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Brasil profundo

Pequenas capelas e o catolicismo popular do caipira

As pequenas capelas encontradas à beira de caminhos e entroncamentos são, quase sempre, dedicadas à Santa Cruz. Quem se disponha a parar e perguntar sobre a origem de qualquer uma delas, geralmente ouvirá uma narrativa sobre um acidente fatal ou assassinato. Apesar do apelo dessas histórias, o vinculo entre os mortos e esses oratórios rurais vai muito além do que a morte tem de circunstancial e particular.

Tal devoção, antes de tudo, fala do senso de dever católico com os mortos, que ainda viceja com força no Vale do Paraíba. Ali os caminhantes se deparam com cruzes dedicadas aos mortos cuja memória alguém quis perpetuar, independentemente das circunstâncias em que ocorreu.

A singeleza da construção é a regra entre tais capelas: bastam quatro esteios sustentando um telhado de duas águas. Já as mais sofisticadas contentam-se com as paredes erguidas com tijolos e um pequeno alpendre fronteiro. Tal simplicidade atrai entusiastas do primitivismo, que deixam de notar que o culto à Santa Cruz não primava pelo construir, mas pelo ato de “vestir” a capela, decorando-a conforme as datas festivas.

O zelo com o ornamentação era maior quando das festas de Santa Cruz (maio), Santa Cruzinha (setembro) e Finados (novembro). A capela era então vestida com “roupa de festa”: além de caiada ou pintada, bandeirolas ou trepadeiras floridas eram pregadas nos esteios e flores mais vistosas eram fixadas na cumeeira ou nos umbrais da porta. A própria cruz do altar era inteira revestida de flores.

Devidamente ornada, a capela podia receber os festeiros próximos. O morto a quem era dedicada era então relembrado pelos familiares e vizinhos, cumprindo o seu papel benfazejo: ensejar o congraçamento dos vivos. Mesmo nos dias de hoje, quando a brasilite substituiu o sapé e as flores de papel-crepom os cravos e rosas, essas singelas “cruzes do morto” permanecem sendo vestidas para festas que renovam os laços entre comunidades já não mais restritas aos bairros rurais.

– Francisco C. D. de Andrade (via Paulistânia Tradicional)

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Crise Cultura

Ariano explica o Papado

É interessante como a verdadeira arte, por tocar em questões perenes, é sempre nova e, desse modo, ilumina questões diferentes que se sucedem ao longo da história. Pensei nisso após ler um trecho da Farsa da Boa Preguiça, do mestre Ariano Suassuna, que ao tentar explicar papado, também mostra como a visão continuísta num extremo e a  sedevacantista (no caso, aquela que diz que estamos sem Papa a mais de 50 anos) não possuem a menor razoabilidade:

“SIMÃO PEDRO: O que aconteceu, é o que eu dizia: Simão é poeta e homem religioso! É artista e poeta até o osso! Tem as suas fraquezas, reconheço! Mas, quem não tem fraquezas neste mundo? Ele não está só!

MIGUEL ARCANJO: Co-coró-cocó

SIMÃO PEDRO: Que brincadeira mais besta! Essa história do galo já está enchendo! Neguei o Cristo mesmo, e daí? A situação estava apertada, eu caí fora! Mas depois, quando chegou a minha vez, eu não venci o medo e não estava lá, na hora?

MANUEL CARPINTEIRO: É verdade, Miguel: ele ficou e uma morte terrível suportou!

SIMÃO PEDRO: E depois, se eu não tivesse feito essas besteiras, junca mais ninguém admitiria uma fraqueza no Comando da Igreja! Se o Papa escolhido não tivesse sido um sujeito cheio de defeitos, como eu, nunca mais ninguém iria entender que a Igreja é a Igreja, seja quem for que estiver à frente dela.”

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Ética e moral Crise

O cerne da crise moral

citação2Os católicos imaginam que o que diferencia o mundo atual de épocas passadas é o teor dos pecados.

Não! As pessoas já faziam as mesmas coisas. Nunca deixou de haver no mundo cristão, exceto entre os santos e os virtuosos, traições, luxúria desenfreada, assassinatos, mundanismo, tirania, intelectualidade acadêmica burra (acontece que os filósofos modernos eram burros com estilo, com sofismas sutilíssimos e difíceis de ver, embora já preparassem o niilismo atual em modo germinal).

O que distingue basicamente a era contemporânea da era cristã é, em primeiro lugar, a permissividade. Antes havia, nem que por convenção social, o respeito dos hipócritas pela lei natural.

Em segundo lugar, a falta de vigência social da autoridade eclesiástica. Quando o poder religioso era importante para o povo, os poderosos deste mundo, que já enfrentavam e diminuíam o poder temporal da Igreja no antigo regime, se preocupavam por não atacar a autoridade religiosa enquanto tal, para não confrontar diretamente a religiosidade do povo.

Em terceiro lugar, a profusão dos meios técnicos de difusão de ideias e comportamentos. Tanto o bem como o mal podem usá-los, porém o bem espiritual só pode realmente implantar-se no coração pelo testemunho e exemplo pessoal ou a distância do mal (no caso dos simples e frágeis), enquanto o mal se difunde com facilidade por mero contato sensível, imaginariamente, não requer o concurso de uma inteligência reflexiva, pois apela às concupiscências e cresce por elas (a reflexão que ratifica o mal *só vem depois de que já se está instalado culpavelmente nele*).

Em quarto lugar, a própria defecção de boa parte da hierarquia eclesiástica, seu mundanismo, os ensinos e celebrações precárias, e os erros gritantes do sujeito magisterial supremo, fatos que, pela sua significação sobrenatural, e somados aos anteriores, permitem que as potências infernais avancem muito mais do que em outros tempos.

– Joathas Bello

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Apologética

Teoria da conspiração (2): a falsa irmã Lúcia

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Apologética Ciência

Teorias da Conspiração (1): Terraplanismo

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Por que achamos que “tudo ia bem na Igreja” até 1962?

citação2Porque a coisa que mais desejamos como seres humanos católicos – como católicos “normais” ou “básicos” – é um lugar seguro para cultuar a Deus e uma sociedade em que a impiedade moral não é autorizada.

Que a liturgia não fosse compreensível, que a sociedade fosse hipócrita, que a teologia oficial já fosse fraca… isto de fato não importa tanto assim, no sentido de que isto não corrói a Fé e a Esperança dos católicos praticantes, que são os que podem modificar a situação para melhor.

Porque sempre está disponível o culto ideal para ser bem realizado, e sempre estão proibidas grandes malignidades que escandalizam as almas, dificultando a conversão dos mundanos e desanimando o apostolado dos medíocres.

Porque o fundamental é entender que o erro é erro, e vislumbrar um pouco da glória do Reino.

O resto vem por acréscimo (sobre)naturalmente.

É muito mais triste que os fundamentos estejam abalados – certamente serão reconstruídos -, que os limites não sejam claros – certamente serão restabelecidos -, mas é então que, paradoxalmente, e para surpresa do Diabo – que no final das contas é astuto mas é burro -, surgirão grandes santos como nos tempos dos apóstolos e mártires, porque apenas estes podem vencer o mundo quando este parasita o Templo, e a vitória já está assegurada.

– Joathas Bello

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A língua de Adão

Muitos anos atrás, nos saudosos tempos do Orkut, surgiu uma pergunta na comunidade que eu moderava e que depois acabou levando a muitas brincadeiras: qual era a língua de Adão? Vamos falar como ele após o Juízo Universal? Ou vamos falar em latim, ou esperanto (rsrsrs)? Foi com surpresa, então, que assisti o seguinte vídeo, do ótimo Omar Mansour, tratando de uma maneira séria e erudita sobre essa questão: