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Ciência Filosofia

Evolução: hipótese mista e outras considerações

Texto do confrade Rui Ribeiro Machado:

Coisas certas:

– Existe mutação (nunca, contudo, foi demonstrado que uma espécie pode se transformar em outra, admitindo que mudanças só acidentais não fazem indivíduos de espécies diferentes. A rigor, o lobo e o cão poderiam ser classificados na mesma espécie, já que a taxonomia nem sempre atenta para diferenças essenciais e sim acidentais).

– A paleontologia demonstra a existência de séries ordenadas de seres que apareceram e desapareceram, substituindo-se uns aos outros, segundo o desenvolvimento gradual de certos caracteres e o desaparecimento de outros. A isso, soma-se a evidência paleontológica de que as espécies não teriam todas aparecido conjuntamente.

– Semelhanças estruturais, genéticas, moleculares, não são provas de que uma espécie surgiu de outra, uma vez que todo organismo se compõe das mesmas estruturas, desde o átomo até o DNA ou a célula, e, por operar de maneira semelhante, deve ser composto também de maneira semelhante.

A dogmatização do transformismo reduz em muito as possibilidades. Uma coisa que nunca é pensada, nem por defensores cristãos do transformismo, nem do fixismo, é que, tanto a metafísica, quanto a Sagrada Escritura, admitem uma solução mista: é possível que Deus tenha criado um grupo de espécies inicial, e que, a partir daí, transformações dessem origem a novas espécies. Santo Tomás achava que minúsculos animais surgiram depois, até por geração espontânea. Portanto, quando o Gênesis diz que “Deus fez cada um segundo a sua espécie” (cf. Gn 1,21.24-25) não está indicando a impossibilidade de surgimento de novas espécies que, até então, não existiam.

Tampouco é preciso admitir que as espécies foram criadas por Deus todas na mesma ocasião, e não quando houvesse condições favoráveis à sua existência. Os seis dias da criação não precisam ser dias literais, embora haja toda uma lógica na descrição desses dias, revelada por Santo Tomás: eles formam uma série alternada de três etapas da criação: a criação, a diversificação e a ornamentação do céu, das águas e da terra:

Primeiro dia: diversificação do céu
Segundo dia: diversificação das águas
Terceiro dia: diversificação da terra
Quarto dia: ornamentação do céu
Quinto dia: ornamentação das águas
Sexto dia: ornamentação da terra

Uma dificuldade parece ser tirada dos teólogos e doutores da Igreja: todos, inclusive Sto. Tomás (S. Th., q.74, a.2, ad.3), admitem que Deus cessou de criar novas coisas após o tempo dos seis dias, fazendo, após isso, as coisas derivarem umas das outras. Mas, como vimos, não precisamos admitir que a criação das primeiras coisas se tivesse encerrado num período breve ou curto, devendo ser estendida, para ser fiel ao relato bíblico, até o tempo da criação do homem.

Objeção: Deus, ordinariamente, não cria senão por causas segundas.

Resposta: Quem pode admitir isso cientificamente? A teoria científica do Universo estacionário admite a criação de matéria nova, sem que isso seja um empecilho à própria teoria. O Big Bang, como evento no qual toda a matéria e energia teriam sido criados, é uma hipótese sujeita a revisões, e não é a única hipótese coerente com o cristianismo. Ainda que tenha havido o Big Bang, não é impossível a criação de coisas independente do Big Bang. As almas humanas são criadas por dia. Considerando o número de nascimentos que é por volta de centenas de milhares por dia e o número de abortos (embora eu não tenha pesquisado a proporção entre os dois), são multidões de almas que são criadas diariamente.

OBS:

Tanto o fixismo, quanto o transformismo, devem considerar as condições reais de vida em cada estágio da história terrena. Os fixistas (ou criacionistas) devem admitir que as espécies só foram criadas por Deus cumpridas as condições necessárias para a sua existência. Logo, as primeiras espécies teriam sido aquelas que poderiam resistir nas condições adversas do Período Arqueano. Não admitindo isso, o fixismo se torna inverossímil. Um texto da Montfort o admite claramente:

Evidentemente, nos primeiros tempos geológicos, a Terra não oferecia condições ambientais propícias à existência de vida. Só após alguns bilhões de anos, foi possível existirem as condições ambientais necessárias para que seres vivos pudessem existir. Estima-se que a Terra tem cerca de 4,5 bilhões de anos e que a vida só teria surgido entre 5 e 3,5 milhões de anos atrás, o que é um tempo relativamente curto.

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Teologia

A criação contínua

Texto do confrade Rui Ribeiro Machado:

criação“Meu Pai segue trabalhando até agora e eu trabalho também.” (Jo 5,17)

Quando se fala em criação, a maioria das pessoas pensa imediatamente nos seis dias da criação, como está no relato de Gênesis, ou pensa no surgimento do Universo segundo a teoria do Big Bang, versão científica moderna do mito do ovo primordial. Ou seja, o problema de como o mundo se sustenta, se conserva após a criação, não é pensado imediatamente por essas pessoas, pois elas julgam ser natural que o mundo se conserve, depois de criado, assim como uma estátua se conserva depois de feita pela mão do homem.

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Filosofia

Deus poderia criar o mundo desde sempre?

Texto do confrade Rui Ribeiro Machado:

tempoRepugnaria a razão dizer que não, dado que seria limitar a potência divina a um determinado tempo. Deus pode criar num tempo, mas não antes, e se, antes, não anteriormente a isso, e, como Deus é eterno, em algum momento não poderia ter criado o que criou. Logo, Deus mudou, o que é absurdo.

Devemos, portanto, confessar que Deus poderia ter criado o mundo desde sempre. Mas, como resolver as dificuldades desse raciocínio, como por exemplo: Uma sequência infinita de eventos na origem dispensaria o Criador? Seria possível que um movimento que começasse no infinito chegasse ao agora?

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Apologética Catequese

Provas da Revelação e da verdadeira religião

Um texto do confrade Rui que perfaz um mini compêndio de apologética:

1) A existência de Deus é fato comprovado pela razão:

Não iremos demorar aqui demonstrando as provas da existência de Deus. Todas as coisas que compõem o mundo, consideradas em conjunto ou em separado, não possuem em si mesmas a razão suficiente de sua existência. Logo, a razão confirma a existência de um Criador.

2) Prova da necessidade de uma Revelação:

Uma vez que Deus criou o homem e todas as coisas, o homem deve ser grato a Deus pela sua existência e pela das outras coisas. Como ser inteligente, não lhe bastaria cumprir passivamente suas obrigações de lei natural, sem importar-se com o Criador. Mas como poderia expressar a sua gratidão pelo Criador, se não sabe como poderia ser grato a um Criador, que de nada tem falta? Não lhe bastaria a oração e a gratidão naturais, posto que a relação com o Criador deveria fundar-se na justiça, justiça essa da qual desconhece a medida. É necessário, portanto, que Deus encaminhe o homem, que lhe mostre o que deve fazer para ser grato. Dessa forma, é necessária uma Revelação.

3) Prova da realidade da Revelação:

Uma vez que se prove a necessidade da Revelação, prova-se, por tabela, a sua realidade, pois Deus, extremamente sábio, não é negligente, e dispôs todas as coisas de forma correta.

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Catequese

Qual foi o pecado de Satanás (e dos outros demônios)?

Quando se trata de falar sobre o pecado de Satanás e dos outros anjos caídos nós sempre ouvimos muitas hipóteses que, devido à falta de argumentação nas suas apresentações, podem até mesmo ser classificadas de “lendas católicas”. Já me falaram que o pecado dos demônios era o de terem apoiado seu líder no intento de tomar o lugar de Deus ou de terem se revoltado após saberem que a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade se encarnaria numa criatura inferior, o homem. Como resposta a isso tudo, apresento abaixo um texto recente do confrade Rui num debate na  comunidade do Orkut onde ele põe os “pingos nos is” em torno deste tema:

quoteNão houve uma guerra no céu à semelhança das guerras na terra. Isso é uma metáfora. Há coisas que, meditando sobre a natureza puramente espiritual dos anjos, notamos de cara serem impossíveis. Por exemplo, Satanás não desejou o lugar de Deus. Sto. Tomás deixa claro que uma inteligência como a dele jamais desejaria isso, pois, como Thiago explicou muito bem, o anjo mira a essência e não os acidentes. Ora, a superioridade de um anjo sobre outro, e de Deus sobre todos, é essencial e nunca acidental, como é a superioridade de um homem sobre outro. Ascender à posição de outro anjo é, na realidade, deixar de ser este anjo e passar a ser aquele anjo. O homem, por sua vez, deseja ascender a uma posição superior enquanto às suas condições acidentais sem que se destrua o sujeito, e assim também imagina o anjo e Deus como compartilhando das mesmas condições acidentais. Mas isso é um engano da imaginação. Deus e o anjo são essencialmente diferentes, de sorte que, se o anjo desejasse ser outra coisa que não aquilo que é, na realidade, estaria desejando a sua própria aniquilação.

Assim, o pecado de Satanás não pode ter sido querer ser semelhante a Deus em essência, e sim semelhante a Deus naquilo que não estava apto para ser. E, nesse caso, sugere Santo Tomás, ele quis o bem da sua natureza como fim último de sua bem-aventurança, ou, se desejou a bem-aventurança sobrenatural (o que concorda com Sto. Anselmo, que diz que desejou aquilo a que teria chegado se houvesse perseverado), quis alcançá-la pela capacidade de sua natureza, e não pela graça, conforme a disposição divina.

Os demais anjos devem ter tido o mesmo pecado, contudo, como Satanás era o maior deles, ficou sendo-lhes o chefe, o superior no pecado, como também é o superior dos homem que pecam. Mais do que isso, em razão dessa sua superioridade natural, exerceu influência sobre o pecado dos outros anjos, e, se alguém peca sugestionado por outro, como castigo, fica sobre seu domínio, como está em II Pd II,19, “Pois o homem é feito escravo daquele que o venceu”. A que pese a sua soberba, os anjos maus aceitaram essa subordinação a Satanás, pois, com ela, almejavam conseguir a bem-aventurança com suas próprias forças, e, sobretudo, porque, na ordem natural, que foi a razão do seu pecado, estavam já submetidos ao anjo supremo.

Outra coisa: esse pecado de Satanás e dos anjos deu-se como primeiro ato voluntário após a sua criação, sem mediação de tempo entre o primeiro instante de sua criação e o seu pecado. Dado que foi criado bom e de posse da graça santificante, teria merecido o céu com um único ato meritório, como os anjos bons, e se condenado também por único ato de pecado, como Sto. Tomás explica em S. Th., I, q.62, a.5 e q.63, a.5 e 6. Os anjos não precisam de tempo para eleger, exortar ou consentir, logo, os anjos maus também pecaram imediatamente, sugestionados pelo pecado de Satanás, fazendo-o seus próprios os desígnios daquele.

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Catequese Teologia

Natureza humana e seus estados

Vejam, a natureza humana pode existir em seis estados:

1 – Estado de natureza pura: só se constitui das perfeições essenciais à natureza humana. Lutero, Baio e Jansênio negaram que fosse possível semelhante estado de natureza pura, mas a Igreja o afirma com certeza.

2 – Estado de natureza íntegra: além das perfeições essenciais à natureza humana, o homem possuiria dons preternaturais que o ajudariam a alcançar mais fácil e seguramente o seu fim natural. Tais dons preternaturais foram dados ao primeiro homem: a imortalidade corporal, a impassibilidade, a imunidade de concupiscência, etc.

3 – Estado de natureza elevada: além dos dons preternaturais, possui-se também o dom sobrenatural da graça santificante. Nesse estado, Adão foi criado.

4 – Estado de natureza caída: estado que se seguiu a perda da graça santificante e dos dons preternaturais, como castigo pelo pecado.

5 – Estado de natureza reparada: estado do homem reparado pela graça redentora de Cristo, em que se possui a graça santificante, mas não os dons preternaturais.

6 – Estado de natureza glorificada: é o estado daqueles que alcançaram a visão beatífica, que é o fim sobrenatural do homem neste e nos últimos três estados descritos. Compreende a graça santificante em toda sua perfeição, e, após a ressurreição, também os dons preternaturais de integridade, em toda sua perfeição.

Estados meramente possíveis:

1 – Estado de natureza pura
2 – Estado de natureza íntegra

Estados reais (ou realmente criados):

3 – Estado de natureza elevada
4 – Estado de natureza caída
5 – Estado de natureza reparada
6 – Estado de natureza glorificada

Em todos os estados reais, dependentes da doação da graça santificante, o fim sobrenatural do homem é a visão beatífica.

O homem, após a queda, encontrava-se no estado de natureza caída; após o batismo, encontra-se em estado de natureza reparada, ou seja, possui a graça santificante, que o torna semelhante a Deus, filho adotivo de Deus, capaz de vê-lo quando esta graça for transformada em glória.

– Rui Ribeiro Machado