Indicação feita pelo confrade Cláudio:
A gente pensa que o povo é indiferente. Na verdade, o povo pode estar desinteressado, o que representa coisa muito diversa. Mas traga-lhe um recado que ele compreenda, diga-lhe coisas que ele goste de ouvir, e imediatamente se verá o quanto o povo se interessa e pode sair da sua aparente apatia.
Religião, por exemplo. Não quero discutir os motivos, se os padres são poucos e as paróquias enormes, se os clérigos, preocupados com os grandes problemas internacionais, se desinteressam do simples apostolado aos analfabetos – se é um motivo, se é um complexo deles; o que eu sei é que a presença da Igreja Católica cada vez e faz sentir menos nas plagas rurais nordestinas. E o povo cada vez mais se mostra distante, casa indiferentemente no padre ou civil, aliás prefere o civil, que sai mais barato. E com a voga da exigência do registro civil para fins de previdência social, já procuram mais fazer o registro dos filhos do que o batismo: um até me disse, brincando, que “o registro é o batizado do governo“.
E assim, enquanto a Igreja cada vez mais se imobiliza e distancia no seu papel de establishment espiritual, no vácuo por ela deixado, os protestantes se introduzem, tal como os umbandistas, nas áreas urbanas, conquistando assombrosas massas de adeptos.
E acontece então uma coisa surpreendente: aquela gente imóvel, fatalista e indiferente que não faz mais sacrifícios para ir a uma Missa, que nasce, vive e morre sem conhecer a letra do Catecismo; que dos Sacramentos mal e mal recebeu o Batismo, (não se crisma, não se confessa, não comunga, não se casa, não se ordena, e nem sabe sequer que mudaram o nome à Extrema Unção), essa mesma gente cuja apatia religiosa os senhores Bispos atribuem à demora da Reforma Agrária – se atira com um entusiasmo inesperado à pregação religiosa dos “crentes”. São “conversões” em massa, parece coisa do tempo dos primeiros cristãos. Onde surja um pastor pregando seu Evangelho, o povo o cerca, o escuta, o acompanha. Vai debaixo de chuva, depois dos duros dias de trabalho na terra, por lama e maus caminhos, assistir aos cultos. Os pregadores, que em geral sabem apenas o suficiente para ler e mal a Escritura, interpretam a lei a seu modo, produzindo um cristianismo primitivo, simplificado, injetado de reminiscências afro-ameríndias, ou de pequenas inoculações kardecistas.
Mas o fato é que arrastam multidões. Aqui na fazenda, cerca de 60% dos moradores são “crentes”, já se batizaram nas águas do rio, e seguem escrupulosamente as regras da nova fé, com o conhecido ardor dos neófitos. Os homens não bebem, nem jogam, ninguém fuma, não brigam, as moças não vestem roupas escandalosas. Modifica-se o tradicional falar sertanejo, já não se tratam de compadres, mas de “irmãos”; quando batem à porta não dizem mais “ô de casa!” mas “A paz do Senhor!”. Não falam mais em Nosso Senhor, Nossa Senhora, mas só em Jesus. Acabou-se o culto a Maria. Desfazem-se dos registros dos santos – até das imagens do Padre Cícero.
Agora mesmo, são seis da tarde, o pastor Luís fez duas léguas para vir “pregar aula de oração” e de longe escuto o som dos hinos ensaiados, A cozinha, que sempre pulula de mulheres, está de fogos apagados, e fui discretamente avisada que há frango frio, leite gelado, doce, queijo e frutas, e devemos nos contentar com isso para o jantar. e a cozinheira, chefiando o bando de catecúmenos, antes de partir me consola dizendo que “Vão rezar para eu também receber Jesus”. Amém
(O Jornal, 13/05/1973)




Sedevacantistas, tradicionalistas e neoconservadores fiéis são pessoas que vivem um dilema terrível. De um lado, todos eles sabem que precisam ser fiéis à palavra de Cristo antes de qualquer poder humano ou até mesmo um anjo do céu; de outro, há um grande temor de julgar o Papa ou as autoridades da Igreja. Esse dilema se agrava com a convicção que se tenha dos problemas relativos à crise da Igreja, com os escândalos, as ambiguidades, a tibieza de alguns bispos em condenar os erros e as aberrações contemporâneas. Todos são verdadeiros católicos e querem ser fiéis, antes de tudo, a Deus, a Quem devemos fidelidade absoluta. E é justamente nisso que está o dilema: qual seria o caminho mais certo de protestar essa fidelidade a Deus: seria submeter-se humildemente à hierarquia que Ele constituiu, na medida do possível, ou admitindo todas as consequências – inclusive as trágicas – que podem vir de Sua Palavra? Numa situação normal, não deveria haver tensão alguma entre essas duas atitudes, mas o que vemos é que todos eles tentam viver e ser católicos sofrendo essa tensão fortíssima.
Portanto, quando esses grupos, participantes das mesmas angústias e sofrimentos, combatem-se como se fossem os piores hereges, eu não posso deixar de ver uma certa falta de sabedoria ou caridade, ou sensibilidade para entender que estão todos no mesmo dilema e temores. Eu, que sofro desse dilema também, assumi para mim que eu simplesmente não condeno nenhum desses grupos; ouço atentamente o que diz um e o que diz outro, evitando as condenações que lançam uns contra os outros ou, pelo menos, vendo-as com cautela, porque ninguém sabe exatamente qual é a natureza e o grau da crise que nos atordoa.
– Rui (num ótimo tópico na comunidade sobre as questões levantadas pela obra A Candeia Debaixo do Alqueire).