Categorias
Crise Eclesiologia Liturgia

O amorfo “rito romano” e o autêntico rito romano: uma análise aguçada de Michael Charlier

Não é o rito zairense…

Tradução de um artigo publicado no Rorate Caeli. Mesmo discordando da solução proposta pelo autor, entendo que o texto possui insights acertadíssimos sobre a situação atual.

A terra de ninguém litúrgica ou a Igreja ritual

A Missa de domingo celebrada na Basílica de São Pedro no “Rito do Zaire” levantou questões (por exemplo, aqui) sobre a relação deste “rito” com a liturgia Novus Ordo, e se isso contradiz a afirmação do Papa Francisco de que a liturgia prescrita no Missal de Paulo VI é a única lex orandi da Igreja Católica de rito latino.

O próprio Papa Francisco praticamente respondeu a essa pergunta dizendo que ele próprio celebrou uma missa neste rito em sua Igreja Episcopal (em 1º de dezembro de 2019) e compareceu no último domingo no mesmo local quase “in choro”. Presumivelmente, ele se sentiu impedido por seus problemas de saúde de celebrar por si mesmo. Ambas as celebrações aconteceram no altar da cátedra atrás do altar principal – provavelmente para oferecer à comunidade africana não muito grande em Roma um cenário mais apropriado.

Além dessas ações práticas, há também declarações “teóricas” do Papa sobre o assunto. Em junho passado, uma edição francesa do livro O Papa Francisco e o Missal Romano para as Dioceses do Zaire, já publicado em italiano em 2020, foi apresentada em Roma na presença de Francisco. Ao fazê-lo, Francisco disse, entre outras coisas: “O Missal Romano para as Dioceses do Zaire é, até agora, o único Missal Romano inculturado que surgiu da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II”.

Em seu prefácio a este livro (que infelizmente não está disponível para nós), Francisco afirma que este Missal inculturado representa um convite especial do Espírito Santo aos fiéis para levar seus diversos dons a toda a humanidade. Especificamente, ele expressa ali a expectativa de que o “rito do Zaire” possa formar o modelo de um “rito para a Amazônia”.

De acordo com isso, então, não pode haver dúvida de que, aos olhos de Francisco, o “rito do Zaire” corresponde à liturgia supostamente pretendida pelo Concílio e, portanto, representa uma forma legítima da “única expressão do rito romano”. Para isso, Francisco também pode reivindicar a conformidade literal com o art. 1 da TC: “Libri liturgici a sanctis Pontificibus Paulo VI et Ioanne Paulo II promulgati, iuxta decreta Concilii Vaticani II, unica expressio ‘legis orandi’ Ritus Romani sunt.” Em suma: tudo o que foi promulgado e será promulgado depois do CONCÍLIO é uma expressão válida do Rito Romano – tudo o que era antes não é (mais).

Como sempre acontece quando Francisco tenta fazer uma declaração firme, esta só começa a multiplicar as perguntas para todos que não reduziram sua compreensão da tradição até o mandato do pontífice atualmente no cargo.

Categorias
Crise Eclesiologia Liturgia

O mito da atualização litúrgica

Um ótimo comentário de Diogo Rafael sobre a última grosseria do Papa Francisco (a divulgação do vídeo não implica na adesão às ideias do autor sobre outras questões):

Categorias
Crise Eclesiologia Liturgia

O critério da medida

citação2Se a Missa “tridentina” não fosse compatível com as novas teologia e pastoral conciliares, então aqueles que dizem ser o CVII uma “nova religião” estariam certos.

É a Missa Tradicional que mede o Catolicismo das novidades conciliares, e não o contrário. Como poderia ser diferente?!

Como dizem os cariocas, a nova teologia e o novo missal pegaram o bonde da Tradição andando e quiseram sentar na janela.

Mas a autoridade da Missa Tradicional é infinitamente superior à do CVII.

Joathas Bello

Categorias
Crise Eclesiologia Humor Liturgia

Temos a Fé

Categorias
Crise Eclesiologia Humor

Clericalismo francisquista

Categorias
Crise Eclesiologia Liturgia

Continuidade e hipocrisia

citação2À época em que os documentos do Concílio Vaticano II foram redigidos e aprovados, a “lex orandi” da Igreja Latina era a Missa Romana “de sempre” ou “tridentina” (sic) – de fato, os documentos “dialógicos” aprovados em 1965 (NA, DH e GS) já foram escritos durante o início da reforma litúrgica. Era esta Missa, celebrada no início de cada jornada de trabalho, a “lei espiritual” que supostamente animava a mente e o coração dos Padres conciliares.

Além disso, a intenção conciliar expressa (cf. Discurso inaugural de João XXIII de 11/10/62) era a de aprofundar e atualizar a doutrina certa e imutável, mas não a de trazer nenhum tipo de mudança substancial (o que seria uma intenção heterodoxa); e a expressão viva mais palpável dessa doutrina era aquela Missa Romana de sempre (e não o rito paulino, que então não existia).

Ademais, diz o magistério pós-conciliar que o CVII deve ser lido “à luz da Tradição”, e isto significa, também, “à luz da Missa de sempre”.

De modo que é simplesmente impossível, por ilógico, defender a continuidade do CVII com a Tradição e negar à Missa Romana de sempre o caráter de “lex orandi” da Igreja em quaisquer tempos pós-conciliares; tal significaria: a) que o novo rito seria uma traição à Missa da Tradição e ao próprio CVII; b) ou, considerando-se que o rito novo seja simultaneamente uma lei excludente da Missa Romana e uma expressão fidedigna do verdadeiro “espírito conciliar”, que o próprio CVII já estaria traindo a Tradição durante sua realização, com a maioria dos Padres conciliares já intencionando o rito a ser fabricado com sua nova lei espiritual; c) ou que Francisco considera que o rito novo e o CVII são incompatíveis com a [Missa da] Tradição.

O caminho da “continuidade” não tem realmente condições de prosperar – a prova é o pontificado de Francisco -, mas, para ser defendido, deve ser trilhado com coerência interna, assumindo, a propósito de Traditionis Custodes, alguma das conclusões: a) ou o rito novo é uma expressão de ruptura; b) ou o CVII é ele mesmo uma ruptura com a Tradição; c) ou Francisco é um hermeneuta da ruptura.

O que passa disto é hipocrisia.

– Joathas Bello

Categorias
Crise Eclesiologia

Arcebispo de Curitiba põe fiéis católicos no olho da rua!

Categorias
Eclesiologia Família Sociedade Vida

Contra o catolicismo burguês

Texto de Rafael Diehl, publicado originalmente no FB sob o título “Contra o catolicismo burguês e elitista” (a postagem conta com autorização expressa do autor e passou por revisão ortográfica e harmonização de estilo). Não concordo com tudo que foi escrito, a começar do título, já que entendo que ele fez uso de uma significação distorcida da palavra elite, contudo, existem ótimos pontos para reflexão. Leiam:

“Ai também de vós, doutores da Lei, que carregais os homens com pesos que não podem levar, mas vós mesmos nem sequer com um dedo vosso tocais os fardos” (Lucas XI, 46)

Como reação a alguns segmentos católicos de tendência marxista surgidos nas décadas de 1960 e 1970 na América Latina (e que seria errôneo taxar como “Teologia da Libertação”, já que a TL abarca desde teólogos de influência claramente marxista como um Leonardo Boff até teólogos extremamente críticos do socialismo como Oscar Romero) alguns setores do laicato e clero católico brasileiro começaram, lá por volta dos anos 2000, ainda nos tempos do Orkut, a flertarem com teses do liberalismo econômico e da Escola Austríaca de economia como se fossem essas linhas de pensamento compatíveis com a Doutrina Social da Igreja Católica (DSI).

Passados cerca de 20 anos, hoje vemos o fruto dessa funesta aventura intelectual: o surgimento de grupinhos elitistas católicos (insuflados pelo meio virtual, mas bem reais no mundo real, se me permitem o pleonasmo) que passam a imporem regras de modo de vida familiar e econômico aos casais católicos. Aliado a isso, uma série de redes de sociabilidade virtual de promoção alimentadas por ideias do marketing e das teses mais cruéis do mundo corporativo e empreendedor. Vende-se a ideia de que toda mãe católica pode ser empreendedora em casa para não ter de trabalhar fora e de que todo marido pode fazer muito dinheiro (é só deixar de lado descanso, lazer e outras “futilidades”). O catolicismo virou para esses grupos uma espécie de “produto”, que é necessário comprar todo um pacote ideológico. Vejamos alguns deles: