Sobre Cláudio Loureiro

Católico, esposo, pai, empresário. Esse é o resumo da minha vida em ordem decrescente de importância.

O Método dos Lugares Teológicos

Transcrevo aqui um trecho do livro Apologia da Tradição de Roberto de Mattei, onde ele explica o devido lugar das fontes da teologia com base num estudo do teólogo dominicano Melchor Cano.

Um caminho seguro para orientar-se na Fé nos é oferecido no método proposto pelo teólogo dominicano Melchor Cano em sua célebre obra De locis theologicis (1562), que contribuiu para reconstruir a teologia da Igreja após as devastações feitas pelo protestantismo.

Os lugares teológicos são o sistema completo de fontes de autoridade a partir do qual e ao qual se deve referir quando se raciocina em matéria de Fé. De acordo com o padre Melchor Cano, os “lugares próprios da teologia” ou os “domicílios de todos os argumentos teológicos a partir dos quais os teólogos podem obter toda a argumentação para provar ou refutar”, são dez, que assim se enumera:

1) O primeiro lugar é a autoridade da Sagrada Escritura que contem os livros canônicos.

2) O segundo é a autoridade das Tradições de Cristo e dos apóstolos, as quais, ainda que tenham sido escritas, chegaram até nós de ouvido a ouvido, para que toda a verdade possam ser chamadas como os oráculos de viva voz.

3) O terceiro é a autoridade da Igreja Católica

4) O quarto é a autoridade dos Concílios, especialmente os Concílios Gerais, nos quais reside a autoridade da Igreja Católica.

5) O quinto é a autoridade da Igreja Romana que, por privilégio divino, é e se chama Sé Apostólica.

6) O sexto é a autoridade dos Santos Padres.

7) O sétimo é a autoridade dos teólogos escolásticos, aos quais podemos acrescentar canonistas (especialistas em direito pontifício), tanto que a doutrina deste direito é considerada quase como outra parte da teologia escolástica.

8) O oitavo é a Razão Natural, muito conhecida em todas as ciências que são estudadas através da luz natural.

9) O nono é a autoridade dos filósofos que seguem a natureza como guia. Entre estes estão, sem dúvida, os Juristas (juristas de autoridade civil), que também professam a verdadeira filosofia(como diz Jurisconsulto)

10) O décimo e último é a autoridade da história humana, tanto a escrita por autores dignos de crédito como transmitida de geração em geração, não supersticiosamente ou como contos de senhoras idosas, mas de um modo sério e consistente.

Nenhum desses lugares teológicos é absoluto. Se se trata de definir um dogma ou de estabelecer uma verdade teológica com suficiente segurança é necessário que haja convergência e não conflito entre eles.

A doutrina, para ser considerada de Fé, deve estar antes de tudo contida na Sagrada Escritura e/ou na Tradição, “lugares” que compõem o depósito constitutivo da Revelação. Essa doutrina também deve ser crida por toda a Igreja, que é o órgão divinamente instituído da Tradição e, dentro da Igreja, deve ser reconhecida e ensinada pelos Concílios, e, especialmente, pela Santa Sé Apostólica Romana.

A doutrina de Fé, para ser considerada como tal, deve também ser apoiada pelos testemunhos dos Santos Padres e dos teólogos escolásticos e não deve ser contraditada por lugares teológicos “impróprios”, mas reais, que são a razão natural, que tem sua expressão máxima na filosofia e no direito, e a história, que fornece temas certos ou prováveis aos teólogos especulativos.

Nesse quadro articulado, três pontos merecem ser destacados e desenvolvidos:

1) O papel da Tradição, que ocupa, como veremos, uma primazia sobre todos os lugares teológicos, inclusive a Sagrada Escritura.

2) O conceito de Igreja como um todo, que compreende a Suprema autoridade docente, a qual se exprime no ensinamento do Papa e dos Concílios, mas que não coincide inteiramente com ela.

3) A ausência, entre lugares teológicos, do “Magistério”, compreendido nos “lugares” 4 e 5 (Concílios e Papas). O que não significa que ele não exista e não tenha sua importância, mas deve ser entendido no sentido que lhe é próprio, de “poder”, ou de “função” da autoridade suprema da Igreja.

A afirmação segundo a qual o Magistério da Igreja constitui “regula fidei”, e, por conseguinte, um “lugar teológico”, não é em si mesmo errônea, se ele for entendido como o poder exercido pela Igreja docente, em continuidade com a Tradição, de que a própria Igreja é a guardiã. Mas os que repetem que o Magistério é a suprema “regula fidei”, porque “interpreta” a Tradição, evitam enfrentar o problema colocado pela existência de eventuais conflitos, reais ou aparentes, entre a Tradição e a pregação eclesiástica “atual”, ou o Magistério “vivo”. Trata-se, evidentemente, de casos excepcionais na história da Igreja, mas o que queremos examinar é exatamente isso, o “caso de exceção”, o que verifica quando nos encontramos frente a uma possível incompatibilidade e, portanto, à difícil escolha entre Magistério e Tradição. E é aqui que o sistema teológico de Melchor Cano nos socorre, ajudando-nos a enfrentar a questão de maneira rigorosa.

Modernistas: Ladrões de Vento

Pio XII sabia da crise que viria depois da morte dele e por isso correu com a canonização de São Pio X, que foi um papa que conhecera pessoalmente e admirava sua luta pessoal contra os inimigos da Igreja. A canonização de São Pio X deixou os modernistas com muita raiva.

Logo após veio a Revolução e eles roubaram os nossos templos, roubaram nossos belos paramentos e insígnias litúrgicas, tocaram fogo nos nossos missais e destruíram as imagens dos nossos santos. Mas eles nunca poderão nos roubar São Pio X, Santo Atanásio, a Missa que nos foi deixada por nossos pais e todos aqueles que defenderam a Fé antes de nós.

Definitivamente os modernistas não passam de ladrões de vento.

Exortações para a Quaresma

Essa semana, andando pelo centro do Recife, achei um livro com exortações e discursos de um grande arcebispo da Arquidiocese de Olinda e Recife: Dom Miguel de Lima Valverde. Pretendo transcrever todos aqui neste blog, mas vou focar, pelo menos até a Semana Santa, nas exortações sobre a Quaresma.

Nascido em 1872, na Bahia, Dom Miguel foi nomeado Arcebispo de Olinda e Recife em 1922 pelo Papa Pio XI. Nessa arquidiocese criou várias paróquias em bairros com grande crescimento populacional para atender os fiéis com os sacramentos e demais necessidades espirituais. Deus o chamou para Si no dia 7 de maio de 1951.

Dom Miguel foi bispo em uma época (por mais que se possa estranhar, ela existiu meus amigos) em que os bispos se preocupavam mais com a salvação das almas do que com os cogumelos da Amazônia, a salvação do mico-leão-dourado, a preservação do macaco prego e em cultuar a pachamama em “comunhão” com o Papa.

Exortação para a Quaresma de 1929:

Saúde, paz e bênção em Nosso Senhor Jesus Cristo.

Entramos hoje no tempo quaresmal, instituído pela Igreja para expiação das culpas, purificação das consciências e preparação à grande solenidade da Páscoa.

A sagrada Liturgia, com a cerimônia empolgante e profundamente simbólica das cinzas, transporta-nos ao Éden, no momento precioso em que nossos primeiros pais, Adão e Eva, transgredindo o preceito do Senhor, ouvem a voz de Deus que lhes exprobra o crime e intima as merecidas penas. Para Adão, cabeça do gênero humano, a terra ser-lhe-á adversa, produzirá espinhos e abrolhos, dar-lhe-á o sustento a custo do trabalho, será como que amassado com o suor do seu rosto o pão que há de comer, até voltar ele à terra donde saiu, “quia pulvis es ei in pulverem reverteris”: porque é pó e em pó se há se tornar. Continuar lendo

“O homem precede o Estado” (Papa Leão XIII): Um Estado que destrói o trabalho está destruindo o primeiro instinto do homem: a auto-preservação.

O post original foi publicado no Rorate Coeli

Em tempos nos quais os governos estão destruindo violentamente os empregos de um modo nunca visto na história da humanidade (com as melhores das intenções, como sempre…) é urgente relembrar as lições do Papa Leão XIII sobre a absoluta necessidade do trabalho para a preservação da vida humana – e o dever do Estado de não impedir que o homem persiga “o direito de prover a subsistência do próprio corpo”.

De fato, como é fácil compreender, a razão intrínseca do trabalho empreendido por quem exerce uma arte lucrativa, o fim imediato visado pelo trabalhador, é conquistar um bem que possuirá como próprio e como pertencendo-lhe; porque, se põe à disposição de outrem as suas forças e a sua indústria, não é, evidentemente, por outro motivo senão para conseguir com que possa prover à sua sustentação e às necessidades da vida, e espera do seu trabalho, não só o direito ao salário, mas ainda um direito estrito e rigoroso para usar dele como entender. Portanto, se, reduzindo as suas despesas, chegou a fazer algumas economias, e se, para assegurar a sua conservação, as emprega, por exemplo, num campo, torna-se evidente que esse campo não é outra coisa senão o salário transformado: o terreno assim adquirido será propriedade do artista com o mesmo título que a remuneração do seu trabalho. Mas, quem não vê que é precisamente nisso que consiste o direito da propriedade mobiliária e imobiliária? Assim, esta conversão da propriedade particular em propriedade coletiva, tão preconizada pelo socialismo, não teria outro efeito senão tornar a situação dos operários mais precária, retirando-lhes a livre disposição do seu salário e roubando-lhes, por isso mesmo, toda a esperança e toda a possibilidade de engrandecerem o seu patrimônio e melhorarem a sua situação.
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O Missal de 1962 – Estável como uma rocha

Texto traduzido por Cláudio Loureiro e revisado por Thiago Santos de Moraes

[1] No Motu Proprio Ecclesia Dei, o Papa João Paulo II manifestou sua vontade de que o Missal de 1962 deveria ser acessível a todos os católicos ligados à liturgia tradicional. A Comissão  Ecclesia Dei, em Roma, desde o seu primeiro presidente, Cardeal Mayer, sucedido pelo Cardeal Innocenti, mostrou pouca simpatia e tem dado pouca ajuda para estes católicos  alcançarem suas legítimas aspirações. A Comissão agora está autorizando modificações naquele missal que certamente minarão qualquer credibilidade que ela ainda tenha depois de sua autoritária intervenção, favorável ao grupo minoritário, dentro da Fraternidade de São Pedro em 1999/2000. A seguir, apresentamos um artigo de Michael Davies em que ele explica a razão pela qual o Missal de 1962 deve ser considerado estável como uma rocha dentro do movimento de desintegração da Igreja no Ocidente e o motivo pelo qual deve ser defendido com toda a força contra a sua substituição pelo missal de 1965, da destruição de seu ethos sagrado pela introdução do Lecionário de 1970 e da a prática da Comunhão na mão. Ele coloca o que se faz hoje em perspectiva histórica, em particular com a maneira pela qual Thomas Cranmer condicionou o povo da Inglaterra a aceitar sua ordem de culto em 1552.

Comentando, em 1898, sobre a maneira pela qual Thomas Cranmer, o arcebispo apóstata da Cantuária, mutilou a Santa Missa removendo especificamente as orações com aspecto propiciatório, ao revisá-la para adequar o Sarum [2] à sua Ordem de Culto, os Bispos Católicos da Província de Wetsminster disseram:

Que antigamente as igrejas locais permitiam adicionar novas orações e cerimônias é algo conhecido… Agora, que essas, além disso, permitiam subtrair orações e cerimônias em uso prévio, e até mesmo remodelar os ritos existentes de maneira drástica, é uma afirmação que sabemos não ter fundamento histórico e nos parece totalmente falsa. Consequentemente, Cranmer, fazendo algo assim, sem os menores precedentes, em nossa opinião, o fez com precipitação inconcebível.(1)

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