Autor: Thiago
Brasileiro nos costumes, trabalhista na economia, lusotropicalista na religião 😉
Ofício Parvo: comparando salmodias
Sendo um dos tesouros que o Espírito Santo soprou na Igreja, mas que acabou escondido, não é a toa que não só o Ofício Parvo do rito romano seja desconhecido nos nossos dias, mas também as versões dele em outros ritos (e que ajudaram religiosos, oblatos, membros de ordens terceiras e leigos diversos ao longo dos séculos a se santificarem). Assim, visando partilhar mais um pouco das informações que reuni ao longo dos anos, fiz a seguinte tabela comparativa (tive por base um antigo site de Theo Keller, não mais no ar, que fazia o estudo de várias versões do Ofício Divino, e um exemplar do Ofício Parvo Carmelita que tenho em mãos):
| Romano | Carmelita | Dominicano | Monástico | |
| Matinas | Domingos, segundas e quintas-feiras 8 18 23 Terças e sextas-feiras 44 45 86 Quartas-feiras e sábados 95 96 97 | (como no romano) | Todo dia 8 18 23 | (como no romano) |
| Laudes | 92 99 62 Dan. 3 148 | (como no romano) | (como no romano) | (como no romano) |
| Prima | 53 84 116 | 53 116 117 | 119 120 121 | (como no romano) |
| Terça | 119 120 121 | (como no romano) | 122 123 124 | (como no romano) |
| Sexta | 122 123 124 | (como no romano) | 125 126 127 | (como no romano) |
| Nona | 125 126 127 | (como no romano) | 128 129 130 | (como no romano) |
| Vésperas | 109 112 121 126 147 | (como no romano) | (como no romano) | (como no romano) |
| Completas | 128 129 130 | 22 42 128 130 | 131 132 133 | (como no romano) |
É bom lembrar que a maior parte das diferenças entre essas versões do Ofício Parvo não se dá na Salmodia, mas nas suas outras partes, como as antífonas, os hinos e os versículos e respostas.
Num mundo em quê a aparência é o alimento que move muitas almas e o infernal sistema midiático, a seguinte reflexão de Marcelo Monteiro, publicada originalmente no FB, me parece bem adequada:
Falava há pouco com um amigo que, antigamente, os abastados não comentavam de forma aberta e liberal sobre seus bens com qualquer pessoa. A ostentação era tratada como um desvio de caráter e sinal de pura frivolidade.
Ou seja, uma pessoa demasiadamente preocupada com o próprio dinheiro dava a impressão de ser tão egoísta quanto insensível em relação ao resto do mundo, alguém soterrado na sua pequena vanglória.
Mas, hoje as pessoas – sem pudor – até mostram os dígitos da sua conta no Youtube e são tratadas como se isso fosse um super poder do qual – na forma de elã social – é capaz de inspirar os outros a fazerem o mesmo.
É fato que a ética protestante substituiu a caridade da tradição católica pelo valor do trabalho e do esforço pessoal. Na modernidade, a premissa da salvação se voltou para a ideia de um sujeito livre para interpretar as Escrituras Sagradas e, portanto, centrado em sua capacidade individual de salvação.
Como bem observa Max Weber, é exatamente essa ética que corresponde ao espírito do capitalismo e que irá vigorar no nosso tempo, não só isso, mas irá nos envolver enquanto modernos.
Agora, se tem uma virtude do catolicismo, sobre o protestantismo, é a de que a Igreja – como tradição – centrada na figura de Cristo como a do “amor doador”, sempre desempenhou o papel de não deixar as pessoas transformarem Deus num gênio pessoal.
Mas, de fato, não foi esse o cristianismo que se aliou ao espírito do capitalismo, nem essa versão fraternal de amor. Essa é separada e rejeitada quando pensamos na mercadologia dos bens a servir a nossa progressiva individualidade.
Questionado sobre a “ostentação” da antiga nobreza europeia, o autor esclareceu:
Faziam transparecer o seu valor moral por meio de sua riqueza. Neles a riqueza não era um fim, mas um meio dissimulado para exprimir virtudes. Certamente, muitos nobres não eram nobres por suas virtudes, mas por sua riqueza material e linhagem sanguínea. A alta burguesia também tem um pé na antiga nobreza, pois, sendo plebeia, usava sua riqueza material para simular virtudes entre os nobres; quando a revolução liberal se deu, a alta burguesia se colocou muitas vezes no espectro conservador contra os revolucionários. Já a pequena burguesia faz o dinheiro objeto próprio de sua pequena felicidade. A nova burguesia não está vinculada aos valores do velho mundo, penso que é essa a promotora da finalidade protestante. Não lhe interessa honra, coragem ou glória, atributos cavalheirescos, tampouco a virtude da fé, que são todas inclinações a um bem maior que o próprio indivíduo, mas tão somente o dinheiro e o conforto material que ele traz na sociedade de mercado. Passamos de um ethos de dissimular virtudes para a ostentação descarada.
Leituras selecionadas (01/2022)
Pope Francis should let Catholics pray like Catholics
O suposto Papa da caridade não vê problema em julgar fieis e restringir práticas seculares de oração simplesmente porque ele não gosta dela. O que isso significa num mundo em que o indiferentismo religioso é crescente?
O papa tem o direito (e o dever) de ordenar o progresso da liturgia, porque sua missão é discernir o crescimento progressivo da Tradição litúrgica. Mas ele não tem o poder de amputar essa Tradição, de ir na contramão do desenvolvimento que o Espírito Santo ratificou num Concílio dogmatizante, e que assim foi reconhecido até Pio XII (apesar da grande reforma da Semana Santa) e mesmo João XXIII (apesar do inusitado da inclusão de S. José no Cânon romano).
A impossibilidade do diálogo que hoje encontramos no nosso país, e mesmo no mundo, não deriva de fortes convicções, mas de puro superficialismo.
Traditionalists are Achieving the Main Goal of Vatican II
Um texto um tanto simplificador (e mesmo superficial), mas que, no fim das contas, fala uma verdade: a renovação só pode ser feita com base na tradição.
The Battle for the Mass is Won
Entrevista corajosa com o Pe. Laguérie, na qual ele se mostra disposto a enfrentar os abusos de autoridade cometidos pelo Papa eleito.
A Reform-of-the-Reform Paladin Throws in the Towel
Um dos principais promotores francófonos da “reforma da reforma” jogou a toalha.
Você já imaginou ser a primeira e única pessoa católica do seu país? Este homem foi.
A história do único católico do Butão durante certo tempo e que depois se tornou o primeiro padre nascido nesse país.
The Anglican Use: A Better Novus Ordo?
Uma apreciação pessoal sobre o uso anglicano da liturgia romana em tempos de “Motu Impróprio”.
Dia de Santo Tomás
Pergunta recebida de um leitor:
Por que o dia de Santo Tomás no calendário atual é em 28 de janeiro se ele morreu em 7 de março (e geralmente o dia de um santo é o da morte dele – e assim era no caso do Aquinate no calendário romano tradicional)?
A transferência ocorreu porque o dia da morte muitas vezes caía na Quaresma (um tempo penitencial). O dia 28 de janeiro foi escolhido pelo fato de ser o dia da transferência das relíquias do Aquinate para Tolouse.
Cinco vias e a conversão
Pergunta que recebi do leitor Mário:
Você acredita que as cinco vias de Santo Tomás são um bom início para começar a conversão de alguém?
Normalmente, não. Obviamente elas podem servir como meio inicial de aproximação de certas almas com a religião verdadeira, mas para se converter mesmo, elas não são, e nunca foram, uma caminho efetivo, ou mesmo desejável.
A razão humana, bem iluminada, pode de fato chegar ao Deus único e Criador. Negar isso seria negar não só a declaração solene do Vaticano I, mas as próprias palavras do Apóstolo na Carta aos Romanos (Romanos I, 20). O problema não é esse, mas o que é demandado nesse processo: crer que argumentações metafísicas são acessíveis a uma alma racionalmente desordenada e/ou impura (e por “impura” não me refiro a existência de pecados atuais, derivados das fraquezas inerentes à nossa condição “caída”, mas a postura que transforma a prática do que é contrário à Lei Divina em norte axiológico). A razão não funciona adequadamente nesse contexto; e esse contexto sempre foi mais ou menos prevalente (nos nossos dias, mais…).
Desse modo, podemos concluir que a maior parte das pessoas só se converte com o anúncio do Evangelho, isto é, com o entendimento da vida e da mensagem de Nosso Senhor Jesus Cristo, em especial no que tange à miséria do pecado e à gratuidade da Redenção amorosa. Para isso contribuem os mecanismos deixados pelo Espírito Santo com a Igreja ao longo dos séculos: a liturgia, a Bíblia, a vida dos Santos, a caridade atual feita pelos católicos. É muito mais fácil saber que Deus existe (e tudo o mais que se depreende dessa constatação) ensinando a vida de Jesus que as cinco vias.
Certa vez um amigo (Joathas Bello) escreveu algo que me parece adequado a esta reflexão:
Uma pessoa que está realmente buscando a verdade através da filosofia está sendo movida por uma graça preveniente, e os argumentos da teologia natural, quando lidos nesse processo de busca, são realmente preâmbulos da Fé (pois são lidos com a requerida disposição intelectual); mas se eu simplesmente “prego” as 5 vias para um qualquer, que não tem noção de nada de filosofia, ou que já está permeado de ideias naturalistas, ele pode até entender a “lógica” interna dos argumentos – se não for um burro -, mas ele não intelige realmente as premissas, e eu tenho tanta chance de fazer sucesso quanto aqueles pastores que leem o Apocalipse no Largo da Carioca, sem qualquer empatia com a realidade dos transeuntes.
Reto progressismo

I am very grateful to the Catholic Church. When black people couldn’t even get on a bus, the Catholic Church made them Bishops and Cardinals.
– Nelson Mandela