O inferno existe? Se existe, vale a pena falar sobre essa realidade para as pessoas de hoje? Quem crê na justiça divina, não pode aceitar que, no banquete eterno, os malvados se sentem junto com as suas vítimas, como se nada tivesse acontecido.
Brasileiro nos costumes, trabalhista na economia, lusotropicalista na religião 😉
O inferno existe? Se existe, vale a pena falar sobre essa realidade para as pessoas de hoje? Quem crê na justiça divina, não pode aceitar que, no banquete eterno, os malvados se sentem junto com as suas vítimas, como se nada tivesse acontecido.
Na semana em que a Igreja celebra os 500 anos do nascimento de São Felipe Neri, recordamos a vida e as virtudes desse grande sacerdote. Felipe, o “santo da alegria”, “preferiu o Paraíso” e o amor de Deus às honras e glórias deste mundo.
Certo grupo tradicionalista que atualmente vem se espalhando pelo Brasil adora propagar todo tipo prática ou conceito antigo na vida eclesial pelo mero fato de ser antigo, como se algo antigo fosse sempre um reflexo fiel da Tradição, como se em algo antigo não pudesse haver bobagens. Nisso eles se aproximam dos modernistas. Pois bem, uma das coisas que soube recentemente é que padres desse grupo ensinam que a leitura da Bíblia é sempre um ato litúrgico e, por causa disso, deve ser feita em latim. Resultado: as pessoas influenciadas por tal conversa, certamente calcada no tempo em que os católicos de certos países tinham medo da Sagrada Escritura, não se achegam mais à Palavra nas suas práticas espirituais. Um verdadeiro desserviço. Para responder a tal picuinha, chamo São João Crisóstomo (Leitura Orante – A Lectio Divina Comentada, p. 16):
Alguns de vós afirmam: “Eu não sou monge…”. Mas eis aqui vosso erro, porque pensais que a Escritura tem a ver somente com os monges, enquanto que ela é ainda mais necessária a vós, os fiéis, que estais vivendo dentro do mundo. Existe algo mais grave e pecaminoso do que não ler as Escrituras: é pensar que sua leitura seja inútil e para nada sirva (…).
Quem vive sem a Lectio Divina exercita uma prática satânica. Como se pode enfrentar a vida espiritual sem respirar a Palavra dia e noite?
Quando saíres da igreja e voltares para tua casa, volta a tomar o Livro e lê-lo novamente com tua mulher e teus filhos. Quando retornares da igreja e ires para casa, prepara duas mesas, uma com os pratos do alimento, outra com a Escritura. Que o chefe da família repita o que escutou na igreja. Que vosso lar se transforme em uma igreja.
Para mim é decepcionante que católicos tradicionalistas brasileiros fiquem ligados a ideias bobas como a do grupo que citei, querendo voltar a um tempo em que se rezava o terço na Missa, não por alguma mística especial, mas porque não se sabia mais o que fazer. Deviam, isso sim, dá uma olhada onde a resistência é mais dinâmica, como nos EUA, e constatar a riqueza das obras publicadas pela editora da FSSPX-EUA na seção sobre a Sagrada Escritura.
Pergunta recebida de um leitor:
Quais são os tipos de documentos papais que existem hoje em em dia?
Que eu saiba, são os seguintes (do menos solene para o mais solene):
Bula
Motu Proprio
Constituição Apostólica
Carta Apostólica
Exortação Apostólica
Encíclica
1) Bula: o termo “bula” diz respeito à apresentação dos documentos, e não ao seu conteúdo. O escrito, curto, leva um selo de chumbo próximo ao nome do pontífice.
Exemplo: o documento pode ser utilizado para nomear bispos, criar dioceses e convocar concílios ecumênicos.
2) Motu Proprio: é criado por iniciativa exclusiva do Papa – e não com base em discussões, assembléias ou ainda por sugestão dos cardeais.
Exemplo: o Summorum Pontificum, de Bento XVI, em 2007, que relulamentou a volta ampla das missas celebradas no rito tridentino.
3) Constituição Apostólica: é utilizado normalmente para decretar dogmas.
Exemplo: na Ineffabilis Deus, o Papa Pio IX, 1854, definiu solenemente o dogma da Imaculada Conceição de Maria.
4) Carta Apostólica: os papas a utilizam para tratar de questões mais pontuais. Os textos costumam ser menores que os das encíclicas e das exortações apostólicas.
Exemplo: a Ordinatio Sacerdotalis, em que João Paulo II definiu que a Igreja não se considera autorizada a ordenar mulheres.
5) Exortação Apostólica: é semelhante a uma encíclica, mas sempre é publicada depois dos sínodos.
Exemplo: a Evangelii Gaudium, de 2013, na qual o Papa Francisco discorreu sobre a evangelização, a pobreza e a desigualdade.
6) Encíclica: são textos que esmiúçam em longas páginas temas relacionados com a doutrina, a pastoral, a cultura, a economia, etc.
Exemplo: a Humani Generis, de 1950, escrita por Pio XII, tratando de temas qua iam do neo-modernismo ao evolucionismo.
OBS: Existem também os quirógrafos, que não são um tipo de documento, mas um documento feito de certa maneira: de próprio punho. João Paulo II escreveu um quirógrafo comemorativo dos cem anos do Motu Proprio “Tra le Sollecitudini” de São Pio X sobre a música sacra.
Semanas atrás quando o cantor sertanejo Cristiano Araújo morreu num trágico acidente de trânsito, eu passei meio ao largo da comoção popular e das polêmicas envolvendo uma frase dita pelo pai dele e uma crítica do apresentador global Zeca Camargo. Simplesmente não conhecia esse rapaz e nem me importo com o estilo das músicas dele. Fui, por isso, questionado um sem número de vezes, tanto por pessoas próximas quando por conhecidos virtuais, como se eu tivesse de ter opinião sobre tudo e como se fosse um ET por não me ligar nesse fato. Por isso, ao ler agora de manhã uma crítica do ótimo colunista de música do Jornal do Commercio, José Teles, sobre o livro Cowboy do Asfalto (Gustavo Alonso, Civilização Brasileira) que trata da história cultural da assim chamada música sertaneja, um trecho chamou minha atenção:
(…) Cristiano Araújo, um dos sertanejos universitários mais bem sucedidos causou surpresa quando morreu em acidente em 24 de junho passado. Aventou-se a ideia de que o fato de ele ser ainda um desconhecido para boa parte dos brasileiros, embora com milhões de fãs, seria a prova do abismo entre dois Brasis. O que não deixa de ser verdade. Porém, não tão simplista.
Cristiano era contratado da Som Livre, tinha trânsito livre pelos principais programas da TV Globo, incluindo as trilhas sonoras de novelas. Existe, porém, dentro da própria classe média uma divisão. A dos “cabeças”, ligada em TV por assinatura, seriados americanos, e que não acompanha a programação popular da TV. É incapaz de distinguir Gustavo Lima do citado Cristiano Araújo. Mas sertanejos são ídolos do interior do Sudeste e Centro Oeste e das grandes capitais há muito tempo. Sertanejos cantam para a classe média das Hilux, dos energéticos e dos festivais em que a música é o que menos importa. Nas favelas é o MC que fala para a juventude sobre novinhas, drogas e tretas. No Brasil está contido muitos Brasis.
Não, eu não sou do que ele chama de “classe média cabeça”, meus referenciais são anteriores aos desse grupo social e minha família tem outra origem, mas concordo com a base dessa análise, que, levando para o que importa neste blog, tem relação direta com o sucesso comunicativo das seitas pentecostais nas nossas grandes cidades e com o fracasso dos conservadores/tradicionalistas católicos em aumentarem seu protagonismo social. Compreender a linguagem e os anseios de uma sociedade materialista e plural é essencial na apresentação da Boa Nova de um modo frutuoso.
A criança no banco da frente da Missa – Um ótimo texto que trata do modo orgânico com que nossas vidas devem se mesclar com a da Igreja e de um suposto problema sobre o qual todos que são responsáveis pela liturgia numa igreja tem de ouvir vez ou outra uma reclamação.
Concordar e animar nada custa.
Contradizer e aconselhar, isto sim.
Amantes nunca dissentem um do outro.
Mas esposos, que não se saibam contrariar e advertir, é que não se sabem amar.
É o que vai do amor lícito ao ilícito, do amor puro ao impuro, do mundano amor ao amor santo.
Um, todo carne, todo culpa, nasce do apetite, nele se ceva, e com ele acaba.
Por isso é só blandícias, lisonja, só e só mentira todo ele.
O outro deriva do coração, e no espírito se acendra; pelo que vive de sinceridade, zelo e devoção, e todo ele é fé e confiança, todo estima e desvelo, todo escrúpulo e verdade.
Esta condição do amor casto, do amor fiel, do amor consagrado: o amor dos pais, o amor dos bem-casados, o amor da pátria, o amor de Deus.
– Rui Barbosa (Permanência março-abril de 1975)