Gustavo Abadie e Joathas Bello, que conheci como um neocon no tempo do Orkut e que transitou para a tradicionalismo (mas sem aderir ao “trad-chatismo”), batem um papo sobre o Vaticano II, seja sobre ele em si, seja sobre as causas das ideias que ganharam espaço nele, e sobre suas consequências:
Categoria: Eclesiologia
Davos nas catacumbas
Tradução e adaptação de um artigo de Jane Stannus:
“Destrua os Quatro Velhos”. Este slogan era central na chamada Revolução Cultural chinesa, lançada em Pequim em 1966. Quais eram os “Quatro Velhos”? Velhas ideias, velha cultura, velhos hábitos e velhos costumes. A destruição começou simplesmente renomeando ruas (qualquer semelhança com o que ocorre hoje no Ocidente, por pressões do “politicamente correto”, não é mera coincidência), lojas e mesmo pessoas, que mudaram seus nomes chineses tradicionais por maluquices do tipo “Vermelho Determinado”.
A violência logo se seguiu. Guardas vermelhos invadiram as residências dos mais ricos para destruir livros, pinturas e objetos religiosos. Prédios históricos foram demolidos ou tiveram sua visitação vetada. Cemitérios nos quais estavam os restos mortais de notáveis da época pré-revolucionária foram vandalizados, suas tumbas dessacralizadas. Antigos costumes em torno do matrimônio, de festivais e da vida familiar proibidos. Templos e igrejas foram derrubados ou vertidos para algum uso secular.
Por que? Por que tudo isso foi necessário?
Porque, segundo o entendimento de Mao, as tradições do passado tinham de ser destruídas para dar lugar a novas ideias, a uma nova cultura, novos hábitos e novos costumes. Em resumo: o comunismo marxista é tão estranho a qualquer sociedade tradicional, que as pessoas identificadas com ela, seja cultural ou religiosamente, são psicologicamente incapazes de aceitá-lo.
Caridade assimétrica
Logo que o Papa eleito publicou seu Motu Impróprio, as reações foram rápidas, como não podia deixar de ser na época em que vivemos (para o bem, ou para o mal). Contudo, além dos esperados atores desse drama, a saber os tradicionalistas (vítimas), os progressistas (carrascos) e os neoconservadores (bobos da corte), outras figuras, bem inesperadas, se fizeram presentes. Vimos reações, sempre negativas, dado o claro abuso de autoridade, vindas de ateus, ortodoxos (aqui e aqui, por exemplo) e de protestantes, mas uma das que mais chamou minha atenção foi o texto curto e certeiro de um anglicano que traduzi, adaptei e posto a seguir:
Caridade assimétrica
Pretendo com este título descrever uma peculiaridade do Papa atual, que fala frequentemente sobre a necessidade da caridade mas parece ter pouco dela para com as pessoas que considera erradas – ou erradas num certo sentido. Daí seu recente Motu proprio sobre a Missa no rito gregoriano.
Francisco não está no momento proibindo completamente a “Missa em latim”, mas isso apenas porque ele considera a asfixiação lenta mais conveniente que uma execução sumária. Na carta que acompanha o citado documento, ele diz que quer “prover para o bem daqueles que estão enraizados na forma anterior de celebração”, só que também insiste que essas pessoas “precisam retornar no tempo devido ao rito romano”. Notem a forte distinção entre a Missa tradicional e o o rito romano feita aqui; a “Missa em latim” não seria uma forma do último, mas algo… distinto. Na verdade, segundo o pensamento do Papa, as pessoas que aderem ao rito tradicional não apenas se distanciam do rito romano, mas da própria Igreja: elas violam a unidade eclesial, e “Pretendo restabelecer essa unidade na Igreja de rito romano”. Novamente: asfixiação lenta. Ele não matou a Missa gregoriana, mas pretende que ela morra, e num futuro não tão distante.
Qual o fundamento dessa conclusão? O Papa diz que é “cada vez mais evidente nas palavras e nas atitudes de muitos a estreita ligação entre a escolha das celebrações segundo os livros litúrgicos anteriores ao Concílio Vaticano II e a rejeição da Igreja e de suas instituições em nome do que é chamado de Igreja verdadeira”. Um peso enorme está sendo colocado aqui na palavra “muitos”. Não tenho dúvidas de que a atitude descrita é sustentada por alguns. Os católicos que conheço, contudo, que são atraídos pela “Missa em latim” não são atraídos por ela porque isso os diferencia dos outros católicos, mas porque os liga à grande nuvem de testemunhas que os precederam em sua fé. Eles não desprezam sua Igreja, mas a amam; a “Missa tridentina” para eles é um excelente meio de expressar e fortalecer esse amor.
É triste e estranho para mim que Francisco possa ser tão caloroso com aqueles que rejeitam abertamente sua Igreja e seus ensinamentos, mas frio como o gelo, tão corrosivamente cético, com alguns de seus filhos e filhas mais fiéis. Triste, estranho – e, acredito, profundamente insensato.
“Obediência perfeita”

Não concordo com tudo que Frei Tiago diz, mas existem muitos elementos interessantes para reflexão na conferência abaixo:
O Método dos Lugares Teológicos
Transcrevo aqui um trecho do livro Apologia da Tradição de Roberto de Mattei, onde ele explica o devido lugar das fontes da teologia com base num estudo do teólogo dominicano Melchor Cano.
Um caminho seguro para orientar-se na Fé nos é oferecido no método proposto pelo teólogo dominicano Melchor Cano em sua célebre obra De locis theologicis (1562), que contribuiu para reconstruir a teologia da Igreja após as devastações feitas pelo protestantismo.
Os lugares teológicos são o sistema completo de fontes de autoridade a partir do qual e ao qual se deve referir quando se raciocina em matéria de Fé. De acordo com o padre Melchor Cano, os “lugares próprios da teologia” ou os “domicílios de todos os argumentos teológicos a partir dos quais os teólogos podem obter toda a argumentação para provar ou refutar”, são dez, que assim se enumera:
1) O primeiro lugar é a autoridade da Sagrada Escritura que contem os livros canônicos.
2) O segundo é a autoridade das Tradições de Cristo e dos apóstolos, as quais, ainda que tenham sido escritas, chegaram até nós de ouvido a ouvido, para que toda a verdade possam ser chamadas como os oráculos de viva voz.
3) O terceiro é a autoridade da Igreja Católica
4) O quarto é a autoridade dos Concílios, especialmente os Concílios Gerais, nos quais reside a autoridade da Igreja Católica.
5) O quinto é a autoridade da Igreja Romana que, por privilégio divino, é e se chama Sé Apostólica.
6) O sexto é a autoridade dos Santos Padres.
7) O sétimo é a autoridade dos teólogos escolásticos, aos quais podemos acrescentar canonistas (especialistas em direito pontifício), tanto que a doutrina deste direito é considerada quase como outra parte da teologia escolástica.
8) O oitavo é a Razão Natural, muito conhecida em todas as ciências que são estudadas através da luz natural.
9) O nono é a autoridade dos filósofos que seguem a natureza como guia. Entre estes estão, sem dúvida, os Juristas (juristas de autoridade civil), que também professam a verdadeira filosofia(como diz Jurisconsulto)
10) O décimo e último é a autoridade da história humana, tanto a escrita por autores dignos de crédito como transmitida de geração em geração, não supersticiosamente ou como contos de senhoras idosas, mas de um modo sério e consistente.
Nenhum desses lugares teológicos é absoluto. Se se trata de definir um dogma ou de estabelecer uma verdade teológica com suficiente segurança é necessário que haja convergência e não conflito entre eles.
A doutrina, para ser considerada de Fé, deve estar antes de tudo contida na Sagrada Escritura e/ou na Tradição, “lugares” que compõem o depósito constitutivo da Revelação. Essa doutrina também deve ser crida por toda a Igreja, que é o órgão divinamente instituído da Tradição e, dentro da Igreja, deve ser reconhecida e ensinada pelos Concílios, e, especialmente, pela Santa Sé Apostólica Romana.
A doutrina de Fé, para ser considerada como tal, deve também ser apoiada pelos testemunhos dos Santos Padres e dos teólogos escolásticos e não deve ser contraditada por lugares teológicos “impróprios”, mas reais, que são a razão natural, que tem sua expressão máxima na filosofia e no direito, e a história, que fornece temas certos ou prováveis aos teólogos especulativos.
Nesse quadro articulado, três pontos merecem ser destacados e desenvolvidos:
1) O papel da Tradição, que ocupa, como veremos, uma primazia sobre todos os lugares teológicos, inclusive a Sagrada Escritura.
2) O conceito de Igreja como um todo, que compreende a Suprema autoridade docente, a qual se exprime no ensinamento do Papa e dos Concílios, mas que não coincide inteiramente com ela.
3) A ausência, entre lugares teológicos, do “Magistério”, compreendido nos “lugares” 4 e 5 (Concílios e Papas). O que não significa que ele não exista e não tenha sua importância, mas deve ser entendido no sentido que lhe é próprio, de “poder”, ou de “função” da autoridade suprema da Igreja.
A afirmação segundo a qual o Magistério da Igreja constitui “regula fidei”, e, por conseguinte, um “lugar teológico”, não é em si mesmo errônea, se ele for entendido como o poder exercido pela Igreja docente, em continuidade com a Tradição, de que a própria Igreja é a guardiã. Mas os que repetem que o Magistério é a suprema “regula fidei”, porque “interpreta” a Tradição, evitam enfrentar o problema colocado pela existência de eventuais conflitos, reais ou aparentes, entre a Tradição e a pregação eclesiástica “atual”, ou o Magistério “vivo”. Trata-se, evidentemente, de casos excepcionais na história da Igreja, mas o que queremos examinar é exatamente isso, o “caso de exceção”, o que verifica quando nos encontramos frente a uma possível incompatibilidade e, portanto, à difícil escolha entre Magistério e Tradição. E é aqui que o sistema teológico de Melchor Cano nos socorre, ajudando-nos a enfrentar a questão de maneira rigorosa.
Modernistas: Ladrões de Vento
Pio XII sabia da crise que viria depois da morte dele e por isso correu com a canonização de São Pio X, que foi um papa que conhecera pessoalmente e admirava sua luta pessoal contra os inimigos da Igreja. A canonização de São Pio X deixou os modernistas com muita raiva.
Logo após veio a Revolução e eles roubaram os nossos templos, roubaram nossos belos paramentos e insígnias litúrgicas, tocaram fogo nos nossos missais e destruíram as imagens dos nossos santos. Mas eles nunca poderão nos roubar São Pio X, Santo Atanásio, a Missa que nos foi deixada por nossos pais e todos aqueles que defenderam a Fé antes de nós.
Definitivamente os modernistas não passam de ladrões de vento.

