Provas da Revelação e da verdadeira religião

Um texto do confrade Rui que perfaz um mini compêndio de apologética:

1) A existência de Deus é fato comprovado pela razão:

Não iremos demorar aqui demonstrando as provas da existência de Deus. Todas as coisas que compõem o mundo, consideradas em conjunto ou em separado, não possuem em si mesmas a razão suficiente de sua existência. Logo, a razão confirma a existência de um Criador.

2) Prova da necessidade de uma Revelação:

Uma vez que Deus criou o homem e todas as coisas, o homem deve ser grato a Deus pela sua existência e pela das outras coisas. Como ser inteligente, não lhe bastaria cumprir passivamente suas obrigações de lei natural, sem importar-se com o Criador. Mas como poderia expressar a sua gratidão pelo Criador, se não sabe como poderia ser grato a um Criador, que de nada tem falta? Não lhe bastaria a oração e a gratidão naturais, posto que a relação com o Criador deveria fundar-se na justiça, justiça essa da qual desconhece a medida. É necessário, portanto, que Deus encaminhe o homem, que lhe mostre o que deve fazer para ser grato. Dessa forma, é necessária uma Revelação.

3) Prova da realidade da Revelação:

Uma vez que se prove a necessidade da Revelação, prova-se, por tabela, a sua realidade, pois Deus, extremamente sábio, não é negligente, e dispôs todas as coisas de forma correta. Continuar lendo

Qual foi o pecado de Satanás (e dos outros demônios)?

Quando se trata de falar sobre o pecado de Satanás e dos outros anjos caídos nós sempre ouvimos muitas hipóteses que, devido à falta de argumentação nas suas apresentações, podem até mesmo ser classificadas de “lendas católicas”. Já me falaram que o pecado dos demônios era o de terem apoiado seu líder no intento de tomar o lugar de Deus ou de terem se revoltado após saberem que a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade se encarnaria numa criatura inferior, o homem. Como resposta a isso tudo, apresento abaixo um texto recente do confrade Rui num debate na  comunidade do Orkut onde ele põe os “pingos nos is” em torno deste tema:

quoteNão houve uma guerra no céu à semelhança das guerras na terra. Isso é uma metáfora. Há coisas que, meditando sobre a natureza puramente espiritual dos anjos, notamos de cara serem impossíveis. Por exemplo, Satanás não desejou o lugar de Deus. Sto. Tomás deixa claro que uma inteligência como a dele jamais desejaria isso, pois, como Thiago explicou muito bem, o anjo mira a essência e não os acidentes. Ora, a superioridade de um anjo sobre outro, e de Deus sobre todos, é essencial e nunca acidental, como é a superioridade de um homem sobre outro. Ascender à posição de outro anjo é, na realidade, deixar de ser este anjo e passar a ser aquele anjo. O homem, por sua vez, deseja ascender a uma posição superior enquanto às suas condições acidentais sem que se destrua o sujeito, e assim também imagina o anjo e Deus como compartilhando das mesmas condições acidentais. Mas isso é um engano da imaginação. Deus e o anjo são essencialmente diferentes, de sorte que, se o anjo desejasse ser outra coisa que não aquilo que é, na realidade, estaria desejando a sua própria aniquilação.

Assim, o pecado de Satanás não pode ter sido querer ser semelhante a Deus em essência, e sim semelhante a Deus naquilo que não estava apto para ser. E, nesse caso, sugere Santo Tomás, ele quis o bem da sua natureza como fim último de sua bem-aventurança, ou, se desejou a bem-aventurança sobrenatural (o que concorda com Sto. Anselmo, que diz que desejou aquilo a que teria chegado se houvesse perseverado), quis alcançá-la pela capacidade de sua natureza, e não pela graça, conforme a disposição divina.

Os demais anjos devem ter tido o mesmo pecado, contudo, como Satanás era o maior deles, ficou sendo-lhes o chefe, o superior no pecado, como também é o superior dos homem que pecam. Mais do que isso, em razão dessa sua superioridade natural, exerceu influência sobre o pecado dos outros anjos, e, se alguém peca sugestionado por outro, como castigo, fica sobre seu domínio, como está em II Pd II,19, “Pois o homem é feito escravo daquele que o venceu”. A que pese a sua soberba, os anjos maus aceitaram essa subordinação a Satanás, pois, com ela, almejavam conseguir a bem-aventurança com suas próprias forças, e, sobretudo, porque, na ordem natural, que foi a razão do seu pecado, estavam já submetidos ao anjo supremo.

Outra coisa: esse pecado de Satanás e dos anjos deu-se como primeiro ato voluntário após a sua criação, sem mediação de tempo entre o primeiro instante de sua criação e o seu pecado. Dado que foi criado bom e de posse da graça santificante, teria merecido o céu com um único ato meritório, como os anjos bons, e se condenado também por único ato de pecado, como Sto. Tomás explica em S. Th., I, q.62, a.5 e q.63, a.5 e 6. Os anjos não precisam de tempo para eleger, exortar ou consentir, logo, os anjos maus também pecaram imediatamente, sugestionados pelo pecado de Satanás, fazendo-o seus próprios os desígnios daquele.

Natureza humana e seus estados

Vejam, a natureza humana pode existir em seis estados:

1 – Estado de natureza pura: só se constitui das perfeições essenciais à natureza humana. Lutero, Baio e Jansênio negaram que fosse possível semelhante estado de natureza pura, mas a Igreja o afirma com certeza.

2 – Estado de natureza íntegra: além das perfeições essenciais à natureza humana, o homem possuiria dons preternaturais que o ajudariam a alcançar mais fácil e seguramente o seu fim natural. Tais dons preternaturais foram dados ao primeiro homem: a imortalidade corporal, a impassibilidade, a imunidade de concupiscência, etc.

3 – Estado de natureza elevada: além dos dons preternaturais, possui-se também o dom sobrenatural da graça santificante. Nesse estado, Adão foi criado.

4 – Estado de natureza caída: estado que se seguiu a perda da graça santificante e dos dons preternaturais, como castigo pelo pecado.

5 – Estado de natureza reparada: estado do homem reparado pela graça redentora de Cristo, em que se possui a graça santificante, mas não os dons preternaturais.

6 – Estado de natureza glorificada: é o estado daqueles que alcançaram a visão beatífica, que é o fim sobrenatural do homem neste e nos últimos três estados descritos. Compreende a graça santificante em toda sua perfeição, e, após a ressurreição, também os dons preternaturais de integridade, em toda sua perfeição.

Estados meramente possíveis:

1 – Estado de natureza pura
2 – Estado de natureza íntegra

Estados reais (ou realmente criados):

3 – Estado de natureza elevada
4 – Estado de natureza caída
5 – Estado de natureza reparada
6 – Estado de natureza glorificada

Em todos os estados reais, dependentes da doação da graça santificante, o fim sobrenatural do homem é a visão beatífica.

O homem, após a queda, encontrava-se no estado de natureza caída; após o batismo, encontra-se em estado de natureza reparada, ou seja, possui a graça santificante, que o torna semelhante a Deus, filho adotivo de Deus, capaz de vê-lo quando esta graça for transformada em glória.

– Rui Ribeiro Machado