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Cultura Oração

Desculpas para não rezar em latim

De Lucas Breno Bergantin:

Desculpas que inventamos para não começarmos a rezar em latim:

1) “Não entendo nada”: a única chance de vc não entender nada é não conhecer nada em português também, porque, para nós, muita oração comum e o ordinário da liturgia acabam sendo uma relação de um pra um. Se vc já conhece em português, não teria dificuldade de transpor o sentido para o latim (que, mais adiante, depois de um certo amadurecimento, permitiria aprofundar esses sentidos).

2) “Ainda não consigo entender tudo”: e é exatamente por isso que vc é um LEIGO e nem sequer tem essa obrigação de entender tudo. Não é para vc saber tudo mesmo, sendo que nem estudou a língua em profundidade. E nada te impede de estudá-la conforme a necessidade, dando tempo ao tempo. O fato de vc ter que parar e fazer um esforço para entender pode ser bem melhor do que vc ficar com a falsa impressão de que entendeu porque leu ou ouviu em português.

3) “Não sei pronunciar”: várias pronúncias latinas desses cantos gregorianos que vc ouve por aí estão fora do padrão também, vc só não sabe disso. A transposição do português brasileiro para o latim tem os seus desafios, mas a nossa língua está longe de ser a pior delas. A pronúncia padronizada para o uso da Igreja também não é um bicho de sete cabeças. Mas também tem que dar tempo ao tempo, estudando e praticando, sem querer tudo para ontem.

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Crise Teologia

Ratzinger modernista?

Texto de Joathas Bello:

Se é preciso defender D. Lefebvre da acusação besta de “protestante”, “modernista de direita” (sic) – o “perenialismo” é o modernismo de direita -, também é necessário defender Bento XVI da acusação que tradicionalistas lhe fazem, de ser “modernista” (sic).

Assim como “protestantismo” é um teor e não simplesmente uma “atitude” (de desobediência), o “modernismo” também é um teor (fundamentalmente metafísico, de onde derivam as consequências religiosas), e alguém pode fazer conclusões similares aos modernistas por razões distintas do modernismo, ainda que nascidas no mesmo “clima” intelectual.

Para o modernista, as “fórmulas” dogmáticas são símbolos de uma verdade divina “imanente” (sic) – a Divindade como elemento constitutivo do humano é uma nota constitutiva do modernismo -, cuja consciência “evolui” – sendo essa evolução captada pelo “sentimento religioso” [do divino], outra nota constitutiva do modernismo; é por não haver uma Revelação da Transcendência – o agnosticismo do Deus Transcendente é a primeira nota constitutiva do modernismo -, que as fórmulas são contingentes e até descartáveis: elas não se referem a um conteúdo dado por Outrem, sendo úteis apenas na medida em que propiciam a “união” com o divino imanente.

Um teólogo católico pode fazer uma análise da contingência das fórmulas não do ponto de vista do subjetivismo imanentista, mas da fluidez da linguagem e da perda da vigência cultural de uma determinada terminologia, por um lado, e da inesgotabilidade do Mistério Divino revelado, por outro; pode pretender “atualizar” a linguagem em favor do conceito, do dogma, de sua compreensibilidade. Pode também falar da Fé como “encontro” sem que isto seja expressão de uma gnose sentimentalista, mas simplesmente como contraponto à tendência logicista e juridicista do catolicismo moderno, como expressão do primado real da Caridade (sem nada negar da primazia cronológica da audição do Evangelho e do aprendizado doutrinal).

Esta perspectiva “existencial” tem seus problemas e limites, mas não por ser “modernista”, e sim por nunca ter sido realmente bem harmonizada com a linguagem da escolástica pré-conciliar. O CVII é uma justaposição de perspectivas, não uma verdadeira integração, daí coisas como o “subsistit in”, a “liberdade religiosa”, etc. e a necessidade da “hermenêutica da continuidade”.

A linguagem existencial pode favorecer o joio modernista, mas em si mesma é a retomada do agostinianismo, e S. Agostinho não era modernista.

De outra parte, a ideia de certo tradicionalismo, de “57 anos de heresia em Roma” (sic) é de abrumar o coração: 4 papas “heréticos” seguidos é algo que, na prática, dá razão ao “eclesiovacantismo”, por um lado, e ao “continuísmo” acrítico, por outro; tal juízo apressado não permite discutir com seriedade o problema concreto do “papa herético” e do neomodernismo que se apresenta de maneira iniludível a partir de Amoris Laetitia.

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Apologética Catequese Espiritualidade

Entrevista com Frei Gilson

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Crise Eclesiologia

Juízo tradicionalista sobre os papas

Texto de Joathas Bello:

O juízo dos tradicionalistas sobre os papas conciliares é parcial.

Como já disse em algum momento, o “sim, sim, não, não” é sim a todo sim e não a todo não.

1) João XXIII é uma incógnita (tanto é que há sedevacantistas que o têm como Papa e bom Papa!): até o CVII parece um Papa normal, mas permitiu que a minoria progressista de bispos assumisse o controle da metodologia conciliar e escreveu Pacem in Terris no decorrer do CVII, fundamentalmente correta, mas com sabor humanista que antecipa Gaudium et Spes (e Populorum Progressio e Fratelli Tutti, esta última já inteiramente inaceitável de um ponto de vista católico).

2) Paulo VI é profundamente ambíguo e foi objetivamente negligente. Teve atuações importantes como Papa: Humanae Vitae, intervenções pontuais que resguardam as possibilidades ortodoxas da “colegialidade” e da “liberdade religiosa”, o Credo do Povo de Deus que manifesta o que é de Fé e o que é contingente (o diálogo) no CVII, Mysterium Fidei e a correção da definição do Missal sobre a Missa, que dão o contexto para a reta intenção da Igreja na celebração do novus ordo. Em outras palavras, o carisma papal ali funcionava, num modo parcial (suficiente para a indefectibilidade eclesial, insuficientíssimo para o bem requerido). Mas fez discursos de índole maçônica (humanista e filognóstica) na ONU e no encerramento do CVII, fez a péssima reforma litúrgica, e proibiu aparentemente o rito tradicional. Via os males mas não assumia sua culpa e se autojustificava. Se a canonização é infalível, a balança de Deus o favoreceu, ainda que objetivamente ele não seja modelo de santidade papal e sua canonização tenha sido um ato fundamentalmente político.

3) João Paulo II teve formação neoteológica e seus primeiros documentos e discursos favorecem o erro teológico da gratificação. universal. Sua visão sobre a reforma litúrgica e a Missa tradicional era obtusa, pode-se questionar a excomunhão dos bispos tradicionalistas, mas com o Ecclesia Dei ele objetivamente melhorou a situação deixada por Paulo VI. O Encontro de Assis foi um horror injustificável. Mas seu ensinamento moral – por causa da formação fenomenológica, ao contrário da interpretação tradicionalista – é muito bom; e seu testemunho em favor da lei natural atrasou os horrores mais recentes. Sua luta contra a TL e o comunismo foram determinantes. Seu amor a Nossa Senhora e seu ardor apostólico eram sem fingimento. Sua aceitação do sofrimento, exemplar. Era um homem reto e piedoso; só a antipatia visceral o impede de ver.

4) Bento XVI levou adiante o bem parcial de João Paulo II. Responsável, no pontificado anterior, por Dominus Iesus, que deu a interpretação cristológica e eclesiológica ortodoxa definitiva do CVII. Esboçou críticas graves (ainda que com o comedimento de homem da Igreja) a Gaudium et Spes (ao otimismo conciliar) e à reforma litúrgica. Corrigiu em parte sua injustiça com Summorum Pontificum, responsável (na esteira da resistência tradicionalista) pelo conhecimento e expansão universal (embora comedida) da liturgia romana de sempre. Acalentava o ideal da “reforma da reforma” e da “hermenêutica da continuidade”, soluções pastorais intelectualistas e insuficientes – tendo-se em conta a devastação progressista do pontificado atual – para os problemas conciliares (que não chegou a reconhecer na raiz, pela mentalidade neoteológica da qual nunca adquiriu a distância necessária). Sua teologia tem traços de sabedoria (que o tradicionalismo não consegue reconhecer).

5) Francisco é tudo o que dizem. E ainda pior. Infelizmente.

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Contrarrevolução

Aniversário da Cruzada

No dia em que comemoramos mais um aniversário do início da cruzada espanhola contra o comunismo, publico a ilustração abaixo, de Carlos Sáenz de Tejada, que retrata um soldado nacionalista fazendo uma genuflexão numa igreja vandalizada:

Essa ilustração provavelmente foi produzida para a obra História da Cruzada Espanhola, com oito volumes, na qual Tejada foi o diretor artístico.

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Liturgia

A proeminência de São João Batista no rito romano apostólico

Tradução de um texto do Dr. Peter Kwasniewski:

Nascimento de João Batista. Pintor desconhecido, século XV (foto do Padre Lawrence Lew)

Todos os anos, nos ritos ocidentais da Igreja Católica, o aniversário ou nascimento de São João Batista, Precursor do Senhor, é comemorado no dia 24 de junho, exatamente a seis meses da natividade de Jesus Cristo Nosso Senhor. A explicação mais simples para a data é que, como diz o Missal Diário de Santo André, “no Evangelho de 25 de março lemos que o anjo Gabriel anunciou a Maria que três meses depois [ou seja, no final de junho], Isabel, em virtude de um milagre divino, teria um filho.”

Mas há também uma explicação alegórica dada por todos os comentaristas litúrgicos de todos os tempos. Como disse o próprio João, a respeito do Messias: “Ele deve crescer, eu devo diminuir” (Jo III, 30). Perto do Natal, no hemisfério norte, cai o dia mais curto do ano, quando a escuridão está no auge; depois disso, a luz aumentará lentamente. Da mesma forma, perto do nascimento de São João cai o dia mais longo do ano, após o qual a luz – a luz de João – diminuirá. O próprio ciclo da natureza proclama o relacionamento correto entre o Filho e Palavra de Deus e todos os Seus discípulos, não importa quão grandes sejam.

Aqueles que estudam a história litúrgica, arquitetônica e artística de nossos tempos, nos quais São João Batista é, para ser franco, uma figura quase marginal na vida católica, podem ficar surpresos ao descobrirem a magnitude da devoção tradicional ao Batista, o maior dos profetas, ao longo de todos os séculos da Igreja, nas terras orientais e ocidentais. Na Europa havia milhares de igrejas dedicadas a ele, estátuas e inúmeras janelas, pinturas de todos os tipos. Ele era um dos patronos mais populares dos lugares. Depois da Virgem Maria, praticamente não há santo mais invocado.

Podemos ver a evidência desta devoção no rito romano clássico. Ele não só tem duas festas, uma das quais (a da Natividade) também tem uma Missa de Vigília própria, e uma das quais (novamente a da Natividade) desfruta de uma oitava; mas em cada celebração da Missa Tridentina ele é invocado seis vezes no Confiteor repetido três vezes; novamente na grande oração Suscipe, Sancta Trinitas no final do Ofertório; mais uma vez no Cânon Romano; e finalmente no Último Evangelho. Isso significa nove vezes em cada missa.

Para comparação, antes de 1962, São José não era invocado uma única vez sequer.

No texto do Confiteor tradicional lemos:

Confiteor Deo omnipotenti, beatae Mariae semper Virgini, beato Michaeli Archangelo, beato Ioanni Baptistae, sanctis Apostolis Petro et Paulo, et omnibus Sanctis, quia peccavi nimis cogitatione, verbo et opere: mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. Ideo precor beatam Mariam semper Virginem, beatum Michaelem Archangelum, beatum Ioannem Baptistam, sanctos Apostolos Petrum et Paulum, et omnes Sanctos, orare pro me ad Dominum Deum nostrum. Amen.

Confesso a Deus Todo-poderoso, à bem-aventurada sempre Virgem Maria, ao bem-aventurado Miguel Arcanjo, ao bem-aventurado João Batista, aos santos Apóstolos Pedro e Paulo, e a todos os santos, que pequei muitas vezes por pensamentos, palavras e ações, por minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa. Por isso, peço à bem-aventurada sempre Virgem Maria, ao bem-aventurado Miguel Arcanjo, ao bem-aventurado João Batista, aos santos Apóstolos Pedro e Paulo, e a todos os santos, que oreis por mim a Deus, Nosso Senhor. Amém.

Na Suscipe, sancta Trinitas, última oração do Ofertório temos:

Suscipe, sancta Trinitas, hanc oblationem, quam tibi offerimus ob memoriam passionis, resurrectionis, et ascensionis Jesu Christi, Domini nostri, et in honorem beatæ Mariæ semper Virginis, et beati Ioannis Baptistæ, et sanctorum apostolorum Petri et Pauli, et istorum, et omnium sanctorum: ut illis proficiat ad honorem, nobis autem ad salutem: et illi pro nobis intercedere dignentur in cælis, quorum memoriam agimus in terris. Per eumdem Christum Dominum nostrum. Amen.

Recebei, ó Trindade Santíssima, esta oblação, que vos oferecemos em memória da Paixão, Ressurreição e Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo, e em honra da bem-aventurada e sempre Virgem Maria, de São João Batista, dos santos apóstolos Pedro e Paulo, e de todos os Santos; para que, a eles sirva de honra e a nós de salvação, e eles se dignem interceder no céu por nós que na terra celebramos sua memória. Pelo mesmo Cristo, Senhor Nosso. Amém.

Quão poderoso é lembrar – e ainda assim tantas vezes esquecido! – que o Santo Sacrifício da Missa é oferecido não apenas “em memória da Paixão, Ressurreição e Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo”, mas também “em honra da bem-aventurada e sempre Virgem Maria, de São João Batista, dos santos apóstolos Pedro e Paulo, e de todos os Santos.”

A menção mais uma vez aos dois padroeiros da Igreja de Roma lembra-nos que apenas cinco dias depois da Natividade de João Batista, no dia 29 de junho, acontece a solenidade dos Santos Pedro e Paulo, que também são, como João, mencionados nove vezes cada: seis vezes no Confiteor três vezes repetido; uma vez aqui, na Suscipe; uma vez no Cânon Romano; e uma vez na Embolia após o Pai Nosso. Para quem conhece a numerologia, nove é um número especial porque homenageia a Santíssima Trindade (3+3+3 ou 3×3), como no Kyrie nove vezes do autêntico rito romano da Missa.

O Cânon Romano menciona o Batista na segunda lista de santos, após a Consagração:

Nobis quoque peccatoribus, extensis manibus ut prius, secrete prosequitur: famulis tuis, de multitudine miserationum tuarum sperantibus, partem aliquam, et societatem donare digneris, tuis sanctis Apostolis et Martyribus: cum Joanne, Stephano, Matthia, Barnaba, Ignatio, Alexandro, Marcellino, Petro, Felicitate, Perpetua, Agatha, Lucia, Agnete, Cæcilia, Anastasia, et omnibus Sanctis tuis: intra quorum nos consortium non æstimator meriti, sed veniæ, quæsumus, largitor admitte. Per Christum Dominum nostrum.

Também a nós, pecadores, vossos servos, que esperamos na vossa infinita misericórdia, dignai-vos conceder um lugar na comunidade de vossos santos Apóstolos e Mártires: João, Estevão, Matias, Barnabé, Inácio, Alexandre, Marcelino, Pedro, Felicidade, Perpétua, Águeda, Luzia, Inês, Cecília, Anastácia, e com todos os vossos Santos. Unidos a eles pedimos, vos digneis receber-nos, não conforme nossos méritos mas segundo a vossa misericórdia.Por Jesus Cristo Nosso Senhor. Amém.

Que “João” aqui não é outro senão o Batista é reconhecido por todos os comentaristas litúrgicos (ver, por exemplo, Arcebispo Amleto Cicognani, The Saints Who Pray with Us in the Mass, Romanitas Press, 2017, p. 26).

O Último Evangelho, retirado do Prólogo do Evangelho de João, inclui estas palavras (João I, 6-8):

Fuit homo missus a Deo cui nomen erat Joannes. Hic venit in testimonium, ut testimonium perhiberet de lumine, ut omnes crederent per illum. Non erat ille lux, sed ut testimonium perhiberet de lumine.

Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João Este veio como Testemunha para dar testemunho da luz, afim de que todos cressem por meio dele. Não era Ele a luz, mas veio para dar testemunho da luz.

Como é triste refletir sobre o fato de hoje em dia, em quase todas as celebrações do Novus Ordo, o nome de São João Baptista, o maior homem nascido de mulher, não ser mencionado sequer uma vez. (a não ser quando o Cânon Romano é escolhido).

Este é o tipo de coisa que os tradicionalistas têm em mente quando falam das diferentes espiritualidades das antigas e novas “formas” da Missa. A visão de mundo devocional daqueles que foram educados na produção artificial de Paulo VI não é a mesma que a de nossos antecessores na Fé e daqueles que mantêm a forma tradicional de culto. Graças a Deus, cada vez mais católicos começam a ver o imenso valor de se reconectarem com o seu direito de nascença: a lex orandi e a lex credendi da Igreja Romana de todos os tempos.

Nota do tradutor:

Na Tradição Bizantina, existem seis Festas de São João Batista:

1) Sua concepção em 23 de setembro;

2) Sua Natividade – 24 de junho;

3) Sua decapitação – 29 de agosto;

4) Sinaxe de São João Batista – 7 de janeiro (um dia após a Teofania);

5) A Primeira e a Segunda Descobertas do Cabeça de São João Batista – em fevereiro;

6) A Terceira Descoberta da Cabeça de São João – 25 de maio.

25 de maio, Festa da Terceira Descoberta da Cabeça de São João Batista, foi o aniversário terrestre (e dia de batismo) de São Padre Pio (ele foi batizado no mesmo dia em que nasceu); 23 de setembro, Festa da Conceição de São João Batista, foi o dia em que faleceu São Padre Pio.

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Espiritualidade Liturgia

Prima e Completas do Ofício Parvo na vida laical

Recentemente colhi o seguinte depoimento de Lincoln Haas Hein no Facebook sobre as Primas e Completas do Ofício Parvo na vida do leigo (fiz uma sistematização com um comentário do autor ao seu post original e pequenas harmonizações no estilo):

Comentei com um amigo após algumas pesquisas algo que vale a pena ser divulgado aqui sobre as Horas litúrgicas de Prima e Completas no Ofício Parvo de Nossa Senhora:

Pesquisando sobre o Ofício seja o Parvo seja a Liturgia das Horas, vi que era costume muito difundido antes do Concílio os leigos rezarem a Prima como oração da manhã ao acordar e as Completas como oração antes de dormir (algo que fazia mais sentido do que rezar Laudes e Vésperas dentro do contexto da vida cotidiana laical).

A Hora Prima tradicionalmente significa uma consagração do dia e do trabalho pedindo a proteção de Deus e um relembrar das obrigações cotidianas (enquanto as Laudes são mais dedicadas ao puro louvor, a uma consagração do cosmos e a adoração) – nos ambientes monásticos e religiosos geralmente estava associada a um capítulo matinal que distribuía tarefas e pode por um leigo ser associada a uma meditação breve sobre os bons propósitos para o dia que se inicia, e sobre as questões e trabalhos que deve resolver ou lidar (colocando tudo nas mãos do Senhor pela manhã).

Os três salmos da Prima do Ofício Parvo romano são particularmente interessantes:

1- O primeiro pede proteção contra os maus – contra o mundo e o demônio;

2- O segundo pede conversão – contra a carne e as concupiscências; também recorda a encarnação e a segunda vinda de Cristo: muitos trechos dele são usados em antífonas das missas no tempo do advento. É um salmo de esperança.

3- O terceiro é um salmo curto que no rito romano após São Pio X e no rito novo substitui os tradicionais laudade (148, 149, e 150) como salmo de louvor nas Laudes em um dos dias da semana. É um salmo que fala da fidelidade de Deus em sua verdade e misericórdia: é quase um paralelo louvando em Deus o que se diz em outro salmo “Verdade e amor são os caminhos do Senhor para quem guarda sua Aliança e seus preceitos” e assim relembra o nosso dever de corresponder ao amor e fidelidade divinas com verdadeiros e sinceros atos de fidelidade e amor. É um salmo que serve tanto para combater o demônio e o orgulho da vanglória dando louvor a Deus quanto para ter algo do louvor das Laudes renovado.

Já nas Completas há o exame de consciência do dia que passou e há uma entrega confiante em Deus para que proteja e guarde durante as horas do sono. No Ofício Parvo romano rezam-se os salmos graduais do 128 ao 130:

1- O primeiro é alegoricamente uma lembrança da paixão e sofrimentos de Cristo, uma recordação da justiça divina e uma imprecação contra os inimigos de Cristo e da Igreja – serve bem para pôr a alma diante da responsabilidade de não ofender a Cristo, diante da lembrança da morte e do inferno assim como para alimentar a esperança. Renova em outra chave o combate ao mundo e ao demônio que estava implícito no primeiro salmo das Primas.

2- O segundo é o De profundis, um dos salmos penitenciais, além de servir a esse propósito de emenda pelas faltas cotidianas fala de vigilância noturna (“mais que os vigias pela aurora espere Israel pelo Senhor”): mesmo dormindo velamos se nos pomos a dormir com esperança em Deus confiando. Há um apotegma que se um monge não pudesse jejuar por razões de saúde poderia com a força das vigílias fervorosas conhecer a glória que se esconde na vida monástica de busca por Deus. Renova em outra chave o combate à carne/concupiscências que estava implícito no segundo salmo das Primas.

3- O último é uma afirmação de busca pela humildade, inclusive citado na regra de São Bento. Serve para colocar a percepção da nossa pequenez diante da imensidão divina e assim tem algo do louvor do terceiro salmo de prima e renova de maneira bem explícita o combate ao orgulho e vanglória e ao demônio que inspira revolta contra Deus.

Vale lembrar que os salmos graduais são os salmos da “ascenção” e “subida”, da peregrinação e procissão ao Templo de Jerusalém. Em sentido espiritual cristão os Padres e São Bento interpretam eles como apontando o itinerário cristão de elevação espiritual para viver no verdadeiro terceiro templo que é o Corpo de Cristo como pedras vivas e espirituais. Com estes três salmos das Completas do Ofício Parvo romano (128 a 130) temos em miniatura o essencial dos graduais: as profundezas miseráveis de onde somos retirados pela bondade divina e elevados à vida sobrenatural; a cruz como caminho e busca de vida no templo, enfrentamento dos inimigos e encontro com Deus no santo dos santos (o coração aberto de Cristo); a humildade como condição de habitação na morada de Deus; a confiança em Deus e desconfiança em nós mesmos pois “se o senhor não edificar, em vão trabalham os que a constroem” e assim a importância da humilhação e confiança que aparecem nesses salmos.

Com este pequeno conjunto de seis salmos (juntando os da Prima e os das Completas) temos os seis dias da nova criação do homem para repousar no sábado do nunc dimittis que é nesta vida, à luz da fé, a salvação em Cristo; a morte como sono místico; enquanto aguardamos a vinda do oitavo dia que é a glória final.

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Para saber mais sobre o Ofício Parvo clique aqui.

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Apologética Bíblia

Água Benta para fundamentalistas

Pergunta: Minha irmã fundamentalista diz que a água benta é uma superstição e não tem apoio na Bíblia. Não consigo encontrar uma passagem para refutá-la.

Resposta: Números V,17 descreve um ritual: “E o sacerdote tomará a água sagrada em um vaso de barro, tirará um pouco do pó do chão do tabernáculo e o lançará na água”. Isto demonstra que a água benta não só possui base bíblica, como também existe desde os dias de Moisés.

A água benta era empregada em numerosas cerimônias do Antigo Testamento que envolviam aspersão e lavagens cerimoniais. Veja o que é falado sobre a água lustral em Números XIX, 9-22. Nosso Senhor usa dessa referência, isto é, da água como instrumento simbólico da purificação espiritual, para ilustrar várias verdades: João IV, 14; XIX, 34; Apocalipse XXI, 6. São Paulo passou à frente tal ensinamento: Hebreus X, 22.

No início do Cristianismo, Santo Alexandre mandou usar o sal na bênção da água.

Essa mistura nos remete ao profeta Eliseu que usou sal na água para torna-la sadia (II Reis II, 12-22). Também nos remete ao Evangelho, no qual o cristão é convidado a ser sal da terra (Mateus V,13).

Na lei de Moisés, aspergia-se o povo com água misturada com a cinza de um bezerro vermelho que imolavam. Essa era a água lustral a que fiz referência. O que as cinzas eram na Lei de Moisés é o sal no Novo Testamento: o sal simboliza a sabedoria e a amargura da penitência.

Hoje não estamos obrigados a realizar as cerimônias mosaicas, porém o fato de ter sido usada água benta prova que não é uma prática supersticiosa nem inválida. O mesmo se diga de seu uso contínuo pela Igreja, que tão somente colocou em prática as ferramentas deixadas pelo Salvador.

Um aprofundamento pode ser encontrado aqui.