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Espiritualidade Teologia

O Inferno está vazio?

Segundo o famoso teólogo e cardeal eleito Hans Urs von Balthasar, todo bom cristão deveria esperar que o Inferno estivesse vazio. Esta sugestão, porém, levou alguns teólogos afoitos a dizerem, categoricamente, que ele realmente está vazio.

Nesta semana em que celebramos o centenário da visão do Inferno, mostrado aos três pastorinhos por Nossa Senhora em Fátima, Padre Paulo Ricardo nos convida a uma meditação sobre a eternidade. Afinal, o Inferno está vazio?

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Sociedade

Tirania do bom mocismo

De todas as tiranias, aquela exercida sinceramente em prol do bem de suas vítimas talvez seja a mais opressiva. É melhor viver sob exploradores ladrões do que sob a onipotência moral dos intrometidos. A crueldade dos exploradores às vezes adormece, sua cobiça pode ser saciada em algum momento; mas aqueles que nos atormentam em nome do nosso próprio bem nos atormentarão para sempre, porque eles o fazem com a aprovação de sua próprias consciências.

– C.S. Lewis

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Apologética Bíblia Catequese

Prólogo do Evangelho de São João

Título da aula: Prólogo do Evangelho de São João
Exposição: Ivone Fedeli
Bibliografia básica:
  1. BOISMARD, M. E. Le prologue de Saint Jean. Paris: Les éditions du Cerf, 1953
  2. THIEDE, C. P. A testemunha ocular de Jesus. São Paulo: Imago, 1996
  3. TRESMONTANT, C. Gospel of Matthew: Translation & Note. West Chester: Christendon Press, 2004
  4. PRAT, F. Jésus Christ. Paris: Beauchesne, 1953
  5. BENTO XVI. São Jerônimo e a paixão pelas escrituras. Audiência Geral de 14 de novembro de 2007. La Documentation Catolique, no. 2393, 06.01.2008, p. 9
  6. PAGELS, E. The Johannine Gospel in Gnostic Exegesis. Atlanta: Scholars Press, 1989
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Espiritualidade Nossa Senhora Teologia

Maria depois de Pentecostes

Desde a sua Imaculada Concepção, os dons do Espírito Santo foram derramados abundantemente em Nossa Senhora. Mesmo assim, aquela que já era “cheia de graça” torna-se Mãe de Deus pelo “poder do Espírito Santo”. Somos então tentados a dizer que a Virgem Santíssima já teria esgotado todas as possibilidades de uma criatura receber o Espírito Santo. Mas a generosidade de Deus não tem medidas!

Nesta aula, Padre Paulo Ricardo aproveita o Ano Mariano que estamos vivendo para meditar sobre a Virgem Santíssima no mistério de Pentecostes.

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Catequese Eclesiologia Teologia

Panorama das ciências teológicas

A teologia cristã é o estudo científico do cristianismo. O cristianismo é vida de união com Deus por meio de Jesus Cristo. Que significa religião, senão união do homem com Deus? E a característica da religião cristã não está toda no fato de realizar-se esta união por meio de Jesus Cristo? Ele é o “mediador”, o vínculo, a ponte entre a humanidade e Deus; e o é por sua íntima constituição, enquanto nele o homem e Deus estão unidos numa só pessoa. Por isso podemos dizer que o cristianismo está reunido e concentrado em Cristo.

Ora, o cristianismo pode ser considerado como história, como doutrina, como praxe. Se a teologia deve-o estudar cientificamente, de modo profundo, deverá caminhar em três direções: deverá estuda-lo primeiro historicamente, depois, doutrinamente, por fim, praticamente. Isto é, deverá desenvolvê-lo na sua ordem genética, na sua ordem constitutiva, na sua ordem prática.

O estudo genético ou histórico do cristianismo, começando de Abraão e chegando até nossos dias, com Cristo no centro, dá origem a duas seções do estudo teológico: a Sagrada Escritura e a História da Igreja; o estudo da doutrina, com que se procura expor e aprofundar os elementos doutrinais do cristianismo, dá origem à Dogmática e à Moral; o estudo prático, ao qual compete ensinar aos homens qual a ordem que devem seguir para viverem em união com Deus, dá origem à Pastoral, ao Direito Canônico, à Missionologia.

Nasce assim a árvore das ciências teológicas. Note-se que uma árvore é um organismo que vive de uma vida única, mesmo tendo partes bem definidas, como as raízes, o tronco, os ramos e os frutos. Na árvore da teologia, as raízes seriam a Sagrada Escritura e a História da Igreja; o tronco, a Dogmática e a Moral; os ramos com os frutos, a Pastoral, o Direito, a Missionologia.

Vamos, porém, a uma breve explicação, tendo sempre fixa nossa atenção na definição do cristianismo; Ele visa a união do homem a Deus por meio de Cristo.

Temos, antes do mais, a teologia histórica. Ela deve expor e explicar o cristianismo no seu aspecto histórico, na sua atuação: como era atuada a união do homem com Deus antes de Jesus Cristo, naquele pacto que hoje chamamos de Antigo [Testamento]; como foi atuada por Jesus Cristo que pregou, ofereceu sua vida e ressuscitou para estabelecer um pacto mais íntimo, mas profundo e definitivo, a que chamamos de Novo [Testamento]; como é atuada depois que Jesus Cristo mandou o Espírito Santo para que a humanidade, renovada, tivesse a possibilidade de viver unida a Deus, como Jesus viveu, na expectativa da união plena que será instaurada quando Ele voltar para concluir o drama da história.

O estudo da Sagrada Escritura, seguido pela História da Igreja, tem como único objetivo as vicissitudes da união do homem com Deus, isto é, da religião cristã. É evidente que o primeiro momento, o preparatório, está todo orientado para Cristo e sua obra de redenção, que formam o segundo momento, o central; é também evidente que o terceiro momento é uma continuação, um desenvolvimento do segundo. Poder-se-ia outrossim, falar de três épocas: a do Pai, a do Filho e a do Espírito Santo.

Jesus Cristo, o “religioso” no sentido definitivo – ponto ao qual tende a religião antes dele, e de onde parte depois dele – torna-se o único grande tema da Escritura e da História da Igreja. Estudar o aspecto histórico do cristianismo significa, portanto, construir uma vasta cristologia histórica. O estudo da Sagrada Escritura terá vários momentos (Introdução crítica, Exegese, Teologia bíblica), será ajudado pela filologia, pela geografia, pela arqueologia, mas seu tema central, que tudo ilumina e vivifica, é a realização da Redenção, é a história da salvação em Cristo e da união da humanidade com Deus por meio de Jesus Cristo. “Quando os padres – escreve De Lubac – inclinavam-se sobre aquelas página inspiradas, onde seguiam, nas sua fases sucessivas, a aliança de Deus com o gênero humano, tinham muito menos impressão de comentar um texto ou decifrar enigmas verbais, do que interpretar uma história. Ora, o que encontravam por toda parte nessa história era… o mistério de Cristo”.

O mesmo se deve dizer da história eclesiástica: poderá ser dividida em várias partes, como a história dos dogmas e da teologia, história dos padres (Patrologia), história dos Santos (hagiografia), história da antiguidade cristã (arqueologia), história dos concílios, história da espiritualidade, etc., mas a idéia diretiva e unificadora e sempre a mesma: é a história da humanidade remida que vive a nova vida em Cristo.

Temos depois a Teologia Doutrinal que prescinde a história como tal, e estuda a ordem constitutiva, isto é, a constituição íntima do cristianismo. Se o cristianismo é a união do home com Deus por meio de Cristo, indagamos: Quem é Deus? Qual sua vida íntima? Para que a Criação? Se ele vem ao nosso encontro, por meio de Jesus Cristo, perguntamos: “Cur Deus Homo?”. Se Cristo nos chama a nos unirmos a Ele, para ele nos tornamos filhos de Deus, interrogamos: Qual a realidade misteriosa que nos muda de criatura e filhos de Deus, dando-nos possibilidade de vivermos enquanto tal? Não somente eu, mas todos os homens são chamados a se unirem com Cristo em Deus: os que atendem o chamado, formam um grupo, uma Igreja, que não só vive em torno dele, mas vive nele, e que O espera na completa transfiguração do universo, a fim de que tudo e todos sejamos unidos a Deus e Deus esteja sempre unido ao homem por meio de Cristo.

Deus vivo em três pessoas, a criação, a Encarnação redentora, a graça e a vida cristã de fé, de esperança e de caridade, a Igreja, a vida eterna, eis os pontos básicos que a teologia doutrinal propõe-se expor, aprofundar e sistematizar. Por simples necessidade pedagógica, agrupa-os em duas séries: verdades dogmáticas, chamadas “dogmata diei”, e verdades morais, chamadas “dogmata morum”. A primeira parte da teologia doutrinal estuda os dogmas cristãos; a segunda, os costumes cristãos, isto é, o modo segundo qual os cristãos devem comportar-se, quer com Deus, quer com o próximo, em todas as circunstâncias da vida terrena: familiar, social, econômica etc. A teologia espiritual, ascética e mística, é apenas um particular da Moral, pois estuda o comportamento do cristão que se esforça por viver sempre mais intimamente unido a Deus.

Sem descer a outros pormenores é importante observarmos que a teologia doutrinal estuda somente as várias verdades, as quais condicionam os diversos momentos que constituem a nossa união com Deus. É, pois, estudo religioso no sentido mais estrito da palavra. E sendo que Jesus Cristo é causa e exemplar da união do homem com Deus, é também o ponto de conjunção – se não a raiz – de todo o sistema das verdades cristãs. Portanto, também a teologia doutrinal pode ser considerada como uma vasta cristologia.

Por fim, a teologia prática. A ela incumbe o estudo da ordem prática do cristianismo, ou seja, da “rectaratio”, do reto uso dos meios para unirmos o homem a Deus, por meio de Jesus Cristo. Quiséssemos seguir a lógica, deveríamos dizer que esses meios são três: pregar; o magisterium, celebrar a ação sagrada; o ministerium; guiar os homens remidos, o regimem. Teríamos assim o estudo da catequese em todos os seus aspectos, o da Liturgia no sentido mais amplo da palavra, os das leis segundo as quais dirigir a comunidade cristã, o Direito canônico com suas derivações.

Se seguirmos, porém, a ordem menos lógica, mas histórico-prática, segundo a qual este terceiro aspecto da teologia foi cientificamente organizado e cultivado, teremos o Direito canônico, cujo estudo científico começou na Idade Média; a Pastoral, que remonta ao século XVIII, a Missiologia, que pertence ao nosso século. Para maiores esclarecimentos e para as várias ramificações da teologia prática, pode-se recorrer a livros de introdução às ciências teológicas, como os de Krieg e Rabeau. Por enquanto, basta notarmos que a teologia prática não se propõe senão a edificar o Corpo Místico de Cristo, fazer Cristo viver no mundo e o mundo em Cristo. Aqui também estamos de algum modo na cristologia.

Resumindo, a teologia é o estudo aprofundado do cristianismo, união do homem com Deus, em Jesus Cristo, no seu tríplice aspecto de História, Doutrina e Praxe. Temos, assim:

  • A teologia histórica, que estuda o desenvolvimento ou os acontecimentos do cristianismo com a Sagrada Escritura e a História da Igreja;
  • A teologia doutrinal, que estuda a doutrina do cristianismo: as verdades, na Dogmática, e o procedimento cristão nas várias situações da vida, na Moral;
  • A teologia prática, que estuda a praxe do cristianismo: a técnica para inserí-lo nas almas, mediante a pastoral; as leis que regem a vida da comunidade cristã, mediante o Direito Canônico; a arte de dilatar a Igreja nas terras dos infiéis, com a Missionologia.

No coração de toda a teologia cristã está Jesus Cristo, único, eterno e insubstituível vínculo da união do homem com Deus.

Por Bernardo Bartmann

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Brasil profundo

Nascemos do sangue dos mártires

Depois de muito se prepararem para vir ao Brasil, o Beato Inácio de Azevedo e seus amigos acabaram morrendo no meio do caminho, sem que jamais chegassem a aportar em nossa terra. O que parecia ser um fracasso a olhos humanos, no entanto, reverteu em nosso próprio proveito espiritual: Deus viu, afinal, que para a conversão do Brasil eram mais importante os méritos dos mártires do que a ação dos apóstolos. Inácio queria dar alguma coisa a Deus, mas Deus… queria Inácio.

Neste dia em que celebramos a memória destes bravos missionários, Padre Paulo Ricardo faz uma reflexão sobre o martírio que eles mereceram e sobre a vocação com que fomos agraciados — “Terra de Santa Cruz” —, desde o início de nossa fundação.

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Hesicasmo

Em dezembro de 2011 a consócia Maria de Lysle, da antiga comunidade Apologética Católica do Orkut, traduziu o verbete da Enciclopédia Católica sobre o hesicasmo, um assunto que vez ou outra causa tensão em certos círculos católicos, em especial após os contatos com os cismáticos orientais terem se tornado mais constantes. Eu guardei esse texto e agora o publico (é bom ressaltar, contudo, que alguns “ortodoxos” contestam o que ele diz sobre os exercícios respiratórios):

A história do sistema místico defendido pelos monges de Athos, no século XIV, representa um dos mais curiosos capítulos da história da Igreja Bizantina. Em si mesmo uma especulação obscura, resultou na mais áspera extravagância mística, tornou-se o lema de um partido político, e, incidentalmente, implicou novamente na eterna controvérsia com Roma. Ele é o único grande movimento místico da Igreja Ortodoxa. Ehrhard o descreve corretamente como uma “reação nacional da teologia grega contra a invasão da escolástica ocidental” (Krumbacher, Byzat Litt, p. 43). A melhor forma de descrever o movimento é primeiro explicar o ponto em questão e depois a sua história.

O sistema hesicasta

Hesicastas (hesychastes – quietistas) designam pessoas, quase todas monges, que defendiam a teoria de que é possível, através de um sistema ascético, desprender-se das preocupações do mundo, sob a direção de um mestre adequado, oração, e especialmente do completo relaxamento do corpo e da vontade, contemplar a luz mística, que não é outra coisa senão a luz incriada de Deus. A contemplação desta luz é o mais alto objetivo do homem na terra; e desse modo um homem torna-se  unido a Deus da forma mais íntima possível. A luz vista pelos hesicastas é a mesma que se manifestou na Transfiguração de Cristo. Não é um mero fenômeno criado mas a eterna luz de Deus mesmo. Não é a divina essência; nenhum homem pode ver Deus face a face neste mundo (João 1,18) mas sim a divina ação ou operação. Pois em Deus a ação (energeia, actus, operatio) é realmente distinta da essência (ousia). Havia um processo adequado para ver a luz incriada, o corpo deveria permanecer imóvel por um longo tempo, o queixo pressionado contra o peito, a respiração presa, os olhos voltados para dentro, e assim por diante. Então, no tempo próprio, o monge começava a ver a luz maravilhosa. A semelhança deste processo de auto sugestão com o dos faquires, sanyasis e outros povos do Oriente é óbvia.

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Política

Lula condenado, Temer “absolvido”

https://youtu.be/GuciNhE42EE

Complementando essa reflexão do Conde sobre a sentença de Lula, e resumindo o comportamento do Apedeuta durante o processo, o seguinte texto de J. R. Guzzo (Veja, 19 de julho de 2017) me parece certeiro:

Melhor assim

Eis aí, enfim, o ex-presidente Lula condenado a nove anos e tanto de cadeia por corrupção pela Justiça Penal do Brasil. Está colhendo o que plantou. Depois de arruinar a própria biografia, desmanchar com a sua conduta os mitos que criou em torno de si e aparecer na frente do país inteiro como a pessoa que realmente é, igual ao rei nu do conto para crianças, Lula tem agora uma selva escura pela frente. Constata, chocado, que realmente não está acima da lei, como no fundo sempre acreditou que estivesse. Ele sabia, naturalmente, que as coisas tinham ficado feias desde o início das investigações da Operação Lava-Jato. É claro que também sabe exatamente o que fez, e sabe disso melhor que ninguém. Ainda assim, confiante na força do Brasil Velho que abraçou de corpo e alma, esse Brasil onde quem manda não paga, achou que jamais poderia ser enfrentado por um “juizinho” do interior do Paraná, formado na Faculdade de Direito de Maringá e desconhecido pelas bancas milionárias de advogados do circuito Brasília – São Paulo – Rio de Janeiro. Sérgio quem? Sérgio Moro? Quem é esse cara para mexer com o maior presidente que o Brasil e o mundo já viram? Quando o oceano de corrupção em seus dois governos começou a vazar, Lula tinha certeza de que era capaz de andar sobre a água, como Jesus Cristo – só que conseguia andar melhor que ele. Com o tempo, foi vendo que não era bem assim. Acabou virando, em 12 de julho de 2017, o primeiro presidente da história do Brasil a ser condenado por violar o Código Penal.

Em nenhum momento, desde o primeiro dia de seus problemas com a Justiça Criminal, Lula preocupou-se em apresentar uma defesa baseada em argumentação jurídica, como faz qualquer réu acusado de um crime. Declarou, logo de cara, que era um “perseguido político”. Achou que podia resolver o seu problema fazendo acusações contra o juiz, os promotores e o sistema judiciário em geral, como se os réus fossem eles. Não respondeu a nenhuma das acusações que recebeu – não com algum fato concreto ou verificável. Imaginou que “tribunais internacionais”, por algum milagre legal, iriam substituir Sérgio Moro e absolvê-lo dos crimes pelos quais acabou condenado – e muita gente boa levou essa palhaçada perfeitamente a sério. Seus advogados desrespeitaram abertamente o juízo e tentaram o tempo todo tumultuar o andamento do processo com chicanas, provocações e muitas das piores práticas da profissão legal. Acostumado a meter medo em tucanos, que vivem em pânico de contrariá-lo, Lula levou um susto quando ficou cara a cara com Moro e descobriu que não havia a possibilidade de assustar o moço de 44 anos que o interrogava; chegou ao fim da audiência em estado de desmanche. Pensou, também, que exércitos do MST, da CUT, dos sem-teto, etc, iriam encher as ruas com multidões em sua defesa; não aconteceu nada. Cansou de repetir que só estava sendo processado porque “eles não querem que eu ganhe as eleições de 2018”. Eles quem? Não colou. Finalmente, deu o assunto por resolvido de uma vez declarando que tinha “provado” a sua “inocência”. Convenceu o PT e os militantes, mas não convenceu quem realmente precisava ser convencido – o juiz.

O Brasil fica melhor com a condenação de Lula. Sempre é problemático dizer que alguma coisa melhorou quando se vê o espetáculo deprimente oferecido todos os dias por uma porção tão grande da máquina judicial brasileira – ou com a impunidade que continua a beneficiar tantos criminosos com poder e dinheiro. O que dizer de um país em que o procurador-geral da República, com apoio do Supremo Tribunal Federal e de maneira até agora inexplicável, presenteia com o perdão perpétuo um criminoso bilionário que confessa mais de 200 crimes – uma aberração que não tem paralelo em nenhuma sociedade civilizada? Algo está errado quando o ex-presidente toma mais de nove anos de prisão no lombo e os Joesley desse país recebem medalhas de honra ao mérito. Mas é fato que o Brasil, desde a sentença, ficou mais longe da Venezuela. Na véspera, o país sonhado por Lula e pelo PT apareceu com sua verdadeira cara, mais uma vez, quando um amontoado de senadoras rasgou as leis em vigor e quis proibir, com um ato de selvageria, que o Senado votasse a reforma trabalhista. Perderam, porque a sua disposição revolucionária durou apenas seis horas, o tempo de validade de uma quentinha. Elas e outros tantos continuarão, é claro, tentando virar a mesa depois da condenação do chefe – mas seu projeto, agora, vai dar mais trabalho do que gostariam.