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Liturgia

Uso de missais antigos

Na luta pela restauração do rito gregoriano – e eu sempre gosto de frisar que ele é o rito próprio do Brasil – a falta de missais de altar é um problema sério. Seja por falta de dinheiro para importar novos exemplares, seja por que a turba iconoclasta dos anos 60 e 70 colocou muitos nos lixo, às vezes os grupos brasileiros fiéis à liturgia tradicional se vêem obrigados a usar exemplares bem antigos e gastos, das décadas de 1920, 1930 e 1940. Quando isso ocorre, um problema logo notado é a falta do nome de São José no Canon, mas outro mais sério pode se dar: a falta de missas inteiras formuladas ao longo da primeira metade do século passado. Como resolver isso? Não sei ao certo, mas creio que as orientações contidas nesta resposta que transcreverei da Revista Eclesiástica Brasileira de dezembro de 1951 pode jogar uma luz sobre a questão:

quoteFormulários de missas novas

Numa capela filial, onde só uma ou outra vez por ano se celebra a Santa Missa, o missionário, na festa de Cristo Rei, não encontra no antiquíssimo Missal a nova missa “Dignus est agnus” (há muito desleixo no atinente a inserirem-se nos missais os formulários de novas missas, como nós missionários podemos verificar tantas vezes). O que se deve fazer? Celebrar talvez em paramentos verdes a Missa do domingo, como se não houvesse festa de Cristo Rei? Ou, então, celebrar a Missa do Sagrado Coração de Jesus, como sendo o mistério que se aproxima mais? (Um missionário)

Resposta: Não conheço nenhuma prescrição positiva a esse respeito. Sei que, não havendo a Missa própria de algum Santo, deve-se tomar a “de Communi”. Em casos como este, creio que se deve tomar a Missa dum mistério idêntico. Idênticos são, tratando-se das festas do Senhor: os mistérios do SS. Sacramento, da Paixão, do Preciosíssimo Sangue, do Sagrado Coração de Jesus, da Santa Cruz, do SS. Redentor, de Natal. De todos esses mistérios, para substituir a Missa de Cristo Rei, é certamente preferível tomar a Missa do S. Coração de Jesus, porque de todos os mistérios idênticos este “se aproxima mais”, como diz o consulente. Para dizer uma palavra sobre a negligência com que em certas igrejas, segundo a experiência do missionário, deixam de inserir os ofícios novos, convém lembrar que assim como é necessário para a celebração da Missa o Missal, também é necessário, na medida do possível, que o Missal contenha as missas prescritas. Contudo, no caso mencionado pelo consulente, não ouso criticar o procedimento do encarregado da capela; pois “só uma ou outra vez ao ano se celebra a Missa” na dita capela. Compreende-se, assim, facilmente que não se queira comprar um Missal novo e caro, visto que o antigo também serve, porque as visitas na capela provavelmente são feitas aos domingos e estas missas se encontram também nos missais antigos.

Fr. Aleixo, O.F.M

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Ética e moral Defesa da vida

O dom da vida e o aborto

No começo do mês passado fui convidado para dar uma palestra no EJC (Encontro de Jovens com Cristo) da Paróquia de São Cristovão e São Sebastião do bairro da Imbiribeira aqui em Recife. A aula deveria ter como tema “O dom da vida” e, no meio dele, uma abordagem sobre o aborto. Tudo em 40 minutos e às 8 horas da manhã, ou seja, para quem é prolixo e noturno como eu seria um sacrifício… mas pela Igreja nós devemos nos sacrificar mesmo e topei o desafio. De início imaginei uma aula normal, no estilo “comício”, como é ainda comum em nossas escolas e universidades, mas logo deixei de lado essa idéia e procurei fazer algo o máximo possível no estilo socrático, isto é, desenvolver o tema por meio de perguntas, respostas e reflexões. Pelo que fiquei sabendo a maior parte dos participantes gostou de minha aula. Abaixo vou colocar um texto que usei para me guiar:

Fazei-me conhecer, Senhor, o meu fim e o número de meus dias, para que eu veja como sou efêmero. A largura da mão: eis a medida de meus dias. Diante de vós a minha vida é como um nada; todo homem não é mais que um sopro. De fato, o homem passa como uma sombra; é em vão que ele se agita; amontoa, sem saber quem recolherá. (Salmo XXXVIII, 5-7)


Quinta-feira passada fui visitar minha avó no hospital. Ela estava internada devido a uma parada respiratória, tinha passado a semana em recuperação, mas na quinta parecia ótima, falante como eu não a via desde o final do ano anterior. Fiquei ao lado dela, só fazendo companhia mesmo ou conversando sobre os vários assuntos que vinham à sua mente, em geral coisas do passado; ela chegou a fantasiar que eu era o meu bisavô e que ainda dava aula na escola paroquial de sua cidade natal, onde tinha começado a trabalhar com 16 anos e onde fazia brincadeiras com o latim do padre.

Pois bom, praticamente 24 horas depois, no começo da noite de sexta-feira, minha mãe me ligou dizendo que ela tinha morrido. Em geral eu sou muito falador, mas nesse momento fiquei sem palavras. Foi uma triste surpresa.

Depois de passado o choque e a confusão que muitas vezes é um funeral, comecei a pensar sobre as lições que esse episódio podia me dar. Por que ela lembrou tanto um dia antes de morrer de coisas aparentemente tão banais? O que importa na vida?

O fato, gostemos ou não, é que o dom da vida só pode ser vislumbrado, e ainda assim entre muitos véus, na perspectiva da morte. Infelizmente, em geral, só damos valor àquilo que não temos mais. Qual a importância de um sorriso? Qual a importância de fazer brincadeiras com os amigos? Amar alguém, com tudo que isso implica em termos de responsabilidade, é um bom gasto de tempo? A resposta a essas perguntas está na morte.

Nela percebemos que não são só grandes momentos que importam, não são apenas as coisas valorizadas socialmente que fazem a diferença, mas todas as coisas fazem, todos os momentos importam. Nossa vida é exatamente esse conjunto de momentos que se sucedem no tempo. Falte um só e já não é mais a minha vida ou a de vocês, é a de outra pessoa.

Já pararam para pensar nisso? Creio que a maioria não. Mas vai haver um dia, que só conhece o Senhor que nos deu gratuitamente o dom da vida, em que pensaremos. E, por isso, vovó lembrava dos cuidados de seu pai para com ela, por isso lembrava dos alunos da escolinha no interior da Paraíba, por isso lembrava de fazer sorrir um dos sisudos padres de antigamente.

Desse modo, já podemos entender o motivo da Igreja se opor com veemência à chamada “cultura da morte” que permeia o mundo atual. Já podemos entender por que o aborto é uma injustiça com o fraco e uma abominação aos olhos de Deus.

Quem pode dizer que os momentos  formadores de uma vida são mais importantes que os de outra? Vejam que no começo eu qualifiquei as lembranças de minha avó de banais. Mas eram mesmo? Quem sou eu para julgar!?! Do mesmo modo, como pode um juiz das mais altas instâncias dizer que a vida de um adulto vale mais que a de uma criança que estará entre nós por pouco tempo? Saberá ele medir o valor de um abraço que essa criança pode receber? O que vale mais, tal abraço ou os discursos intermináveis do juiz que tenta desqualificar por meio de fantasias a realidade do dom da vida que está na sua frente?

Pior. Muito pior. A loucura de nossa época faz com que se tente medir infortúnios. Vamos matar quem está no calor do ventre materno para que um projeto profissional não seja prejudicado. Vamos matar quem está no ventre materno para que a dor de uma mulher que foi vítima de uma violência não se perpetue. Ora, se é impossível dizer que um momento de felicidade é superior a outro, também é impossível falar o mesmo de um de infelicidade.

Mas a falta de reflexão não para aí. Pois se o dom da vida é gratuito, como nós podemos concordar com quem quer por um valor nele, em especial pelo fato de que estes não podem dá-lo? Qual o militante abortista que pode trazer algo à vida?

E vejam, o pecado aqui não é apenas atacar os fracos, mas não defendê-los. É algo semelhante ao pecado de Pilatos: o governador romano não atacou Nosso Senhor Jesus Cristo, ele não O defendeu, não O resguardou do ódio das multidões. Será que nós não nos tornamos outros Pilatos ao não lutar contra a cultura da morte?

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Sociedade

Os sinos se calaram

Os sinos tiveram uma função religiosa, social e poética na segunda metade do século XIX e princípio do XX. Os campanários embelezavam as igrejas e retratavam fortes simbologias. O dobrar dos sinos anunciava: festas extraordinárias, ação de graças, missas, trovoadas, aniversários, casamentos, incêndios… E mortes. E enterros. Partituras em dó, em mi, em sol. Os sinos não se calaram. Ainda ressoam clamando misericórdia.

– Fátima Quintas (O Recife de ontem – Jornal do Commercio 06/06/12)

É interessante como essa variedade de toques de sinos se perdeu. Já ouvi falar que aqui na Arquidiocese de Olinda e Recife só na paróquia da ilha de Itamaracá ainda sabem qual a nota de cada tipo de toque.

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Espiritualidade Nossa Senhora

Vida Interior e a Ss.ma Virgem, segundo S. Luís de Montfort

Texto do confrade Carlos Ribeiro:

Nossa Senhora do Monte CarmeloA vida nova em Cristo nos faz morrer para o mundo e nascer na e pela graça.

É no Santo Batismo que recebemos o Espírito Santo de Deus para nos mover à caridade de Cristo e nela perseverarmos. Sendo, pois, o melhor meio de não nos opormos a essa graça, colocarmo-nos diante dAquela que melhor agradou a Nosso Senhor: a Santíssima Virgem Maria, Mãe de Deus e nossa, que mereceu ex congruo o que Cristo mereceu ex condigno – por obediência ao Pai e por amor a nós – no Santo Sacrifício da Cruz.

O santo devoto Luís Maria Grignion de Montfort nos apresenta como a alma se deve colocar diante de Maria SS. para melhor agradar Seu Divino Filho: consagrarmo-nos a Jesus Cristo, pelas mãos puríssimas de Maria.

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Apologética Crise Espiritualidade

Sentinelas da noite

Um magnífico documentário que mostra a vida dos monges beneditinos do Barroux, um mosteiro francês que surgiu no meio da luta da resistência ao caos pós-Vaticano II e que até hoje cultiva a liturgia e a disciplina tradicionais da Igreja no Ocidente.

O documentário é em francês com legendas em inglês.

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Sociedade

Mario Ferreira dos Santos: a incredulidade moderna

https://youtu.be/f2wuDXp0OGU

O filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos expõe suas preocupações quanto à incredulidade moderna, o ceticismo e o abandono dos ideais que matam o interior do homem. Se já era assim no tempo dele, onde havia uma avalanche de informações provocadas pelos periódicos, que se dirá do mundo atual, inundado pelo uptodate da internet?

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Sociedade

Pena de morte no Japão

Ontem li no jornal uma notícia bem curiosa sobre a aplicação da pena de morte no Japão:

Três homens condenados à morte por vários assassinatos foram enforcados ontem no Japão, nas primeiras execuções conduzidas pelo Estado japonês em mais de 18 meses. Um dos condenados foi sentenciado por ter jogado um automóvel contra uma plataforma de estação de trem e depois ter saído do carro e esfaqueado pessoas que estavam perto, matando cinco, em 1999. Outro sentenciado matou duas pessoas em 2001. O terceiro assassinou três pessoas em 2002. A imprensa japonesa diz que eles foram enforcados em prisões diferentes. O ministro da Justiça, Toshio Ogawa, disse que teve apoio popular. Há 132 condenados à morte no país esperando o cumprimento da sentença.

Em geral não pensamos no Japão como um país que aplica a pena de morte, e isso prova que não se tem de viver sob um governo ditatorial (China) ou num contexto de cultura do espetáculo (EUA) para que ela faça sentido. A doutrina católica, ao contrário do que dizem muitas pessoas (inclusive bispos) não é contra a pena de morte, só indica que ela deve ser aplicada com comedimento e circunspecção.

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Catequese

A Revelação e as fontes da fé

1 – O homem é capaz de Deus

“Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência, por suas obras; de modo que não se podem escusar.” (Romanos I, 20)

“O desejo de Deus está inscrito no coração do homem, já que o homem é criado por Deus e para Deus; e Deus não cessa de atrair o homem para si, e somente em Deus o homem há de encontrar a verdade e a felicidade que não cessa de procurar…” (Catecismo da Igreja Católica – 27).

“Deve-se dizer que está impresso naturalmente em nós algum conhecimento geral e confuso da existência de Deus, isto é, Deus como felicidade do homem, pois o homem deseja naturalmente a felicidade” (Santo Tomás de Aquino – Suma Teológica).

1.1 – A lei natural e o ser humano

A experiência cotidiana permite ao indivíduo intuir que não é ele o começo do mundo nem a medida de todas as coisas, pelo contrário, fá-lo perceber que por todos os lados encontra-se debaixo de leis físicas, de leis biológicas e de leis sociais.

Ao emergir na existência, cada ser está fadado a realizar uma finalidade específica, finalidade insculpida na sua própria essência por Aquele que criou todas as essências. Não é por acaso que o Sol centraliza todo um sistema planetário e ninguém duvida que o caos sobreviria a todo esse sistema, fazendo desaparecer a vida, se ele, fugindo à finalidade citada, deixasse de expandir energia, luz, calor para a Terra.

É lógico, portanto, admitir a existência de uma ordem (lei) no Universo, e, dentro dela, a ordem (lei) específica de cada ser.

Inserido nesse quadro, o ser humano também se direciona para a busca da perfeição de sua própria natureza, isto é, para cumprir com a finalidade que está inscrita na sua essência. Diversamente, porém, do que ocorre com o Sol, os vegetais e outros seres, que possuem seu processo de existir predeterminado, de modo fatal e incondicionado, o homem tem o curso do seu existir e sua finalidade ordenados não de um modo irresistível, irrecorrível e predeterminado, mas condicionado ao exercício do livre-arbítrio. Isso equivale a dizer que para nós a lei natural impõe-se como uma forma de exigência do dever (como algo que se deve fazer, como algo que é melhor que seja feito) e não como um fato de que não se pode fugir. O Sol não pode subtrair-se à lei natural, fatalmente ele ilumina, aquece e preside o sistema planetário do qual é o centro; nós, por outro lado, existindo também debaixo de uma ordem que nos impele ao um fim, temos a possibilidade de subtrair-nos aos preceitos dela.

1.1.2 – O fim último do homem

Por uma imposição metafísica, o ser humano carrega em todos os seus instintos uma atração para certos objetos e certos fins. É arrastado por uma sede insaciável de se realizar plenamente.

Subjetivamente considerado, o fim último que o homem persegue inconscientemente, em todos os seu movimentos voluntários, está na felicidade. “O princípio comum que domina todos os estudos e todas as discussões dos filósofos e teólogos” – lembra-nos Jolivet (Tratado de Filosofia – Tomo IV Moral, p. 55) – “é que a perfeição do homem, se acaso é possível, deve coincidir necessariamente com a felicidade perfeita.”

Objetivamente, porém, consistirá em que o fim último? Estará situado onde?

Se os homens aspiram todos a felicidade, ensina-nos a experiência também que nem todos procuram-na nos mesmos bens concretos e que essa felicidade não é constante ao longo da vida. O que na linguagem vulgar se costuma designar como felicidade nada mais é do que um conjunto de momentos fugazes e instáveis de bem-estar, de êxito ou de sucesso, não se podendo, pois, de forma alguma identificá-los com nosso fim último.

“Entre os diversos objetos que uns e outros procuram como beatificantes, não poderá haver mais do que um, o qual satisfaça plenamente e ordenadamente suas tendências naturais, que, em suma, seja sua verdadeira felicidade objetiva, e em face da qual as demais serão enganadoras e apenas isso. Impõe-se como uma exigência da razão determinar em que consistirá esse bem supremo, causa necessária e suficiente do estado subjetivo de felicidade, cuja possessão aperfeiçoa e satisfaz ao máximo e em relação com o qual se fará em concreto a distinção entre bem e mal” (Abbé Henri Collin, Manuel de Philosophie Thomiste, p. 199).

Na indagação sobre o fim último em termos objetivos, várias soluções foram cogitadas. Os estóicos situavam o bem supremo na virtude, a qual consistiria no homem se tornar insensível às afeições da alma. Os epicuristas situavam-no gozo dos prazeres, entendendo-se, como tais, tanto os prazeres sensíveis como os espirituais. Para Kant, o fim supremo consistiria no alcance da constituição política perfeita (na vontade se conformar com as leis). Para os utilitaristas (Benthan, Stuart Mill) seria obter a maior porcentagem de felicidade subjetiva para o maior número de pessoas possível. Aristóteles e Platão, por sua vez, consideravam como fim supremo a compreensão de Deus. Já para Santo Tomás e os filósofos católicos, o fim último e o bem supremo pelo qual toda criatura aspira é a posse e a contemplação de Deus.

Seguindo esse último grupo, em argumentação silogística, Mercier demonstrava assim a racionalidade da opinião de que Deus é o fim último do homem: “O objeto capaz de fazer o homem feliz deve satisfazer a todos os seus desejos, a possessão dele deve ser tranqüila e segura, e, finalmente, deve estar ao alcance de todos. Ora, nenhum bem criado constitui o objeto suficiente de nossa felicidade”. Já Santo Agostinho, em seus Solilóquios, dizia: “Fizeste-nos, Senhor, para Ti, e o nosso coração, enquanto não repousar em Ti, estará sempre desassossegado” (Tratado Elemental de Filosofia, tomo II, Filosofia Moral, p. 258).

1.1.3 – O fim último do homem e a religião

Do impulso em direção ao fim último é que em todas as épocas e em todos os povos os homens buscam a Deus. Buscam-No para aprender Dele uma compreensão do mundo e de si próprios. Todo ser humano com honestidade intelectual reconhece a mão eficiente do Senhor na ordem diversificada da Criação. As obras são reflexo Daquele que as criou.

Nisso está a origem natural das várias tradições religiosas, desde as menos elaboradas até as mais difundidas nos nossos dias.

Todavia, a razão humana, após identificar a existência do Criador e algumas exigências éticas derivadas de tal conclusão, não consegue ir além, pois nas verdades que se referem a Deus e às relações entre Ele e os homens muitos conceitos transcendem completamente a ordem das coisas sensíveis, e, desse modo, faz-se necessária uma grande autodisciplina na reflexão sobre eles ou uma iluminação externa. No decorrer dos séculos isso ficou patente, pois mesmo grandes civilizações, como a grega e a romana, caíram em erros gravíssimos a respeito da religião. As mitologias ensinam-nos que não somente esses povos eram politeístas ou idólatras, mas que concebiam os deuses à sua imagem e semelhança, cheios de vícios e crimes, na intenção de encontrar um estímulo, ou uma desculpa, para os piores excessos. Até o culto servia de pretexto para a devassidão (bacanais, lupercais, saturnais, etc.).

Assim sendo, aprouve a Deus iluminar os seres humanos, seja para lhes manifestar verdades e deveres que não podem ser conhecidos pela razão, seja para explicitar verdades e deveres que são perceptíveis pela razão, mas a que, em geral, só se chega com dificuldade. Essa iluminação nos chamamos Revelação.

1.2 – A Revelação e as fontes da Fé

“Muitas vezes e de modos diversos, falou Deus outrora a nossos pais pelos profetas. Nos últimos dias nos falou pelo Filho…” (Hebreus I, 1-2).

1.2.1 – A Revelação

Ao iniciar um estudo da doutrina católica, é preciso, antes de tudo, saber de onde vem essa doutrina. Se nossa adesão ao catolicismo deve ser total, irrestrita e amorosa, é preciso que haja na própria Igreja as garantias necessárias para essa adesão tão definitiva. Em outras palavras, só poderemos dar nosso assentimento aos princípios católicos quando compreendermos que não se trata de conceitos inventados pelo homem, mas revelados por Deus.

Eis, então, a primeira noção importante a conhecer: a de Revelação.

Etimologicamente, revelar significa “tirar o véu que encobre um objeto e nos impede de o ver”.

Ao criar os homens em Adão e Eva, retomando um conceito já estudado, Deus formou a natureza humana com certas características particulares. Uma dessas características é o sentimento religioso, natural, horizontal, que nos leva a praticar, de algum modo, um culto ao Criador. Assim vemos, desde o início da história, sacrifícios oferecidos, como o de Caim e Abel, como o de Noé e de Abraão.

Se é verdade que o povo eleito se forma a partir de Abraão, segundo a promessa que Deus lhe fez, é com Moisés que se estabelece, por revelação divina, uma religião ensinada e exigida pelo Senhor a seu povo. Já não mais natural e horizontal, mas vertical, divina, vinda de Deus para nós e não apenas de nós para Deus. Esta Revelação vai dar ao culto um valor novo, um valor que não existia quando ele era movido apenas pelo sentimento natural de religião. A partir daí, o Criador vai exigir do seu povo a realização do culto como Ele determinou e vai condenar vigorosamente toda a idolatria.

Mais tarde, ao recusar o Messias e crucificá-lo, os judeus rompem com a Revelação, revoltam-se contra Deus e perdem o valor sobrenatural e divino de sua religião. É a Igreja, então, que recebe de Jesus a autoridade para levar a frente a religião revelada (Mateus XVI, 18-19).

1.2.2 – Revelação Pública

Deus falou – o que Ele diz só pode ser a verdade por excelência. Ele não pode errar e não pode nos enganar. O que o Senhor disse forma o conjunto objetivo das verdades reveladas. É chamada Revelação Pública aquela que foi entregue por Deus ao homens, dando-lhes autoridade para falar em seu nome, através de uma instituição fundada para este fim. Temos assim:

1) A Revelação Pública Particular: é o que está no Antigo Testamento, restringindo-se ao povo eleito.

2) A Revelação Pública Universal: é a que Jesus Cristo e os Apóstolos ensinaram, e pertence (obriga) a todos os homens.

O ato da Revelação termina com a morte do último Apóstolo (São João). Aos Apóstolos foi entregue, por Nosso Senhor Jesus Cristo, o Depósito Sagrado, para que eles, com sua autoridade divina, pregassem a todo os povos até os confins da Terra. São diversas as passagens do Evangelho em que Jesus manifesta essa autoridade da Igreja, mas fiquemos com essa: “Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda criatura. O que crer e for batizado será salvo, o que porém não crer, será condenado” (Marcos XVI, 15-16).

Cabe, então, à Igreja Católica o papel de guardar, pregar e explicar a verdade revelada. A Igreja não pode inovar, não pode acrescentar nada, só pode desenvolver explicações. E este trabalho se faz mediante declarações autorizadas. É a isso que se dá o nome de dogma. Dogma é uma explicitação de algo que está implícito na Revelação. O Depósito Sagrado completa-se com a morte de São João, mas as explicações desenvolvidas a partir dele continuam, sob a autoridade da Igreja e com a assistência do Espírito Santo.

Assim, por exemplo, o dogma da transubstanciação. A Igreja, mediante a palavra revelada por Deus, chega a uma conclusão teológica que, por ser essencialmente unida à Revelação, é declarada como dogma de fé. Se fosse possível que a substância do pão não se transformasse na substância de Cristo, estaria negada a divindade da Revelação. A nossa adesão ao dogma é, então, a mesma adesão à Revelação. Seria um pecado grave contra a fé negar um dogma católico, pois estaríamos negando a própria palavra revelada pelo Senhor.

1.2.3 – Revelações privadas

Existem ainda as chamadas revelações privadas que são revelações divinas que ocorrem mesmo nos nossos dias, dirigidas à santificação de uma pessoa ou de uma pequena coletividade, e que, por isso mesmo, não são de adesão obrigatória (uma pessoa pode ser salva sem levar em conta qualquer revelação privada). As revelações privadas sempre estão subordinadas ao conteúdo da Revelação Pública como ensinado pela Igreja.

1.3 – As duas fontes da Revelação e o “tripé” da Fé

A Revelação Pública Universal tem como fonte uma pessoa: Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele é a Revelação. O que Jesus ensinou, os Apóstolos passaram a frente. Então, temos como fonte primária da Palavra de Deus o próprio Deus Encarnado e, como fonte secundária, o Magistério Apostólico.

O ensino dos Apóstolos, por sua vez, foi guardado em dois conjuntos que são explicados pelo Magistério Eclesiástico:

1) A Santa Tradição.

2) A Sagrada Escritura ou Bíblia.

Com isso, de maneira didática, podemos dizer que nossa Fé está galgada num tripé formado pela Tradição, pela Bíblia e pelo Magistério da Igreja.