Ano: 2014
O Dogma da Assunção (1 de 3)
Foi em 1950 que o Papa Pio XII proclamou, para assombro de um mundo dividido pela cortina de ferro e regozijo de uma Igreja ainda com uma musculatura invejável, o dogma da Assunção de Nossa Senhora. O tempo, contudo, parece que não contribuiu para um melhor entendimento dele; talvez isso tenha se dado por causa de toda a crise posterior ao Vaticano II, que teve entre seus pontos mais agudos um arrefecimento da mariologia (mas não da devoção mariana entre os fiéis católicos). Sendo assim, com muito custo de tempo, vou tentar dar uma contribuição ao estudo desse tema, transcrevendo (em 3 partes) um erudito artigo do então Frei Boaventura Kloppenburg, publicado na Revista Eclesiástica Brasileira de setembro de 1951.
É justo que esta revista, que tomou parte ativa nos debates preparatórios do novo Dogma da Assunção – com todo um número especial e mais outros cinco artigos dispersos – ofereça algumas considerações em torno da Constituição Apostólica Munificentissimus Deus “pela qual foi definido o Dogma da Assunção de Nossa Senhora em corpo e alma ao céu”. Não é minha intenção apresentar um comentário completo; quero apenas salientar alguns pontos que me parecem ser os mais fecundos e importantes.
1. O solene documento pontifício
Mas lançaremos primeiramente um olhar sobre o próprio documento que é, sem dúvida, o documento pontifício mais solene deste século. Suas palavras iniciais, munificentissimus Deus, lembram aquelas outras, de Pio IX, ineffabilis Deus. E creio que não andaremos mui apartados da mente de Pio XII, se teimarmos em ouvir nestas suas palavras iniciais um primeiro eco harmonioso do dogma da Imaculada Conceição. Pois exordia o Papa a sua exposição sobre o novo dogma da Assunção, recordando a “perfeitíssima harmonia” entre os privilégios mariais, salientando desde a primeira página a íntima conexão da corporal assunção com a imaculada conceição da Virgem Maria.
O olhar e a realidade
Flores que não murcham
Trecho de um texto do Pe. Roque Schneider, publicado nos Bilhetes Mensais do Apostolado da Oração em novembro de 1996:
Era um homem muito rico, várias vezes milionário, que se achava às portas da morte. Sua esposa, junto ao leito de agonia, tentava confortá-lo:
– Não fique triste meu bem. Levarei diariamente um ramalhete de flores ao cemitério. Mesmo partindo, você ficará comigo. Na lembrança, nas preces, na saudade, na recordação.
Uma segunda visita aconteceu também: veio do dinheiro que aquele senhor acumulara ao longo de sua existência, tecida de muito trabalho, esforço e suor. Tentando amenizar o sofrimento do enfermo agonizante, prestes a empreender a grande viagem sem retorno, o dinheiro disse:
– Fomos sempre muito amigos e próximos, não é mesmo? Num gesto de gratidão imorredoura construirei para você o túmulo mais vistoso da cidade, certo? Não chore, portanto. Mesmo que você termine esquecido na sepultura silenciosa do cemitério… estarei ao seu lado sempre. Dia e noite. Guardando os restos mortais do seu corpo.
Por último, um terceiro personagem entrou em cena: o bem que ele realizara amplamente, as boas obras que o homem praticara durante a vida.
– Pois é…, comentaram as boas obras, nem seu dinheiro, nem sua mulher partirão com você, nesta hora difícil da separação. Nós, no entanto, viajaremos como suas acompanhantes. Não fique triste… Iremos, inclusive, à sua frente, já preparando o caminho. Somos a chave benfeitora que lhe abrirá as portas do Céu.
Felizes e bem-aventurados todos aqueles que passam pelo mundo – a exemplo de Nosso Senhor e de Maria Santíssima – fazendo o bem sem olhar a quem. “Fica sempre um pouco de perfume nas mãos que oferecem rosas, nas mãos que sabem ser generosas.” Com juros e dividendos nos bancos do além, onde “as traças não roem e os ladrões não alcançam”, segundo lembra Nosso Senhor.
Tudo passa, caduca, se esvai. As flores murcham, a juventude voa, as forças diminuem, a beleza facial recebe rugas e as ilusões se desfazem, como bolhas de sabão, como folhas jogadas ao vento. Só não morre a bondade distribuída… passaporte privilegiado para adentrarmos o venturoso país da eternidade.
Quanto mais nobre uma causa, mais triste é vê-la deturpar-se. Uma pessoa vale pelas benemerências que reparte e planta, pela ressonância que nela despertam os fatos, as coisas, os apelos do Alto.
Quando o Infinito já não acorda ecos profundos no ser humano, o que resta nele da marca divina? Apenas ruínas, melancólicos escombros de uma grandeza que se desconheceu ou esbanjou.
Os homens da Igreja e a ciência
Tentando salvar algumas das jóias que postei no Orkut ao longo do tempo, encontrei, por acaso, um texto de Pedro Sette Câmara que hoje só está acessível pelo registro que fiz (no já distante 2005…) e que se ajusta bem ao momento atual de perseguição aos cristãos no Iraque:
Um dos tempos mais interessantes da história foi o da convivência entre cristãos, judeus e muçulmanos na Espanha medieval. Ricardo Costa, historiador carioca radicado em terras capixabas, fala de como as três religiões conviviam e como isto se reflete na obra de Ramón Llull. O mais interessante é o seguinte: a tolerância entre as três religiões não se deu por causa do desejo comum de “paz mundial”, nem para “defender valores”; não foi uma espécie de “unidade imanente das religiões”. Nenhuma das religiões jamais deixou de se considerar a explicação total do mundo, nem passou a aceitar ser explicada por uma das adversárias. Os judeus não aceitaram a vinda do Messias, os cristãos não deixaram de culpar os judeus pela morte de Jesus, e os muçulmanos não deixaram de ver a ambos como simples “povos do Livro”, meros antecessores da sua posição privilegiada porque última da “profecia” (“Maomé: precursor de Joachim de Fiore?” Aí está minha tese para o dia em que eu decidir fazer um mestrado em teologia). O que manteve a convivência foi, ao que parece, uma abdicação comum – Ricardo que me corrija – do uso da força em nome da conversão.
Se isto é verdade, o “fundamentalismo” parece ser uma das bases da tolerância. Claro que aqui falo do “fundamentalismo” no sentido lato contemporâneo, isto é, o termo pejorativo que indica simplesmente as pessoas que agem de acordo com suas próprias convicções. Uma coisa, afinal, é ter uma convicção e defendê-la apaixonadamente; outra, completamente diversa, é acreditar que se deve submeter as pessoas a alguma crença ou prática através da força física. Uma pessoa que realmente tem uma convicção, testada e experimentada dentro da própria alma, sempre crê que a verdade tem um poder próprio, intrínseco, e fica admirada e desapontada com a incapacidade que outros possam ter de não atinar com ela. Deste admiração nasce o desejo de ampliação dos meios retóricos, de estudar mais; pois, sendo impossível que a verdade não tenha este poder, o impedimento à persuasão dos outros só pode estar na sua transmissão. Já o desejo de impor as próprias crenças por meio da força física (ou da erística, da programação neurolingüística e outros meios psicológicos escusos) nasce de uma fonte completamente diversa, que é justamente a fragilidade da convicção pessoal, necessitada portanto de mil confirmações exteriores. Para o cognitivamente frágil, o sucesso da imposição da crença fica valendo como “prova” da sua “veracidade”, enquanto que para o forte a sua certeza interior basta: mais fácil negar a presença dos objetos sensíveis do que a verdade vista com os olhos do intelecto.
Somos todos nazarenos
Guardem este símbolo:
É a letra “num”, a décima quarta do alfabeto árabe, e que inicia a palavra “nazara” (نصارى), isto é, “nazarenos” (cristãos). Ela está sendo pintada por muçulmanos membros do ISIS nas casas de cristãos de Mossul (a antiga Nínive), no Iraque, a fim de marcá-los para a morte, conversão forçada ou pagamento de uma taxa. A comunidade cristã de Mossul é uma das mais antigas do mundo com existência contínua.
Sobre este assunto, postei hoje nas nossas “Notícias Selecionadas” um texto bem esclarecedor.
Foto de uma casa marcada:
Os islamitas também puseram fogo na casa do arcebispo católico da cidade e numa igreja de 1800 anos (que não sei se é católica, assíria, ou síria ortodoxa), como vocês podem ver aqui:
Essa situação me trás três pontos para refletir (um para os católicos “tradicio-alienados”, um para os ecumenistas desnorteados e outro para as olavetes):
- A importância do conceito de liberdade religiosa, como afirmado no Vaticano II;
- O caráter violento do islã (que só é moderado por inflexões político-culturais);
- A “inocência primeva” dos que defenderam a derrubada das ditaduras laicas por parte de países ocidentais sobre a justificativa de “levar a democracia” ou de “parar com o genocídio”.




