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O direito e os fatos

Artigo do Professor José Luiz Delgado (Jornal do Commercio, Recife, 31 de março de 2015), que aborda uma das grandes confusões de hoje no meio jurídico: a falta de delimitação do objeto do direito. Esse problema, pelo que percebo, é artificialmente criado por aqueles que querem instrumentalizar o Estado para colocar em prática um verdadeiro laboratório de experimentos sociais, sempre justificando suas demandas pela existência factual dos elementos que visam proteger (por exemplo, constatar a existência de relações amorosas entre mais de duas pessoas seria o bastante para se pleitear a figura jurídica do casamento poliamoroso). Por outro lado, o texto também mostra como certas exigências de tradicionalistas ou neoconservadores (estranhas aos princípios primários da Lei Natural) não se sustentam fora de um contexto autoritário, já que é impossível para o direito continuar a valorar algo por muito tempo num sentido contrário do que “sente” a sociedade (como seria o caso de não dar nenhuma repercussão jurídicas às uniões estáveis).

Haveria uma “revolta dos fatos contra o direito”, como houve quem sustentasse? Ou o direito deveria sempre se amoldar aos fatos? Qual a verdadeira relação entre o direito e os fatos? Duas negações devem logo ser estabelecidas. Primeira, a de que o direito não produz fatos. Não produz riqueza, progresso, desenvolvimento (a não ser em pequeniníssima escala). Quem quiser reclamar do direito porque, diferentemente da economia, não produz progresso, equivoca-se redondamente: não sabe simplesmente o que o direito de fato é, e o que o direito realmente faz.

Segunda, a de que o direito também não é mera tradução dos fatos. Não se trata, no direito, de assumir os fatos, de aceitar os fatos, de se adaptar a eles. O propósito de simplesmente reconhecer os fatos, saber como as sociedades funcionam, identificar as formas habituais de relações sociais, é tarefa de outro saber: da sociologia, não do direito. O direito não se confunde, portanto, nem com a economia nem com a sociologia.

O que o direito é e o que essencialmente faz, é um julgamento dos fatos. Dados os fatos, dadas as maneiras habituais como os homens se comportam, uns diante dos outros, o direito avalia essas condutas para sobre elas proferir um julgamento: aprovar umas e condenar outras.

O direito vem sempre depois dos fatos. Não criando os fatos, o direito vem depois deles, mas não para se conformar com eles, e sim para os apreciar. Acontecem ou não, na sociedade, homicídios? Este é um fato social. Examinando-o, o direito vai proferir um juízo: dirá que os homocídios são, em princípio, inaceitáveis, mas definirá situações em que eles se justificam e também circunstâncias que agravam ou o atenuam.

O direito é um juízo de valor feito sobre os fatos da vida social. É a reflexão sobre os fatos, avaliação dos fatos. Reflexão que faz segundo a razão humana (o que inclui os ditames morais) e segundo o sentimento geral da sociedade (os valores reconhecidos pela sociedade na qual está inserido). E a faz sobretudo na perspectiva daquilo que deve ser exigido para a boa vida em sociedade: daquilo que o grupo social reputa como necessário para a boa convivência geral, como portanto devendo ser garantido pela força social organizada. Não na perspectiva daquilo que seriam determinações religiosas ou morais para a vida em sociedade. Todas essas determinações o direito leva em conta, sim, mas na sua perspectiva própria: a de saber quais delas devem ser impostas e cobradas dos homens pela autoridade social.

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Música e moralidade

Artigo do filósofo inglês Roger Scruton, publicado originalmente na revista American Spectator, e traduzido para o português por Hugo Medeiros (fiz pequenas modificações estilísticas):

músicaPlatão continua sendo o nosso melhor crítico de rock.

“Os modos de compor poesia e música não são alterados em qualquer lugar sem que haja uma mudança nas leis mais importantes da cidade.” Assim escreveu Platão na República (4.42c). A música, para Platão, não era um divertimento neutro. Poderia expressar e estimular a virtude – nobreza, dignidade, temperança, castidade. Mas também poderia expressar e estimular o vício – sensualidade, agressividade, indisciplina.

A preocupação de Platão não era muito diferente da de um homem moderno receoso com o caráter e o efeito moral do Death Metal, digamos, ou do kitsch musical do gênero de Andrew Lloyd Webber. “Os nossos filhos deviam estar ouvindo essas coisas?” é a pergunta que surge na mente dos adultos modernos, assim como “a cidade deveria permitir isso?” era a questão na mente de Platão.  Claro, há muito desistimos da ideia de proibir certos tipos de música por meio de leis. No entanto, é ainda comum acreditar que a música tem – ou pode ter – um caráter moral, e que o caráter de uma obra ou de um tipo de música pode “se impregnar” de alguma maneira em seus devotos.

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Sociedade

De como a tecnologia matou o futuro

How Technology Killed the Future

Um artigo extraordinário de Douglas Rushkoff (estava na minha lista de leituras do Pocket desde o ano passado) que aborda o grande presente em que todos vivemos devido à desconstrução de narrativas com começo, meio e fim pelo uso de meios de tecnologia da informação. Destaco o seguinte trecho da segunda página para vocês terem uma ideia de como ele aborda o tema:

But without a guiding narrative to make sense and create purpose, we end up relying too much on whatever happens to be happening in the moment. When it occurs, we over-respond to the latest school shooting. But over the long term, we lack the resolve or attention span to do anything to stop others from occurring. Terror and rage replace our ideological goals; we end up reacting only to the latest crisis. And, because of what we can find (and what we can say) on the Internet, we react with a false confidence in our command of the facts. Just because we can all blog in the same size font doesn’t mean all of our opinions are equally valid or informed.

Mais uma vez, vejo meus temores sobre a ampliação da superficialidade nas relações humanas serem confirmados por um pensador de peso… e, no que se refere ao foco deste blog, ficam algumas perguntas após a leitura do texto:

  • Como a Igreja pode atualizar a mensagem do Evangelho numa sociedade em que seus membros se preocupam mais em resolver problemas do cotidiano com rapidez do que em chegar a algum lugar?
  • A atividade eclesial, em especial no campo litúrgico e catequético, deve acompanhar a tendência de valorizar a pontualidade (coisas específicas), ou, ao contrário, deve se mostrar como um refúgio a tudo isso, articulando ações com um fim e um ápice claro, mesmo quando a mera menção de tal caminhada afasta muitas pessoas?
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Política Sociedade

A esquerda sem princípios

Hoje pela manhã ao acordar notei que um ladrão tinha entrado durante a noite na minha casa – ou pelo menos em parte dela, a garagem – e roubado uma bicicleta que custei muito a comprar. Minha decepção foi grande, em especial pelo fato de que se eu o tivesse visto teria dado uma boa lição nele (na verdade, acho que foi mais de um). Mais tarde, na universidade ouvi uns alunos comentando sobre a “perseguição às esquerdas” no bojo das notícias envolvendo a “operação lava-jato”. Não pude, então, deixar de pensar na completa falta de caráter desse povo, que se considera um bastião da ética (já que pensa que “luta” pelos desfavorecidos), mas consegue ser condescendente e cego em relação à roubalheira dos petistas & Cia. Não vivo de roubo, luto para ter as minhas coisas e, naturalmente, fico revoltado quando elas são surripiadas; penso que essa seja a postura natural de qualquer pessoa com a cabeça no lugar. Agora, se é assim em relação aos bens individuais, pior em relação aos bens públicos. Como essas pessoas, tal qual os judeus de 2000 anos atrás que preferiram Barrabás, não se incomodam com o roubo? Como não se incomodam com pessoas ganhando milhões às nossas custas sem ter feito nada para isso? Certamente temos aí um problema espiritual (falta de um norte ético transcendental), mas também uma falta de ponderação sobre as consequências práticas do que se defende que está bem retratada no seguinte texto  publicado na Veja de 19 de março do ano passado:  

Erro
Este vídeo não existe

Imagine qual seria a reação se, em 1974, o general presidente do Brasil Emílio Garrastazu Médici ocupasse a tribuna diante da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, e afirmasse: “Temos que dizer aqui o que é uma verdade conhecida. Torturas, sim, temos torturado: torturamos e vamos continuar torturando enquanto for necessário”. Médice seria, justamente, execrado como um ditador. Em dezembro de 1964, porém, o argentino Ernesto Guevara, que com o apelido de Che ajudou Fidel Castro no triunfo do golpe comunista em Cuba, foi à ONU e confessou: “Nosotros tenemos que decir aquí lo que es una verdad conocida: fusilamientos, sí, hemos fusilado; fusilamos y seguiremos fusilando mientras sea necesario“. Já se passavam seis anos da tomada do poder pelos comunistas em Cuba, e Guevara confessava que continuava em plena operação e sem data para arrefecer sua máquina de assassinatos políticos na prisão de La Cabaña. Seis anos de execuções sumárias de vítimas que chegavam ao paredão exauridas, pois delas se tirava até parte do sangue para transfusões. Seis anos, e dissidentes continuavam sendo fuzilados. Guevara foi o único guerrilheiro a matar muito mais gente de mãos atadas e olhos vendados do que em combate – que, ao contrário da lenda, ele evitava ainda mais que o banho. Qual foi a reação naquele instante em que permanecia na audiência  uma maioria de representantes de países “não alinhados”, eufemismo para “pró-soviéticos”? Guevara foi aplaudido por 36 segundos. No New York Times do dia seguinte, o redator mesmerizado, fingiu que não ouviu a confissão de assassinato de Guevara, descrito como “versátil”, “economista autodidata” e “revolucionário completo”. A duplicidade ética não é uma exclusividade das esquerdas. Mas elas são inexcedíveis nesse truque, que apesar de velho, ainda funciona.. O ensurdecedor silêncio enquanto jovens mártires venezuelanos são torturados e mortos nas ruas é a prova disso.

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São cegos porque não querem ver

happy

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Tolerância, verdade e cristianismo

Tentando salvar algumas das jóias que postei no Orkut ao longo do tempo, encontrei, por acaso, um texto de Pedro Sette Câmara que hoje só está acessível pelo registro que fiz (no já distante 2005…) e que se ajusta bem ao momento atual de perseguição aos cristãos no Iraque:

Um dos tempos mais interessantes da história foi o da convivência entre cristãos, judeus e muçulmanos na Espanha medieval. Ricardo Costa, historiador carioca radicado em terras capixabas, fala de como as três religiões conviviam e como isto se reflete na obra de Ramón Llull. O mais interessante é o seguinte: a tolerância entre as três religiões não se deu por causa do desejo comum de “paz mundial”, nem para “defender valores”; não foi uma espécie de “unidade imanente das religiões”. Nenhuma das religiões jamais deixou de se considerar a explicação total do mundo, nem passou a aceitar ser explicada por uma das adversárias. Os judeus não aceitaram a vinda do Messias, os cristãos não deixaram de culpar os judeus pela morte de Jesus, e os muçulmanos não deixaram de ver a ambos como simples “povos do Livro”, meros antecessores da sua posição privilegiada porque última da “profecia” (“Maomé: precursor de Joachim de Fiore?” Aí está minha tese para o dia em que eu decidir fazer um mestrado em teologia). O que manteve a convivência foi, ao que parece, uma abdicação comum – Ricardo que me corrija – do uso da força em nome da conversão.

Se isto é verdade, o “fundamentalismo” parece ser uma das bases da tolerância. Claro que aqui falo do “fundamentalismo” no sentido lato contemporâneo, isto é, o termo pejorativo que indica simplesmente as pessoas que agem de acordo com suas próprias convicções. Uma coisa, afinal, é ter uma convicção e defendê-la apaixonadamente; outra, completamente diversa, é acreditar que se deve submeter as pessoas a alguma crença ou prática através da força física. Uma pessoa que realmente tem uma convicção, testada e experimentada dentro da própria alma, sempre crê que a verdade tem um poder próprio, intrínseco, e fica admirada e desapontada com a incapacidade que outros possam ter de não atinar com ela. Deste admiração nasce o desejo de ampliação dos meios retóricos, de estudar mais; pois, sendo impossível que a verdade não tenha este poder, o impedimento à persuasão dos outros só pode estar na sua transmissão. Já o desejo de impor as próprias crenças por meio da força física (ou da erística, da programação neurolingüística e outros meios psicológicos escusos) nasce de uma fonte completamente diversa, que é justamente a fragilidade da convicção pessoal, necessitada portanto de mil confirmações exteriores. Para o cognitivamente frágil, o sucesso da imposição da crença fica valendo como “prova” da sua “veracidade”, enquanto que para o forte a sua certeza interior basta: mais fácil negar a presença dos objetos sensíveis do que a verdade vista com os olhos do intelecto.

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Um tipo psicológico peculiar

Um trecho da entrevista que o cineasta bielo-russo Sergei Loznitsa deu ao Jornal do Commercio (Recife, 25 de outubro de 2013) e que fala de algo que eu já tinha percebido, isto é, a extinção de um tipo humano:

– Em Minha Felicidade, seu primeiro filme de ficção, você contou várias histórias extremamente duras, que vemos como uma crítica à Rússia após a queda da União das Repúblicas Soviéticas. Em Na neblina, ao contrário, você se volta para um momento específico da 2ª Guerra Mundial, a partir de um romance de Vassil Bykov. Como você conheceu o livro e o que lhe despertou para filmá-lo?

– Gosto muito dos livros de Vasily Bykov. Eu li o romance Na neblina em 2000 e imediatamente senti que queria fazer um filme. Bykov descreve um tipo psicológico muito particular – que está quase extinto nos dias de hoje. O personagem principal, Sushenya, é um homem que valoriza a sua honra mais do que valoriza sua vida. Eu tive sorte o suficiente para encontrar essas pessoas em minha infância. Então, de certa maneira, este filme é uma homenagem a esses homens nobres e fortes, ainda que vulneráveis, que eu conheci, há muito tempo, na Bielo-Rússia.

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Dessacralização

Hoje li uma notícia sobre como foi o dia de finados aqui em Recife (dia em que quase morri devido a um acidente de trânsito) que continha o seguinte trecho muito simbólico do processo de dessacralização pelo qual passa nossa sociedade (Jornal do Commercio, 3 de novembro de 2013):

Gente como a aposentada Terezinha Lins e Silva, 89 anos, qua anualmente cumprem o rito de visitar o local. Dona Terezinha tinha nove irmãos. Todos morreram. “Estou achando que tem menos gente desta vez. O povo não reza mais, acha que não precisa de Deus. Vim visitar meus irmãos, pais e avós. Meu pai foi um dos fundadores da Faculdade de Medicina”, disse orgulhosa.