Cristianização das festas pagãs

Essa sequência no Twitter nos mostra que a chamada cristianização das festas pagãs foi algo bem mais complexo do que se pensa:

Without getting into the ins and outs of the ‘Is Christmas pagan?’ debate, it’s worth dealing with some faulty assumptions people often make about the ‘Christianisation’ of pre-Christian traditions (buckle up for the thread…)

First of all, language people use in this area can be quite emotive, e.g. talk of Christians ‘usurping’ or ‘sanitising’ a pre-existing pagan festival. There’s a tendency to ascribe a collective agency that never existed to ‘the Church’ or ‘Christians’ when it comes to Midwinter

Continuar lendo

Perguntinhas do ateu

Texto do confrade Rui publicado originalmente no Facebook:

– Se Deus é onisciente, e sabe o que eu farei amanhã infalivelmente, como eu posso ser livre?

O livre arbítrio é um modo de ação que nos distingue de outros entes causais, todavia não se aplica na relação entre a criatura (o homem) e Deus, pelo menos, não da parte da criatura. Em outras palavras, somos livres, em comparação com a pedra que cai por necessidade, ou ao animal que age por instinto, mas não somos livres em relação a Deus e Sua causalidade.

– Se Deus é bom, por que permite o mal no mundo?

Deus permite o mal no mundo, porque alguns bens decorrem justamente da existência do mal. O que seria da coragem dos mártires se não fosse a maldade de seus perseguidores? E, como Ele é soberano, Ele pode escolher este bem (a coragem dos mártires diante de seu martírio) a este bem (a morte tranquila dos mesmos em sua cama). O fato de Deus ser bom não implica que Ele não possa impor limites ao bem de que deseja dotar o mundo, ou escolher entre um bem e outro.

– Se Deus é onipotente, por que Ele não pode fazer uma pedra que Ele mesmo não possa levantar?

Deus é infinito e imutável por necessidade. A sua onipotência não diz respeito, portanto, à Sua natureza, mas ao mundo, e respeitando as leis do ser, que se fundam n’Ele mesmo, pois é o Ser por essência. Logo, o que Deus pode é em relação a nós, seres contingentes, que temos o ser por participação, e não em relação a Ele. Deus é infinito e infinitamente feliz sendo o que é, e, no infinito, não há lugar para mudança.

Leituras selecionadas (11/2020)

Nota

Ordinariates Conclude 10th Anniversary Amid Pandemic Year With New Divine Offices

Os Ordinariatos Anglicanos, criados pelo Papa Bento XVI dez anos atrás, estão comemorando a data com o lançamento de sua versão final do Grande Ofício, que será, usando a nomenclatura oficial, uma terceira forma do rito romano. Essa liturgia tem dois subtipos, um que agrega a maneira como a tradição se desenvolveu nos EUA e outro que agrega o que se fixou no Reino Unido e Austrália.

Forthcoming U.K. Daily Office Will ‘Resonate’ for Seekers of Jesus Christ

Uma entrevista com uma dos membros da comissão que trabalhou na preparação do Ofício dos Ordinariatos Anglicanos.

Why I had to leave The Guardian

Jornalista festejada na esquerda britânica conta como foi “cancelada” após tocar nos vespeiro em que se tornou a “questão trans” – mais uma prova de que a esquerda caviar alimenta o Leviatã que a engolirá no fim das contas.

Viktor Orbán: “The Soros network is the greatest threat faced by the states of the European Union”

Texto que informa sobre a mais nova disputa entre o metacapitalista George Soros e os governos da Polônia e da Hungria. Destaco o seguinte trecho da resposta do primeiro-ministro Victor Orbán a um artigo do financista revolucionário:

The differences between us are obvious. Soros wants an open society, while we want a safe society. According to him, democracy can only be liberal, while we think it can be Christian. According to him, freedom can only serve self-realization, while we believe that freedom can also be used to follow the teachings of Christ, to serve one’s country, and to protect our families. The basis of Christian freedom is the freedom to decide. This is now in jeopardy.

Jordan Peterson Vs. Crybaby Stalinists

O que representa para nossa cultura a revolta dos empregados da editora canadense de Jordan Peterson contra o lançamento de seu novo livro.

Os novos santos compensam a Missa nova?

Tradução de artigo de Peter Kwasniewski, no qual ele discute a relação das novas canonizações, em especial aquelas que se adequam ao que o sensus fidelium sempre identificou como próprio dos santos, com a deforma litúrgica de Paulo VI e a cultura moderna.

The Promise That Tested My Parents Until the End

Um dos melhores textos que li neste ano! Todo casal católico deveria lê-lo.

The Secret Forces That Operate In History

Texto de Roberto de Mattei no qual ele, inicialmente, aborda a ação de forças secretas na história e de como isso foi tratado por historiadores católicos e por autoridades eclesiais; depois, desenvolve a diferença disso de certas teorias conspiratórias em torno do coronavírus, que esquecem a lógica e fluem da imaginação solta que nasce nas quarentenas forçadas.

O status das ordens menores e do subdiaconato

ordens eclesiásticas

Tradução de um texto do Prof. Peter Kwasniewski:

Há uma questão crescente nos nossos dias: qual exatamente é o status das ordens menores (porteiro, leitor exorcista e acólito) no rito romano? Podemos acrescentar a essa lista a ordem maior do subdiaconato. A despeito de sua imensa antiguidade, o que deveria ter lhes dado amplo suporte na “reforma litúrgica” (elas são mais antigas que o tempo do Advento), as ordens menores foram abolidas na forma pela qual existiam antes (ou, pelo menos, assim pareceu a quase todos que viviam na época) por Paulo VI na sua Carta Apostólica Ministeria Quaedam de 1973. Mesmo assim, tanto as ordens menores quanto o subdiaconato nunca deixaram de ser conferidos num lugar ou noutro do orbe católico; e a frequência aumentou ainda mais graças à Ecclesia Dei de João Paulo II e ao Summorum Pontificum de Bento XV, no intuito de atender ás jovens vocações que fluem dos institutos religiosos tradicionalistas. Certamente temos uma situação estranha aqui.

Até onde entendo, há uma visão neoconservadora sobre o tema e uma “radtrad”. Continuar lendo

Vans da morte na China e o pós-Ocidente

Como o circo de horrores em torno da ditadura chinesa parece não ter fim, hoje tomei conhecimento das “vans da morte” existentes nesse país: veículos onde são efetivadas sentenças de execução por meio de injeções letais, sob a justificativa de que assim o ato é mais barato, humano e limpo. Vejam uma animação sobre o tema:

De início, pensei algo do tipo “coisa de comunistas”, “o partido comunista chinês (PCC) é um dos principais problemas deste século”, mas, em pouco tempo, notei como isso não difere do modo como as sociedades no que outrora foi o Ocidente lidam com a morte. A assepsia e distanciamento na maneira como esse momento é tratado tornam as vans do PCC como apenas outra faceta de um decaimento civilizacional que é mundial.

Veja-se, por exemplo, o “turismo de suicídio” que encontramos na Suíça, ou este caso no Canadá, no qual uma senhora de 90 anos, por não querer enfrentar um novo “tranca rua” no asilo em que vivia, pediu à família o suicídio assistido (ela morreu com seus parentes e amigos cantando músicas ao seu redor enquanto um “médico” aplicava uma injeção letal). Nada mais configurado para não atrapalhar a vidinha burguesa que somos levados a valorizar; nada mais configurado para logo esquecermos desse momento e voltarmos à rotina de ganhar e comprar, servindo a Mamon. O sofrimento não cabe na moldura com que se tenta enquadrar a realidade.

Assim, “nosso mundo” não difere muito daquilo que os comunistas chineses criaram e, portanto, não é de admirar que as mazelas permitidas pela Providência nos atinjam por igual.

Da fraqueza e ineficiência da democracia

“Os defeitos da democracia política como sistema de governo são tão óbvios, e têm sido tantas vezes catalogados, que não preciso mais do que resumi-los aqui. A democracia política foi criticada porque conduz à ineficiência e fraqueza de direção, porque permite aos homens menos desejáveis obter o poder, porque fomenta a corrupção. A ineficiência e fraqueza da democracia política tornam-se mais evidentes nos momentos de crise, quando é preciso tomar e cumprir decisões rapidamente. Averiguar e registrar os desejos de muitos milhões de eleitores em poucas horas é uma impossibilidade física. Segue-se, portanto, que, numa crise, uma de duas coisas tem de acontecer: ou os governantes decidem apresentar o facto consumado da sua decisão aos eleitores – em cujo caso todo o princípio da democracia política terá sido tratado com o desprezo, que em circunstâncias críticas ela merece; ou então o povo é consultado e perde-se tempo, frequentemente, com consequências fatais. Durante a guerra todos os beligerantes adotaram o primeiro caminho. A democracia política foi em toda a parte temporariamente abolida. Um sistema de governo que necessita de ser abolido todas as vezes que surge um perigo, dificilmente se pode descrever como um sistema perfeito.”

Aldous Huxley in “Sobre a Democracia e outros estudos”, 1927