A RESPOSTA DE MARIA A UM “CRENTE” RAIVOSO Autor: Fernando Nascimento
Um “crente” ia voltando depois que depositou a metade do salário na conta do seu pastor, ao dobrar uma esquina com Maria barruou.
Disse ele: tu tai cega, num sabe pra onde vai, quase sujasse meu terno, minha bíblia quase cai, arreda da minha frente. Te reprimo Satanás!
Maria disse: meu filho, sou a mãe do Salvador, que em meio a multidão de mim se desencontrou, se o vê queira avisar-me que rogo a teu favor.
O “crente” já foi dizendo: e quem precisa de tu? Já tô salvo, te desprezo que nem faço a Belzebu. Te detesto só de vê esse teu manto azul.
Maria disse: esse ódio que te torna tão ruim foi criado por pastores, mas antes não era assim, o Lutero e o Calvino muito honraram a mim.
Eu não sei que mal te fiz dando ao mundo um Salvador que nos veio ensinar o que de fato é amor. Se meu filho encontrar me avise por favor.
Disse o “crente”: não aviso! Ele te chama “mulher”. Se não te chama de mãe é porque você não é. Agora suma daqui, vá-se embora, dê no pé!
E Maria respondeu pro “crente” cair pra trás: Jesus é “Filho do homem”, -----(Mt 19,28), (Jo 9,36) referindo-se a Deus pai e é filho da “mulher” que desrespeitando estais.
O “crente” ao vê que Jesus se disse “filho do homem”, chamando a mãe de “mulher” os enganos logo somem, foi mudando de assunto para que dele não zombem.
Perguntou: e quantos filhos tivesse além do Messias? Ela respondeu: nenhum, senão comigo estariam procurando por Jesus quando ele se perdia.
E o “crente” percebeu que só Maria e José procuravam por Jesus com 12 anos até. ---------------(Lc 2,41-46) Sem José, Jesus a deu pro filho de Salomé. -----------(Jo 19,27)
O “crente” admitiu: me fizeram confusão, se tivesses outros filhos não ias morar com João, -------(Jo 19,27) e foi mudando de assunto com outra acusação:
Diana era “rainha do céu” para os pagãos, os católicos te chamam assim numa imitação. Disse o “crente”: me explique já essa contradição.
E Maria respondeu: teu pastor te enganou, eu sou “Rainha do céu” porque Deus me coroou, --------(Ap 12, 1,5). a Diana dos pagãos lá no céu nunca pisou...
... O Diabo era chamado de “Estrela da manhã”, ---------(Is 14,12) hoje é Jesus quem é, ------------(Ap 22,16) ou tu achas que é Satã? Deus venceu o paganismo mudando o que era vã.
- O “crente” pilheriou: tu és muito “adorada” na igreja dos católicos, na minha não ganhas nada. E Maria o refutou: apenas sou venerada...-----(Rm 2,10),(Salm 45,17) -----------------------------------ou (Salm 44,18)
... Tu não sabes distinguir o que é adoração. Adora quem queima incenso só a Deus com a oblação. --------(Mal 1,11). A fumaça do incenso leva a Deus a oração... ------------(Ap 8,4)
... E por falar no incenso, cadê o da tua seita??? Esse pedido de Deus por que é que tu rejeitas??? --------(Mal 1,11). Tua oração não sobe e disso tu nem suspeitas.
- O “crente” já foi dizendo pra do assunto fugir: tu não és imaculada como dizem por aí. e Maria respondeu para ao “crente” corrigir:
- Ninguém faz sair o puro do impuro, a bíblia diz. -------------(Jó 14,4) Se eu fosse pecadora Jesus era, e contradiz o que diz as Escrituras, veja o quanto és infeliz...
... Se eu fosse pecadora não era “cheia de graça”, ---------(Lc 1,28) “bendita entre as mulheres” ------(Lc 1,42) toda geração me acha. -------------(Lc 1,48) e bendito é o do meu ventre igualmente e isso basta.
- O “crente” engoliu dizendo: te chamam de “Mãe de Deus”, como podes ser mãe dele se antes de tu nasceu? Ela disse: mãe da carne do Deus que na cruz morreu... -------(Mc 14,61)
... O Messias é eterno, é espírito como Deus, não tem começo nem fim, mas cá entre nós nasceu, fez-se homem pra salvar-nos.--------(Col 1,15) e pra ser mãe, me escolheu.
- O “crente” atordoado bem diante de Maria, viu cair os seus ataques não sabia o que fazia e Jesus se aproximando encheu a mãe de alegria.
Ela disse: onde fostes? De ti me desencontrei. Jesus respondeu à mãe: na Igreja eu entrei, tá fazendo dois milênios que a mesma eu fundei.
- O “crente” se intrometeu, e gritou: foi lá na minha??? Jesus respondeu: não fui, a tua é bem novinha, tem letreiro na fachada parecendo uma lojinha...
... Se eu for lá com esse cabelo sou capaz de ser linchado, lá não tem Eucaristia, ---------(1Cor 11, 28-29) se ajuntam em pecado, --------(1Cor 11,34) lá vão barrar minha mãe, e o “Pai Nosso” é vetado...
... Eu nunca vesti na vida o teu paletó lascado, tua bíblia falta livros, tem 66 contados e a minha 73, pois 7 e 3 são sagrados... ---(Ap 3,1), (Mt 28,19)
... Basta ver nas Escrituras que 7 e 3 são de Deus. 6 é número de homem ------(criado no 6º dia) e esse é o caso teu, que me troca por Lutero um 6 letras que morreu. -----(morreu em 1546)
... A Igreja sobre Pedro é a única que fundei, -----------(Mt,16,17-19) tem ovelhas e não bodes, ------(Mt 25,32-41) placa nela não botei, senão botava em tudo que junto a Deus Pai criei.
- O “crente” vendo a desgraça em que andou mergulhado, disse: já rasguei a bíblia, o terno já foi tirado. hoje vou a uma Missa e confesso meus pecados.
- Jesus disse: fazes bem. Com minha mãe subirei. A serpente que a insultar a cabeça ferirei ----------------( Gên 3,15) e com os pés dos romanos piso Satanás de vez. ----------(Rm 16,20)
Os continuístas e sedevacantistas têm certa razão quando dizem que não se pode ficar escolhendo o magistério a aceitar.
A perspectiva tradicionalista que se apoia na falibilidade do magistério ordinário meramente autêntico é realmente inusitada, porque seriam 60 anos de muita fraude, e assim os outros 1962 anos da Igreja teriam tido muita sorte de papas ortodoxos.
O magistério papal em sentido estrito não é ortodoxo porque os papas são ortodoxos, o magistério papal é ortodoxo porque sua (reta) função é indispensável.
Entretanto, o (que parece ser) magistério tem ensinado ambiguamente (o que já é incompatível com a função) e tem inclusive errado. Isto é um fato inapelável. O continuísmo puro e simples é errado com total evidência.
E a tese do sedevacantismo é uma hipótese que envolve uma combinação de probabilidade teológica e decisão prática que só pode ser assumida pelo indivíduo, jamais pode se impor à inteligência católica universal.
A solução do Pe. Calderón afastando a magisterialidade das novidades conciliares por causa da intenção liberal é mais razoável que ambas soluções.
O problema é que essa intenção é uma possibilidade interpretativa do CVII! Não se impõe com evidência como a única nem como a mais provável, porque onde o magistério é tratado formalmente, a definição é correta…
Hoje numa live do CDB, o Prof. Alessandro Lima, questionou, no intuito de refutar, os fundamentos do sedevacantismo:
Não vou comentar sobre o conteúdo neste momento, pois me falta tempo e paciência para esse assunto, mas considero que o vídeo serve para o amadurecimento dos leitores em torno da questão, seja no sentido das intenções do CDB, seja contra ela.
Desculpas que inventamos para não começarmos a rezar em latim:
1) “Não entendo nada”: a única chance de vc não entender nada é não conhecer nada em português também, porque, para nós, muita oração comum e o ordinário da liturgia acabam sendo uma relação de um pra um. Se vc já conhece em português, não teria dificuldade de transpor o sentido para o latim (que, mais adiante, depois de um certo amadurecimento, permitiria aprofundar esses sentidos).
2) “Ainda não consigo entender tudo”: e é exatamente por isso que vc é um LEIGO e nem sequer tem essa obrigação de entender tudo. Não é para vc saber tudo mesmo, sendo que nem estudou a língua em profundidade. E nada te impede de estudá-la conforme a necessidade, dando tempo ao tempo. O fato de vc ter que parar e fazer um esforço para entender pode ser bem melhor do que vc ficar com a falsa impressão de que entendeu porque leu ou ouviu em português.
3) “Não sei pronunciar”: várias pronúncias latinas desses cantos gregorianos que vc ouve por aí estão fora do padrão também, vc só não sabe disso. A transposição do português brasileiro para o latim tem os seus desafios, mas a nossa língua está longe de ser a pior delas. A pronúncia padronizada para o uso da Igreja também não é um bicho de sete cabeças. Mas também tem que dar tempo ao tempo, estudando e praticando, sem querer tudo para ontem.
Se é preciso defender D. Lefebvre da acusação besta de “protestante”, “modernista de direita” (sic) – o “perenialismo” é o modernismo de direita -, também é necessário defender Bento XVI da acusação que tradicionalistas lhe fazem, de ser “modernista” (sic).
Assim como “protestantismo” é um teor e não simplesmente uma “atitude” (de desobediência), o “modernismo” também é um teor (fundamentalmente metafísico, de onde derivam as consequências religiosas), e alguém pode fazer conclusões similares aos modernistas por razões distintas do modernismo, ainda que nascidas no mesmo “clima” intelectual.
Para o modernista, as “fórmulas” dogmáticas são símbolos de uma verdade divina “imanente” (sic) – a Divindade como elemento constitutivo do humano é uma nota constitutiva do modernismo -, cuja consciência “evolui” – sendo essa evolução captada pelo “sentimento religioso” [do divino], outra nota constitutiva do modernismo; é por não haver uma Revelação da Transcendência – o agnosticismo do Deus Transcendente é a primeira nota constitutiva do modernismo -, que as fórmulas são contingentes e até descartáveis: elas não se referem a um conteúdo dado por Outrem, sendo úteis apenas na medida em que propiciam a “união” com o divino imanente.
Um teólogo católico pode fazer uma análise da contingência das fórmulas não do ponto de vista do subjetivismo imanentista, mas da fluidez da linguagem e da perda da vigência cultural de uma determinada terminologia, por um lado, e da inesgotabilidade do Mistério Divino revelado, por outro; pode pretender “atualizar” a linguagem em favor do conceito, do dogma, de sua compreensibilidade. Pode também falar da Fé como “encontro” sem que isto seja expressão de uma gnose sentimentalista, mas simplesmente como contraponto à tendência logicista e juridicista do catolicismo moderno, como expressão do primado real da Caridade (sem nada negar da primazia cronológica da audição do Evangelho e do aprendizado doutrinal).
Esta perspectiva “existencial” tem seus problemas e limites, mas não por ser “modernista”, e sim por nunca ter sido realmente bem harmonizada com a linguagem da escolástica pré-conciliar. O CVII é uma justaposição de perspectivas, não uma verdadeira integração, daí coisas como o “subsistit in”, a “liberdade religiosa”, etc. e a necessidade da “hermenêutica da continuidade”.
A linguagem existencial pode favorecer o joio modernista, mas em si mesma é a retomada do agostinianismo, e S. Agostinho não era modernista.
De outra parte, a ideia de certo tradicionalismo, de “57 anos de heresia em Roma” (sic) é de abrumar o coração: 4 papas “heréticos” seguidos é algo que, na prática, dá razão ao “eclesiovacantismo”, por um lado, e ao “continuísmo” acrítico, por outro; tal juízo apressado não permite discutir com seriedade o problema concreto do “papa herético” e do neomodernismo que se apresenta de maneira iniludível a partir de Amoris Laetitia.
O juízo dos tradicionalistas sobre os papas conciliares é parcial.
Como já disse em algum momento, o “sim, sim, não, não” é sim a todo sim e não a todo não.
1) João XXIII é uma incógnita (tanto é que há sedevacantistas que o têm como Papa e bom Papa!): até o CVII parece um Papa normal, mas permitiu que a minoria progressista de bispos assumisse o controle da metodologia conciliar e escreveu Pacem in Terris no decorrer do CVII, fundamentalmente correta, mas com sabor humanista que antecipa Gaudium et Spes (e Populorum Progressio e Fratelli Tutti, esta última já inteiramente inaceitável de um ponto de vista católico).
2) Paulo VI é profundamente ambíguo e foi objetivamente negligente. Teve atuações importantes como Papa: Humanae Vitae, intervenções pontuais que resguardam as possibilidades ortodoxas da “colegialidade” e da “liberdade religiosa”, o Credo do Povo de Deus que manifesta o que é de Fé e o que é contingente (o diálogo) no CVII, Mysterium Fidei e a correção da definição do Missal sobre a Missa, que dão o contexto para a reta intenção da Igreja na celebração do novus ordo. Em outras palavras, o carisma papal ali funcionava, num modo parcial (suficiente para a indefectibilidade eclesial, insuficientíssimo para o bem requerido). Mas fez discursos de índole maçônica (humanista e filognóstica) na ONU e no encerramento do CVII, fez a péssima reforma litúrgica, e proibiu aparentemente o rito tradicional. Via os males mas não assumia sua culpa e se autojustificava. Se a canonização é infalível, a balança de Deus o favoreceu, ainda que objetivamente ele não seja modelo de santidade papal e sua canonização tenha sido um ato fundamentalmente político.
3) João Paulo II teve formação neoteológica e seus primeiros documentos e discursos favorecem o erro teológico da gratificação. universal. Sua visão sobre a reforma litúrgica e a Missa tradicional era obtusa, pode-se questionar a excomunhão dos bispos tradicionalistas, mas com o Ecclesia Dei ele objetivamente melhorou a situação deixada por Paulo VI. O Encontro de Assis foi um horror injustificável. Mas seu ensinamento moral – por causa da formação fenomenológica, ao contrário da interpretação tradicionalista – é muito bom; e seu testemunho em favor da lei natural atrasou os horrores mais recentes. Sua luta contra a TL e o comunismo foram determinantes. Seu amor a Nossa Senhora e seu ardor apostólico eram sem fingimento. Sua aceitação do sofrimento, exemplar. Era um homem reto e piedoso; só a antipatia visceral o impede de ver.
4) Bento XVI levou adiante o bem parcial de João Paulo II. Responsável, no pontificado anterior, por Dominus Iesus, que deu a interpretação cristológica e eclesiológica ortodoxa definitiva do CVII. Esboçou críticas graves (ainda que com o comedimento de homem da Igreja) a Gaudium et Spes (ao otimismo conciliar) e à reforma litúrgica. Corrigiu em parte sua injustiça com Summorum Pontificum, responsável (na esteira da resistência tradicionalista) pelo conhecimento e expansão universal (embora comedida) da liturgia romana de sempre. Acalentava o ideal da “reforma da reforma” e da “hermenêutica da continuidade”, soluções pastorais intelectualistas e insuficientes – tendo-se em conta a devastação progressista do pontificado atual – para os problemas conciliares (que não chegou a reconhecer na raiz, pela mentalidade neoteológica da qual nunca adquiriu a distância necessária). Sua teologia tem traços de sabedoria (que o tradicionalismo não consegue reconhecer).
5) Francisco é tudo o que dizem. E ainda pior. Infelizmente.
No dia em que comemoramos mais um aniversário do início da cruzada espanhola contra o comunismo, publico a ilustração abaixo, de Carlos Sáenz de Tejada, que retrata um soldado nacionalista fazendo uma genuflexão numa igreja vandalizada:
Essa ilustração provavelmente foi produzida para a obra História da Cruzada Espanhola, com oito volumes, na qual Tejada foi o diretor artístico.