Categoria: Ética e moral
O verdadeiro e o falso amor
Concordar e animar nada custa.
Contradizer e aconselhar, isto sim.
Amantes nunca dissentem um do outro.
Mas esposos, que não se saibam contrariar e advertir, é que não se sabem amar.
É o que vai do amor lícito ao ilícito, do amor puro ao impuro, do mundano amor ao amor santo.
Um, todo carne, todo culpa, nasce do apetite, nele se ceva, e com ele acaba.
Por isso é só blandícias, lisonja, só e só mentira todo ele.
O outro deriva do coração, e no espírito se acendra; pelo que vive de sinceridade, zelo e devoção, e todo ele é fé e confiança, todo estima e desvelo, todo escrúpulo e verdade.
Esta condição do amor casto, do amor fiel, do amor consagrado: o amor dos pais, o amor dos bem-casados, o amor da pátria, o amor de Deus.
– Rui Barbosa (Permanência março-abril de 1975)
A "pirâmide da intimidade"
O sofrimento
Texto do Professor José Luiz Delgado publicado no Jornal do Commercio (Recife, 11 de março de 2014 – foram feitas pequenas modificações estilísticas):
A vida pode ser uma sucessão de alegrias, de realizações, de vitórias. Mas será também uma sucessão de sofrimentos e agonias, umas maiores e outras menores, nuns mais e noutros menos. Por que alguns homens sofrem tanto? Por que sobre determinados membros da da família humana, e não sobre outros, e não sobre todos, se abatem certas moléstias ou certas privações que lhes prejudicam terrivelmente a qualidade de vida? Não há regra nessas fatalidades: não são sempre os piores que sofrem, nem os melhores. Nem aqueles, com tais sofrimentos, são castigados; nem estes são purificados e exaltados como que para dar exemplo. A vida é desigual também nisso: no fato de recair sobre uns uma carga excessiva de sofrimentos, enquanto outros são olimpicamente poupados.
O sofrimento é um mal, evidentemente. Desde os primeiros albores da consciência até o último estertor, o homem é perturbado, impressionado, obcecado, com a presença do mal. Não só o mal moral, a escolha voluntária do mal, a opção pelo crime e pelo pecado. Mas, antes de tudo, o mal físico, a dor, o sofrimento, o mal que atinge os inocentes (ao menos, inocentes do mal que os toca).
O mistério do mal seria ainda mais incompreensível se bens muito maiores não pudessem ser tirados dele. Nem sempre se tira, é fato. Mas, quando alguém, a quem foi dada carga muito pesada de sofrimentos, em vez de se revoltar contra o destino, aceita, resignado, a humilhação de sua carne e consegue tirar das dores que o acometem, um bem ainda maior, não somente fica pessoalmente pacificado, sobretudo dá admiráveis lições diárias, edificantes exemplos, reanimadoras motivações, e será exaltado entre as melhores referências da fortaleza humana. Se, ao invés, do próprio sofrimento não conseguir extrair as consolações e as grandezas que poderia tirar, contará com uma compreensão que não terão aqueles que foram poupados de sofrimentos semelhantes.
Não sei se pode imaginar algum consolo para esses sofredores, que dizem ser os preferidos de Deus, e que, tendo já padecido demais aqui, hão de chegar mais rápido à felicidade da outra vida. Sei é que são exemplares e são queridos exatamente pela imensidão de sua dor. E ainda nos mostram como somos todos humanos, tão frágeis, tão vulneráveis, tão dependentes de um milhão de coincidências para continuarmos nesta existência.
O relativismo
É a crença de que não existe ordem moral objetiva, de que a moralidade é o que decidimos fazer dela. A Bíblia tem um modo de defini-la, na última frase de Juízes: “Naqueles dias não havia rei em Israel; porém cada um fazia o que parecia reto aos seus olhos”. É o abandono de um código compartilhado de valores, que é o que liga uma pessoa à outra. Em uma sociedade moralmente relativista, portanto, os relacionamentos não se sustentam: as pessoas não se casam, ou, se chegam a casar, a união não dura. Elas não têm um relacionamento sólidos com os filhos. Banqueiros e financistas não veem razão para renunciar aos salários mais exorbitantes e trabalhar para o bem comum. A sociedade, aos poucos, começa a se dissolver, e o primeiro sinal disso é a dissolução da família. Na Inglaterra, hoje, 50% das crianças nascem fora do casamento. Muitas estão em situação de desvantagem. As crianças pagam o preço da nossa perda de um sentido de lealdade e responsabilidade.
– Rabino Jonatahn Sacks (Veja, 15 de janeiro de 2014)
Leis puramente penais
Artigo do filósofo e teólogo Inácio Strieder (Jornal do Commercio, Recife, 27 de janeiro de 2013) que apresenta uma informação interessantíssima no que se refere à reflexão da Igreja sobre a relação da lei divina com as leis civis:
Em tempos não muito remotos, constava nos livros de moral cristã, usados como manuais nos cursos seminarísticos, um capítulo sobre as “leis puramente penais”. Que leis eram estas? Como, na compreensão da política (medieval) cristã, o Estado e a Igreja são duas sociedades perfeitas, mas distintas em seus objetivos, as leis de uma dessas sociedades não necessariamente são vinculantes uma para a outa. Na Igreja são obrigatórias as leis do direito canônico que, segundo se ensina, obrigam com fundamento nas convicções de consciência dos fiéis. A voz da consciência é como a “voz de Deus”. Por isto, seguir a consciência é certo, não seguir a consciência é pecado.
Na sociedade civil, em questões de leis, não é a consciência que determina a obrigatoriedade da lei. A lei é a dura lex. Agrade ou não, se é justa ou não, se há convicção ou não de sua justiça e verdade, isto não interessa. A lei, uma vez promulgada por autoridade legítima, exige observância. Em caso contrário, o cidadão está sujeito a penalidades. Em sociedades democráticas, quem não estiver de acordo com determinada lei, deve lutar por aboli-la. Diante da compreensão da lei penas na Igreja (medieval?!), sustentou-se a existência de “leis puramente penais” para o cristão. Certas leis civis não observadas, não deveriam gerar intranquilidade de consciência; o seu descumprimento não era pecado; a transgressão destas leis não precisava ser confessada, e nem necessitava de perdão, pois não ofendiam a Deus. Contudo, se a autoridade flagrasse um cristão na transgressão destas leis, o fiel deveria cumprir as penalidades determinadas.
Estavam no rol das “leis puramente penais” as leis aduaneiras, fiscais, do trânsito, certas leis trabalhistas e profissionais. Não era, portanto, pecado, fazer contrabando, sonegar impostos, dirigir fora da lei, não assinar a carteira de trabalho… O que, ainda hoje, encontramos sendo praticado por certos religiosos. No entanto, hoje, a Igreja já não ensina mais a moral das “leis puramente penais”. Interessante é que, ao que parece, a “moral”, ou melhor, a imoralidade das “leis puramente penais” migrou da consciência religiosa para a consciência civil. Muitos cidadãos corruptos e criminosos, notórios transgressores das leis, se escondem e mentem para não serem descobertos. E, ao contrário do ensinamento da Igreja, também não querem cumprir as penalidades de suas transgressões.
Modéstia e romance
Jason Evert fala a jovens sobre modéstia e romance.
O dom da vida e o aborto
No começo do mês passado fui convidado para dar uma palestra no EJC (Encontro de Jovens com Cristo) da Paróquia de São Cristovão e São Sebastião do bairro da Imbiribeira aqui em Recife. A aula deveria ter como tema “O dom da vida” e, no meio dele, uma abordagem sobre o aborto. Tudo em 40 minutos e às 8 horas da manhã, ou seja, para quem é prolixo e noturno como eu seria um sacrifício… mas pela Igreja nós devemos nos sacrificar mesmo e topei o desafio. De início imaginei uma aula normal, no estilo “comício”, como é ainda comum em nossas escolas e universidades, mas logo deixei de lado essa idéia e procurei fazer algo o máximo possível no estilo socrático, isto é, desenvolver o tema por meio de perguntas, respostas e reflexões. Pelo que fiquei sabendo a maior parte dos participantes gostou de minha aula. Abaixo vou colocar um texto que usei para me guiar:
Fazei-me conhecer, Senhor, o meu fim e o número de meus dias, para que eu veja como sou efêmero. A largura da mão: eis a medida de meus dias. Diante de vós a minha vida é como um nada; todo homem não é mais que um sopro. De fato, o homem passa como uma sombra; é em vão que ele se agita; amontoa, sem saber quem recolherá. (Salmo XXXVIII, 5-7)
Pois bom, praticamente 24 horas depois, no começo da noite de sexta-feira, minha mãe me ligou dizendo que ela tinha morrido. Em geral eu sou muito falador, mas nesse momento fiquei sem palavras. Foi uma triste surpresa.
Depois de passado o choque e a confusão que muitas vezes é um funeral, comecei a pensar sobre as lições que esse episódio podia me dar. Por que ela lembrou tanto um dia antes de morrer de coisas aparentemente tão banais? O que importa na vida?
O fato, gostemos ou não, é que o dom da vida só pode ser vislumbrado, e ainda assim entre muitos véus, na perspectiva da morte. Infelizmente, em geral, só damos valor àquilo que não temos mais. Qual a importância de um sorriso? Qual a importância de fazer brincadeiras com os amigos? Amar alguém, com tudo que isso implica em termos de responsabilidade, é um bom gasto de tempo? A resposta a essas perguntas está na morte.
Nela percebemos que não são só grandes momentos que importam, não são apenas as coisas valorizadas socialmente que fazem a diferença, mas todas as coisas fazem, todos os momentos importam. Nossa vida é exatamente esse conjunto de momentos que se sucedem no tempo. Falte um só e já não é mais a minha vida ou a de vocês, é a de outra pessoa.
Já pararam para pensar nisso? Creio que a maioria não. Mas vai haver um dia, que só conhece o Senhor que nos deu gratuitamente o dom da vida, em que pensaremos. E, por isso, vovó lembrava dos cuidados de seu pai para com ela, por isso lembrava dos alunos da escolinha no interior da Paraíba, por isso lembrava de fazer sorrir um dos sisudos padres de antigamente.
Desse modo, já podemos entender o motivo da Igreja se opor com veemência à chamada “cultura da morte” que permeia o mundo atual. Já podemos entender por que o aborto é uma injustiça com o fraco e uma abominação aos olhos de Deus.
Quem pode dizer que os momentos formadores de uma vida são mais importantes que os de outra? Vejam que no começo eu qualifiquei as lembranças de minha avó de banais. Mas eram mesmo? Quem sou eu para julgar!?! Do mesmo modo, como pode um juiz das mais altas instâncias dizer que a vida de um adulto vale mais que a de uma criança que estará entre nós por pouco tempo? Saberá ele medir o valor de um abraço que essa criança pode receber? O que vale mais, tal abraço ou os discursos intermináveis do juiz que tenta desqualificar por meio de fantasias a realidade do dom da vida que está na sua frente?
Pior. Muito pior. A loucura de nossa época faz com que se tente medir infortúnios. Vamos matar quem está no calor do ventre materno para que um projeto profissional não seja prejudicado. Vamos matar quem está no ventre materno para que a dor de uma mulher que foi vítima de uma violência não se perpetue. Ora, se é impossível dizer que um momento de felicidade é superior a outro, também é impossível falar o mesmo de um de infelicidade.
Mas a falta de reflexão não para aí. Pois se o dom da vida é gratuito, como nós podemos concordar com quem quer por um valor nele, em especial pelo fato de que estes não podem dá-lo? Qual o militante abortista que pode trazer algo à vida?
E vejam, o pecado aqui não é apenas atacar os fracos, mas não defendê-los. É algo semelhante ao pecado de Pilatos: o governador romano não atacou Nosso Senhor Jesus Cristo, ele não O defendeu, não O resguardou do ódio das multidões. Será que nós não nos tornamos outros Pilatos ao não lutar contra a cultura da morte?
