Categorias
Arte

Formação do gosto

A questão da “arte cristã” e dos problemas que suscita (como o das relações entre arte e moral), teria seu entendimento facilitado se com mais frequência fosse lembrado que o gosto – definido como a aptidão para discernir e apreciar o belo – não se encontra no homem como uma qualidade inata, uniforme e comum a todos, mas antes como uma habilidade pessoal adquirida à custa de uma adequada educação dos sentidos e da razão, e, portanto, variável de acordo com os predicados de cada indivíduo e, sobretudo, de acordo com os princípios gerais que presidiram à formação do seu espírito. O gosto será assim como que a reação que as coisas sensíveis provocam em um determinado ser humano imbuído de certa filosofia de vida, isto é, de certa concepção doutrinária do universo. Desses dois fatores que compõem o gosto, o primeiro, o psicológico, com sua indispensável base fisiológica e orgânica, gradua-lhe a intensidade ou a delicadeza das experiências; o segundo, porém, o doutrinário, é que lhe fornece os critérios de julgamento, sem os quais não poderia sequer existir. O gosto depende, por conseguinte, em última instância , da orientação filosófica de quem o exerce, é uma questão de juízo mais do que de sensibilidade, pode ser adquirido ou modificado mediante adequada educação mental. E como essa educação pode ser incorreta e mal orientada, resulta que o gosto pode ser mal formado ou deformado. A linguagem comum o reconhece: bom gosto, mau gosto, gosto apurado ou corrompido…

Pode-se dizer, imitando os mestres da espiritualidade, que a formação do gosto, para um católico, processa-se mediante três fases: purificação, iluminação, perfeição.

A purificação constitui a fase quase inteiramente negativa da educação do gosto; consiste principalmente no trabalho de incutir no espírito do aprendiz o desapreço das coisas grosseiras, vulgares, feias, por desproporcionadas nas suas partes componentes ou na relação com as demais coisas entre as quais se situa.

A segunda fase da educação do gosto, a iluminação, processa-se como a vinda e o progressivo aumento de uma viva claridade em um ambiente primitivamente escuro ou penumbroso; por efeito dessa luz – que nada mais é que uma metódica instrução humana seguramente amparada na relação divina – torna-se distinto, na visão do universo, o que antes era confuso; ordenado o que parecia caótico; organizado e dirigido para um fim nítido, o que antes dir-se-ia desconexo, acidental, precário; enfim, torna-se visível o que antes não se via e nem sequer se suspeitava que existia… Quer isto dizer que se desvela, aos poucos, à inteligência do incipiente artista a ordem profunda do Universo, maravilhosamente determinada por Deus. Ele, então, compreende que cada coisa, de acordo com a sua natureza mesma, tem um valor que se afere pela posição que ocupa na hierarquia geral das criaturas; e assim percebe que as coisas vivas superam as inertes; que o homem, dotado de vida imortal, vale mais que o resto da criação material, cuja existência é efêmera; e que Deus, eterno, criador e regedor de tudo, para Quem tudo foi criado, julgador e remunerador do homem, vale infinitamente mais do que tudo o que criou, inclusive o próprio homem, o qual só n´Ele tem sua recompensa e vida perfeita… Assim iluminado, o artista discerne graus diferentes de beleza, que correspondem aos graus diversos da ordem da criação, e vê que a formosura de uma coisa é tanto mais intensa, completa e perfeita, – que tanto mais lhe satisfaz o gosto – quanto mais ela se integra na harmonia geral do universo e quanto mais fielmente corresponde à finalidade última para que foi criada: servir, no seu plano próprio, à glorificação de Deus…

A última fase da educação do gosto, a perfeição, não é senão a consolidação em hábito das idéias, tendências e práticas adquiridas nas duas fases anteriores, em particular na iluminativa, e exercidas infalivelmente, com presteza e nímia facilidade.

Essas três fases são logicamente sucessivas, na ordem indicada. Nada impede, porém, que, em casos concretos, se apresentem em outra sequência. E é claro que, como elemento formativo e normativo do gosto, a iluminativa é a mais importante. Porque ao homem não agrada somente o que satisfaz os seus sentidos, mas também o que contenta a sua consciência. Por isto já Santo Tomás de Aquino definia a beleza como sendo o que, visto, apraz, – esclarecendo-se que por visto se há de entender: o que é apreendido e apreciado pelo espírito.

Mesquita Pimentel, Revista de Cultura Vozes, setembro-outubro de 1947

Categorias
Arte Liturgia

Missal de Natal

Natal

Categorias
Arte

A inovação nas vestes da repetição

No entanto, se assim se pode dizer, a culpa deste “amalgamento” indiscriminado de dez séculos deve-se também um pouco à cultura medieval que, tendo escolhido ou tendo-se visto obrigada a escolher o latim como língua franca, o texto bíblico como livro fundamental e a tradição patrística como único testemunho da cultura clássica, se aplica a fazer o comentário de comentários e a citar fórmulas estabelecidas, com aparência de quem não diz nada de novo. Tal não é verdade, a cultura medieval tem o sentido da inovação, mas esforça-se por escondê-la sob as vestes da repetição (ao contrário da cultura moderna, que finge inovar mesmo quando repete).

– Umberto Eco (Arte e Beleza na Estética Medieval)

Categorias
Arte Defesa da vida

Ícone sobre o aborto

Algum tempo atrás chegou às minhas mãos o seguinte ícone que retrata tanto a problemática perene quanto a atual em torno da questão do aborto:

íconeVou reproduzir a interpretação dele, já que ele perfaz um símbolo fortíssimo na nossa luta em defesa da vida.

Comecemos com o contraste das cores de fundo. Elas são mais claras na parte da esquerda e mais escuras na direita, indicando a oposição entre a vida e a morte, entre o bem e o mal, entre a luz de Deus e as trevas da morte eterna.

ícone 2No canto superior esquerdo surge Jesus Cristo, vencedor da morte, protegendo e abençoando, abaixo dele, uma família cristã (é de se notar os trajes modernos que vestem). Família, aliás, numerosa (pai, mãe e seis filhos).

ícone 5Na ilustração da família,  o pai carrega um dos filhos (como São José, que carrega o Menino Deus, tradicional imagem da iconografia cristã) e traz o alimento na mão esquerda. A mãe embala o filho ainda bebê e alimenta uma outra criança. São figuras tradicionais do pai e da mãe cristãos, essenciais para o desenvolvimento dos filhos.

ícone 4Acima da família cristã, surge a Sagrada Família de Nazaré. Maria carrega, em seu colo, o Senhor Deus, nascido de seu puríssimo ventre. São José, por sua vez, carrega uma criança envolta em panos brancos, símbolo, na iconografia tradicional, da alma das crianças inocentes assassinadas.

ícone 3Abaixo da família cristã, numa imagem bastante contundente, temos a “Arrependida”, isto é, a mãe que, tendo cometido o monstruoso crime do aborto, chora, agora, o filho que ela própria matou. Veste-se de vermelho, o que representa o sangue inocente por ela derramado.

ícone 6Na parte esquerda inferior, há a figura da mãe solteira. De um lado, ela pecou e consentiu em relações pré-nupciais (talvez, seja por isto que parte de sua vestimenta é vermelha, cor da luxúria), mas, por outro lado, manteve-se firme frente à tentação de abortar e, agora, carrega (não sem o auxílio de Deus) a Cruz de ser mãe sem a ajuda e o suporte de um esposo. Cruz esta que, se bem vivida, será sua porta de entrada para o céu depois que findar sua peregrinação terrestre.

Passemos agora às trevas.

ícone 7Na parte direita do ícone, vemos sentada, num trono vermelho, uma rainha, chamada de “Nova Herodes”. É o próprio aborto personificado, que, como o Herodes o fez outrora, promove a matança dos inocentes no mundo moderno. Ela espezinha e massacra vários bebês e recebe ainda outros (todos em posição fetal) que as mulheres lhe oferecem.

ícone 8Estas mulheres estão à sua frente e personificam (de baixo para cima) a crueldade, a futilidade, a indiferença e a luxúria, sem as quais a monstruosidade do aborto não ocorreria.

ícone 9Ao fundo, vemos um “médico”. No original, a palavra é também grafada entre aspas, pois, sob a aparência de um médico (que deveria usar seus talentos apenas para salvar vidas), encontra-se um assassino frio, que passa uma espada no ventre de um bebê indefeso. Seu bolso está cheio de dinheiro, pois se enriquece com a matança que ele próprio promove. Ao fundo, a imagem de um dragão, a Antiga Serpente, o chamado Diabo ou Satanás, que, sedutor do mundo inteiro, seduz o “médico”, colocando-o ao seu serviço. Pois, todos os que se colocam a serviço, direto ou indireto, do aborto, estão a serviço direto de Satanás.

Que deles (e de todos nós) o Senhor Deus tenha piedade.
Categorias
Arte

Angelus Ad Virginem

Angelus Ad Virginem é uma canção popular medieval (Inglaterra), que constitui uma versão poética da Anunciação (cheia de tensão dramática e profundidade teológica). Existem várias versões dessa música, sendo que a mais antiga está registrada num manuscrito do século XIII, contendo a letra em inglês, francês e latim:

Ángelus ad Vírginem subíntrans in conclave,
vírginis formídinem demúlcens, inquit, “Ave”.
“Ave, regína vírginum, caeli terraeque Dóminum
concípies et páries intácta, salútem hóminum;
tu porta caeli facta, medéla críminum”.

“Quómodo concíperem quae virum non cognóvi?
Quáliter infríngerem quod firma mente vovi?”
“Spíritus Sancti grátia perfíciet haec ómnia;
ne tímeas, sed gáudeas secura quod castimónia
manébit in te pura Dei poténtia.”

Ad haec virgo nóbilis respóndens inquit ei:
“Sérvula sum húmilis omnipoténtis Dei.
Tibi caelésti nuntio, tanti secréti cónscio
conséntiens, et cúpiens vidére factum quod audio,
paráta sum parére Dei consílio.”

Ángelus dispáruit, et statim puelláris
úterus intúmuit vi partus virginális:
quo circumdátus útero novum ménsium número;
post éxiit, et íniit conflíctum, afflígens húmero;
crucem qua dedit ictum soli mortífero.

Eia, Mater Dómini, quae pacem redidísti
ángelis et hómini, cum Christum genuísti:
tuum exóra Filium ut se nobis propítium
exhíbeat, et déleat peccata, praestans auxílium
vita frui beáta post hoc exsílium.

Veio o Anjo à presença da Virgem,
e entrando em sua morada,
com aquele “Ave”,
os temores da Virgem serenou.
“Ave! Ó Rainha das Virgens,
o Senhor dos Céus e da Terra disse
que conceberás e darás à luz intacta;
serás porta do Céu,
para salvação dos homens
e remédio dos pecadores”.

“Como se fará isso,
pois não conheço varão:
Como poderei romper
o que com fortaleza prometi?”
“A graça do Espírito Santo
realizará tudo isto;
não temas, mas alegra-te,
serena, porque a tua virgindade
será conservada intacta
pelo poder de Deus.”

A isto, a nobre Virgem
respondeu ao Anjo, dizendo:
“Humilde escrava sou
do Deus Onipotente.
A ti, mensageiro celestial,
confidente de tão grande segredo,
dou consentimento, e desejo
ver cumprirem-se tuas palavras;
preparada estou para obedecer
à vontade de Deus.”

Tendo desaparecido o Anjo,
logo concebeu a donzela.
E Aquele que durante nove meses
em seu claustro maternal
esteve contido,
nasceu depois, por um parto virginal,
e começou a luta
suportando nos ombros a Cruz.
com a qual desferiu
um único e mortífero golpe.

Eia, pois, ó Mãe do Senhor,
que gerando a Cristo
restituíste a paz
aos Anjos e homens:
Intercedei junto a vosso Filho
para que Ele se mostre propício a nós,
apague os nossos pecados
e, pelo seu poderoso auxílio,
conduza-nos depois deste exílio
ao gozo da eterna bem-aventurança

Categorias
Arte

Viderunt Omnes de Perotin (1198)

Viderunt omnes fines terrae salutare Dei nostri:
Iubilate Deo, omnis terra.
Notum fecit Dominus salutare suum:
ante conspectum gentium revelavit iustitiam suam.

Durante a maior parte da história uma ou duas cidades em cada era se destacaram no âmbito político e cultural. Podemos lembrar da Babilônia, de Tebas, de Atenas, de Roma, de Constantinopla e, nos nossos dias, em Nova York. Todavia, quando o Império Romano do Ocidente ruiu, quase todas as grandes cidades da Europa desapareceram. Em boa parte da Idade Média só existiam duas urbes cosmopolitas nos limites da cristandade católica: Constantinopla de um lado e Córdoba do outro. Nesse contexto, a primeira cidade a experimentar uma explosão populacional depois de muito tempo foi Paris.

Quando a Europa cristã começou na se recuperar dos séculos de turbulência, a única forma de música artisticamente elaborada que tinha sobrevivido na “era das trevas” tinha sido o canto gregoriano (a música teatral grega e a música imperial romana foram perdidas). Fora o folclórico e popular, o melhor que alguém podia escutar era um som simples, monofônico e feito para louvar a Deus.

Ajudada pela escolástica, que ganhava corpo na sua universidade, e pela construção da catedral de Notre Dame, Paris atraiu as mentes mais brilhantes da época. Pouco depois de terminarem as fundações da catedral, a cidade já contava com um jovem compositor para enchê-la de música. Esse músico, Leonin, foi (até onde mostram os registros históricos que sobreviveram) a primeira pessoa a adicionar uma segunda voz não paralela ao gregoriano. Esses cantos, chamados organum, constituíram o primeiro tipo de música polifônica. Para dar conta da complexidade, Leonin inventou seis modos rítmicos – o primeiro tipo de notação musical a descrever o comprimento da nota.

Só uma geração depois outro compositor que trabalhou em Notre Dame, Perotin, aperfeiçoou a arte do organum, adicionando ocasionalmente uma terceira e mesmo uma quarta voz. Perotin provavelmente escreveu a obra de quatro vozes Viderunt omnes para o Natal de 1198. Usando a melisma (técnica de alterar a sensação de freqüência de uma sílaba de um texto enquanto ela está sendo cantada) a ponto de obscurecer totalmente as sílabas originais, ele consegui estender poucos versículos (3, 4 e 2 – nessa ordem) do Salmo XCVII para quase dez minutos.

A chamada escola de música de Notre Dame, incluindo Leonin e Perotin, abriu a porta para a mais popular e importante forma de música dos séculos seguintes, o motete, e, de certa forma, para toda a polifonia musical.

Categorias
Arte Ética e moral

A Fita Branca

fita 1

Na comunidade Apologética Católica no Orkut um confrade fez um comentário sobre o filme A Fita Branca (Das weisse band, 2009), ganhador da Palma de Ouro em Cannes, perguntando como seria uma avaliação dele à luz da moral católica.

Movido por essa pergunta, pela curiosidade de um trecho que vi na internet e por comentários que li na imprensa fui ver o filme numa sessão noturna de um “cinema de arte” de minha cidade. Realmente, A Fita Branca não é tipo de obra cinematográfica capaz de agradar ao público médio (viciado em coisas que atiçam a sensibilidade o tempo todo), pois não possui nenhum rol de efeitos especiais rocambolescos e mais sugere do que mostra (é um trabalho sobre idéias). É filme que deixa uma estranha sensação (talvez, em tempos de Avatar, seja realista demais)… mas vamos por partes.

Lenta e suntuosa, essa narrativa visual enche os olhos. O domínio do preto-e-branco é sublime, glacial, sólido, faz pensar em Bergman.

No filme há um narrador que esquadrinha os anos que o fizeram ser o que é. Temos um professor de aldeia que tenta, de alguma maneira, entender fatos que sente terem sido importantes na sua vida, na de seus contemporâneos, na de seu próprio país. Titubeante, alerta no começo sobre sua falta de certezas sobre o que é ou não verdade no que vai contar. A Fita Branca começa assim, duvidando de si mesma.

fita 2

Daí em diante somos apresentados à descrição da vida numa comunidade rural do norte da Alemanha, onde as relações sociais são determinadas por estreitos laços de fidelidade que circulam em torno de um médico, um barão, um pastor e, enfim, do próprio professor. Nesse local a inocência (representada por uma fita branca amarrada no braço ou cabelo das crianças) é um valor nobre no qual se crê com afinco, e, ao mesmo tempo, uma violência velada, sugerida, permeia todo o ambiente.

Em seguida, estranhos incidentes passam a perturbar a ordem: um atentado derruba o médico de um cavalo e dois garotos são seqüestrados e torturados. A tensão cresce, descosturando as teias do aparente marasmo e fazendo a civilidade formal despencar de seu pedestal de barro. Mas o que interessa não é a violência em si, e sim a cultura, a educação, as relações humanas que conduzem a ela, paulatinamente. Muitos atos de violência acontecem na narrativa, mas nenhum deles é mostrado explicitamente, tudo o que sabemos são relatos, sinais e suposições.

A Fita Branca reflete sobre o horror… o horror praticado entre as paredes de nossas casas, no íntimo do coração, que só o Senhor sonda. Michael Haneke, o diretor, não faz coro com cineastas ingênuos que, a pretexto de discutir a violência, nada mais fazem do que contribuir com o seu fetiche. O mal, na sua obra, se faz invisível na medida em que se dilui entre todos, em que é compartilhado e tolerado com surpreendente “vista grossa”.

fita 3

Como, então, avaliar esse enredo numa perspectiva católica?

Primeiramente, temos uma crítica ao puritanismo. É sempre bom lembrar que a austeridade, acalentada pelo orgulho exacerbado (“não peco, não me misturo com os pecadores”), reage exageradamente contra a sensualidade, mas essa reação, por obstinada que seja, é estéril: cedo ou tarde, por inanição, será destroçada pelos falsos princípios.

Em segundo lugar, observamos as conseqüências do cerceamento da individualidade. O indivíduo é o sujeito moral irredutível, é o único que pode assumir responsabilidades perante o Criador, responsabilidades que são intransferíveis a qualquer outra entidade (Igreja, Estado, família, etc.); sem a consciência dessa verdade a instrumentalização dos melhores valores (como a inocência) torna-se uma perigosa possibilidade.

Por fim, temos uma desconstrução do humanismo ingênuo que desde o século XVIII vez ou outra retorna com força ao debate público, contrapondo a utopia à realidade atingida pelo pecado original.

É um bom filme. Bom como um romance clássico. Mas não é para todos.