Categoria: Brasil profundo
Nascemos do sangue dos mártires
Depois de muito se prepararem para vir ao Brasil, o Beato Inácio de Azevedo e seus amigos acabaram morrendo no meio do caminho, sem que jamais chegassem a aportar em nossa terra. O que parecia ser um fracasso a olhos humanos, no entanto, reverteu em nosso próprio proveito espiritual: Deus viu, afinal, que para a conversão do Brasil eram mais importante os méritos dos mártires do que a ação dos apóstolos. Inácio queria dar alguma coisa a Deus, mas Deus… queria Inácio.
Neste dia em que celebramos a memória destes bravos missionários, Padre Paulo Ricardo faz uma reflexão sobre o martírio que eles mereceram e sobre a vocação com que fomos agraciados — “Terra de Santa Cruz” —, desde o início de nossa fundação.
Brasilidade e monarquia
Volkgeist armorial
Tenho muitas diferenças com o Prof. Flávio Brayner, do Centro de Educação da UFPE, não só no campo pedagógico, mas também no político e estético; contudo, é sempre bom confrontarmos aquilo em que acreditamos com uma visão crítica, em especial se esta é feita como que por um observador externo, que destrincha esquematicamente o que tomamos por verdade, e, desse modo, o seguinte artigo dele (Jornal do Commercio, Recife, 29 de julho de 2016 – com adaptações), que analisa o fundamento das ideias de Ariano Suassuna, às quais me filio, é mais do que interessante:
Ariano, falecido há dois anos, era um espírito brincalhão e gostava de contar a história de certo jovem, com cara de hyppie, bolsinha de couro, óculos redondo que pergunta em uma de suas aulas: “Ariano, você não acha que o rock é o sim universal?” Ao que Ariano responde: “Meu filho, som universal só conheço três: arroto, espirro e bufa!”
A brincadeira assinala o que há de mais convicto nas ideias estéticas de Ariano. Ele vinha da tradição romântica, que depositava nas expressões culturais particulares a autêntica alma de um povo (volksgeist) à época da formação tardia dos estados nacionais: a “burguesia” era cosmopolita demais e seus valores abstratos; já no “povo” residia aquela alma cultural autêntica em que cada nação poderia fundar sua “identidade”. Daí porque quando falamos de “cultura popular” achamos que estamos diante das “raízes” culturais e contrastamos essa cultura com a de “massas” que não teria nada de autêntico. Ariano, inimigo declarado desta última (guitarra com maracatu era crime de lesa cultura!), acreditava que a resposta que se pode oferecer à nação encontrava-se nas bases eruditas da cultura cavalheiresca, cortesã, trovadoresca e picaresca do fim da Idade Média e que nos teria chegado através da colonização portuguesa. Esta estética “armorial”, herdeira de uma aristocracia de brasão e que também agregava elementos de soteriologia sebastianista, daria à nossa cultura popular remotas origens medievo-ibéricas, que Ariano farejava na cultura sertaneja, e que poderia servir de base a uma resposta erudita à nossa brasilidade (tema analisado pela professora Thereza Didier em sua tese de doutorado defendida na USP).
Nós somos um país profundo
Trecho de uma entrevista do diretor de novelas da Globo, Luiz Fernando Carvalho, ao Jornal do Commercio (Recife, 2 de abril de 2016):
A sensação que tenho é que o país, apesar de todos os avanços, necessita ser sempre redescoberto. Seu espírito muitas vezes eclipsado não se revela através de um retrato fácil e monolítico, algo que o passado tenha registrado e nos seja visto como definitivo e pronto. Tudo está em eterno movimento. Isso traz contradições e muita vida. Penso na frase de Guimarães Rosa: “O Brasil é indizível”.
(…)
Continuo interessado nos vetores míticos do país, numa espécie de escavação, em uma perspectiva histórica e ao mesmo tempo lúdica. Sei que na televisão isso é muito difícil e delicado, mas, sinceramente, esta é a tentativa: tocar nas contradições arquetípicas do país, nas coordenadas sociais e humanas que nos trouxeram até aqui. Somos multifacetados. Onde quer que se esteja, qualquer região, perceberemos sempre o espírito barroco dos contrários, das volutas nos elevando e nos soterrando. Somos um país profundo.