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Catequese Teologia

A penitência no sacramento da Confissão

Pergunta recebida:

“Como explicar o que é a penitência no âmbito do sacramento da Confissão?”

A satisfação ou penitência é uma obra boa imposta pelo confessor (assistir à Missa, comungar, rezar alguns Pai Nossos, etc.) para reparar a injúria feita a Deus pelos pecados e que é modulada conforme a gravidade das faltas acusadas. Assim, o confessor tem obrigação de impor penitência grave (rezar um rosário) pelos pecados mortais, e leve (rezar um terço) pelo veniais; e o penitente, por sua vez, tem obrigação de aceitar a penitência que se lhe impuser, a menos que por impossibilidade física ou moral não possa cumprir o que lhe manda o confessor. Neste caso deve pedir-lhe outra penitência. O penitente que omitir culpavelmente uma penitência grave, pecará gravemente. Se, porém, se esquecer da penitência, deverá voltar ao confessor, se o puder fazer sem grave incômodo, caso contrário, cessará a obrigação. A penitência pode ser cumprida antes ou depois da comunhão, a não ser que o confessor determine o tempo. Adiar o cumprimento dela sem causa justa é pecado venial.

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Liturgia

O rito celta

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A falta de evidências sobre a prática litúrgica nas localidades onde o rito celta foi usado não permite que se tenha um quadro muito claro sobre ele. Todavia, podemos afirmar que nunca houve um rito celta no sentido estrito, como é o moçarábico ou o ambrosiano (fora que, na verdade, o que havia eram ritos).

Os monges celtas, incansáveis missionários que levaram o Evangelho para terras distantes, nunca quiseram criar uma nova liturgia. Parece que eles escolhiam elementos de diferentes tradições e os combinavam. Desse modo, os rituais celtas acabavam sendo uma composição eclética de costumes estrangeiros, tanto romanos quanto galicanos. Na Escócia, na Irlanda, em Gales, na Cornualha e na Bretanha existiam várias especificidades. Essas especificidades ficavam patentes na forma da tonsura (tonsura magorum – eles raspavam toda a cabeça, como os antigos druidas), na data da Páscoa (uma controvérsia que eu particularmente não entendo e acho muito chata para pesquisar), e nas leituras e unções durante uma ordenação. Após um sínodo fracassado em 603, o Sínodo de Whitby conseguiu a completa submissão dos celtas. Mesmo assim, traços de uma liturgia independente continaram a existir em partes da Irlanda até o Sínodo de Cashel (1172) quando o rito anglo-romano foi introduzido. A Bretanha provavelmente perdeu seus rituais distintivos na época de Luiz I, o Pio (817), e a Escócia no século XI pelos esforços da rainha Margarida (canonizada em 1250).

Até onde vão as evidências, pode-se afirmar que o rito celta foi muito influenciado pelo rito galicano no seu nascimento e gradualmente se romanizou. Não existem registros anteriores ao século V.

O rito celta é estudado a partir de três fontes principais: o Antifonário de Bangor, o Missal de Bobbio e o Missal de Stowe – todos de origem monástica. Como se depreende de seu nome, o Antifonário de Bangor é uma coleção de antífonas, versículos, hinos, cantos, etc., e deve ter sido compilado para uso dos abades do famoso mosteiro de Bangor na Irlanda. Ele data do final do século VII (entre 680 e 690) e se encontra na Biblioteca Ambrosiana em Milão. O Missal de Bobbio, um curioso manuscrito descoberto por J. Mabilion em Bobbio, Itália, é uma das testemunhas mais antigas da história do Canon Romano; ele apresenta uma liturgia local influenciada por Roma. Por fim, o Missal de Stowe, um manuscrito dos século VIII ou IX, foi composto provavelmente para a abadia de Tallaght perto de Dublin. Ele contém, além do Evangelho de São João, o ordinário da Missa, três próprios e os ritos do Batismo, da Unção dos Enfermos e da ministração do Viático. Além dessas obras, há vários fragmentos de manuscritos irlandeses e algumas outras completas (como o Livro de Mulling).

stowemissal

Na Missa, a preparação das oblatas era feita antes da entrada do celebrante, como nos ritos galicanos. As orações iniciais incluiam uma confissão dos pecados e longos pedidos de perdão, bem como uma ladainha com o nome dos santos irlandeses. A primeira parte da Missa, na sua forma mais tardia, como está no Missal de Stowe, seguia uma forma romana: Gloria, uma ou mais Coletas, Epístola, Gradual e Aleluia. Nesse ponto era dita uma ladainha, a Deprecatio Sancti Martini, como nos ritos orientais (também presente no rito ambrosiano tradicional – pelo menos na Quaresma). Após mais duas orações, um descobrimento parcial das ofertas e uma invocação tripla sobre elas, o Evangelho era cantado, seguido pelo Credo (com o Filioque). No Ofertório, após o descobrimento total das ofertas, o cálice e, às vezes, a patena, era elevado. Em seguida era feito o Memento dos defuntos e a leitura das intenções pelos falecidos do lugar. O Prefácio, com seu diálogo preliminar, vinha em seguida, acompanhado pelo Sanctus e o pós-Sanctus. Mesmo que no Missal de Stowe o Canon seja chamado de Canon dominicus papae Gilasii, o que temos de fato é o Canon Gregoriano com alguns santos irlandeses citados. Após o Memento dos vivos era lida uma lista com mais de 100 nomes de santos (de personagens vétero-testamentários a monges irlandeses). Vários cantos eram designados para a Communion, incluindo (no Antifonário de Bangor) o belo Sancti venite:

Sacte venite,
Christi corpus sumite,
sanctum bibentes,
quo redempti sanguinem.

Salvati Chrsiti,
corpore et sanguine,
a quo refecti
laudes dicamus Deo.

Hoc sacramento
corporis et sanguinis
omnes exuti
ab inferni faucibus.

Dator salutis,
Christus filius Dei,
mundum salvavit
per crucem et sanguinem.

Pro universis
immolatus Dominus
ipse sacerdos
existit et hostia.

Lege praeceptum
immolari hostias,
qua adumbrantur
divina mysteria.

Lucis indultor
et salvator omnium
praeclaram sanctis
largitus est gratiam.

Accedant omnes
pura mente creduli,
sumant aeternam
salutis custodiam.

Sanctorum custos,
rector quoque, Dominus
vitam perennem
largitur credentibus.

Caelestem panem
dat esurientibus,
de fonte vivo
praebet sitientibus.

Alpha et Omega
ipse Christus Dominus
Venit venturus
iudicare homines.

Uma grande liberdade parece ter sido deixada para os mosteiros na organização do Ofício Divino, e detalhes sobre isso podem ser encontrados em várias regras monásticas (como a de São Columbano). O rito celta teve ampla influência no desenvovimento do sacramento da Penitência, já que é devido a ele que hoje a confissão é auricular (e não pública).

Fontes:

Cabrol, Dom Fernand. The Mass of the Western Rites.

Jenner, Henry. “The Celtic Rite.” The Catholic Encyclopedia. Vol. 3. New York: Robert Appleton Company, 1908.16 May 2010.

Sancti Venite. Disponível em: http://www.preces-latinae.org/thesaurus/AnteMissam/SanctiVenite.html. Acessado em 17 de maio de 2010.

Sheppard, L. C. “Celtic rite” New Catholic Encyclopedia. Vol. 3. The Catholic University of America, 1967.

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Religião comparada

Islã

Apresento um ótimo texto do confrade Ricardo sobre o islamismo (qualquer esforço de apologética católica não pode prescindir do estudo comparado das outras religiões ou grupos cristãos – a grafia “Islam” é própria do autor):

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Tendo em vista os tópicos sobre religiões não-cristãs que foram criados na comunidade Apologética Católica do Orkut, pensei em fazer um estudo sobre o Islam.

Posso falar, a partir de pesquisas e estudos em Religiões comparadas e no Islam em particular que tenho desempenhado há anos, que estou convencido de que o conhecimento do Islam que aparece em nossos melhores livros de apologética (como o de Boulanger) é mais do que deficiente: é insignificante ao ponto de não fornecer sequer um conhecimento superficial, mas correto, sobre esta religião.

Sem mais apresentações, posso dizer que o estudo do Islam é de suma importância desde os primórdios desta religião. Pois a expansão fulminante da jihad fez com que, em mais ou menos 100 anos, a religião nascida na Arábia estendesse seus domínios da Espanha até o norte da Índia. Das quatro sedes apostólicas da Cristandade (Jerusalém, Antioquia, Alexandria e Roma), somente Roma não foi dominada pelos exércitos muçulmanos. Constantinopla, mais tarde, também foi conquistada. A mensagem religiosa do Islam é monoteísta e acentuadamente semita, portanto próxima do cristianismo. No mundo contemporâneo, o Islam ainda tem uma força impressionante. Então, o objetivo deste artigo é procurar entender este fenômeno e relacioná-lo com o cristianismo.

O estudo começa com as fontes da “revelação” islâmica. Islam significa submissão (a Deus). É dito entre os muçulmanos que todas as coisas estão “em estado de islam”, já que Deus controla tudo, mas os seres humanos entram nesse estado ativamente, e não passivamente, através da fé e da prática da religião (din) revelada aos profetas.

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Apologética

Dawkins, um delírio

O filósofo Dr William Lane Craig expõe de maneira límpida e cristalina a falha completa e irrecuperável do argumento central do livro “Deus, um Delírio”.

Depois dessa, só rindo:

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Contrarrevolução

O tabaco e a alma

charutoTexto de Michel P. Foley (publicado na revista First Things n.72, abril de 97).

Tradução e Notas de Márcio Umberto Bragaglia.

A atual, barulhenta e irresponsável[1] campanha mundial contra o fumo não só incutiu dolorosamente em quase todas as pessoas o medo dos efeitos do tabaco sobre o corpo humano, mas também serviu para obscurecer a mais profunda das razões de popularidade do ato de fumar: sua relação com nossa alma. Enquanto os dias de glória do fumo passam para as cinzas da história, é o momento de refletirmos sobre sua conexão com o espírito humano.

Obviamente, a alma é algo de grande complexidade. Há muito tempo Platão sugeriu que nós considerássemos a alma como sendo dividida em três partes: a vegetativa-sensorial, a espiritual (ou sensitiva) e a racional[2], correspondendo cada parte com uma das três categorias básicas de desejos humanos, quais sejam: o desejo da satisfação dos apetites físicos, o desejo pelo reconhecimento perante as demais pessoas, e o desejo de conhecer a Verdade. Desde que nos lembremos desta divisão proposta pelo filósofo, podemos entender melhor a relação que existe entre o consumo de tabaco e a alma humana: as três formas mais comuns de fumá-lo – cigarros, charutos e cachimbos, correspondem respectivamente a cada uma das três partes da alma.

Os cigarros correspondem à parte vegetativa, (o apetite sensorial) da alma, fato que explica sua corrente associação tanto com a comida quanto com o sexo. A conexão sexual é particularmente óbvia: pense no famoso “fumar um cigarrinho” após o coito, ou na presença invariável dos cigarros nos bares para solteiros.

Pessoas com fortes desejos físicos demandam satisfação instantânea, e tentam tornar o que desejam parte de seus corpos, ao máximo possível: a fome requer comer, a sede beber, e a luxúria tornar o corpo do amante parte de seu próprio corpo. Isso vale para os cigarros. Um cigarro é tragado: é necessário que seja consumido completamente no interior do indivíduo para provocar o prazer. Um cigarro, com sua rápida finalização, igualmente é satisfação instantânea. Até mesmo a notória conexão entre o cigarro e a morte pode ser entendida como um apetite – ambos são indiferentes em relação à saúde de seu objeto no que tange à satisfação, e ambos, quando atingem o nível final, tornam-se hostis ao indivíduo, fatais.

Os Charutos, por outro lado, correspondem à parte espirituosa, sensitiva, da alma. Isto explica porque são tão populares entre homens que procuram honra e reputação – políticos, executivos, etc. A razão para esta correspondência pode ser encontrada na similaridade que há entre os charutos e a ambição. Um charuto impressiona, visualmente falando: com seu grande tamanho e suas enormes nuvens de fumaça, geralmente causa um impacto maior no expectador do que no próprio fumante. Está mais ligado ao poder masculino do que à sua satisfação propriamente dita. “Testis”, em latim, significa “testemunha”: a aparência fálica do charuto serve para demonstrar ao público que testemunha a virilidade do fumante, sua potência. O fato de que o charuto não é inalado reflete esta abordagem exterior, superficial.

A ambição também tem estas características: é muito mais exterior do que interior. Diferentemente dos desejos físicos, que são satisfeitos pelo simples consumo, a ambição requer o consenso e o reconhecimento de terceiros. Os homens que procuram as honrarias, por exemplo, necessitam se sentir reconhecidos pelo maior número de pessoas possível para satisfazerem suas demandas de caráter.

Finalmente, o cachimbo corresponde à parte racional da alma, o que explica porque tendemos a representar pessoas sábias fumando cachimbos: o estudioso, em Oxford, cercado por seus bons livros, ou Sherlock Holmes, que, nas histórias originais de Conan Doyle também fumava outras formas de tabaco[3], mas que, graficamente, é quase sempre representado na companhia de um cachimbo. Diferentemente dos cigarros e charutos, o cachimbo persiste, não se consome. Similarmente, as questões que intrigam o filósofo em muito superam tanto os menores desejos físicos quanto as ambições humanas relativas ao status social. Ainda, enquanto o charuto é completamente masculino, o cachimbo tem elementos masculinos e femininos (a piteira e o fornilho, respectivamente). Isto corresponde à atividade intelectual do filósofo, que é tanto masculina quanto feminina: masculina no que tange à procura pela “Verdade Absoluta”, e feminina na sua característica de ser receptivo à tudo que dele descobre. Finalmente, o efeito do cachimbo nas outras pessoas é análogo ao efeito da filosofia: o adocicado aroma de um cachimbo, como a boa filosofia, é uma benção para todos que se aproximam.

É apropriado que todos os três referidos tipos de consumo do tabaco envolvem o uso do fogo, pois cada um deles se relaciona com o nível de resposta da alma ao apelo da razão, e o fogo, pelo menos desde os dias de Prometeu, é o emblema mitológico da razão. Mas também há partes não humanas na alma do homem[4]. O crescimento dos cabelos e das unhas, por exemplo, se deve à atividade da alma (vida), mesmo que não se relacione com o comando da razão.

O uso do tabaco que não envolve o fogo, portanto, de certo modo corresponde a estes elementos não-humanos, ou mais precisamente sub-humanos da alma. Mascar tabaco, por exemplo, é uma atividade sub-humana por definição. É a ruminação do homem bovino. Ou talvez, devêssemos dizer do homem camelo, pois os camelos não só mascam, mas também cospem. De qualquer modo, a idéia é clara: mascar o tabaco é uma atividade sub-racional, e por isso nós normalmente à associamos aos homens mais brutos e menos intelectualmente refinados.

Cheirar (aspirar) o tabaco também pode ser classificado nesta categoria, mas com algumas pequenas diferenças. Primeiro, porque, não sendo tão repugnante, não carrega o mesmo grau de conotação negativa do processo de mascar o tabaco. (Obviamente, as atividades podem ser sub-racionais sem serem más). Em segundo lugar, aspirar pelo nariz não é atividade que se possa categorizar no mesmo nível das anteriores. Todas as formas já discutidas envolvem a boca, o que é mais natural, já que a boca foi feita para receber coisas dentro de si. Mas aspirar algo diferente de ar para dentro do nariz, isso já não é tão natural assim…[5]

Como todo leitor de Platão sabe, o que tem relação com a alma tem necessariamente relação com a cidade [6]. Logo, se nossa teoria é mais do que a fumaça que pretende explicar, ela pode ser usada na análise de alguns fenômenos políticos contemporâneos. Por exemplo, nos últimos anos temos testemunhado um esforço de ajuste social que objetiva esterilizar nossas relações eróticas, diminuindo seu perigo, mas também seu vigor.

As vazias e desestimulantes palavras que usamos para referenciar estas ligações confirmam nossa hipótese. Ao invés de “amante” e “amado”, por exemplo, nos referimos a “parceiro” (termo que retira das questões do coração toda excitação, aproximando a tão emocionante matéria da frieza das relações comerciais). Considerando este ambiente social deliberadamente alterado, não é de se espantar que nossa guerra moral mais violenta nos dias atuais seja contra os fumantes e cigarros, nem que a única guerra tão intensa que a sociedade trava seja a favor do “sexo seguro”, de preservativos que não esterilizam o sexo apenas no sentido literal, mas também metafórico.

Além disto, a relação que há entre os charutos e as pessoas fracas, em busca de reconhecimento social, explica o crescimento significativo do incremento de fumantes de charuto do sexo feminino. Como as mulheres continuam a penetrar em mundos de competição social tradicionalmente dominados pelos homens[7], muitas estão os vencendo em seu próprio jogo, utilizando-se das mesmas técnicas de incremento de poder, e, com as técnicas e táticas vêm os símbolos.

Mais significativa, entretanto, é a relação entre a raridade numérica dos fumantes de cachimbo na América, e a crise intelectual que o país enfrenta. Se o cachimbo enfatiza um modo de vida intelectual e racional, é de espantar que não possa ser encontrado em um país no qual as escolas substituem a filosofia real pela ideologia do “politicamente correto”, onde a inteligentsia, ao invés de se engajar no pensamento aprofundado, tende para o ativismo irresponsável? É surpresa que o mais famoso fumante de cachimbo dos EUA nos últimos trinta anos seja Hugh Hefner[8], profeta banal do hedonismo? Não, a era dos fumantes de cachimbo está tão longe de nós quanto o dia em que os filósofos serão reis e os reis irão filosofar – uma realidade triste que a densa neblina azul dos cigarros e charutos é a única a atestar.

Também não é de nos surpreender, nesta era sem cachimbos, que a batalha feroz travada contra o tabaco perdeu o ponto relevante sobre seu poder de viciar: o tabaco influencia a alma tanto quando o faz ao corpo. As qualidades que ele a faz incorporar nas suas formas variadas o torna um complemento irresistível para os desejos dominantes da alma de cada um. Como reagimos a estas influências diz muito do nosso posicionamento pessoal em relação ao que moralmente desejamos, talvez tanto quanto diz a erva aos desejos do corpo, por si só.

[1] O autor utiliza o termo brouhaha para qualificar a campanha contra o fumo. Significa um distúrbio relevante, muito mais do que os méritos da discussão que o gerou. Preferi adjetivar, no mesmo sentido. (N.do T.)

[2] A divisão tripartite da alma, na abordagem do autor deste texto, se relaciona com a ética segundo a interpretação que Aristóteles adotou, modificando o escopo original da discussão em Platão. (N. do T.)

[3] Holmes também apreciava um charuto ao investigar seus casos, conforme nos ilustra a passagem abaixo, do conto The Sign of Four: “”Well, Jonathan Small,” said Holmes, lighting a cigar, “I am sorry that it has come to this”. (N.do T.).

[4] Alma em sentido platônico, é o que, em diversos níveis, anima o corpo, dá vida. Pode ser compreendida como uma essência adicional à matéria, presente nos vegetais, nos animais e no homem. Cada nível de ser tem um incremento nestas categorias. Assim, as plantas possuem apenas a alma vegetativa, os animais a vegetativa e a sensível, e os homens as duas mais a intelectiva.

[5] Neste trecho, o autor se desvia um pouco do assunto e trata de diferenciar a maconha do tabaco. Para nós, fumantes apenas deste último, não há a menor necessidade de enfatizar-se a qualidade deste e os efeitos desprezíveis daquele, que, segundo o autor, se resumem no seguinte: “enquanto o cigarro, o charuto e o cachimbo soltam a língua apenas o suficiente para estimular a boa conversação e a amizade, a maconha desprende a língua do cérebro, afastando a razão”.(N.doT.)

[6] No sentido grego, é claro, com o Estado, a comunidade politicamente organizada. Aí vem a introdução da discussão política deste artigo. (N.doT.)

[7] Ainda bem, penso eu! Ao contrário do que alguns consideram, o charme e a delicadeza feminina se adaptam muito bem ao uso do charuto. (N.doT.)

[8] O fundador e editor da revista Playboy, desde 1953.

OBS: fiz pequenas correções ortográficas e modificações de estilo

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Arte

Viderunt Omnes de Perotin (1198)

Viderunt omnes fines terrae salutare Dei nostri:
Iubilate Deo, omnis terra.
Notum fecit Dominus salutare suum:
ante conspectum gentium revelavit iustitiam suam.

Durante a maior parte da história uma ou duas cidades em cada era se destacaram no âmbito político e cultural. Podemos lembrar da Babilônia, de Tebas, de Atenas, de Roma, de Constantinopla e, nos nossos dias, em Nova York. Todavia, quando o Império Romano do Ocidente ruiu, quase todas as grandes cidades da Europa desapareceram. Em boa parte da Idade Média só existiam duas urbes cosmopolitas nos limites da cristandade católica: Constantinopla de um lado e Córdoba do outro. Nesse contexto, a primeira cidade a experimentar uma explosão populacional depois de muito tempo foi Paris.

Quando a Europa cristã começou na se recuperar dos séculos de turbulência, a única forma de música artisticamente elaborada que tinha sobrevivido na “era das trevas” tinha sido o canto gregoriano (a música teatral grega e a música imperial romana foram perdidas). Fora o folclórico e popular, o melhor que alguém podia escutar era um som simples, monofônico e feito para louvar a Deus.

Ajudada pela escolástica, que ganhava corpo na sua universidade, e pela construção da catedral de Notre Dame, Paris atraiu as mentes mais brilhantes da época. Pouco depois de terminarem as fundações da catedral, a cidade já contava com um jovem compositor para enchê-la de música. Esse músico, Leonin, foi (até onde mostram os registros históricos que sobreviveram) a primeira pessoa a adicionar uma segunda voz não paralela ao gregoriano. Esses cantos, chamados organum, constituíram o primeiro tipo de música polifônica. Para dar conta da complexidade, Leonin inventou seis modos rítmicos – o primeiro tipo de notação musical a descrever o comprimento da nota.

Só uma geração depois outro compositor que trabalhou em Notre Dame, Perotin, aperfeiçoou a arte do organum, adicionando ocasionalmente uma terceira e mesmo uma quarta voz. Perotin provavelmente escreveu a obra de quatro vozes Viderunt omnes para o Natal de 1198. Usando a melisma (técnica de alterar a sensação de freqüência de uma sílaba de um texto enquanto ela está sendo cantada) a ponto de obscurecer totalmente as sílabas originais, ele consegui estender poucos versículos (3, 4 e 2 – nessa ordem) do Salmo XCVII para quase dez minutos.

A chamada escola de música de Notre Dame, incluindo Leonin e Perotin, abriu a porta para a mais popular e importante forma de música dos séculos seguintes, o motete, e, de certa forma, para toda a polifonia musical.

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Humor Política

Datena e Dilma

dilma1Em recente entrevista ao Datena, na Band, Dilma foi perguntada pelo apresentador se acreditava em Deus.

A resposta:

“Acredito numa espécie de força superior.”

Não ficou por aí. Para completar a piada, ela emendou:

“Mais do que acreditar nessa força superior, eu acredito nessa Deusa-Mulher que é Nossa Senhora”.

datena1E Datena, para não ficar para trás:

“E, no fundo, no fundo, Nossa Senhora é a síntese da mulher brasileira, batalhadora, sofrida…” e por aí vai.

Link para o vídeo: http://videos.band.com.br/ basta buscar os termos “Datena entrevista Dilma”. São 8 partes e a maior pérola, narrada acima, está no início do primeiro vídeo.

bozo1Não é uma gracinha como os debates típicos de nossos seminários são agora maqueados pelos políticos e figurinhas midiáticas? Como diria meu cabelereiro: “A-D-O-R-O” esse besteirol de fim de civilização (sim, estamos na Kali Yuga).

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Filosofia

A filosofia de São Boaventura

Apresento abaixo uma tradução de meu confrade Ricardo do Orkut:

sao-boaventura-ofmI. Vida e obras

Boaventura (nascido Giovanni di Fidanza) nasceu em Bagnorea em 1221 e entrou na Ordem Franciscana provavelmente em 1243. Estudou na Universidade de Paris, onde foi discípulo de Alexandre de Hales – o primeiro mestre franciscano da universidade. Mais tarde Boaventura sucedeu seu mestre na cadeira de filosofia. Ensinou na universidade entre 1248 e 1255 e tomou parte, junto com Tomás de Aquino, no debate contra William de Saint Amour, adversário dos frades mendicantes.

Em outubro de 1257 o título de Doutor foi-lhe conferido na universidade. Nomeado Geral da Ordem no mesmo ano, deixou seus estudos para devotar-se aos problemas dos franciscanos. Nesse tempo escreveu as novas Constituições da Ordem e a biografia de São Francisco de Assis que ajudou a pacificar várias controvérsias entre os franciscanos.

Em 1273 foi nomeado Cardeal e Bispo de Alvano. Morreu em Lião em 1274 enquanto o Concílio estava ainda em sessão. Boaventura foi honrado com o título de “Doctor Seraphicus”.

Suas principais obras são: Comentários aos Quatro Livros das Sentenças de Pedro Lombardo; Itinerarium mentis in Deum; De reductione artium ad theologiam; e o Breviloquium.

II. Doutrina: noções gerais

Boaventura teorizou o que, de uma maneira prática, estava refletido na vida de São Francisco de Assis. Francisco foi inteiramente consumido pelo amor de Deus e do Cristo crucificado; seu estigma sagrado, visível no corpo, foi uma manifestação do que já existia nas profundezas de sua santidade. Em sua união mística com Deus e com Cristo, São Francisco deixou as bases da fraternidade não apenas com homens, mas com todos os seres, e os mundos humano e físico foram revelados aos seus olhos como santuários onde tudo fala sobre Deus.

Boaventura queria teorizar na vida do Poverello e criar assim um sistema perfeito da vida cristã. Nesse empreendimento não assimilou os ensinamentos do racionalismo especulativo de Aristóteles, mas voltou-se para o agostinianismo, o qual gozava de grande autoridade na tradição da Igreja. Seu voluntarismo, que coloca o amor de Deus no centro de toda atividade; sua teoria da iluminação, que torna Deus presente na alma; seu exemplarismo, que revela uma imagem de Deus e de Seus atributos em cada uma das criaturas – todos esses motivos que, além da especulação racional, falam-nos vivamente sobre o que deve ser o ideal de vida cristã.

São Boaventura não era oposto ao pensamento de Aristóteles, e inclusive o aceitava em parte. Mas sua preferência é por Santo Agostinho, e traça todos os motivos do agostinianismo – no qual todas as coisas, externas ou internas, materiais ou espirituais, falam-nos sobre Deus; seguindo Agostinho, Boaventura sustenta que o fim de toda atividade humana é a contemplação ou união mística com Deus.

Em resumo, Boaventura mostra aos cristãos que tipo de vida eles devem ter se querem atingir seu destino. Essa é a função histórica do misticismo de Boaventura, o qual é importante na ordem espiritual como o aristotelismo de Tomás de Aquino é na ordem da filosofia racional.

III. Teoria do conhecimento

Boaventura admite três degraus do conhecimento:

 O primeiro degrau é o conhecimento do particular, do individual. Por este primeiro degrau, a experiência sensível correspondente ao sentidos físicos, é indispensável.

O segundo degrau consiste no conhecimento do universal, das ideias, e do que adquirimos refletindo sobre nós mesmos. Esse conhecimento não vem da abstração como ensinam Aristóteles e Tomás de Aquino, mas da iluminação. Essa iluminação é, para Boaventura, o resultado de uma cooperação imediata de Deus. O intelecto precisa dessa cooperação ou iluminação para alcançar o inteligível.

O terceiro degrau é o entendimento de coisas superiores a nós – Deus. Esse tipo de conhecimento pode ser obtido pela contemplação. “O olhar da contemplação não funciona perfeitamente senão em estado de glória, o qual é perdido pelo homem através do pecado e recuperado pela graça, fé e entendimento das Escrituras. Assim a mente humana é purificada, iluminada, e atraída para a contemplação das coisas celestes. Tudo isso está além do alcance do homem caído, a menos que ele reconheça seus defeitos e ignorância. Mas isso só pode ser feito mediante a consideração da natureza humana caída” (Breviloquium, II, 12).

IV. Metafísica

Boaventura aceita os princípios aristotélicos de matéria e forma, mas vai muito além na interpretação deles. A matéria, criada por Deus, tem sua própria forma, distinta das outras formas ou determinações que unem-se a ela. Além disso, ela contém sementes de todas essas determinações (é a doutrina das “rationes seminales” de Sto. Agostinho).

A matéria é uma constituinte essencial de toda criatura, mesmo daquelas que são ditas incorpóreas, como as almas humanas e os anjos. A matéria das substâncias incorpóreas, em acordo com as formas que recebem, é matéria espiritual (“materia spiritualis”), a qual expressa o que há de contingente e limitado em todo ser finito. Boaventura admite em todo corpo uma pluralidade de formas. Então, além da forma que é própria da matéria, em todo corpo há tantas formas quanto há propriedades essenciais, todas postas numa ordem hierárquica; quer dizer, as formas inferiores são subordinadas pelas superiores.

V. Cosmologia

Em sua cosmologia, Boaventura não aceita os conceitos aristotélicos de eternidade do mundo ou da matéria como co-eternas a Deus. O mundo tem sua origem no ato criativo no tempo; a criação “ab aeterno” é uma contradição. Deus, que criou a matéria, colocou nela as sementes ou razões de todas as determinações que pode assumir (“rationes seminales”).

VI. Psicologia

Em psicologia, Boaventura separa-se do aristotelismo não apenas no fato do conhecimento, como vimos, mas também na relação da alma com o corpo e da alma com suas faculdades.

Para Boaventura a alma é, por sua natureza, composta de forma e matéria (matéria espiritual), e consequentemente é uma sustância completa, independente do corpo. O corpo, por sua vez, é composto de matéria e forma (vegetativa e sensitiva), mas aspira ser informado pela forma racional. Nessa aspiração e coordenação consiste a unidade do indivíduo.

Sem dúvida, a unidade da pessoa não é intimamente proclamada como no aristotelismo; mas o ensinamento de Boaventura evite o perigo em que caiu o aristotelismo com sua teoria da forma imanente, fazendo da alma dependente do corpo até em seu destino. Tal perigo não pode existir em Boaventura, para quem a alma é uma substância completa em si mesma e não indissoluvelmente unida ao corpo.

Quanto às faculdades da alma, Boaventura, de acordo com Sto. Agostinho, distingue três – a vontade, o entendimento e a memória intelectiva. Para Boaventura as faculdades são expressões de uma e mesma alma, a qual é possuidora de três atividades diversas; entre a alma e suas faculdades há meramente uma distinção lógica. No aristotelismo as faculdades são qualidades da alma e realmente distintas dela. Boaventura sustenta que, entre as faculdades, a vontade possui o primado sobre as outras; portanto é necessário amar se queremos entender.

Essa lei é aplicada ao nosso conhecimento de Deus: é necessário estar unido a Deus pela fé e graça para conhecê-Lo e a Seus atributos. O processo desse conhecimento é descrito no Itinerarium mentis in Deum. Há três degraus ou etapas pelos quais a alma passa em sua ascenção a Deus:

A primeira etapa é chamada “vestigium”, que é a impressão de Si que Deus deixou nas coisas materiais fora de nós.

A segunda etapa é a “imago”, ou a reflexão da alma sobre si mesma, pela qual, vendo suas três faculdades – vontade, intelecto e memória – o homem discerne a imagem de Deus.

A terceira etapa é a “similitudo”, ou a consideração de Deus em Si mesmo. Considerando a ideia do ser perfeitíssimo, podemos conceber a unidade de Deus (é o argumento ontológico de Sto. Anselmo, que Boaventura admite como válido); e do conceito de bondade infinita alcançamos a consideração da Trindade. Em “similitudo” a alma atinge a união mística, o supremo grau de amor entre a criatura e seu Criador.