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Gustavo Corção – 30 anos

Do dia 20 de janeiro deste ano o professor de direito e leigo atuante José Luiz Delgado publicou um artigo no maior jornal de minha cidade (Jornal do Commercio) em lembrança dos 30 anos da morte de Gustavo Corção. Vamos a ele:

corçãoCorção – 30 anos

Somente agora, graças à lembrança de um amigo, me adverti de que há 6 meses, em julho, completaram-se 30 anos da morte de Gustavo Corção. Que passaram completamente em branco, dada a conspiração geral de silêncio contra aquele que foi, provavelmente, o mais poderoso pensador brasileiro do século 20. Pois o mundo relega ao silêncio aqueles que não o cortejam, não se entontecem com seus brilhos, não se deslumbram com seus (falsos) valores. Corção era dessa têmpera. Daqueles raros que somente se deixam fascinar pela verdade, ainda que ela incomode; somente se seduzem pelo absoluto, e por isso subestimam as coisas relativas. Daqueles nítidos, o que é insuportável para o mundo que cultua as contemporizações, os relativismos e a mediocridade, e daqueles que se dispõem ao combate, o que é inadmissível para o mundo das acomodações e das tolerâncias.

Gustavo Corção foi um dos nossos mais formidáveis escritores. Se tivesse ficado apenas no mundo, sob certa forma neutro, da literatura, estaria consagrado como um de nossos mais brilhantes intelectuais. Até no romance (ou quase-romance) se aventurou, escrevendo esse livro fascinante de inquietação que é Lições do abismo. Confessando seu gosto pelo mundo propriamente literário, dizia-se “poeta menos-do-que-menor”, ao qual algumas vezes ia vizitar “às escondidas, como um Nicodemos”, em confabulações das quais trazia “o pouco que põe vida e calor nas obras de meus compromissos”. Quando roubava a seus “deveres de estado” “um sábado de poesia e de cultura”, era capaz de se debruçar, com insuportável finura, sobre, por exemplo, o grande Machado, seu ídolo, e escrever estudos de penetrante compreensão, como o ensaio sobre o Machado cronista que a Aguilar publicou nas obras completas, ou a introdução aos romances machadianos, dos Nossos clássicos da Agir. Havia todo um Corção lírico, um Corção propriamente literário, contido, por exemplo, na excelente seleção de crônicas que Paulo Rodrigues reuniu, Conversa em sol menor – na qual se incluem as muitas notas autobiográficas que foi levado a redigir em resposta a texto infelicíssimo, de página inteira de jornal, de Abade no entando também admirável.

Mas aconteceu com Corção que, todo tomado pela conversão religiosa, deixou-se essencialmente, e quase exclusivamente, ao que chamava “seus deveres de estado”, a militância política, filosófica e religiosa. Toda sua vida intelectual consistiu fundamentalmente num combate de idéias. Foi um ardoroso, contundente, temível esgrimista, que toda gente de fato receava enfrentar. É pena que nesse combate fosse, algumas vezes, exagerado e extremado. Tanto se deslumbrava com certa verdade, que não conseguia considerar os outros lados do problema, ou algumas matizes que suavizariam as avaliações. E, pior, passava facilmente do plano das idéias – no qual era insuperável – para as críticas pessoais, formulando juízos que desconheciam as complexidades das individualidades concretas. Mas, a rigor, não havia desafeições pessoais nisso: era o amor à verdade, seu extremo amor à verdade, que o levava a atacar pessoas de quem esperava muito, ou em cuja igual fidelidade aos supremos valores ele quisera confiar.

Quem conseguir ir além dos seus excessos e da excessiva personalização das disputas, logo verá nele um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos. O verdadeiro Segundo Bruxo do Cosme Velho. Grande pensador, grande crítico de idéias, grande polemista, grande escritor literário. Um dos raros pensadores de primeira linha. Sabia pensar, pensava por conta própria, sabia ir às raízes dos problemas e denunciá-las sem respeito humano algum. E como escrevia bem! Como sabia escrever! Admirável e raro intelectual capaz de realmente repensar os problemas e instigar, interpelar as inteligências. Presente no mundo, militante, combate, empenhado nas coisas deste mundo como somente pode empenhar-se quem sabe que está no mundo sem ser do mundo – que é, aliás, o curioso pano de fundo que ele, sempre arguto, descobriu nas crônicas de Machado.

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Bíblia Teologia

Satanás sabia que Jesus era o Homem-Deus?

jesus_demons-cropped1Pergunta recebida de um leitor:

Se o demônio tivesse perfeita noção de que Jesus era o Filho de Deus feito homem, procuraria um meio de evitar sua morte na cruz, para o gênero humano não ser redimido. Ora, ele tinha elementos concretos para concluir ser Jesus o Redentor prometido. Por que, então, instigou os pontífices e fariseus a condená-Lo e exigir a sua crucifixão?

Para responder a essa questão temos de ir devagar e usarei (com pequenas modificações) um artigo publicado na revista Arautos do Evangelho (março de 2006, pp. 20-21), por sua vez baseado num da revista L´Ami du Clergé (1923, pp 285-86).

No episódio da tentação no deserto, o Demônio parecia reconhecer em Jesus o Filho de Deus humanado, pois lhe disse (Mateus IV, 3):

“Se és Filho de Deus, ordena que estas pedras se tornem pães.”

E pouco depois (Mateus IV, 6):

“Se és Filho de Deus, lança-Te abaixo, pois está escrito…”

E pouco depois (Mateus IV, 6):

“Se és Filho de Deus, lança-Te abaixo, pois está escrito…”

Em outras passagens da Sagrada Escritura, ele faz, pela boca dos possessos, afirmações categóricas:

“Por que te ocupas de mim, Jesus, Filho do Deus Altíssimo?” (Lucas VIII, 28)

“Tu és o Filho de Deus!” (Marcos III, 11)

“Sei quem és: o Santo de Deus!” (Marcos I, 24)

Qual é, porém, o significado exato do título de “Filho de Deus”, dado a Jesus pelo Demônio? Segundo explicam alguns exegetas, não é possível saber com certeza se Satanás, chamando Jesus de “Filho de Deus”, tinha perfeito conhecimento de sua natureza divina, ou se tinha apenas a intuição de uma natureza mais ou menos sobre-humana cuja relação com a Divindade permanecia ainda bastante obscura.

Pela exegese da Sagrada Escritura parece impossível resolver esse dilema. Vamos, então, buscar respostas na Teologia.

Sabemos que o Demônio não conhece naturalmente os segredos dos corações, nem os contingentes futuros, nem os mistérios da graça no que estes têm de sobrenatural e divino. O mistério da Encarnação não está, pois, ao seu alcance.

Os fatos externos, porém, estão. E ele pode, a partir dos fatos exteriores que conhece por meio das luzes naturais, deduzir com grande probabilidade a verdade dos mistérios da graça. Desse modo, o Demônio tem uma coisa qualquer de “fé”. A penetração de sua inteligência fá-lo descobrir os indícios manifestos da verdade. Contudo, como ensina o Aquinate, essa “fé”, porque é forçada pela evidência dos sinais, não é obra da graça, não é fé no sentido estrito do termo.

Por outro lado, sua índole orgulhosa se inclina sempre a recusar adesão aos mistérios da graça. Santo Tomás acrescenta que a “fé” dos demônios é contrária à sua disposição de espírito (Suma Teológica, II-II, q. 5, a. 2, ad 3);

“Desagrada aos demônios o fato de os sinais da fé serem tão evidentes que os obriguem a crer.”

Donde é forçoso concluir que eles estão em revolta até mesmo contra essa evidência e são levados a se apegar a tudo que possa obscurecê-la.

Apliquemos, agora, esses princípios ao caso proposto.

Quando Nosso Senhor foi concebido pelo Espírito Santo no seio puríssimo da Virgem, o casamento desta com São José podia ainda esconder à percepção perspicaz de Satanás a realidade da Encarnação. Só mais tarde lhe foram fornecidos os indícios para descobrir este mistério. No momento da tentação no deserto, podia ele já suspeitar que Cristo era o Filho de Deus. Com efeito, a voz do Pai já se fizera ouvir no Batismo de Jesus, no Jordão (Mateus III, 17; Lucas III, 22; I Pedro I, 17):

“Este é meu Filho bem-amado.”

Todavia, essa não é uma prova peremptória da Encarnação. Para começar, essas palavras vinham mesmo de Deus? Depois, tinha ela o sentido da filiação divina natural, e não adotiva? Assim, a fórmula da qual se serve o Diabo durante a tentação do Salvador, revela uma hesitação (Mateus IV, 6):

“Se és Filho de Deus…”

O Demônio tinha, sem dúvida, razões para supor que Jesus era o Cristo, o Messias, o Filho de Deus. Contudo, ele podia ter algumas incertezas, e a disposição natural devia levá-lo a formulá-las para si mesmo. Afirma Santo Agostinho (De Civitate Dei, 1, XI, c. 21):

“Ele O tentou para averiguar se era o Cristo.”

Entretanto, à medida que o Divino Mestre avançava em sua vida pública, os sinais se multiplicavam, testemunhando o caráter transcendental do Filho de Deus. Esses sinais não poderiam escapar à inteligência do Demônio. Assim, nas diferentes ocasiões em que este é obrigado a publicar uma verdade imposta a seu espírito, ele o faz com mais convicção do que no momento da tentação no deserto. Diz a Jesus (Marcos I, 24):

“Sei quem és: o Santo de Deus!”

Mais ainda, chama-O, sem hesitação aparente, de “Filho de Deus”, “Filho do Deus Altíssimo” (Marcos V, 7; Lucas VIII, 28).

“Tertualiano e outros exegetas pensavam que o Demônio dava-Lhe este título por lisonja. Entretanto, é preferível crer que ele o fazia com toda sinceridade, se bem que a contragosto, pois Deus permitira que até mesmo o Inferno rendesse testemunho a Cristo.” (Filion, Evangile selon S. Marc, Paris, 1895, p. 34)

Contudo, não há plena persuasão nesse testemunho. Pois, segundo São Tomás, eco da Tradição Católica, se os demônios “tivessem conhecido perfeitamente e com certeza que Jesus era o Filho de Deus e quais seriam os frutos de sua Paixão, jamais buscariam a crucifixão do Senhor da Glória” (Suma Teológica, I, q. 64, a. 1, ad. 4). De fato, é grande a sagacidade dos demônios para compreender a força dos argumentos a favor da divindade do Salvador; mas é grande também a sua perspicácia para descobrir objeções, e, dada a sua disposição de não crer, isto é, de não se deixar convencer senão à força e em último extremo, concebe-se que eles tenham duvidado até o fim.

Escreve Santo Tomás (Suma Teológica III, q. 44, a. 1, ad 2):

“À vista dos milagres, o demônio conjecturou que Ele era o Filho de Deus. (…) E se ele O chamava de Filho de Deus, fazia-o movido mais por desconfiança que por certeza.”

Satanás tinha, pois, a intuição, diríamos quase convicção, de que Jesus era Filho natural de Deus. Entretanto, julgando a verdade apenas por sinais exteriores e com espírito preconcebido, ele conservava dúvidas sobre o mistério da Encarnação, apesar de não ter podido deixar de reconhecer em Nosso Senhor a transcendência sobre-humana que as locuções “o Santo de Deus” e “o Filho de Deus” exprimiam energicamente.

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Bíblia

João XXI, 23

Pergunta recebida:

Jo XXI, 23: Correu por isso o boato entre os irmãos de que aquele discípulo não morreria. Mas Jesus não lhe disse: Não morrerá, mas: Que te importa se quero que ele fique assim até que eu venha?

Como entender essa passagem?

Temos de entender João XXI, 23 junto com o versículo 22.

As palavras de Nosso Senhor “que ele fique até que eu venha” foram interpretadas por alguns no sentido de que João não morreria até o fim dos tempos, para lutar contra o Anticristo junto com Elias e Enoque. Mas isso é um erro. O sentido do versículo 22 é dado pelos versículos 19 e 24, ou seja, contrapõe a morte violenta de Pedro à permanência de João como testemunha para a Igreja primitiva. Testemunha que tinha de sobreviver à destruição do Templo (“até que eu venha” – que eu venha para encerrar de vez a “economia” da Antiga Aliança), sendo um marco para o fim da Revelação Pública.

Sendo assim, o versículo 23 é a correção do próprio João ao entendimento equivocado de seus discípulos (correção de João registrada pelos discípulos, já que o capítulo XXI é um apêndice).

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Apologética Bíblia

João XXI, 23

Pergunta recebida:

“Jo XXI, 23: Correu por isso o boato entre os irmãos de que aquele discípulo não morreria. Mas Jesus não lhe disse: Não morrerá, mas: Que te importa se quero que ele fique assim até que eu venha?

Como entender essa passagem?”

Temos de entender João XXI, 23 junto com o versículo 22.

As palavras de Nosso Senhor que ele fique até que eu venha foram interpretadas no sentido de que João não morreria até o fim dos tempos, para lutar contra o Anticristo junto com Elias e Enoque. O sentido do versículo 22 é dado pelos versículos 19 e 24, ou seja, contrapõe a morte violenta de Pedro à permanência de João como testemunha para a Igreja primitiva. Testemunha que tinha de sobreviver à destruição do Templo (até que eu venha – que eu venha para encerrar de vez a “economia” da Antiga Aliança), sendo um marco para o fim da Revelação Pública.

Sendo assim, o versículo 23 é a correção do próprio João ao entendimento equivocado de seus discípulos (correção de João registrada pelos discípulos, já que o Capítulo XXI é um apêndice).

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Bíblia

Marcos XI, 27-33

Pergunta recebida:

Regressaram a Jerusalém e, andando Jesus pelo templo, os sumos sacerdotes, os doutores da Lei e os anciãos aproximaram-se dele e perguntaram-lhe: «Com que autoridade fazes estas coisas? Quem te deuautoridade para as fazeres?» Jesus respondeu: «Também Eu vos farei uma pergunta; respondei-me edir-vos-ei, então, com que autoridade faço estas coisas: O baptismo de João era do Céu, ou dos homens? Respondei-me.» Começaram a discorrer entre si, dizendo: «Se dissermos ‘do Céu’, dirá: ‘Então porque não acreditastes nele?’ Se, porém, dissermos ‘dos homens’, tememos a multidão.» Porque todos consideravam João um verdadeiro profeta. Por fim, responderam a Jesus: «Não sabemos.» E Jesus disse-lhes: «Nem Eu vos digo com que autoridade faço estas coisas».

Por que Jesus disse isso? Porque seus interlocutores não acreditariam nEle caso dissesse quem era, uma vez que vimos que eram cambaleantes quanto à verdade?

Nosso Senhor não se dignou responder-lhes porque terminava ali uma série de discussões e polêmicas que surgiram desde os primeiros dias de seu ministério público. Nunca os fariseus tinham abusado tanto de seus conhecimentos escriturísticos; nunca se tinha visto tanta malícia nas objeções, tanta falta de sinceridade, tanta obstinação, tanto orgulho! Como não reconhecer nestes Doutores da lei uns certos hereges e uns tantos sábios, que lendo não entendem, ou que só estudam para atacar? Impossível convencer a quem se nega a crer, depois de tudo que viu e ouviu.

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Apologética Catequese Nossa Senhora

Catecismo da Virgem Santíssima

Ícone etíope

De forma lapidar, mas breve, o autor do catecismo que transcreverei (Pequeno Catecismo da Virgem Santíssima – Charles Journet; Ave Maria, 1996) põe no texto – pelo método de perguntas e respostas – as bases bíblicas e da Tradição da devoção do povo à Mãe de Deus, a Virgem Maria.

A veneração pela Mãe do Senhor, enquanto viveu aos cuidados de João e dos irmãos, é atestada em Atos I, 14 e em fontes cristãs do primeiro século.

Após a sua Dormição, a Igreja apostólica e pós-apostólica guardou com carinho a veneração pela mulher que gestou em seu corpo o Filho de Deus, Jesus Cristo.

Amar Maria é o sentimento mais natural entre os cristãos. É possível amar nosso Deus, Jesus Cristo, sem amar Maria, a mulher que lhe proporcionou um corpo humano?

Quanto mais se quer bem a Jesus, mais se quer bem a essa Mulher excelsa que Deus amou como filha quando a criou cheia de graça, que Deus amou como esposa quando ela aquiesceu dizendo: Faça-me em mim segundo a tua palavra , e que Deus amou como Mãe quando por ela veio à luz a Luz do mundo: Jesus.

Este pequeno catecismo põe-nos ao alcance dos olhos e do coração os motivos da veneração especial que por ela nutrimos e igualmente o porquê dos dogmas mariológicos definidos solenemente pela Igreja.

Todas as criaturas foram feitas para servir a Deus, e Deus em relação a cada uma reservou para si o modo de servir-se dela.

Maria, da qual nos foi dito que é essencialmente a serva, serve a Deus; por que Deus não se serviria dela?

O que ela faz, não é de fato Deus que o faz por ela?

Paul Claudel (A Rosa e o Rosário)

ÍNDICE

Introdução

Capítulo I – Maria, Mãe de Deus

O amor de Deus – Princípio da maternidade divina

Maria, verdadeira Mãe de Deus

O momento da encarnação

A maternidade divina, causa de todos os privilégios de Maria

Capítulo II – A Santíssima Virgem

A digna Mãe de Deus

Plenitude da graça

Isenta de todo pecado pessoal

Imaculada Conceição

Assunção

Capítulo III – Maria, Mãe dos homens

Maria, nossa Mãe segundo a graça

Maria nos dá Jesus, fonte da graça

Maria, co-redentora

Maria, medianeira de todas as graças

Capítulo IV – A vida da Virgem Santíssima

Infância da Virgem

A Virgem no Evangelho durante a infância de Jesus

A Virgem durante a vida pública de Jesus

Morte da Virgem

Capítulo V – Nosso amor à Santíssima Virgem

A Santíssima Virgem é digna de nosso amor

O verdadeiro amor à Santíssima Virgem é inseparável do amor de Deus

A oração da Ave Maria

As principais orações marianas

O verdadeiro amor da Santíssima Virgem abre as portas do Céu.

Introdução

O último capítulo da Constituição sobre a Igreja do Concílio Vaticano II, sem pretender propor doutrina completa sobre a Virgem Maria, lembra seu desempenho no mistério de Cristo e da Igreja: sua presença no Antigo Testamento como Mãe do esperado Messias, sua maternidade virginal, sua presença na vida de Jesus, a concepção imaculada e a assunção ao Céu. Pela participação que teve no drama da Redenção do mundo, Maria tornou-se nossa Mãe na ordem da graça; continua no Céu a interceder como Advogada, Auxiliadora, Cooperadora, Medianeira. Ela é primícias da Igreja futura e sinal de esperança da Igreja presente. “É a primeira vez – diz o Soberano Pontífice Paulo VI – que um Concílio Ecumênico apresenta uma síntese tão ampla da doutrina católica sobre o lugar que Maria Santíssima ocupa no mistério de Cristo e da Igreja”.

Para solenizar este acontecimento, o Soberano Pontífice acrescenta: “Para a glória da Virgem e para nosso próprio conforto, Nós proclamamos Maria Santíssima, Mãe da Igreja, ou seja, Mãe de todo o povo de Deus, tanto dos fiéis quanto dos pastores, que a invocam como sua Mãe amantíssima; queremos, de hoje em diante, com esse título dulcíssimo, que a Virgem seja ainda mais honrada e invocada por todo o povo cristão”.

Aos pés da Cruz, a Virgem assumiu, com maior intensidade do que ninguém, o desejo que seu Filho nutria de salvar o mundo inteiro. Ela intercede – mais empenhadamente do que em Caná – para que esse desejo se realize em todos os homens, para que todos aqueles que não se recusam a isso sejam salvos; nesse sentido, ela é a Mãe de todos os homens, quer o saibam quer o ignorem. Mas para aqueles que são claramente membros do Corpo místico, do qual Cristo é a Cabeça, sua intercessão se tinge e aquece com uma nova chama. Ela pede que, de acordo com sua força, eles possam ser um pouco por Cristo, com Cristo, em Cristo, não somente salvos, mas também salvadores dos outros homens; precisamente nesse sentido, Maria é invocada como Mãe da Igreja.

Fribourg, Natal de 1964

P.S. – Este pequeno catecismo, reimpresso tal qual pela terceira vez, foi traduzido ao polonês, ao italiano, ao português no Brasil e ao urundi.

Capítulo I

MARIA, MÃE DE DEUS

SUMÁRIO: O amor de Deus por Maria, tão excepcional, está no princípio de sua maternidade divina (questões 1-3). Verdadeiramente pertence por direito à Santa Virgem o título de Mãe de Deus (4-7). Em que momento ela, livremente e cheia de graça, se tornou a Mãe de Deus? (8-10). Assim como a Encarnação é o princípio de todas as graças que Jesus recebeu, assim também a maternidade divina é o princípio de todas as graças recebidas por Maria (11).

O amor de Deus – Princípio da maternidade divina

1. Qual é a criatura mais amada por Deus?

A criatura mais amada por Deus é a Virgem Maria.

2. Como Deus no-lo mostrou?

Escolhendo-a para ser a Mãe do Menino Jesus. É Maria, diz-nos o Evangelho, “de quem nasceu Jesus, chamado o Cristo” (Mateus I, 16).

3. Deus devia amar muito a Santíssima Virgem para pedir-lhe que fosse a Mãe do Menino Jesus?

Sim. Essa é a tarefa mais santa que Deus podia confiar a uma criatura. Deus, pois, amou a Santa Virgem mais que os anjos e a todos os Santos.

Maria, verdadeira Mãe de Deus

4. A Santíssima Virgem pode ser chamada Mãe de Deus?

Por certo que sim, pois ela é a Mãe de Jesus; e Jesus é Deus. Vendo-a, Isabel exclamou: “Donde me vem que a mãe de meu Senhor me visite?” (Lucas I, 43)

5. Por que se começou a chamar Maria Mãe de Deus?

Para responder aos que afirmavam: “Jesus não é Deus. Então Maria, Mãe de Jesus, não é Mãe de Deus!”

6. Quando se começou a chamá-la assim?

Começou no Oriente já no século III. No século IV, São Gregório de Nazianzeno escreveu: “Se alguém não crê que a Santa (Virgem) Maria é Mãe de Deus, esse está separado da Divindade!”

7. Que vida deu a Santa Virgem a Jesus?

Ela não lhe deu a vida divina, pois Ele a possuía desde toda a eternidade no Céu. Ela lhe deu a vida humana, que Ele veio buscar na terra.

O momento da Encarnação

8. Quando se tornou Mãe de Deus a Santa Virgem?

No dia da Anunciação, em que Deus enviou a ela o anjo Gabriel, em Nazaré, para dizer-lhe que ela ia ser a Mãe do Salvador.

9. O que a Santa Virgem respondeu ao anjo Gabriel?

“Eu sou a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.” (Lucas I , 38)

10. A Santa Virgem terá então entendido quanto Deus a amava?

Sim, por que ela disse: “Eis que daqui em diante todas as gerações me chamarão de bem-aventurada, porque o Todo-poderoso fez em mim maravilhas.” (Lucas I, 48-49)

A maternidade divina, causa de todos os privilégios de Maria

11. A Virgem Santíssima recebeu outras graças?

Sim. Mas a graça de ser Mãe de Deus é a causa de todas as outras.

Capítulo II

A SANTÍSSIMA VIRGEM

SUMÁRIO: A Santa Virgem cumpriu muito santamente sua missão de Mãe de Deus. Ela foi, de acordo com a Revelação, digna Mãe de Deus. Assim entendida, a idéia da maternidade divina (questões 1-4) encerra a idéia de uma tal plenitude de graça (5-9), que exclui a presença, na alma da Virgem, de todo pecado pessoal, tanto o mortal quanto o venial (10-13), e mesmo do pecado original, ao qual ela deveria estar submetida como filha de Adão, mas cuja falta, mancha, nódoa jamais atingira sua alma: eis a Imaculada Conceição (14-17) e cujas conseqüências serão poupadas a seu corpo após a morte: eis a Assunção (18-23).

A digna Mãe de Deus

1. Como a Virgem Santa desempenhou a sua missão de Mãe de Deus?

A Santa Virgem desempenhou santamente a missão de Mãe de Deus. Ela se tornou a digníssima Mãe de Deus.

2. O que vem a ser: digna Mãe de Deus?

Isso quer dizer: 1º) que Maria compreendeu o que significava a mensagem do anjo; 2º) que ela consentiu livre e plenamente ao que Deus esperava dela; 3º) que ela desde então esteve à altura de sua inaudita missão, tarefa radiante mas aflitiva, e superior às simples forças humanas.

3. Tudo isso está contido na narração de São Lucas?

Sim, se se lhe procura toda a profundidade, ou seja, se o lemos: 1º) crendo no mistério da Encarnação; 2º) observando com que delicadeza, com que respeito, com que amor Deus se dirige a Maria.

4. Os Santos Padres compreenderam que Maria foi digna Mãe de Deus?

Sim, Santo Agostinho escreveu que Maria foi Mãe de Jesus “mais ainda pela alma do que pelo corpo”.

Plenitude de graça

5. Qual o primeiro dom que Maria recebeu para ser digna Mãe de Deus?

Deus, segundo o Evangelho, a torna a Mãe de Jesus por meio de um milagre. Isso é afirmado duas vezes: em São Lucas e em São Mateus (Lucas I, 34-37; Mateus I, 20). É por isso que dizemos que Maria é Virgem e Mãe. É o privilégio da maternidade virginal de Maria.

6. Que outros dons recebeu ela para ser a digna Mãe de Deus?

Deus lhe deu o ser cheia de graça, o que quer dizer cheia de santidade: eis por que a chamamos de Santa Virgem.

7. A Virgem podia ser digna Mãe de Deus sem ser cheia de graça?

Não! Isso seria impossível quando se compreende tudo o que significa a expressão: digna Mãe de Deus.

8. O anjo Gabriel sabia que a Virgem Maria era cheia de graça?

Sim. Ele lhe anuncia que ela foi distinguida pela graça, que o Senhor está com ela (Lucas I, 28), e que ela encontrou graça diante de Deus (Lucas I, 28).

9. Santa Isabel, sua prima, soube que a Virgem Maria era cheia de santidade?

Sim. Ela diz à Virgem Maria que é bendita entre todas as mulheres, que é a Mãe do Senhor, e que é bem-aventurada por ter acreditado no anjo (Lucas I, 42-45).

Isenta de todo pecado pessoal

10. A Virgem Maria cometeu ao menos alguns pecados?

Não. Ela jamais cometeu pecado algum, nem mortal nem venial.

11. Como sabemos que a Virgem não cometeu pecado algum?

Se ela tivesse cometido o menor pecado, não seria verdadeiramente cheia de graça, nem teria sido digna Mãe de Deus.

12. A Virgem não foi indiscreta ao pedir o milagre de Caná?

Não, porque Jesus a atendeu e adiantou-se em relação à hora de sua manifestação.

Quando Ele lhe diz: “Mulher, que há entre mim e ti? Minha hora ainda não chegou” (João II, 4), isso quer dizer: Tais coisas são mínimas, Mulher! O momento de me manifestar e fazer milagre ainda não chegou. Não obstante, vou atender-te.

13. Quando é que Jesus fala à sua Mãe com solenidade, dizendo-lhe: Mulher?

Em duas ocasiões, quando ele vai agir exteriormente na plenitude do seu poder divino.

Em Caná, onde sua hora começa, e quando faz o milagre que ela pediu.

No Calvário, onde sua hora chega ao fim, e então ele no-la dá por Mãe (João XIX, 26).

Imaculada Conceição

14. Se a Santa Virgem não cometeu pecado algum, não herdou ao menos a nódoa do pecado original?

Não! Para que ela seja verdadeiramente cheia de graça e digna Mãe de Deus, Deus a preservou da mancha do pecado original; ela não teve necessidade de ser purificada, como nós, pelo Batismo.

15. A Virgem também foi resgatada pela oração de Jesus na Cruz?

Sim, por causa da oração que Jesus faria mais tarde sobre a Cruz é que, por antecipação, Deus preservou a Virgem da nódoa original.

16. Como se chama o privilégio da Santa Virgem?

Chama-se a Imaculada Conceição. Isso quer dizer que no momento de sua concepção, isto é, no momento em que sua alma foi criada e unida a seu corpo, ela foi Imaculada, isto é, preservada da mancha original.

17 A Bíblia não diz nada que anuncie a Imaculada Conceição?

Sim! A Bíblia narra que o Demônio levou a pecar a primeira mulher, que era imaculada. No entanto, depois do pecado, Deus não abandona nossos primeiros pais. Ele lhes promete uma outra oportunidade, e anuncia que, por seu turno, a Mulher e sua descendência vencerão o Demônio (Gênesis III, 15). São João explica, no Apocalipse, que a Mulher vitoriosa sobre o Demônio é sobretudo a Virgem; sua descendência é sobretudo seu Filho Jesus (Apocalipse XII, 1-5).

Assunção

18. Que acontece por ocasião de nossa morte, como conseqüência do pecado original?

Nosso corpo se decompõe e não ressuscitará antes do fim do mundo.

19. Que aconteceu, ao invés, por ocasião da morte de Jesus?

O corpo de Jesus não se decompôs, mas ressuscitou e subiu ao Céu do dia da Ascensão.

20. O que aconteceu por ocasião da morte da Virgem?

O corpo da Virgem não se decompôs, mas Jesus o ressuscitou e o recebeu no Céu no dia da Assunção.

21. A revelação da Assunção é fundamentada na Escritura?

Sim, especialmente em dois pontos de vista: um de São Paulo, e outro de seu discípulo São Lucas.

22. Qual é o ensinamento de São Paulo sobre a ressurreição de Cristo e a dos cristãos?

São Paulo ensina que Deus, que ressuscitou e glorificou a Cristo, ressuscitará e glorificará também os fiéis a Cristo; Cristo, que é inteiramente sem pecado, foi ressuscitado e glorificado logo em seguida; mas os fiéis, porque foram tocados pelo pecado, não poderão ser ressuscitados e glorificados senão no fim do mundo, quando serão vencidos plenamente o pecado e a morte (Romanos VIII, 11; I Coríntios XV, 22-26).

23. Quando ocorrerá a ressurreição e glorificação da Virgem?

Deveria ser no fim do mundo, conosco, se tivesse sido alcançada pelo pecado. Mas tudo acontece em seguida, tal qual Cristo, se, como ensina São Lucas, ela é sem pecado e verdadeiramente cheia de graça.

Capítulo III

MARIA MÃE DOS HOMENS

SUMÁRIO: Assim como Eva é responsável por nossa infelicidade, Maria é responsável por nossa salvação. Ela é nossa Mãe segundo a graça (1-2). Ela intervém na terra para a aquisição da graça. Na primeira vez de forma mais afastada, ao aceitar ser a Mãe do Salvador (3-4). Na segunda vez de uma forma próxima, ao participar do sacrifício redentor, sendo Reparadora e Co-redentora com Jesus (5-10). Ela intervém no Céu na distribuição das graças, como Dispensadora ou Medianeira de todas as graças (11-12).

Maria, nossa Mãe segundo a graça

1. Pode-se comparar Eva com Maria?

Sim. Eva, que dá ouvidos ao Demônio e desobedece a Deus, tem a maior parte, depois de Adão, na infelicidade de todos os homens. Maria, que ouve o anjo e obedece a Deus, tem a maior parte, depois de Jesus, na salvação de todos os homens.

Santo Irineu escreve lá pelo ano 200: “Assim como Eva, tendo Adão por esposo, mas ainda virgem, foi por sua desobediência causa da morte para ela e para todo o gênero humano; assim também Maria, destinada a um esposo mas ainda virgem, foi por sua obediência causa de salvação para ela e para todo o gênero humano”.

Tertuliano escreveu lá pelo ano 210: “Eva acredita na Serpente; Maria acredita em Gabriel; onde a credulidade de uma peca, a fé da outra repara”.

2. Quem quis que a Virgem tivesse tão grande parte na Salvação dos homens?

Foi Jesus. Ele quis esperar a resposta da Virgem ao Anjo, antes de descer à terra para salvar os homens.

Maria nos dá Jesus, fonte da graça

3. Quando a Virgem Santíssima se tornou, pela primeira vez, a Mãe de todos os homens segundo a graça?

Quando se tornou a Mãe de Jesus, Autor e Fonte da graça para todos os homens.

4. A Virgem Santíssima amava já muito os homens?

Sim, ela estava radiante de felicidade ao saber que Jesus vinha salvar os homens de seus pecados (Mateus I, 21), e ela estava preparada a muito sofrer pela nossa salvação (Lucas II, 35).

Maria, co-redentora

5. Depois do nascimento de Jesus, a Santíssima Virgem fez ainda grandes coisas para a salvação dos homens?

Sim, ela se uniu a todos os sofrimentos da vida e morte de Jesus.

6. Quando a Santíssima Virgem, pela segunda vez, foi a Mãe de todos os homens segundo a graça?

No Calvário, suplicando que o sacrifício de Jesus traga a graça para todos os homens.

7. Jesus, nesse momento, pensava no grande sofrimento de sua Mãe?

Sim, Ele pensava nos grandes sofrimentos de sua Mãe: Ele os unia ao que Ele próprio sofria para nos salvar.

8. Que diferença há entre os sofrimentos de Jesus e os da Virgem?

Os sofrimentos de Jesus, que é Deus, têm um valor infinito: são sofrimentos redentores.

Os mais santos sofrimentos da Virgem e dos cristãos têm valor finito: são somente co-redentores.

9. Jesus não é nosso único Salvador, nosso único Mediador, nosso único Redentor?

Sim. Jesus, que é Deus, é nosso único Salvador: Ele que salva primeiro a Virgem, e a envia em nosso socorro.

Jesus, que é Deus, é o único Mediador que nos pode resgatar, o que vem a ser: dar ao Pai celeste uma compensação infinita por nossos pecados. Ele é, de acordo com São Paulo, “o único Mediador… que se entregou em resgate por nós” (I Timóteo II, 5-6). A Virgem, que é a mais santa das criaturas, não podia dar ao Pai celeste senão mais santa das orações finitas.

Assim Jesus é o nosso único Redentor e a Virgem é nossa suprema co-redentora.

Jesus, que é Deus, é nosso único Mediador na linha da redenção infinita; e a Virgem, que é criatura, é nossa suprema mediadora na linha da co-redenção finita.

10. Jesus falou da Virgem Santíssima quando ele estava na Cruz?

Sim. Ele deu a Santíssima Virgem por Mãe a São João, e, por ele, também a todos os homens: “Jesus, vendo sua Mãe, e junto delo o discípulo que amava, disse à sua Mãe: – Mulher, eis teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis tua Mãe” (João XIX, 26-27).

Maria, medianeira de todas as graças

11. A Virgem Santíssima do alto do Céu se ocupa de nós?

Sim, ela continua a interceder pelo mundo junto de seu Filho Jesus. Em nome da oração co-redentora que ela fez aos pés da cruz, ela obtém todas as graças de salvação que, sem cessar, chegam aos homens.

12. Deus tinha necessidade da Santíssima Virgem?

Deus jamais precisa de qualquer criatura, mas para que saibamos até que ponto Ele ama o mundo, Ele quis escolher a Santíssima Virgem, para associá-la estreitamente a seu nascimento e seu sacrifício, para dispensação de suas graças.

Capítulo IV

A VIDA DA VIRGEM SANTÍSSIMA

SUMÁRIO: O nascimento e a infância da Virgem (1-3). O Evangelho fala muito da Virgem quando trata da infância de Jesus (4-10). Mas também fala dela quando trata da vida pública de Nosso Senhor, ainda que a vocação de Maria Santíssima tenha sido a da vida oculta (11-12). A morte da Virgem (13.

Infância da Virgem

1. O que dizem as Sagradas Escrituras dos antepassados de Maria?

As Sagradas Escrituras nos dizem que Maria descendia de Davi, porque Jesus era “da casa de Davi segundo a carne” (Romanos I, 3).

2. Quais são as duas primeiras festas da Santíssima Virgem?

É a festa da Imaculada Conceição a 8 de dezembro e a festa da Natividade de Nossa Senhora a 8 de setembro.

3. Além do que dizem os Livros Sagrados, sabemos algo mais sobre a infância da Virgem?

Acredita-se que sua mãe era Santa Ana e seu pai São Joaquim, e que foi conduzida ao Templo de Jerusalém para aí ser educada. A Igreja festeja a Apresentação da Virgem Santíssima ao Templo no dia 21 de novembro.

A Virgem no Evangelho durante a infância de Jesus

4. Em que momento o Evangelho começa a falar da Virgem Santíssima?

No momento em que o mistério da Encarnação ia cumprir-se e em que o anjo lhe anuncia que ela vai tornar-se, por milagre, a Mãe do Salvador (Lucas I, 26-38); é a festa da Anunciação a 25 de março. A Virgem responde ao anjo: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lucas I, 38).

5. A quem a Virgem Santíssima vai visitar em primeiro lugar?

A Santa Virgem vai, em primeiro lugar, visitar sua prima Santa Izabel; é a festa da Visitação a 2 de julho. Izabel diz a Maria: “Tu és bendita entre as mulheres e é bendito o fruto de teu ventre. E de onde me vem que venha me visitar a Mãe do meu Senhor?” (Lucas I, 42-43). É então que a Virgem entoa o cântico de ação de graças que se chama Magnificat (Lucas I, 46-55).

6. São José era o verdadeiro pai do Menino Jesus?

Não. O Menino Jesus tinha por verdadeiro pai o Pai celeste; São José era seu protetor e seu pai diante da lei (Mateus I, 18-25).

7. Jesus teve verdadeiros irmãos?

Não. Jesus não teve verdadeiros irmãos; São Tiago, seu mais próximo parente (Gálatas I, 19), teve por mãe uma outra que não a dele (Marcos XV, 40); a expressão “irmãos de Jesus” significa, no Evangelho, primos e parentes de Jesus.

8. Que fez a Virgem Santíssima depois do nascimento de Jesus?

A Virgem Santíssima o levou ao Templo de Jerusalém para consagra-Lo a Deus; é a festa da Apresentação do Menino Jesus no Templo e da Purificação da Santíssima, no dia 2 de fevereiro. É então que o velho Simeão toma o Menino Jesus em seus braços e canta o Cântico de adeus, conhecido como Nunc dimittis: ele prediz a Maria que o Menino será um sinal de contradição, e que “a sua alma será transpassada por um gládio” (Lucas II, 29-35).

9. Que fazem a Santíssima e São José após a visita dos Magos a Belém?

Depois da visita dos Magos a Belém, a Virgem Santíssima e São José fogem para o Egito, para escapar ao massacre dos pequeninos ordenado por Herodes (Mateus II, 13-14).

10. Qual é o último acontecimento da infância de Jesus narrado pelo Evangelho?

O Evangelho nos conta que, quando o Menino Jesus tinha 12 anos, seus pais o perderam em Jerusalém, e o reencontraram no Templo. É então que lhes diz: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?” Mas eles não “compreenderam” ainda como, nem quanto, seus corações iam ser dilacerados pelas exigências da missão divina de seu filho (Lucas II, 41-50).

A Virgem durante a vida pública de Jesus

11. Falou-se da Santa Virgem a propósito da vida pública de Jesus?

Sim, sobretudo em duas passagens: no início de sua vida pública, Jesus realizou seu primeiro milagre em Caná, a pedido da Virgem Santa (João II, 1-11); e por fim, no momento de morrer na Cruz, Jesus dá a Virgem Santíssima por Mãe a São João (João XIX, 26-27).

12. Falou-se em outro lugar da Virgem no Evangelho?

São Marcos conta que, numa casa cercada pelo povo, Jesus foi acusado por seus inimigos de estar endemoninhado. Ouvindo isso, os seus vieram para apoderar-se dele, porque se dizia: “Ele está fora de si!” (…) Disseram-Lhe: “Eis que lá fora estão tua mãe e teus irmãos que te procuram”. E respondendo-lhes, Ele disse: “Quem são minha mãe e meus irmãos?” E lançando um olhar sobre os que estavam sentados em círculo ao seu redor, diz: “Eis minha mãe e meus irmãos. Quem quer que faça a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã, minha mãe” (Marcos III, 20, 31-35). Jesus não nega os laços de parentesco temporal entre maridos e esposas, entre pais e filhos, mas vem fundar algo bem maior que isso, liames de um parentesco novo, que é espiritual, e que supera o primeiro por seu esplendor como o sol supera a luz dos círios. Doravante a Virgem não mais deverá agir visivelmente no plano do parentesco temporal para defender Jesus e consolá-Lo, mas somente invisivelmente no plano do parentesco espiritual para unir-se a seu zelo pelas coisas de Deus e a seus sofrimentos redentores. Mas nesse plano como no outro, ela continuará sendo a primeira.

São Lucas narra que, noutra ocasião, uma mulher de grande coração, tendo tomado defesa de Jesus, gritou: “Feliz o ventre que te trouxe e os seios que te amamentaram!” Mas Ele respondeu: “Felizes, antes, os que escutam a palavra de Deus e a põem em prática” (Lucas XI, 27-28). Escutar a palavra de Deus e pô-la em prática, eis o que vinha fazer essa mulher magnânima. E Jesus lhe faz entender que é precisamente isso que Ele mais ama em sua Mãe.

13. O papel da Santa Virgem era público como o dos apóstolos?

Não. O papel da Virgem Santa era velar sobre a vida oculta de Jesus, acompanhá-lo à sua morte. Depois era orar e sofrer em silêncio pela Igreja: é uma atuação oculta.

Morte da Virgem

14. Falou-se da Virgem, depois da partida de Jesus para o Céu?

Narra-nos o livro dos Atos dos Apóstolos que, depois da Ascensão, os onze Apóstolos se retiraram para o Cenáculo e “todos numa só alma perseveravam na oração, com as mulheres e Maria, Mãe de Jesus, e seus irmãos com eles” (Atos I, 14). É ali que virá visitá-los o Espírito Santo no dia de Pentecostes (Atos II, 1). Mas diversamente. Para os Apóstolos, príncipes da hierarquia, Pentecostes é um início, uma partida para a conquista do espaço e do tempo. Para a Virgem, completamente oculta na grandeza de sua santidade, Pentecostes é um termo, o anúncio de sua partida para o Céu.

15. Quando festejamos a morte, a ressurreição e a subida ao Céu da Santíssima Virgem?

Festejamos a morte, a ressurreição e a subida ao Céu da Santíssima Virgem no fim do verão (hemisfério norte) e no fim do inverno (hemisfério sul), no dia da Assunção a 15 de agosto.

Capítulo V

NOSSO AMOR À SANTÍSSIMA VIRGEM

SUMÁRIO: É preciso amar a Santíssima Virgem porque é a Mãe de Deus e a Mãe dos homens (1-2). O amor à Santíssima Virgem introduz no amor a Deus e às suas profundezas (3-8). Esse amor exprime-se na oração corrente da Ave-Maria (9-10) e nas orações marianas (11). O amor à Virgem Santíssima, para os seus verdadeiros servidores, é penhor de predestinação (12-13).

A Santíssima Virgem é digna de nosso amor

1. Quem nos ensina a amar a Santíssima Virgem?

É Deus, que a amou mais que a todas as criaturas.

2. Qual deve ser nosso maior amor, depois do amor a Deus?

Após o amor de adoração reservado a Deus, Criador do universo e Autor de nossa salvação, há o amor de veneração que nós temos pela Santíssima Virgem, a Mãe de Deus e nossa Mãe.

3. Pode-se amar muito a Santíssima Virgem?

Quanto mais se ama, na Virgem, o que ela foi para Jesus, mais nos assemelhamos a Nosso Senhor. Todavia, jamais a conseguiremos amar como o Cristo amou.

O verdadeiro amor à Santíssima Virgem é inseparável do amor a Deus

4. O amor à Virgem desvia do amor a Deus?

Não. Se a Santa Virgem é caminho para Deus, mais se ama a Deus, mais se ama à Virgem, e o verdadeiro amor à Santa Virgem deve sempre aumentar.

5. Não se pode amar a Deus sem amar a Santa Virgem?

Não. É impossível amar a Deus sem amar a Santa Virgem, desde que se saiba que é verdadeiramente a Mãe de Deus.

6. É necessário pensar expressamente na Santíssima Virgem todas as vezes que se pensa em Deus?

Não, porque a Virgem Santa, mesmo que não seja nomeada, sente-se feliz com toda oração que sobe a Deus.

7. A verdadeira devoção à Santíssima Virgem contraria a adoração devida a Jesus?

Ao contrário, temos visto que onde a devoção à Santíssima Virgem é abandonada, a fé na divindade de Jesus tende a desaparecer.

8. O que se deve freqüentemente pedir à Santíssima Virgem?

É preciso pedir freqüentemente à Santíssima Virgem que nos tome sob seu manto e nos leve a compreender e amar, um pouco como ela os compreendeu e amou, os mistérios da vida de Jesus, suas alegrias, seus sofrimentos, seus triunfos.

A oração da Ave-Maria

9. Quando a Ave-Maria foi introduzida na liturgia?

A primeira parte, que está no Evangelho, aparece num Introito da Missa, no século VI; ela começa a difundir-se entre os fiéis a partir do século XIII.

A segunda parte: Santa Maria, cujos elementos preexistiam em estado separado, começa a se reunir a partir de 1400 e torna-se corrente entre os fiéis um pouco depois de 1500.

10. Como se deve rezar a Ave-Maria?

É preciso rezar a Ave- Maria não somente com os lábios, mas com o coração; não somente por si, mas por todos os homens; e pensando que a salvação do mundo começou por esta oração.

É preciso rezar a Ave-Maria como ela ocorreu pela primeira vez, ou seja, como na Anunciação do Anjo e na Visitação a Izabel.

As principais orações marianas

11. De quando datam as principais orações que dirigimos à Virgem?

A maior parte dos autores é desconhecida. Elas testemunham a devoção de toda a sucessão de séculos cristãos. Surgiram espontaneamente, como flores diferentes em cada estação.

No século III, aparece o texto grego de Sub tuum praesidium, oração popular para pedir a intercessão da Mãe de Deus (Theotokos) em nossas necessidades e em nossos perigos.

No século X, o hino Ave Maris Stella pede àquela, que é nossa Mãe, atenda às nossas orações, pois será ouvida por seu Filho. A antiga Regina Coeli laetare canta a alegria da Virgem no dia da Páscoa.

No século XI, a antífona Alma Redemptoris Mater é um pedido de socorro do povo pecador, que procura se reabilitar, à Virgem tão eminente que, um dia, deu vida a seu Criador. A antífona Salve Regina, Mater misericordiae suplica, àquela que é doçura de nossa vida, que nos mostre seu Filho Jesus, depois do exílio deste vale de lágrimas.

No século XII, o Ave Regina coelorum celebra a glória da Rainha do Céu, que deu nascimento a Cristo, a Luz do mundo.

No século XIV, o Stabat Mater dolorosa é o grande hino pungente dos sofrimentos de compaixão da virgem aos pés da Cruz.

No século XV define-se a versão atual da Ladainha da Santa Virgem, Mãe em relação a Cristo, Vigem em relação ao mundo, Socorro para nós, Rainha para os anjos. Ao mesmo tempo o Rosário recebe sua forma atual, no qual pedimos à Virgem que una as nossas orações às suas, para imergi-las nas alegrias, nas dores, nas vitórias de seu filho: nossas pobres alegrias, para que não sejam dissipadas; nossas pobres dores, para que não sejam amargas; nossas pobres vitórias, para que sejam sempre magnânimas. Na mesma época aparece a tocante oração popular do Memorare ou Lembrai-vos.

O verdadeiro amor à Santíssima Virgem abre as portas do Céu

12. Como agradar sobretudo à Virgem Maria?

Purificando do pecado nosso coração; e imitando sua fé, seu amor, sua obediência e sua grandeza de alma; porque amar é imitar.

13. A Santíssima Virgem é assaz poderosa para obter para seus servidores a salvação?

Sim, a Santíssima Virgem é bastante poderosa para obter a salvação de seus servidores, ou seja, daqueles que do fundo do seu coração, sem se cansar, lhe pedem que os ajude a sair do pecado, para viver à luz do Evangelho, e para morrer no amor de Deus.

OBS: Este catecismo está como editado em 1996, exceto por uma ou outra correção ortográfica (no sistema anterior ao do acordo), uma ou outra opção textual diferente (como no caso dos pronomes pessoais referentes a Jesus com letra maiúscula) e organização alternativa de alguns períodos.
Anexo: Catecismo Mariano