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O sal pode perder o sabor?

Recebi o seguinte questionamento de Cristina:

Em Mateus V, 13 lemos:

Vós sois o sal da terra. Se o sal perde o sabor, com que lhe será restituído o sabor? Para nada mais serve senão para ser lançado fora e calcado pelos homens.

Como isso é possível? O sal pode perder o sabor? Esse ensino se baseia numa possibilidade fictícia? Recebi essa pergunta de um ateu.

Não, Ele não se enganou!

Mas, em primeiro lugar, vale lembrar que o valor espiritual do que está dito é que importa, seja usando um exemplo real, seja um fictício. O sal é um conservante, assim, a ilustração de Nosso Senhor significa que seus discípulos deviam proteger outros da degradação espiritual e moral.

Agora, falando sobre a possibilidade do sal perder seu gosto peculiar, a The International Standard Bible Encyclopedia diz: “O sal da região do Mar Morto geralmente estava misturado com outros minerais e podia acabar se dissolvendo, sobrando apenas uma substância sem gosto”. Portanto, podemos entender por que o Divino Mestre descreveu essa substância como algo que “para mais nada serve senão para ser lançado fora”. A enciclopédia acrescenta: “Embora o sal do Mar Morto fosse inferior à maioria dos outros sais marinhos por causa de sua impureza, ele era a principal fonte de sal da Palestina em vista de seu fácil acesso (podia ser simplesmente recolhido à beira mar).” Para mim isso ainda acrescenta outra lição espiritual: todos os que são “impuros”, caso venham a ser “recolhidos pela graça”, podem se tornar “conservantes espirituais”!

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Como interpretar a Bíblia

Comentário do confrade Rui:

É inegável a existência de modos de se expressar típicos dos hebreus antigos. Por exemplo, certas narrativas semelhantes do livro do Gênesis parecem ser a mesma história narrada duas ou três vezes, com certa imprecisão nas personagens. Parece haver também certa liberdade nos números e nas genealogias, ou em alguns fatos menores, de forma que alguém que tome como base de cálculo as genealogias bíblicas, como o Arcebispo James Ussher, parece esbarrar em sérias dificuldades (de fato, os números que acompanham a narração da linhagem dos setitas – Gên. 5 – divergem no texto hebraico massorético, na versão dos Setenta e no Pentateuco Samaritano). Mas isso são fatos menores, que não impedem o reconhecimento da narrativa como histórica ou como de fundo histórico. Veja-se o que diz a Carta ao Cardeal Suhard, arcebispo de Paris, pelo secretário da Pontifícia Comissão para os Estudos Bíblicos, em 1948:

Declarar a priori que suas narrativas não contêm história, no sentido moderno da palavra, levaria facilmente a entender que elas não o contêm em sentido algum, ao passo que elas relatam, em sua linguagem simples e figurada, adaptada às inteligências de uma humanidade menos desenvolvida, as verdades fundamentais postas com vistas à economia da salvação, e ao mesmo tempo a descrição popular das origens do gênero humano e do povo eleito.

Já qualificar como mito ou fábula, ou mesmo parábola, quando esse tipo de qualificação não é imposto pelo texto, para mim, é depreciar a Escritura enquanto revelação de Deus e aplicar a ela critérios mundanos da ciência histórica, equiparando-a com outras produções como “A Ilíada” ou “A Eneida”. Eu não duvido, inclusive, que alguns historiadores tenham mais respeito por essas obras pagãs do que pela Bíblia. É provável que defendam a existência histórica de Ulisses ou de alguns fatos narrados em “A Odisseia” de Homero, mas não de Jesus Cristo.

No caso da Bíblia, eu defendo dois pesos e duas medidas sim, mas porque a Bíblia não é um mero documento histórico. Os métodos da ciência histórica aplicados à Bíblia devem ter critérios diferentes, pelo menos para nós. Há católicos que sequer se lembram de incluir na balança o peso da Tradição, das opiniões aceitas e propagadas pelo magistério e pelos santos doutores, e aderem, às vezes, até sem conhecer profundamente a questão, à opinião de que alguns relatos bíblicos são mitos.

Com respeito a tudo o que o católico deve levar em conta, antes de dizer que uma narrativa bíblica é mitológica, veja-se uma resposta do magistério de S. Pio X, que conserva muito de seu valor hoje:

Dúvida II: Se, não obstante o caráter e a forma histórica do livro de Gênesis, e peculiar nexo dos três primeiros capítulos entre si e com os capítulos seguintes, o múltiple testemunho das Escrituras, tanto do Antigo como do Novo Testamento, o sentir quase unânime dos santos Padres e o sentido tradicional que, transmitido já pelo povo de Israel, há mantido sempre a Igreja, pode-se ensinar que: os três preditos capítulos do Gênesis contêm, não narrações de coisas realmente sucedidas, isto é, que respondam à realidade objetiva e à verdade histórica; mas fábulas tomadas de mitologias e cosmologias dos povos antigos, e acomodadas pelo autor sagrado à doutrina monoteísta, uma vez expurgadas de todo erro de politeísmo; ou ainda alegorias e símbolos, destituídos de fundamento de realidade objetiva, baixo aparência de história, propostos para inculcar as verdades religiosas e filosóficas, ou enfim lendas, em parte históricas, em parte fictícias, livremente compostas para instrução ou edificação das almas.

Resposta: Negativamente.

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Bíblia Ciência

Bíblia e mudança nos seres

Um leitor pergunta:

Será que o relato bíblico dá espaço à possibilidade de os seres vivos sofrerem mudanças como prega o evolucionismo?

Eu entendo que sim.

A Sagrada Escritura diz que Deus criou os seres vivos “segundo a sua espécie” (Gênesis I, 11-12, 21, 24-25). Desse fato surgem duas perguntas com respostas diferentes:

1) Será que pode haver certa medida de variação dentro de cada espécie, ou seja, de cada categoria de planta e animal? Sim.

2) Será que as adaptações observadas dentro de uma categoria provam que novas categorias podem surgir pela evolução? Não.

Considere um exemplo. Nos anos 70, pesquisadores estudaram tentilhões das ilhas Galápagos. Eles notaram que mudanças climáticas fizeram com que os pássaros com bico um pouco maior tivessem mais chance de sobreviver do que os com bico menor. Segundo alguns, isso era uma prova da evolução. Mas era mesmo ou tinha acontecido apenas uma adaptação? Anos mais tarde, os pássaros com bico menor voltaram a ser maioria na população de tentilhões. Isso levou alguns estudiosos a concluir que embora a adaptação possa ajudar uma espécie a sobreviver, ela não cria nada novo.

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O que é a Bíblia fora dos olhos da Tradição?

https://youtu.be/56lUJjJ1cf0

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Lectio Divina

Certo grupo tradicionalista que atualmente vem se espalhando pelo Brasil adora propagar todo tipo prática ou conceito antigo na vida eclesial pelo mero fato de ser antigo, como se algo antigo fosse sempre um reflexo fiel da Tradição, como se em algo antigo não pudesse haver bobagens. Nisso eles se aproximam dos modernistas. Pois bem, uma das coisas que soube recentemente é que padres desse grupo ensinam que a leitura da Bíblia é sempre um ato litúrgico e, por causa disso, deve ser feita em latim. Resultado: as pessoas influenciadas por tal conversa, certamente calcada no tempo em que os católicos de certos países tinham medo da Sagrada Escritura, não se achegam mais à Palavra nas suas práticas espirituais. Um verdadeiro desserviço. Para responder a tal picuinha, chamo São João Crisóstomo (Leitura Orante – A Lectio Divina Comentada, p. 16):

Lectio DivinaAlguns de vós afirmam: “Eu não sou monge…”. Mas eis aqui vosso erro, porque pensais que a Escritura tem a ver somente com os monges, enquanto que ela é ainda mais necessária a vós, os fiéis, que estais vivendo dentro do mundo. Existe algo mais grave e pecaminoso do que não ler as Escrituras: é pensar que sua leitura seja inútil e para nada sirva (…).

Quem vive sem a Lectio Divina exercita uma prática satânica. Como se pode enfrentar a vida espiritual sem respirar a Palavra dia e noite?

Quando saíres da igreja e voltares para tua casa, volta a tomar o Livro e lê-lo novamente com tua mulher e teus filhos. Quando retornares da igreja e ires para casa, prepara duas mesas, uma com os pratos do alimento, outra com a Escritura. Que o chefe da família repita o que escutou na igreja. Que vosso lar se transforme em uma igreja.

Para mim é decepcionante que católicos tradicionalistas brasileiros fiquem ligados a ideias bobas como a do grupo que citei, querendo voltar a um tempo em que se rezava o terço na Missa, não por alguma mística especial, mas porque não se sabia mais o que fazer. Deviam, isso sim, dá uma olhada onde a resistência é mais dinâmica, como nos EUA, e constatar a riqueza das obras publicadas pela editora da FSSPX-EUA  na seção sobre a Sagrada Escritura.

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Bíblia Teologia

Escritura e razão

Se acontece que a autoridade das Sagradas Escrituras é posta em oposição com a razão manifesta e certa, isto quer dizer que aquele que interpreta a Escritura não a compreende de maneira conveniente; não é o sentido da Escritura que ele não pode compreender, que se opõe à verdade, mas o sentido que ele lhe quis dar.

Se antes da Criação do céu e da terra não havia tempo, para que perguntar o que fazíeis “então”? Não devia haver “então” onde não havia tempo.

Santo Agostinho

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Apologética Bíblia

Geologia criacionista

Desde o século XIX, com as descobertas da geologia e da biologia, o relato da Criação presente no Gênesis tem sido posto em cheque, virando, para uns, uma fábula, e, para outros, um critério indicador da fé verdadeira. Toda essa celeuma, para mim, é completamente sem sentido, já que a mera leitura do Livro Sagrado indica de maneira clara que ali não se pretende relatar uma história com rigor cronológico. De qualquer forma, a Igreja permite a adesão a uma exegese literalista, mas essa, sem dúvida, tem de enfrentar problemas como o exposto nesta ilustração:

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Ética e moral Bíblia Religião comparada Sociedade

Twelve propositions on same-sex relationships and the church

Twelve propositions on same-sex relationships and the church

Um texto bem corajoso. Não concordo com a conclusão, mas os argumentos são realistas e honestos.