O Papa Francisco celebrou uma Missa versus Deum diante do altar em que está o túmulo de João Paulo II, confiram as fotos (postadas na internet pelo Mons. Guido Marini):
Já faz algum tempo que na “internet católica” brasileira de ethos conservador (no sentido lato, envolvendo tanto neoconservadores quanto tradicionalistas e parte dos carismáticos) se divulga a informação de que um católico que vota num comunista (ou num partido comunista) se excomunga automaticamente. Na prática o conceito é até ampliado, pois em geral se coloca na categoria de “comunista” toda e qualquer forma de socialismo ou social-democracia. Tudo isso não passa de um erro, um erro que torna inviável a criação de um espaço de heteroestima dentro da Igreja, e que vou procurar dissipar nas considerações abaixo (tendo por base um debate travado com o confrade Rui no Orkut).
Bem… sempre que essa questão surge um dos primeiros questionamentos que se faz a quem a defende é sobre onde essa pena se encontra no Código de Direito Canônico (CDC), já que tal diploma legal é o referencial básico para se dizer o que é ou não punido pela Igreja. É sempre bom lembrar que pecado, por mais grave que seja para o conjunto do Corpo Místico de Cristo, não é sinônimo de excomunhão. Ao longo da história coisas completamente irrelevantes, como “incomodar os judeus do gueto de Roma”, foram punidas com a excomunhão, e ações graves, como ser dono de escravos, não o foram, de modo que quem questiona sobre a existência ou não de tal pena no código não está dizendo que o voto num marxista não contenha em si mesmo algo de errado. De qualquer forma, frente à letra clara do CDC, que não prevê a pena de excomunhão para o ato referido, a única saída dos seus defensores é dizer que ela está prevista numa legislação extravagante que continuaria válida até hoje.
Essa norma seria um decreto do Santo Ofício datado de 1949. Mas vamos devagar.
O que se deu foi que o site da Associação Cultural Montfort publicou o texto do decreto sem uma parte que é importantíssima e esse texto, incompleto, serviu de base para o Pe. Paulo Ricardo e Olavo de Carvalho divulgarem a noção de que o simples voto num partido comunista (ou assemelhado) implica numa pena automática de excomunhão.
O texto correto é este:
Decreto do S. Ofício, 28 jun. (1º jul.) 1949
Decreto contra o comunismo
Perguntas.:
1. É permitido aderir ao partido comunista ou favorecê-lo de alguma maneira?
2. É permitido publicar, divulgar ou ler livros, revistas, jornais ou tratados que sustentam a doutrina e ação dos comunistas ou escrever neles?
3. Fiéis cristãos que conscientemente e livremente fizeram o que está em 1 e 2, podem ser admitidos aos sacramentos?
4. Fiéis cristãos que professam a doutrina materialista e anticristã do comunismo, e sobretudo os que defendem ou propagam, incorrem pelo próprio fato, como apóstatas da fé católica, na excomunhão reservada de modo especial à Sé Apostólica?Resp. (confirmada pelo Sumo Pontífice 30/06):
Quanto a 1.: Não; o comunismo é de fato materialista e anticristão; embora declarem às vezes em palavras que não atacam a religião, os comunistas demonstram de fato, quer pela doutrina, quer pelas ações, que são hostis a Deus, à verdadeira religião e à Igreja de Cristo.
Quanto a 2. Não, pois são proibidos pelo próprio direito (cf. CIC, cân. 1399).
Quanto a 3.: Não, segundo os princípios ordinários determinando a recusa dos sacramentos àquele que não tem a disposição requerida.
Quanto a 4.: Sim.
Vejam, a expressão “como apóstatas da fé católica” na pergunta 4 faz toda a diferença. Esta expressão, que falta no texto da Montfort, é que delimita as razões da excomunhão. Em outras palavras, não é esta excomunhão específica para o comunismo, é a que havia no Código de Direito Canônico de 1917 para os apóstatas, cismáticos e hereges. Portanto, o indivíduo deveria cumprir a condição efetiva de se tornar apóstata: perder a fé.
E, como, em todo sistema falso, há alguma verdade, porque o erro não se sustenta senão na verdade, alguém pode sentir-se atraído pelo comunismo, sem negar suas bases cristãs, embora de forma culposa, ou ainda aderir ao partido comunista para melhor reivindicar os direitos dos operários, o que não faria do comunismo marxista (cuja aceitação integral equivale à apostasia) um fim em si mesmo.
Tanto é assim que, na “Teologia Moral” de Teodoro da Torre del Greco, a simples inscrição nesse tipo de agremiação política é avaliada do seguinte modo:
A simples inscrição no Partido comunista (especialmente pelo fato de melhor reivindicar os direitos dos operários) não constitui, por si, nenhuma apostasia, nem acarreta a excomunhão reservada “speciali modo”. Com isto não se afirma, não seja a inscrição ao comunismo proibida pela Igreja; ao contrário, os católicos estão obrigados não só a não colaborarem em nenhum campo com o comunismo, mas a combatê-lo; além disso, não é lícito publicar, difundir e ler os jornais e folhas volantes que propugnam a doutrina e a prática do comunismo, nem assinar tais publicações (cfr. Decr. do Santo Ofício, 1º de julho de 1949; ASS., XLI, 1949, pág. 334).
Ou seja, não implicava em excomunhão, mas também não era algo desejável.
E mesmo que o decreto valesse nos termos que alguns dizem, ainda assim não daria para fazer o automatismo que eles querem nessa questão, pois no nosso país os partidos (ou boa parte de quem se liga a eles) não levam a ideologia a sério (PT e PSB, por exemplo, aderem a um conceito vago de socialismo, que, concretamente, vira qualquer coisa), de modo que os títulos de “comunista” ou “socialista” são em boa parte dos casos slogans vazios.
—
No que se refere ao tema do post, a leitura deste texto é essencial.
Comentário da consócia Janete Campos:
Vou dar um exemplo recente que aconteceu comigo na USP: Meu professor solicitou um trabalho que apresentasse o modo como o professor e a educação são apresentados na literatura. Deveríamos escolher uma entre as obras que ele selecionou para trabalharmos com o tema, e eu escolhi O Ateneu, de Raul Pompeia. O objetivo, segundo o professor, seria analisarmos a obra, sem carregarmos nosso texto com questões ideológicas. Fiquei feliz com a ideia, já que boa parte de nossos críticos, ao avaliar uma obra, não partem dela para depois estabelecer uma teoria e sim o contrário: são “especialistas” em uma teoria e fazem de tudo para encaixar aquela obra na ideologia da qual são seguidores.
Bem, claro que para fazer um bom trabalho, fui atrás de pessoas que já haviam escrito sobre O Ateneu, e encontrei um texto desse meu professor. Eis um dos trechos da análise, quando fala sobre o escritor e aluno Raul Pompeia e as críticas que ele recebeu após publicar uma charge que ridicularizava o jornal conservador Diário de Campinas:
“A charge é uma paródia da via crucis, em que a figura de Cristo é substituída pela de um asno, que simbolizava a estupidez do jornal campineiro. A atitude e o entusiasmo do aluno provocaram desconforto entre os docentes, em geral escravocratas, retrógrados e católicos provincianos. Um deles, o professor Leite Moraes, era inclusive muito ligado ao Diário.”
Durante todo o texto o professor exalta a figura de Pompeia desqualificando seus opositores ideológicos. Não apenas neste, mas em análises de outros professores, o catolicismo sempre vem como um qualificativo negativo. Também o termo “medieval” com frequência é utilizado com sentido negativo ou mesmo pejorativo, quando, por exemplo, alguém reclama de uma atitude de alguém que age sem pensar, com violência insana e diz que a atitude é “medieval”.
Nesta mesma análise ainda é possível entre tantas outras coisas, verificar a crítica do professor à disciplina enquanto norma de comportamento, quando avalia como é descrito o colégio Ateneu dentro da obra: disciplina “militar” que é um “adestramento”. Durante todo o texto percebe-se uma exaltação de Raul Pompeia e de sua obra, uma exaltação do personagem Sérgio, que para esse professor é um incompreendido e injustiçado (se cabe aqui minha opinião, Sérgio é um menino mimado, cujo primeiro trauma foi cortar seus cachinhos para poder ingressar no colégio…).
Geologia criacionista
Desde o século XIX, com as descobertas da geologia e da biologia, o relato da Criação presente no Gênesis tem sido posto em cheque, virando, para uns, uma fábula, e, para outros, um critério indicador da fé verdadeira. Toda essa celeuma, para mim, é completamente sem sentido, já que a mera leitura do Livro Sagrado indica de maneira clara que ali não se pretende relatar uma história com rigor cronológico. De qualquer forma, a Igreja permite a adesão a uma exegese literalista, mas essa, sem dúvida, tem de enfrentar problemas como o exposto nesta ilustração:
A pauta modernista
Texto do Prof. José Luiz Delgado publicado no Jornal do Commercio (Recife, 19 de março de 2013):
Curiosa a atração entre a mídia e certos trânsfugas que já há bom tempo abandonaram a Igreja. Aquela se nutre de escândalos, do extraordinário, do diferente, de frases dissonantes que chamam a atenção, muito mais do que do ordinário, do comum, do sensato, do simplesmente bom. E aqueles se põem a dar declarações tornitruantes sobre uma entidade de que já se afastaram, que repudiaram, e que, portanto, em nada mais os deveria interessar. Por que ainda a discutem e ainda opinam sobre ela?
Nesse afã de ouvir personagens que já refugaram a Igreja (e que, em boa lógica, nem deveriam mais pensar nela), a mídia anda divulgando o rol dos “grandes” projetos que esses trânsfugas, curiosamente preocupados com a “decadência” da Igreja, gostariam de ver o novo pontificado assumir, para se modernizar e deixar de ser “medieval”, para ser “aberto ao diálogo com o mundo moderno”: derrubar tabus como o casamento entre homossexuais, o aborto, a condenação da pílula anticoncepcional, a aceitação do divórcio, o celibato dos sacerdotes.
Quando é que a Igreja reverá sua oposição aos “modernismos” do divórcio, casamento entre homossexuais ou o aborto? Nunca, jamais, em tempo algum. É viver no mundo da Lua imaginar que coisas desse tipo possam algum dia ocorrer. Quem imaginar que pode ser católico alimentando tais fantasias, e portanto somente na esperança de que essas mudanças aconteçam, declare-se logo não-católico. A Igreja não é dona da doutrina, cuja formulação não depende do voto da maioria nem dos clérigos nem do “povo de Deus”: é apenas depositária, guarda e transmissora do tesouro, e a esse respeito tão somente repete o que aprendeu do Senhor: que a vida humana é sagrada, ninguém pode dispor sobre ela, e que Deus fez o homem e a mulher e viu que isso (o homem e a mulher) era bom. A Igreja tem um Credo e é fiel a ele, e quem (no exercício da primordial liberdade, que deve sempre ser respeitada) não concordar com esse Credo, simplesmente não pertence à Igreja. Tem todo direito de pensar o que quiser, mas não pode prtender que seu livre pensamento seja católico.
O celibato dos padres é questão totalmente diversa. Sendo norma apenas positiva da Igreja, apenas disciplinar, pode, sim, ser modificado sem qualquer agressão ao dogma. Que a Igreja, porém, vá rever essa posição, nalgum futuro mais ou menos próximo, é altamente discutível. Não parece provável. Muitos séculos podem passar sem aquela opção ser modificada. Talvez até o mundo acabe primeiro…
A mulher que calou as abortistas
Frei Damião em 1969 na cidade Taparoá (PB). Esse vídeo é uma verdadeira relíquia!

