Categorias
Contrarrevolução

Lobão e Olavão

Um bate-papo imperdível entre Lobão e Olavo de Carvalho sobre a atual situação cultural do país:

Categorias
Contrarrevolução Monarquia Política

Sobre a monarquia e seus mitos

Categorias
Contrarrevolução Política

O homem, animal político

Ao longo do século passado, os católicos fiéis à Tradição tiveram de lidar com as duas “cabeças de Janus” que atormentaram a humanidade: o totalitarismo coletivista (comunismo marxista, fascismo, nazismo) e o liberalismo. Na verdade, essa batalha só intensificou uma problemática que imediatamente vinha do século XIX, e mediatamente do processo revolucionário iniciado com a “reforma” protestante. Hoje em dia parece que o quadro não mudou, e ainda teremos, neste século que acabou de entrar na sua segunda década, uma continuação do embate entre essas duas falsas posturas (só que agora com outras roupagens – fundamentalismo islâmico e diversidade sexo-cultural).

Por isso, certas escolas de pensamento combativo devem se tornar conhecidas, em especial na nossa pátria. Destaco, entre elas, o tradicionalismo hispânico, que, pelo que pude entender até hoje, é uma filha dileta do carlismo dos requetés de Navarra, com adeptos na Espanha e em países da América Latina de língua espanhola (em especial no Chile, na Argentina e no Uruguai).

Sendo assim, postarei minha tradução do primeiro capítulo do livro El hombre, animal político, de Juan Antonio Widow, um destacado pensador chileno, que lutou contra a subversão marxista no seu país, e contra a recente revolução liberal.

JuanWidow

I – Pessoa e Sociedade

1. A sociabilidade humana

Não se tem notícia da existência de um indivíduo humano que tenha podido viver totalmente privado de vínculos com outros homens. Por isso, para entender o que é a sociedade humana e porque ela existe, deve-se partir da evidência, da observação da realidade. É falsa a perspectiva que toma como ponto de referência a idéia de um ser completo e autônomo, desde o qual se estendem os laços até outros entes autônomos que lhe são semelhantes. A sociedade não é uma espécie de mosaico formado mediante a justaposição harmoniosa de suas partes, tendo essas uma existência anterior à obra resultante, e independente dela. Salvo Adão, não se sabe de um homem que tenha tido uma existência anterior aos vínculos que o unem com seus semelhantes. Salvo Adão, todo homem vem à existência por causa de outros homens, estando assim vinculado a eles pelo fato mesmo de existir, e não por alguma decisão posterior.

Categorias
Contrarrevolução Educação

A idéia da universidade e as idéias das classes médias

Lembro que alguns anos atrás li pela primeira vez sobre Otto Maria Carpeaux no antigo site/blog O Indivíduo, não sei agora se foi num comentário de Pedro Sette Câmara ou de Álvares Velloso de Carvalho, mas, com certeza, era algo falando de sua magistral obra História da literatura ocidental (em 9 volumes). Nunca supri a lacuna que uma falta de leitura de Otto representa, mas, um dia desses, no “depósito de tralhas” do amigo Luís Guilherme Fernandes, achei um ensaio extraordinário do autor (acho que depois disso terei de comprar a coletânea da Topbooks). Vamos a ele:

A idéia da universidade e as idéias das classes médias

Otto Maria Carpeaux

Jamais esquecerei o dia em que entrei pela primeira vez, com toda a ingenuidade dos meus dezoito anos, no solene recinto da Universidade da minha cidade natal. Um pórtico silencioso. Nas paredes viam-se os bustos dos professores que ali estudaram e ensinaram; no busto de um helenista lia-se a inscrição: “Ele acendeu e transmitiu a flâmula sagrada”; e no busto de um astrônomo: “O princípio que traz o seu nome ilumina-nos os espaços celestes.” No meio do pátio, num pequeno jardim, sob o ameno sol de outono, erguia-se uma estátua de mulher nua, com olhos enigmáticos: a deusa da sabedoria. Silêncio. Não esquecerei nunca.

A decepção foi muito grande. Via a biblioteca coberta de poeira, os auditórios barulhentos, estupidez e cinismo em cima e em baixo das cadeiras dos professores, exames fáceis e fraudulentos, brutalidades de bandos que gritavam os imbecis slogans políticos do dia, e que se chamavam “acadêmicos”.

A última vez que passei perto deste “templo das Musas”, o edifício estava fechado; os estudantes haviam-se juntado a uma imensa manifestação popular. Sabia muito bem o que isso significava para mim: um adeus para sempre. Olhando pelas frestas das portas monumentais — estávamos na primavera — via sob a luz branda do sol os pórticos, as velhas pedras, o jardim, e a deusa nua, tendo nos lábios o sorriso enigmático da morte. E reconheci um fim definitivo.

Por toda parte, as universidades são doentes, senão moribundas, e isto é grande coisa. Os iniciados bem sabem que não é esta uma questão para os pedagogos especializados. Das universidades depende a vida espiritual das nações. O fim das universidades seria um fim definitivo. O abismo entre o progresso material e a cultura espiritual aumenta de dia para dia, e as armas desse progresso nas mãos dos bárbaros é fato que clama aos céus. Os edifícios das universidades resistem ainda, e neles trabalha-se muito, demais, às vezes, mas o edifício do espírito, esta catedral invisível, está ameaçado de cair em ruínas. Em tempos mais felizes a sueca Ellen Key dizia com sutileza: “Cultura é o que nos resta depois de termos esquecido tudo quanto aprendemos.” E, deste modo, somos riquíssimos de saber e mendigos de cultura. Hoje em dia Herbert George Wells pode dizer: “We are entered in a race between education and catastrophe.” “Entramos numa corrida entre educação e catástrofe.” Aí está a questão da Universidade.

Quem é o culpado? Evidentemente, é inadmissível simplificar uma discussão de tal envergadura. Acusa-se o Estado por ter-se intrometido, e acusa-se o Estado por não se intrometer. Acusam-se os professores por mergulharem nos ensinos profissionais e descuidarem-se da ciência desinteressada, e acusam-se os professores por mergulharem na ciência pura sem saberem ensinar. Aqui, queixam-se de as universidades não fornecerem elites, de que a nação tem necessidade; ali, queixam-se de que as universidades fornecem elites demais, um proletariado intelectual. Abundam os remédios propostos. Desejam salvar as universidades pela separação entre as instituições puramente científicas e os institutos de ensino, o que agravaria o problema em vez de o resolver: a ciência seria, assim, afastada da vida, e o ensino entregue à rotina. Falham, igualmente, as tentativas mais bem pensadas de curar a doença infundindo uma nova crença ou uma velha fé: teremos os mesmos estudantes, os mesmos bacharéis, os mesmos doutores que antes, e as suas boas crenças não resolverão a doença da Universidade. Porque não cabe à Universidade formar crentes nem sequer sugerir convicções, mas dar ao estudante capacidade para escolher a sua convicção. Já abundam os homens cegamente convictos, muito “práticos”, “úteis” para os serviços do Estado, da Igreja, dos partidos e das empresas comerciais. Pode ser que todas essas instituições lamentem, em breve, a abundância de homens convictos e a falta de homens livres. Então, acusar-se-á amargamente o utilitarismo das universidades modernas. O utilitarismo é o inimigo mortal da Universidade.

Mas o que quer dizer “prático”, “útil”? A resposta não é tão simples. Por felicidade os poderosos deste mundo introduziram um novo ponto de vista, ao qual julgo que devemos algumas perspectivas novas.

Para a mentalidade média do nosso tempo a utilidade das ciências é determinada segundo as aplicações práticas: a física e a química, que nos forneceram a luz elétrica e os gases asfixiantes, são as ciências úteis; a história e a filosofia, que não nos fornecem nada, são ciências “inúteis”. Apelo desta sentença para a sabedoria de certos homens práticos, que disso entendem muito bem. Certos regimes, ditos totalitários, acharam indispensável regular pela força o estudo das ciências, cujas conseqüências práticas poderiam abalar estes regimes. Ora, que vemos nós, com surpresa? Estes regimes não se ocupam, absolutamente, com as ciências “práticas”, a física e a química, que continuam bem tranqüilas. Mas as ciências totalmente inúteis, a história, a filosofia, os estudos literários, são justamente as favoritas dos regimes totalitários, que as abraçam até sufocá-las. É digno de nota.

Mas o que é ainda mais notável é uma certa coincidência. Sabemos que a Universidade, Universitas Litterarum, é uma criação da Idade Média. Ora, os ditos regimes não se ocupam com as ciências naturais, que a Idade Média conhecia pouco, e que se juntaram mais tarde à Universidade. Tratam somente das “velhas” ciências, das Litterae, que na Idade Média já eram conhecidas, e que formam a verdadeira alma da Universidade. Está claro. Foram justamente estas Litterae que formaram os caracteres das nações; e aquele que desejar transformar uma nação deverá transformá-las integralmente. Eles sabem o que é uma universidade.

A história das universidades é a história espiritual das nações. A França medieval é a Sorbonne, cujo enfraquecimento coincide com a fundação renascentista do Collège de France, e cujo prolongamento moderno é a École Normale Supérieure. A Inglaterra, mais conservadora, é sempre Oxford e Cambridge. A Alemanha luterana é Wittenberg e Iena; a Alemanha moderna é Bonn e Berlim. As velhas universidades são de utilidade muito reduzida. Elas não fornecem homens práticos; formam o tipo ideal da nação: o lettré, o gentleman, o Gebildeter. Elas formam os homens que substituem, nos tempos modernos, o clero das universidades medievais. Elas formam os clercs.

As universidades americanas têm a mesma origem. As velhas universidades da América Latina — Lima, México, Bogotá, Córdova — são fundações da Coroa de Espanha; mas foram, desde o início, confiadas aos frades, e já a primeira cédula de fundação, a ordem real do imperador Carlos V, de 21 de setembro de 1551, dá claramente a entender o sentimento da responsabilidade perante o espírito, o espírito desinteressado da Universidade medieval: “Para servir a Deus, Nosso Senhor, e ao bem público de nossos reinos, convém que nossos vassalos, súditos e naturais tenham Universidades e Estudos Gerais em que sejam instruídos e titulados em todas as ciências e faculdades, e pelo muito amor e vontade que temos de honrar e favorecer aos de Nossas Índias, e desterrar deles as trevas da ignorância, criamos, fundamos e constituímos na cidade de Lima dos reinos do Peru, e na cidade de México da Nova Espanha, Universidades e Estudos Gerais.” Nada mais eloqüente, admirável, do que semelhantes termos haverem sido empregados quando os puritanos fundaram, em 1636, a primeira universidade da América inglesa, a de Harvard: “After God had carried us safe to New England, and we builded our houses and settled the Civil Government; one of the next things we looked after was to advance Learning and perpetuate it to Posterity, dreading to leave an illiterate Ministery to the Churches, when our present Ministers shall lie in the dust” (New England’s First Fruits, 1643). (“Depois que Deus nos tinha seguramente conduzido a Nova-Inglaterra, e que construímos as nossas casas e estabelecemos um governo civil, uma das nossas primeiras ocupações foi estimular o ensino e perpetuá-lo para a posteridade, com receio de deixar às igrejas um clero iletrado quando os nossos clérigos atuais jazerem em pó.”)

O que resta destas Universitates Litterarum? O nome. Já não formam lettrés, nem gentlemen, nem Gebildeter; formam médicos, advogados, professores. As universidades tornaram-se lugares de investigações científicas; e é um romantismo utilitário que vem muni-las das asas do progresso. Não há mais clercs, só há estudantes.

Quem é o culpado? Ainda uma vez apelo para aqueles que disso entendem. Por toda parte onde há aqueles regimes os estudantes estão nas vanguardas da violência. Não é um acaso. Ouso responder: os estudantes são os culpados.

Há duas espécies de estudantes: chamá-las-emos os “ricos” e os “pobres”, sublinhando que há pobres entre os “ricos” e ricos entre os “pobres”; são apenas duas expressões cômodas para abraçar uma generalização inevitável. Os estudantes “pobres” são aqueles que estudam “para a manteiga e para o pão”; estudam para se assegurarem um melhor sucesso na luta pela vida. Seria cruel e estúpido censurá-los. Antes, devemos admirá-los, em virtude dos sacrifícios, muitas vezes imensos, feitos por eles e seus pais para melhorar um futuro incerto e tornar a existência mais digna. Todavia, importa não se dissimularem os graves inconvenientes. Estudantes “pobres”, há muitos deles: vivem embaraçados pela miséria, pelas ocupações acessórias para ganhar a vida; sobretudo têm pressa de terminar os estudos. Junte-se a isto a benevolência, plenamente justificável, que os examinadores lhes devem como recompensa dos seus esforços. Em suma, o nível baixa sensivelmente. O nível baixa, dizemos, até o nível dos estudantes “ricos”. São estes os que têm necessidade de um grau acadêmico, porque o pai tem um, porque isto dá certa consideração na sociedade ou para adornar fortuna um pouco recente. Entre os estudantes “ricos” existem os pobres que desejam manter penosamente o standard de uma família em decadência, o que é, aliás, muito louvável. Existem outros verdadeiramente ricos, que não têm necessidade de estudar, mas que através dos estudos testemunham grande respeito às ciências; e estas, por sua vez, precisam deles, para subsistir materialmente. Em todo caso, os seus estudos não são de necessidade absoluta; eles não estudam mais do que o necessário, o indispensável para passar nos exames; os esforços ulteriores parecem-lhes ridículos. E são eles que, pela sua situação social, determinam o nível geral. E esse nível é a morte da Universidade.

Queixam-se de que as universidades já não fornecem elites. Sim, mas em compensação fornecem verdadeiras massas, porque as ciências modernas e suas investigações têm menos necessidade de cérebros que de batalhões de estudantes; e para isto eles satisfazem. A inteligência que é precisa para estudar uma profissão, mesmo acadêmica, não é tão grande como os leigos imaginam. Há vários séculos um sábio inglês, o cônego dr. Copleston, fellow do Ariel College, em Oxford, predizia: “Ainda que a ciência seja favorecida por essas concentrações de inteligência a seu serviço, os homens que se encerram nas especializações têm a inteligência em regresso” (citado pelo cardeal Newman, The Idea of a University, p. 72). É o regredir de uma elite à condição de massa ornada de títulos acadêmicos.

É preciso que se digam, aqui, algumas verdades muito impopulares e muito desagradáveis. Existe Inteligência e existem “intelectuais”. Intelectuais são os médicos, os advogados, os funcionários superiores de toda espécie, os especialistas científicos de toda sorte. Mas deve-se dizer que somente uma parte desses “intelectuais” pertence à Inteligência, que é, por seu lado, o resto dos clercs, da elite de outrora. Sejamos sinceros: podemos ser bom médico, bom advogado, bom professor, e ter o espírito preso aos limites da profissão; e sabemos que o grau acadêmico nem sequer é sempre a garantia de boas qualidades profissionais. Mas ele confere sempre uma autoridade social. José Ortega y Gasset caracterizou essa nova espécie de intelectuais, violentamente, mas sinceramente: “Nuevo bárbaro, retrasado con respecto a su época, arcaico y primitivo en comparación con la terrible actualidad de sus problemas. Este nuevo bárbaro es principalmente el profesional más sabio que nunca, pero más inculto también — el ingeniero, el médico, el abogado, el científico” (Misión de la Universidad, Obras, p. 1289).

O fato central da nossa época é a violência generalizada a todos os setores da vida pública, a violência que pretende substituir o espírito no seu papel guiador das massas. Dessas massas que os pensadores políticos muitas vezes confundem com o proletariado econômico. Sim, mas o espírito proletário, o espírito da reação violenta contra certas condições econômicas e sociais, não está exclusivamente ligado às massas obreiras; participam dele todas as “massas”, como fenômenos sociológicos, e a massa dos intelectuais também. É o fato central da nossa época: as classes médias, mesmo antes de serem proletarizadas, mesmo justamente para evitar a ameaça da proletarização, transformam-se em massas proletárias. E esta proletarização interior é um fenômeno da educação. Chama-se “classes médias” o problema central da nossa época. O livro mais bem documentado que conheço sobre o fascismo, Fascisme et grand capital, de Daniel Guérin, apresenta a tese de que o fascismo é a última expressão do grande capitalismo. Tese errônea. Provando irrefutavelmente que o grande capital se serviu do fascismo para bater o movimento trabalhista, Guérin esquece-se de concluir que o instrumento se mostrou, enfim, mais forte do que o mestre, e que os operários e os capitalistas perderam, juntos, a liberdade de movimento, pela ação deste inimigo de ambos — as classes médias. Fato fundamental do nosso tempo: o fascismo propaga-se e vence através das classes médias, das quais é a expressão triunfal.

O fascismo foi impossível na Rússia. É também um fato fundamental que a Rússia não conheceu, não teve uma classe média. Ora, seguindo a corrente da época, o bolchevismo criou uma classe média. A burocracia soviética, os stakhanovistas e outras camadas privilegiadas do operariado não são outra coisa senão uma nova classe média. Considerando, nos outros países, a ascensão de camadas igualmente novas, que o século XIX ainda não conhecia, verdadeiros exércitos de empregados privados, de funcionários públicos, de pequenos empresários, todos formados num regime de ensino secundário ou superior muito facilitado, essas massas de homens, todos mais ou menos educados, essas multidões de “pequenos intelectuais”; considerando essas multidões de homens novos, nem capitalistas nem trabalhistas, que Karl Marx não podia prever, deve-se precisar o pensamento: o fascismo e o bolchevismo têm o lado comum de serem expressões das novas classes médias. E a ideologia que permite explicar o espírito das novas classes médias é a ideologia pequeno-burguesa, violentamente revolucionária e antiintelectualista.

Explica-se, por isso, que Georges Sorel, o pai espiritual comum do fascismo e do bolchevismo, Georges Sorel, o ideólogo da violência, seja um homem profundamente pequeno-burguês, representante típico das classes médias francesas, preocupado com a decadência das “autoridades sociais”, que ele concebeu fielmente no espírito conservador de Le Play; preocupado, enfim, com a decadência vital da raça latina, pela qual ele responsabiliza violentamente a Inteligência; ao espírito ele prefere a vitalização pelos instintos bárbaros da massa.

Fica-se a admirar que Sorel fale em decadência, na França dos Taine e Bergson, dos Flaubert e Proust, dos Mallarmé e Claudel, dos Degas e Cézanne, dos Rodin e Debussy, dos Pasteur e Henri Poincaré, numa das épocas mais magníficas do espírito francês. Mas é por isso mesmo. Sorel é violentamente antiintelectualista. Vê no espírito e suas obras o grande obstáculo da volta ao primitivo. Neste ponto, Sorel parece sobretudo “moderno”, contemporâneo de nós outros. É a hostilidade ao espírito que liga Sorel diretamente às novas classes médias.

No pensador revolucionário Sorel não se viu o conservador, o representante das classes médias. O mal-entendido correspondente não viu nas novas classes médias as possibilidades revolucionárias. Durante um século, o século XIX, esqueceu-se que a classe média fizera a Grande Revolução. Via-se na classe média a classe essencialmente conservadora, a portadora mesma das tradições humanísticas, e ela o era enquanto os princípios consolidados da Revolução Francesa abrigavam a classe média contra as ameaças do grande capitalismo e do movimento socialista. Isto, porém, acabou. Chegou o dia de uma nova classe média, pronta a vencer por uma nova revolução violenta ou, como na Rússia, triunfar contra um regime obsoleto. Foi Sorel quem emprestou às novas classes médias a ideologia revolucionária.

Poder-se-ia acreditar que os grandes obstáculos dessa revolução fossem os capitalistas e os trabalhadores, ou, na Rússia, um regime milenário e eclesiasticamente consolidado. Engano. Vimos a fraqueza incrível do regime tzarista, a derrota fácil dos socialistas, o suicídio dos capitalistas. O verdadeiro obstáculo — e Sorel o previra bem — era a Inteligência. É ela que merece as diatribes mais cruéis dos chefes e dos caudilhos. Para a vitória final, precisa-se acabar com a Inteligência.

Como? Não é a classe média o principal agente dos movimentos espirituais? Sim, é, ou melhor, foi. O século XIX, o século liberal, abre a todos todas as possibilidades. A educação superior é o caminho da ascensão. A preeminência da classe média no século XIX baseia-se na sua cultura universitária. Mas o século XX acaba com isso. O grande capitalismo precisa mais de exércitos de pequenos empregados do que de self-made men; as profissões liberais estão superlotadas; o movimento socialista repele os que resistem à proletarização e suas humilhações e privações. Privada dos privilégios da Inteligência, a classe média quebra furiosamente o instrumento, como uma criança quebra o brinquedo insubmisso. É uma criança essa nova classe média; mas uma criança perigosa, cheia dos ressentimentos dos déclassés, furiosa contra os livros que já não sabe ler e cujas lições já não garantem a ascensão social. Está madura para a violência.

A violência é o fenômeno “espiritual” central das novas classes médias e da nossa época; significa a determinação de empregar todas as armas, todas as que o esforço do espírito criou, para conseguir um fim material: a salvação social da classe. Não se admitem outros fins. Ridiculizam ou anatematizam todos os esforços independentes, desinteressados, do espírito. Admiram a especialização útil do “intelectual de profissão”, e banem o humanismo do “professor”. A violência antiintelectualista das novas classes médias é, afinal, uma falta de educação, ou, antes, o fruto de uma falsa educação. Fruto da falsa idéia que as classes médias formavam da Universidade: da nova Universidade, que fornece exércitos de médicos, advogados e técnicos, em vez de clercs, de uma elite.

O problema capital do nosso tempo, o problema da elite, é, no fim das contas, um problema de pedagogia humanística. Existe mesmo, hoje, política que consiste na exterminação das elites pelas armas dos especialistas. E foi bem preparada: da diminuição das lições latinas existe apenas um passo para a destruição dos livros e dos museus.

O resultado mais freqüente da moderna educação universitária é um decidido adeus aos livros. Mais tarde, combaterão as “línguas mortas” na escola. Enfim, declararão inútil todo o ensino secundário, com as suas idéias vagas e inúteis duma “cultura geral”; talvez toquem, com isso, no ponto nevrálgico da discussão. Todo o problema espiritual dos nossos dias é, pois, um problema de falta de educação humanística, um problema pedagógico; e todo o problema pedagógico dos nossos dias é um problema da escola específica das classes médias, da escola secundária.

Segundo o regime escolar vigente em todos os países, sem exceção, a Universidade dedica-se ao ensino profissional superior, enquanto a “cultura geral” fica reservada ao ensino secundário, aos ginásios e aos liceus. Quer dizer: o ensino da cultura geral limita-se aos jovens de dez a dezoito anos. Depois, a “cultura” termina, e a medicina e a jurisprudência começam, sem nenhuma “cultura geral”. Os conhecimentos do ensino secundário empalidecem, naturalmente, com o tempo; mas ainda há coisa pior: todo esse ensino de “cultura geral” é feito ao alcance de jovens de dez a dezoito anos: a história, a filosofia, a literatura, amoldadas ad usum Delphini, e forçosamente puerilizadas. E aí fica. Nunca mais o jovem médico ou engenheiro ouve falar em história, filosofia, literatura, exceto pela imprensa ou pelo rádio, que se colocam ao alcance do espírito das grandes massas, pueris por natureza. Resultado: um espírito artificialmente preservado no estado pueril com uma formação profissional superposta. Conheço bem as numerosas exceções que felizmente existem. Mas, em geral, estas massas graduadas se distinguem dos iletrados somente por uma autoridade profissional que as torna menos úteis que perigosas. Ainda uma vez cito Ortega y Gasset: “La peculiarísima brutalidad y la agresiva estupidez con que se comporta un hombre, cuando sabe mucho de una cosa y ignora de raíz todas las demás” (O. C., p. 1291). Eles, porém, os iletrados, têm sempre razão, porque são muitos e ocupam um lugar de elite, esse “proletariado intelectual”, sem dinheiro ou com ele, isso não importa. Julgam tudo, e tudo deles depende. Lêem os livros e decidem sobre os sucessos de livraria, criticam os quadros e as exposições, aplaudem e vaiam no teatro e nos concertos, dirigem as correntes das idéias políticas, e tudo isto com a autoridade que o grau acadêmico lhes confere. Em suma, desempenham o papel de elite. São os nouveaux maîtres, os señoritos arrogantes, graduados e violentos; e nós sofremos as conseqüências, amargamente, cruelmente.

We are entered in a race between education and catastrophe”. Wells tem muita razão. Mas é de grande importância datar a desgraça. Esta catástrofe irrompeu sob o signo do progresso, e o progresso ilimitado, muito do gosto de um Wells, cavará mais profundamente o abismo. O verdadeiro caminho é a volta.

Temos mais uma vez “a disputa do medievalismo”. Uma coisa fica, porém: a Universidade é uma criação da Idade Média. Todas as universidades medievais são, por princípio, instituições “clericais”: elas formam os clercs. O restabelecimento das universidades “clericais” é uma restauração de tradições.

Quatro ou cinco faculdades reunidas não constituem ainda uma universidade. Elas não criam esta “convivence of sciences, which forms a philosophical habit of mind”,1 de que fala o cardeal Newman. Não se trata destas ciências ou daquelas profissões. Trata-se do espírito comum que as anima, do espírito filosófico, antiutilitário, desinteressado, que as nossas universidades perderam, e que é a própria Idéia de Universidade. Derrubemos, pois, este estado de coisas. É ao ensino secundário que cabe o preparo do ensino profissional, dispensado nos hospitais e na magistratura. Em conclusão, é à Universidade que incumbe a formação do espírito da “clericatura”.

Voltemos aos estudantes: o seu utilitarismo, mais perigoso que o das ciências, perdurará enquanto a freqüência das universidades for a chave para as posições de mando na sociedade. Verdadeiramente, o oposto deste utilitarismo é o desinteresse, no qual Newman via o espírito e a idéia de universidade, o espírito do clero universitário medieval, que se sentia independente do mundo e somente responsável perante Deus. Sem tais padres o altar fica vazio e o culto abandonado. Poderia chegar o dia em que ninguém compreenderia mais as fórmulas nem os poemas, em que os quadros de Rembrandt seriam pedaços de tela e as partituras de Beethoven farrapos de papel; dia da barbaria, em que a história humana se transformaria, pela sucessão de desgraças, num formigueiro mal organizado. E este dia talvez já esteja mais próximo do que realmente pensamos. “Somos a última reserva, fiquemos conscientes disto” — dizia Hugo Ball. Fiquemos conscientes,“dreading to leave an illiterate Ministery to the Churches, when our present Ministers shall lie in the dust”.

NOTAS

1. “Convivência das ciências, que forma um hábito filosófico da mente.” [N.E.]

FONTE

Otto Maria Carpeaux. “A idéia da universidade e as idéias das classes médias”, A Cinza do Purgatório. IN: OTTO MARIA CARPEAUX. Ensaios Reunidos 1942-1978 (Vol.1) De A Cinza do Purgatório até Livros na Mesa. Rio de Janeiro: Topbooks, 2005.

Categorias
Contrarrevolução

O orgulho do fracasso

Este é um texto essencial de Olavo de Carvalho. É um texto que foi muito importante para minha formação, para que eu definisse o campo de minha luta intelectual, e que dá o mote deste blog:

O orgulho do fracasso

Olavo de Carvalho

O Globo, 27 de dezembro de 2003

“O world, thou choosest not the better part!”
(George Santayana)

Língua, religião e alta cultura são os únicos componentes de uma nação que podem sobreviver quando ela chega ao término da sua duração histórica. São os valores universais, que, por servirem a toda a humanidade e não somente ao povo em que se originaram, justificam que ele seja lembrado e admirado por outros povos. A economia e as instituições são apenas o suporte, local e temporário, de que a nação se utiliza para seguir vivendo enquanto gera os símbolos nos quais sua imagem permanecerá quando ela própria já não existir.

Mas, se esses elementos podem servir à humanidade, é porque serviram eminentemente ao povo que os criou; e lhe serviram porque não traduziam somente suas preferências e idiossincrasias, e sim uma adaptação feliz à ordem do real. A essa adaptação chamamos “veracidade” — um valor supralocal e transportável por excelência. As criações de um povo podem servir a outros povos porque elas trazem em si uma veracidade, uma compreensão da realidade — sobretudo da realidade humana –que vale para além de toda condição histórica e étnica determinada.

Por isso esses elementos, os mais distantes de todo interesse econômico, são as únicas garantias do êxito no campo material e prático. Todo povo se esforça para dominar o ambiente material. Se só alguns alcançam o sucesso, a diferença, como demonstrou Thomas Sowell em Conquests and Cultures, reside principalmente no “capital cultural”, na capacidade intelectual acumulada que a mera luta pela vida não dá, que só se desenvolve na prática da língua, da religião e da alta cultura.

Nenhum povo ascendeu ao primado econômico e político para somente depois se dedicar a interesses superiores. O inverso é que é verdadeiro: a afirmação das capacidades nacionais naqueles três domínios antecede as realizações político-econômicas.

A França foi o centro cultural da Europa muito antes das pompas de Luís XIV. Os ingleses, antes de se apoderar dos sete mares, foram os supremos fornecedores de santos e eruditos para a Igreja. A Alemanha foi o foco irradiador da Reforma e em seguida o centro intelectual do mundo — com Kant, Hegel e Schelling — antes mesmo de constituir-se como nação. Os EUA tinham três séculos de religião devota e de valiosa cultura literária e filosófica antes de lançar-se à aventura industrial que os elevou ao cume da prosperidade. Os escandinavos tiveram santos, filósofos e poetas antes do carvão e do aço. O poder islâmico, então, foi de alto a baixo criatura da religião — religião que seria inconcebível se não tivesse encontrado, como legado da tradição poética, a língua poderosa e sutil em que se registraram os versículos do Corão. E não é nada alheio ao destino de espanhóis e portugueses, rapidamente afastados do centro para a periferia da História, o fato de terem alcançado o sucesso e a riqueza da noite para o dia, sem possuir uma força de iniciativa intelectual equiparável ao poder material conquistado.

A experiência dos milênios, no entanto, pode ser obscurecida até tornar-se invisível e inconcebível. Basta que um povo de mentalidade estreita seja confirmado na sua ilusão materialista por uma filosofia mesquinha que tudo explique pelas causas econômicas. Acreditando que precisa resolver seus problemas materiais antes de cuidar do espírito, esse povo permanecerá espiritualmente rasteiro e nunca se tornará inteligente o bastante para acumular o capital cultural necessário à solução daqueles problemas.

O pragmatismo grosso, a superficialidade da experiência religiosa, o desprezo pelo conhecimento, a redução das atividades do espírito ao mínimo necessário para a conquista do emprego (inclusive universitário), a subordinação da inteligência aos interesses partidários, tais são as causas estruturais e constantes do fracasso desse povo. Todas as demais explicações alegadas — a exploração estrangeira, a composição racial da população, o latifúndio, a índole autoritária ou rebelde dos brasileiros, os impostos ou a sonegação deles, a corrupção e mil e um erros que as oposições imputam aos governos presentes e estes aos governos passados — são apenas subterfúgios com que uma intelectualidade provinciana e acanalhada foge a um confronto com a sua própria parcela de culpa no estado de coisas e evita dizer a um povo pueril a verdade que o tornaria adulto: que a língua, a religião e a alta cultura vêm primeiro, a prosperidade depois.

As escolhas, dizia L. Szondi, fazem o destino. Escolhendo o imediato e o material acima de tudo, o povo brasileiro embotou sua inteligência, estreitou seu horizonte de consciência e condenou-se à ruína perpétua.

O desespero e a frustração causados pela longa sucessão de derrotas na luta contra males econômicos refratários a todo tratamento chegaram, nos últimos anos, ao ponto de fusão em que a soma de estímulos negativos produz, pavlovianamente, a inversão masoquista dos reflexos: a indolência intelectual de que nos envergonhávamos foi assumida como um mérito excelso, quase religioso, tradução do amor evangélico aos pobres no quadro da luta de classes. Não podendo conquistar o sucesso, instituímos o ufanismo do fracasso. Depois disso, que nos resta, senão abdicarmos de existir como nação e nos conformarmos com a condição de entreposto da ONU?

Anexo:

Categorias
Contrarrevolução

O tabaco e a alma

charutoTexto de Michel P. Foley (publicado na revista First Things n.72, abril de 97).

Tradução e Notas de Márcio Umberto Bragaglia.

A atual, barulhenta e irresponsável[1] campanha mundial contra o fumo não só incutiu dolorosamente em quase todas as pessoas o medo dos efeitos do tabaco sobre o corpo humano, mas também serviu para obscurecer a mais profunda das razões de popularidade do ato de fumar: sua relação com nossa alma. Enquanto os dias de glória do fumo passam para as cinzas da história, é o momento de refletirmos sobre sua conexão com o espírito humano.

Obviamente, a alma é algo de grande complexidade. Há muito tempo Platão sugeriu que nós considerássemos a alma como sendo dividida em três partes: a vegetativa-sensorial, a espiritual (ou sensitiva) e a racional[2], correspondendo cada parte com uma das três categorias básicas de desejos humanos, quais sejam: o desejo da satisfação dos apetites físicos, o desejo pelo reconhecimento perante as demais pessoas, e o desejo de conhecer a Verdade. Desde que nos lembremos desta divisão proposta pelo filósofo, podemos entender melhor a relação que existe entre o consumo de tabaco e a alma humana: as três formas mais comuns de fumá-lo – cigarros, charutos e cachimbos, correspondem respectivamente a cada uma das três partes da alma.

Os cigarros correspondem à parte vegetativa, (o apetite sensorial) da alma, fato que explica sua corrente associação tanto com a comida quanto com o sexo. A conexão sexual é particularmente óbvia: pense no famoso “fumar um cigarrinho” após o coito, ou na presença invariável dos cigarros nos bares para solteiros.

Pessoas com fortes desejos físicos demandam satisfação instantânea, e tentam tornar o que desejam parte de seus corpos, ao máximo possível: a fome requer comer, a sede beber, e a luxúria tornar o corpo do amante parte de seu próprio corpo. Isso vale para os cigarros. Um cigarro é tragado: é necessário que seja consumido completamente no interior do indivíduo para provocar o prazer. Um cigarro, com sua rápida finalização, igualmente é satisfação instantânea. Até mesmo a notória conexão entre o cigarro e a morte pode ser entendida como um apetite – ambos são indiferentes em relação à saúde de seu objeto no que tange à satisfação, e ambos, quando atingem o nível final, tornam-se hostis ao indivíduo, fatais.

Os Charutos, por outro lado, correspondem à parte espirituosa, sensitiva, da alma. Isto explica porque são tão populares entre homens que procuram honra e reputação – políticos, executivos, etc. A razão para esta correspondência pode ser encontrada na similaridade que há entre os charutos e a ambição. Um charuto impressiona, visualmente falando: com seu grande tamanho e suas enormes nuvens de fumaça, geralmente causa um impacto maior no expectador do que no próprio fumante. Está mais ligado ao poder masculino do que à sua satisfação propriamente dita. “Testis”, em latim, significa “testemunha”: a aparência fálica do charuto serve para demonstrar ao público que testemunha a virilidade do fumante, sua potência. O fato de que o charuto não é inalado reflete esta abordagem exterior, superficial.

A ambição também tem estas características: é muito mais exterior do que interior. Diferentemente dos desejos físicos, que são satisfeitos pelo simples consumo, a ambição requer o consenso e o reconhecimento de terceiros. Os homens que procuram as honrarias, por exemplo, necessitam se sentir reconhecidos pelo maior número de pessoas possível para satisfazerem suas demandas de caráter.

Finalmente, o cachimbo corresponde à parte racional da alma, o que explica porque tendemos a representar pessoas sábias fumando cachimbos: o estudioso, em Oxford, cercado por seus bons livros, ou Sherlock Holmes, que, nas histórias originais de Conan Doyle também fumava outras formas de tabaco[3], mas que, graficamente, é quase sempre representado na companhia de um cachimbo. Diferentemente dos cigarros e charutos, o cachimbo persiste, não se consome. Similarmente, as questões que intrigam o filósofo em muito superam tanto os menores desejos físicos quanto as ambições humanas relativas ao status social. Ainda, enquanto o charuto é completamente masculino, o cachimbo tem elementos masculinos e femininos (a piteira e o fornilho, respectivamente). Isto corresponde à atividade intelectual do filósofo, que é tanto masculina quanto feminina: masculina no que tange à procura pela “Verdade Absoluta”, e feminina na sua característica de ser receptivo à tudo que dele descobre. Finalmente, o efeito do cachimbo nas outras pessoas é análogo ao efeito da filosofia: o adocicado aroma de um cachimbo, como a boa filosofia, é uma benção para todos que se aproximam.

É apropriado que todos os três referidos tipos de consumo do tabaco envolvem o uso do fogo, pois cada um deles se relaciona com o nível de resposta da alma ao apelo da razão, e o fogo, pelo menos desde os dias de Prometeu, é o emblema mitológico da razão. Mas também há partes não humanas na alma do homem[4]. O crescimento dos cabelos e das unhas, por exemplo, se deve à atividade da alma (vida), mesmo que não se relacione com o comando da razão.

O uso do tabaco que não envolve o fogo, portanto, de certo modo corresponde a estes elementos não-humanos, ou mais precisamente sub-humanos da alma. Mascar tabaco, por exemplo, é uma atividade sub-humana por definição. É a ruminação do homem bovino. Ou talvez, devêssemos dizer do homem camelo, pois os camelos não só mascam, mas também cospem. De qualquer modo, a idéia é clara: mascar o tabaco é uma atividade sub-racional, e por isso nós normalmente à associamos aos homens mais brutos e menos intelectualmente refinados.

Cheirar (aspirar) o tabaco também pode ser classificado nesta categoria, mas com algumas pequenas diferenças. Primeiro, porque, não sendo tão repugnante, não carrega o mesmo grau de conotação negativa do processo de mascar o tabaco. (Obviamente, as atividades podem ser sub-racionais sem serem más). Em segundo lugar, aspirar pelo nariz não é atividade que se possa categorizar no mesmo nível das anteriores. Todas as formas já discutidas envolvem a boca, o que é mais natural, já que a boca foi feita para receber coisas dentro de si. Mas aspirar algo diferente de ar para dentro do nariz, isso já não é tão natural assim…[5]

Como todo leitor de Platão sabe, o que tem relação com a alma tem necessariamente relação com a cidade [6]. Logo, se nossa teoria é mais do que a fumaça que pretende explicar, ela pode ser usada na análise de alguns fenômenos políticos contemporâneos. Por exemplo, nos últimos anos temos testemunhado um esforço de ajuste social que objetiva esterilizar nossas relações eróticas, diminuindo seu perigo, mas também seu vigor.

As vazias e desestimulantes palavras que usamos para referenciar estas ligações confirmam nossa hipótese. Ao invés de “amante” e “amado”, por exemplo, nos referimos a “parceiro” (termo que retira das questões do coração toda excitação, aproximando a tão emocionante matéria da frieza das relações comerciais). Considerando este ambiente social deliberadamente alterado, não é de se espantar que nossa guerra moral mais violenta nos dias atuais seja contra os fumantes e cigarros, nem que a única guerra tão intensa que a sociedade trava seja a favor do “sexo seguro”, de preservativos que não esterilizam o sexo apenas no sentido literal, mas também metafórico.

Além disto, a relação que há entre os charutos e as pessoas fracas, em busca de reconhecimento social, explica o crescimento significativo do incremento de fumantes de charuto do sexo feminino. Como as mulheres continuam a penetrar em mundos de competição social tradicionalmente dominados pelos homens[7], muitas estão os vencendo em seu próprio jogo, utilizando-se das mesmas técnicas de incremento de poder, e, com as técnicas e táticas vêm os símbolos.

Mais significativa, entretanto, é a relação entre a raridade numérica dos fumantes de cachimbo na América, e a crise intelectual que o país enfrenta. Se o cachimbo enfatiza um modo de vida intelectual e racional, é de espantar que não possa ser encontrado em um país no qual as escolas substituem a filosofia real pela ideologia do “politicamente correto”, onde a inteligentsia, ao invés de se engajar no pensamento aprofundado, tende para o ativismo irresponsável? É surpresa que o mais famoso fumante de cachimbo dos EUA nos últimos trinta anos seja Hugh Hefner[8], profeta banal do hedonismo? Não, a era dos fumantes de cachimbo está tão longe de nós quanto o dia em que os filósofos serão reis e os reis irão filosofar – uma realidade triste que a densa neblina azul dos cigarros e charutos é a única a atestar.

Também não é de nos surpreender, nesta era sem cachimbos, que a batalha feroz travada contra o tabaco perdeu o ponto relevante sobre seu poder de viciar: o tabaco influencia a alma tanto quando o faz ao corpo. As qualidades que ele a faz incorporar nas suas formas variadas o torna um complemento irresistível para os desejos dominantes da alma de cada um. Como reagimos a estas influências diz muito do nosso posicionamento pessoal em relação ao que moralmente desejamos, talvez tanto quanto diz a erva aos desejos do corpo, por si só.

[1] O autor utiliza o termo brouhaha para qualificar a campanha contra o fumo. Significa um distúrbio relevante, muito mais do que os méritos da discussão que o gerou. Preferi adjetivar, no mesmo sentido. (N.do T.)

[2] A divisão tripartite da alma, na abordagem do autor deste texto, se relaciona com a ética segundo a interpretação que Aristóteles adotou, modificando o escopo original da discussão em Platão. (N. do T.)

[3] Holmes também apreciava um charuto ao investigar seus casos, conforme nos ilustra a passagem abaixo, do conto The Sign of Four: “”Well, Jonathan Small,” said Holmes, lighting a cigar, “I am sorry that it has come to this”. (N.do T.).

[4] Alma em sentido platônico, é o que, em diversos níveis, anima o corpo, dá vida. Pode ser compreendida como uma essência adicional à matéria, presente nos vegetais, nos animais e no homem. Cada nível de ser tem um incremento nestas categorias. Assim, as plantas possuem apenas a alma vegetativa, os animais a vegetativa e a sensível, e os homens as duas mais a intelectiva.

[5] Neste trecho, o autor se desvia um pouco do assunto e trata de diferenciar a maconha do tabaco. Para nós, fumantes apenas deste último, não há a menor necessidade de enfatizar-se a qualidade deste e os efeitos desprezíveis daquele, que, segundo o autor, se resumem no seguinte: “enquanto o cigarro, o charuto e o cachimbo soltam a língua apenas o suficiente para estimular a boa conversação e a amizade, a maconha desprende a língua do cérebro, afastando a razão”.(N.doT.)

[6] No sentido grego, é claro, com o Estado, a comunidade politicamente organizada. Aí vem a introdução da discussão política deste artigo. (N.doT.)

[7] Ainda bem, penso eu! Ao contrário do que alguns consideram, o charme e a delicadeza feminina se adaptam muito bem ao uso do charuto. (N.doT.)

[8] O fundador e editor da revista Playboy, desde 1953.

OBS: fiz pequenas correções ortográficas e modificações de estilo