduzir malakoi (literalmente, “macios”) por “efeminados” e arsenokoitai (literalmente, “homem de muitas camas”) por sodomitas é algo contestável. Hoje, a maioria dos exegetas concorda que o vocábulo traduzido por “efeminados”, na verdade, se refere aos catamitas – meninos feitos prostitutos em templos pagãos. Em relação ao outro termo é simplesmente impossível de se chegar a uma conclusão precisa.
As palavras originais em grego koiné eram desconhecidas do tradutor (ou tradutores), o qual supôs para elas um sentido. Quando o tradutor (ou tradutores) se deparava com um vocábulo que desconhecia, tentava procurar em outras obras (sem sucesso) e aí atribuia algo que “achava” encaixar-se no contexto da maneira mais bela. No século XIX, por exemplo, várias bíblias continham “masturbadores” ao invés de “efeminados”.
No decorrer do século XX, no entanto, versões mais novas começaram a questionar essas traduções. Essas traduções tentam ao máximo usar a equivalência formal, ou seja, dar mais valor à tradução ao pé da letra dos vocábulos e menos à beleza da forma. Nessas edições, as equipes observaram que era mais adequado traduzir esses dois vocábulos como impureza sexual e prostituição cúltica, que era homossexual, mas também heterossexual, e comum em templos pagãos. Desse modo, bíblias como a Bíblia de Jerusalém, trocaram “efeminados” e “sodomitas” por “imoralidade sexual”.
É interessante notar que a mesma palavra em grego que é traduzida comumentemente por sodomitas, quando aparece em Apocalipse XXI, 8 e XXII, 14, nas mesmas bíblias, ganham outro significado (o que remete à “adivinhação”).
Sendo assim, São Paulo condena aqui a depravação sexual dos injustos (os pagãos). Certamente em tal depravação está incluída a depravação homossexual, assim como qualquer outra.
O que não dá é querer ver aqui uma condenação do comportamento homossexual em si mesmo. Este é colocado fora da moralidade objetiva pelo relato do Gênesis e pelo sentido último da proposta moral do Evangelho.
Conclusão
Após tudo isso (foram seis meses de pesquisa direta e seis de indireta), vejo como a homossexualidade deve ser tratada: considerando-a algo que está fora do Projeto de Deus, mas que também não deve ser motivo para histeria.
Alguns podem olhar para mim e achar que eu nasci ontem… e que estou numa conspiração satânico-diabólica, querendo desvirtuar a “sã doutrina” e a “Fé entregue aos Santos”.
Eu não nasci ontem. Vivi e vivo intensamente a Igreja para saber que, de todos os coleguinhas criados comigo, indo à Missa, cantando nos corais, participando de gincanas, grupos de estudo, etc…. alguns – e só a Deus cabe saber isso – ao se despertarem sexualmente, perceberam que eram homo ou bissexuais.
E aí, pedir para ler Romanos ou Coríntios, ou qualquer outra passagem, retirada como cartas da manga, é jogar aquele católico fiel num poço sem fundo de depressão e miséria interior.
O que estou propondo aqui é, mais uma vez, discutir o assunto de uma forma inteligente e equilibrada. Deixo todo um texto para debate (que, a meu ver, é até muito resumido e precisava de mais detalhamento), a partir do qual podemos aprofundar os argumentos honestos e respeitosos.
Quem meramente lança um post de uma linha, fechando a questão com a interpretação literal de um versículo tirado de uma bíblia mal traduzida, na verdade, não está muito preocupado com o assunto… ou tem medo – medo de sua pseudo-verdade absoluta ser derrubada. A palavra seca e as observações sem muito rigor ou aprofundamento só mostram a imaturidade e a infantilidade de certas pessoas.
A resposta fácil que alguns querem ouvir é: não pode, e a pessoa vai ser transformada, só precisa perseverar.
Mas, na verdade, os que apenas sabem entoar esse mantra, mostram que nunca tiveram uma real experiência de vivência do Evangelho (vejam bem, não digo que não creiam em Cristo), a ponto de lidarem com situações constrangedoras.
A complexidade das passagens bíblicas alvos desta pesquisa são um reflexo da própria complexidade da vida, do caminhar humano. Por isso temos de ler as Escrituras com os olhos de Cristo ou, ao invés de produzirem vida, serão fonte de maldição.
Fontes
– Bíblia do Peregrino.
– Bíblia de Jerusalém.
– Ética da Sexualidade e do Matrimônio. Ed. Paulus. Autor: Eduardo López Azpitarte.
– Defending a Higher Law: Why We Must Resist Same-sex “Marriage” and the Homosexual Agenda. Autor: TFP americana.
– artigos retirados da Enciclopédia Católica (em inglês, 1967) e do Dicionário de Teologia Moral da Paulus.
– Encarando nossas diferenças. As igrejas e seus membros homossexuais. Ed. Sinodal. Autor: Alan A. Brash.
– O Enigma da Esfinge. A sexualidade. Ed. Vozes. Autor: Frei Antônio Moser.
– Reforçando as trincheiras. Análise da problemática do homossexualismo à luz do cristianismo histórico. Ed. Vida. Autor: D. Robinson Cavalcanti.
– Acompanhamento de vocações homossexuais. Ed. Paulus. Autor: José Lisboa Moreira de Oliveira.
– Same-sex unions in premodern Europe. Autor: John Boswell.
– Artigo Eles também são da nossa estirpe – considerações sobre a homofilia (Revista Vozes 9 – 1967). Autor: Pe. Jaime Snoek.
– coleta de posts em várias comunidades cristãs pelo Orkut.
– conversas com homossexuais (masculinos e femininos) católicos (que possuem uma atuação na Igreja ou que deixaram a prática religiosa).
Para refletir (os documentários, o filme e o artigo são só para os leitores terem mais elementos ao pensarem sobre essa questão, em hipótese alguma deve-se entender que eu defendo algo que a Igreja não defende):
Here’s a real pastoral question to consider: What place is there for the gay person in the Catholic church? With the warning from the archdiocese of Washington, D.C., that it would pull out of social services in the city rather than accede to a bill that would afford benefits to same-sex spouses, a question, too long neglected, arises for the whole church: What is a gay Catholic supposed to do in life?
Imagine you are a devout Catholic who is also gay. Here is a list of the things that you are not to do, according to the teaching of the church. (Remember that most other Catholics can choose among many of these options.) None of this should be new or in any way surprising. If you are gay, you cannot:
1.) Enjoy romantic love. At least not the kind of fulfilling love that most people, from their earliest adolescence, anticipate, dream about, hope for, plan about, talk about and pray for. In other cases, celibacy (that is, a lifelong abstinence from sex) is seen as a gift, a calling or a charism in a person’s life. Thus, it is not to be enjoined on a person. (“Celibacy is not a matter of compulsion,” said then Cardinal Joseph Ratzinger.) Yet it is enjoined on you. (“Homosexual person are called to chastity,” says the Catechism, meaning complete abstinence.) In any event, you cannot enjoy any sort of romantic, physical or sexual relationship.
2.) Marry. The church has been clear, especially of late, in its opposition to same-sex unions. Of course, you can not marry within the church. Nor can you enter into any sort of civil, same-sex unions of any kind. (Such unions are “pseudo-matrimonies,” said the Holy Father, that stem from “expressions of an anarchic freedom”) They are beyond the pale. This should be clear to any Catholic. One bishop compared the possibility of gays marrying one another to people marrying animals.
3.) Adopt a child. Despite the church’s warm approval of adoption, you cannot adopt a needy child. You would do “violence,” according to church teaching, to a child if you were to adopt.
4.) Enter a seminary. If you accept the church’s teaching on celibacy for gays, and feel a call to enter a seminary or religious order, you cannot—even if you desire the celibate life. The church explicitly forbids men with “deep-seated homosexual tendencies” from entering the priesthood. Nor can you hide your sexuality if you wish to enter a seminary.
5.) Work for the church and be open. If you work for the church in any sort of official capacity it is close to impossible to be open about who your identity as a gay man or a lesbian. A gay layman I know who serves an important role in a diocese (and even writes some of his bishop’s statements on social justice) has a solid theological education and desires to serve the church, but finds it impossible to be open in the face of the bishop’s repeated disparaging remarks about gays. Some laypeople have been fired, or dismissed, for being open. Like this altar server, who lives a chaste life. Or this woman, who worked at a Catholic high school. Or this choir director.
At the same time, if you are a devout Catholic who is attentive both to church teachings and the public pronouncements of church leaders, you will be reminded that you are “objectively disordered”, and your sexuality is ”a deviation, an irregularity a wound.”
Nothing above is surprising or controversial: all of the above are church teaching. But taken together, they raise an important pastoral question for all of us: What kind of life remains for these brothers and sisters in Christ, those who wish to follow the teachings of the church? Officially at least, the gay Catholic seems set up to lead a lonely, loveless, secretive life. Is this what God desires for the gay person?