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Teologia

Santo Tomás de Aquino hoje

santo tomás

Com o recente término do site O Indivíduo, o que vou postar aqui pode ser visto como uma relíquia: uma entrevista (12/2006 – achada no 4shared) conduzida por Pedro Sette Câmara com Omayr José de Moraes Junior (tradutor do Comentário ao Pai Nosso e do Comentário a Ave Maria – ou Comentário à Saudação Angélica – de Santo Tomás).

1. Os sacerdotes que testemunharam o Vaticano II tinham mais resistência a São Tomás do que os sacerdotes mais jovens. O estudo de São Tomás de Aquino pelos manuais e os males que isto trouxe.

2. Depois que a Igreja Católica de certo modo parou de dar tanta importância a São Tomás, os não-católicos, sobretudo os anglo-saxãos, sentiram-se “liberados” para estudá-lo.

3. Como alguém que nunca leu São Tomás deve se aproximar de sua obra? Qual o São Tomás mais acessível?

4. A estrutura da vida intelectual na Idade Média. O que São Tomás enfrentou para tornar-se professor. O confronto de pares e alunos.

5. A disputa medieval, o “torneio dos clérigos”. Disputas ordinárias e quodlibetais, sempre ao vivo, sem a possibilidade de voltar ao gabinete para procurar bibliografia.

6. São Tomás de Aquino é “multifacetado”. Mas que facetas são essas? Quais eram as expectativas que São Tomás precisava atender? São Tomás pregador, como bom dominicano. E, antes de tudo, um santo.

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Eclesiologia

A autoridade e a fé

citaçõesNa obra infelizmente inédita Considerações sobre o Novo Ordo Missae de Paulo VI de Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira (1970), o autor elenca inúmeras citações dos mais diferentes autores, antigos e contemporâneos, sobre a maneira de lidar com o Magistério papal. Vou postar algumas delas (dos autores antigos), dando, em certos casos, só a primeira das indicações bibliográficas. Essas citações poderiam ser usadas nos mais variados debates (da história do Papa Honório até uma discussão com sedevantistas), mas, aqui, elas têm a simples função de demonstrar que a maneira de tratar com o Magistério sempre foi mais viva do que supõem os que advogam um servilismo irracional.

São Roberto Bellarmino: “…assim como é lícito resistir ao Pontífice que agride o corpo, assim também é lícito resistir ao que agride as almas, o que perturba a ordem civil, ou, sobretudo, àquele que tentasse destruir a Igreja. Digo que é lícito resistir-lhe não fazendo o que ordena e impedindo a execução de sua vontade” (De Rom. Pont., lib. II, c. 29).

Caitano: “Deve-se resistir em face ao Papa que publicamente destrói a Igreja” (Victoria, Obras de Francisco de Victoria, pp. 486-487).

Papa Inocêncio III: “…somente pelo pecado que cometemos em matéria de fé, poderia eu ser julgado pela Igreja” (citado por Billot, Tract. De Eccl. Christi, tom. I, pp. 618-619).

Santo Tomás de Aquino, estudando o episódio em que São Paulo repreendeu a São Pedro, escreve: “…aos prelados (foi dado exemplo) de humildade, para que não recusem a aceitar repreensões da parte de seus inferiores e súditos; e aos súditos (foi dado) exemplo de zelo e liberdade, para que não receiem corrigir seus prelados, sobretudo quando o crime for público e redundar em perigo para muitos (…). A repreensão foi justa e útil, e seu motivo não foi leve: tratava-se de um perigo para a preservação da verdade e evangélica (…). O modo como se deu a repreensão foi conveniente, pois foi público e manifesto. Por isso São Paulo escreve: ‘Falei a Cefas’, isto é, a Pedro, ‘diante de todos’, pois a simulação praticada por São Pedro acarretava perigo para todos” (ad Gal., 2, 11 – 14, lect. III, nn. 83-84).

Cornélio a Lapide mostra que, segundo Santo Agostinho, Santo Ambrósio, São Beda, Santo Anselmo e muitos outros Padres, a resistência de São Paulo a São Pedro foi pública “para que desse modo o escândalo público dado por São Pedro fosse remediado por uma repreensão também pública” (ad Gal. 2, 11).

Cardeal Journet: “Os antigos teólogos (Torquemada, Caietano, Bañez), que pensavam, de acordo com o ‘Decreto’ de Graciano, que o Papa, infalível como Doutor da Igreja, podia entretanto pessoalmente pecar contra a fé e cair em heresia, com maior razão admitiam que o Papa podia pecar contra a caridade, mesmo enquanto esta realiza a unidade da comunhão eclesiástica, e assim cair no cisma (…). Quando axioma ‘onde está o Papa está a Igreja’, vale quando o Papa se comporta como Papa e chefe da Igreja; em caso contrário, nem a Igreja está nele, nem ele na Igreja (Caietano, II-II, 39, 1)” (L´Église, vol.II, pp. 839-840).

São Roberto Bellarmino sustenta que “o Papa herege manifesto deixa por si mesmo de ser Papa e cabeça, do mesmo modo que deixa por si mesmo de ser cristão e membro do corpo da Igreja; e por isso pode ser julgado e punido pela Igreja” (De Rom. Pont., lib. II, cap. 30, p. 420).

D. Guéranger: “Quando o pastor se transforma em lobo, é ao rebanho que, em primeiro lugar, cabe defender-se. (…) há no tesouro da Revelação pontos essenciais, que todo cristão, em vista de seu próprio título de cristão, necessariamente conhece e obrigatoriamente há de defender” (L´Anné Lit., festa de S. Cirilo de Alexandria, pp. 340-341).

Suarez: “(…) seria contrário à dignidade da Igreja obrigá-la a permanecer sujeita a um Pontífice herege, sem poder expulsá-lo de si; pois tal é o príncipe e o sacerdote, tal costuma ser o povo” (De Fide, disp. X, sect. VI).

Decretum de Graciano: “o Papa (…) por ninguém deve ser julgado, a menos que se afaste da fé” (Dublanchy, verbete “Infaillibilité du Pape”, no DTC, cols. 1714-1715).

Wernz-Vidal: “Os meios justos a serem empregados contra um mau Papa são, segundo Suarez, (…) a advertência ou correção fraterna em segredo ou mesmo de público, bem como a legítima defesa contra uma agressão quer física quer moral” (Ius Canon, vol. II, p. 520).

Santo Ivo de Chartres: “não queremos privar as chaves principais da Igreja de seu poder, (…) a menos que se afaste manifestamente da verdade evangélica” (P.L., tom. 162, col. 240).

Peinador cita e faz seu o seguinte princípio enunciado por São Tomás: “havendo perigo próximo para a fé, os prelados devem ser argüidos, até mesmo publicamente, pelos súditos” (Cursus Brevior Theol. Mor., tomus II, vol. I, p. 287).

Suarez: “(…) o Pontífice herético nega Cristo e a verdadeira Igreja; logo, nega também a si próprio e a seu cargo; logo está por isso mesmo privado desse cargo” (De Fide, disp. X, sect. VI, nº 2, p. 136).

Suarez: “E deste segundo modo o Papa poderia ser cismático, caso não quisesse ter com todo o corpo da Igreja a união e a conjunção devida, como seria (…) se quisesse subverter todas as cerimônias eclesiásticas fundadas em tradição apostólica” (De Caritate, disp. XII, sect. I, nº 2, pp. 733-734).

Guido de Vienne (Calisto II), São Godofredo de Amiens, Santo Hugo de Grenoble e outros bispos, reunidos no Sínodo de Vienne (1112), enviaram ao Papa Pascoal II as decisões que adotaram, escrevendo-lhe ainda: “Se, como absolutamente não cremos, escolherdes uma outra via, e vos negardes a confirmar as decisões de nossa paternidade, valha-nos Deus, pois assim nos estareis afastando de vossa obediência” (citado por Bouix, Tract. de Papa, tom. II, p. 650).

Papa Adriano II: “Honório foi anatematizado pelos Orientais; mas deve-se recordar que ele foi acusado de heresia, único crime que torna legítima a resistência dos inferiores aos superiores, bem como a rejeição de suas doutrinas perniciosas” (Adriano II, alloc. III lecta in Conc. VIII, Act. 7 – citado por Billot, Tract. De Eccl. Christi, tom. I, p. 619).

VI Concílio Ecumênico, sobre as cartas do Papa Honório ao Patriarca Sérgio: “tendo verificado estarem elas em inteiro desacordo com os dogmas apostólicos e as definições dos santos Concílios e de todos os Padres dignos de aprovação, e pelo contrário seguirem as falsas doutrinas dos hereges, nós as rejeitamos de modo absoluto e as execramos como nocivas às almas” (Denz.-Sch. 550).

Papa São Leão II: “Anatematizamos (…) Honório, que não ilustrou esta Igreja apostólica com a doutrina da tradição apostólica, mas permitiu, por uma traição sacrílega, que fosse maculada a fé imaculada” (Denz.Sch. 563).

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Crise Liturgia

Confirmação no rito paulino: exame das críticas tradicionalistas


Logo que tomei contato com a resistência ao hecatombe pós-conciliar, fiquei “inundado” com tantas informações, com tantas posições. Algumas delas, ao longo dos anos, vi que faziam sentido, outras, hoje, rejeito completamente.

Uma das que mais complicaram meu espírito foi saber que alguns tradicionalistas criticam a validade da Confirmação no rito paulino devido à nova forma do sacramento e devido à mudança da matéria em certos lugares (Índia, por exemplo). Nesta lista de itens destruídos do catolicismo no site Permanência lemos:

A Crisma muda de forma o que torna duvidosa a validade deste sacramento. Muitos bispos negligenciam a administração deste sacramento.

Pois bem, neste post vou trabalhar em cima disso, vendo o que faz e o que não faz sentido nessa crítica.

Um argumento inicial

Embora eu seja um admirador da luta de D. Lefebvre, tenho de advertir que, para mim, esse foi um dos grandes equívocos do arcebispo e seus filhos espirituais (e já debati isso com padres ligados à própria FSSPX).

Realmente, a maioria dos manuais de teologia, ao tratar da questão da forma do sacramento (Signo te signo crucis et confirmo te chrismate salutis, in nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti), diz que para a validade são essenciais as palavras Signo te e confrmo te (as demais para a liceidade), mas, ao mesmo tempo, apresentam a forma em alguns ritos orientais (que sempre foram consideradas válidas e, de fato, o são), como o bizantino: Signaculum doni Spiritus Sancti.

O Manual de Doutrina Católica por Boulanger (1927), por sua vez, explica:

Na Igreja grega, é mais breve a fórmula. O ministro pronuncia simplesmente essa palavras: “Eis o selo do dom do Espírito Santo”.

A Enciclopédia Católica (1913) relata que o próprio Tridentino preferiu não tocar nessa questão e o Magistério que o seguiu nunca duvidou da forma dos orientais. Vejamos o trecho da Enciclopédia:

This guarded language, so different from the definite canons on some of the other sacraments, shows that the council had no intention of deciding the questions at issue among theologians regarding the time and manner of the institution by Christ (direct or indirect institution), the matter (imposition of hands or anointing, or both), the form (“I sign thee”, etc., or “the seal”, etc.), and the minister (bishop or priest).

Sendo assim, sinceramente, acho um exagero afirmar que o sacramento é inválido devido à simples mudança da forma, pois embora a ela não seja mais a tradicional do Ocidente, não vejo como invalidar a do rito “reformado” sem dizer que a bizantina, por exemplo, é inválida, o que seria um absurdo.

É a forma paulina que está errada?

Depois de perceber que uma simples mudança na forma não era o bastante para invalidá-la, passei a achar que o problema estava na nova forma em si ou nas suas traduções.

Antes, um pequeno lembrete: Nosso Senhor só instituiu em detalhes o Batismo e a Eucaristia, de modo que mantida a relação entre determinável e determinante a Igreja pode modificar a matéria e a forma dos outros sacramentos (O Mistério dos Sacramentos, Mons. Teixeira Leite Penido).

Uma boa tradução da forma paulina seria: Recebe o selo do Dom do Espírito Santo.

Segundo a crítica tradicionalista tal forma não garantiria a relação entre determinável e determinante pois “receber o Dom do Espírito Santo” não especifica nada, já que isso também ocorre no Batismo e na Ordem.

Isso não é verdade. Se fosse, nem a forma bizantina, nem a latina primitiva seriam válidas. Embora hoje a expressão “dom do Espírito Santo” queira dizer muitas coisas, na Igreja primitiva se referia, em matéria litúrgica, ao significado do sacramento da Confirmação e como a “reforma litúrgica” caiu no erro do arqueologismo, tem-se que a forma atual é um espelho da forma ocidental antiga, análoga a bizantina, e plenamente capaz de garantir a relação entre determinável e determinante.

O problema está nas traduções?

Dando seguimento a minhas pesquisas sobre essa questão, passei a considerar, então, que o problema estava nas traduções de valor dúbio, como a brasileira: Recebe o Espírito Santo, Dom de Deus.

Ora, aqui se diz que o Espírito é o dom e não que se recebe um dom específico e mais, que se recebe o próprio Espírito, mas isso não é o bastante para especificar o significado do sacramento, pois se recebe o Espírito no Batismo e na Ordem também (esse, inclusive, foi um dos argumentos usados para se demonstrar a invalidade das ordens anglicanas).

Fiquei durante longo tempo com essa posição, considerando que as traduções, como a brasileira, era que invalidavam o sacramento, mas sempre com uma ressalva: submeter-me-ia a qualquer declaração magisterial sanando o assunto no futuro.

Mais um passo

Com o tempo, aprofundei as pesquisas sobre o tema e cheguei à conclusão que o cerne não está na expressão “dom”, mas na “Espírito Santo”.

Vamos por etapas.

Segundo Lwdwig Ott:

A forma da confirmação consiste nas palavras que acompanham a imposição individual de mãos, imposição que vai unida com a unção da fronte. (sentença comum)

Atos VIII, 15 e vários Padres (Tertuliano, Cipriano, Ambrósio) mencionam, juntamente com a imposição de mãos, uma oração pedindo a comunicação do Espírito Santo. Segundo Hipólito, o bispo recita primeiramente uma oração pedindo a graça de Deus, tendo as mãos estendidas sobre os confirmandos. A unção que segue depois e a imposição individual de mãos vão acompanhadas desta fórmula indicativa:

Ungueo te sancto oleo in domino Patre omnipotente et Christo Iesu et Spiritu sancto.

Na igreja latina aparece desde fins do século XII (Sicardo de Cremona, Huguccio) a fórmula corrente até a “reforma”:

N. eu te assinalo com o sinal da Criuz, e te confirmo com o Crisma da salvação, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém .

Entre os de rito bizantino, pelo menos desde o século V, a forma é:

Selo do dom do Espírito Santo.

Ela aparece pela primeira vez no sétimo cânon (inautêntico) do primeiro concílio de Constantinopla (381). O cardeal Bessarion comenta que ela é válida e equivalente à latina.

Tendo em vista o exposto, que retirei tanto de Ott quanto do DTC, vi que a essência da forma está, realmente, na recepção do Espírito Santo. Contudo, isso levava a outra questão:

– Se é assim, como unir essa noção ao fato da forma das ordens anglicanas ter se tornado inválida pelo fato de falar apenas na recepção do Espírito Santo? Se isso não define nada para as ordenações, por que define para as confirmações?

Na minha primeira tentativa de resolver esse ponto, como já disse, achei que a solução estava num complemento para a expressão Espírito Santo, tanto no rito de um sacramento quanto do outro (e na questão da Confirmação me concentrei na noção de “dom do Espírito Santo”).

Estudando mais, vi que a expressão “Espírito Santo” é bastante para uma confirmação, mas não para uma ordenação por não definir o grau da ordem que está sendo recebido e os poderes conferidos. Esse é o motivo da invalidade da forma das ordenações anglicanas (vale notar que mais tarde eles corrigiram esse problema, mas aí já era tarde, e que a isso devemos juntar a falta de intenção de fazer o que faz a Igreja).

Portanto, a forma “reformada” (inclusive na tradução imperfeita da CNBB) possuiria o necessário para garantir sua validade. Isso, contudo, não implicaria em que ela não pudesse ser criticada por ficar no limiar, constituindo um exemplo da presunção dos arqueologistas litúrgicos tão criticados por Pio XII.

Chegando a uma solução: significatio ex adjunctis

Nessa época também comecei a trabalhar em cima da problemática da Anáfora de Addai e Mari e nesse estudo acabei encontrando o arremate final para o que tinha concluído sobre a forma da Confirmação no rito paulino.

Sabemos que Nosso Senhor não determinou os ritos sacramentais em seus mínimos detalhes. Nesse contexto, definiu o tridentino que “a Igreja sempre possui o poder de estatuir ou de modificar, na dispensação dos Sacramentos – ficando-lhes salva a substância – o que ela julgar mais conveniente à utilidade dos fiéis ou à veneração dos próprios Sacramentos, segundo a diversidade dos tempos e lugares” (D. 931). Aduz o Concílio, à guisa de exemplo, a sagrada comunhão, que durante séculos foi distribuída sob as duas espécies e, depois passou a sê-lo, na Igreja latina, sob uma só espécie.

Vejam, por substância está incluída a presença da “forma” e da “matéria”. Não pode haver um sacramento sem “forma” ou “matéria” e ponto!

Respondem unanimamente os teólogos (não-modernistas!!!) que Jesus escolheu a “matéria” e a “forma” específicas do Batismo e da Eucaristia. À Igreja não será permitido batizar com outro líquido que não fosse água; nem consagrar pão de outro cereal, do que trigo. À Igreja não é permitido mudar a forma desses sacramentos (“Eu te batizo em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” e “Isto é Meu Corpo; Isto é (o cálice) do Meu Sangue”), embora palavras similares, em tese, pudessem ser empregadas validamente (mudar “batizo” por “lavo”) e estruturas gramaticais diversas também possam ser alvo de uma utilização válida (como na forma do batismo nos ritos orientais).

No caso dos outros sacramentos, a maior parte dos estudiosos ensinam que o Senhor determinou apenas genericamente a “matéria” e a “forma”, deixando à Igreja a escolha entre diversas, aptas a expressar o efeito sacramental que Ele tinha em vista (o rito se deve a Cristo, a sua organização à Igreja).

Mas elas sempre tem de existir!!!

De outro modo, podem “matéria” e “forma” sofrer certas variações, sem que variem as suas mútuas relações de significação. A escolha, pela Igreja, deste ou daquele elemento sensível, não afetaria em nada a substância do sacramento (que podemos entender como a significação eficaz que a instituição por Cristo imprime a um rito sensível), desde que fosse apenas um modo materialmente diverso de realizar a mesma vontade do instituidor.

Mas elas sempre tem de existir!!! Mesmo que não tão precisas elas tem de existir.

Vamos a um exemplo:

A forma da ordenação episcopal é um tanto vaga, tanto no rito “reformado” de Paulo VI, quanto no rito romano tradicional e nos orientais. O sentido dela, na verdade, é dado pelo conjunto das orações. A interpretação das frases depende da significatio ex adjunctis, ou seja, da significação derivada do contexto.

Uma forma não-vaga, mas válida, poderia ser:

Este padre, Oh Deus, precisa de uma promoção. Através da graça da Terceira Pessoa da Trindade, promova-o a bispo.

Ridículo, mas ilustra a idéia de que vaga ou precisa, tem de haver uma forma.

Uma forma precisa, por si só, atende ao necessário para a validade de um sacramento. É o caso de um batismo de emergência, onde só a forma “Eu te batizo…” é dita, sem nenhuma das orações complementares. Todavia, se as orações adicionais, que fazem referência poder salvífico do Batismo, forem ditas sem a forma, não há sacramento.

Uma forma não-precisa necessita do contexto para que suas palavras possam determinar a matéria.

Esse também é o caso da Confirmação no rito paulino. Mesmo levando em conta as traduções deficitárias, o que está em volta mostra, claramente, que se pretende crismar.

Exemplos de significatio ex adjunctis

Além de toda a cerimônia para a recepção do sacramento da Confirmação remeter a ele, as orações imediatamente anteriores a unção com o Crisma (pronunciadas pelo celebrante – regra geral um bispo) dizem (grifos meus):

Roguemos, caros irmãos e irmãs, a Deus Pai todo-poderoso, que derrame o Espírito Santo sobre estes seus filhos e filhas adotivos, já renascidos no Batismo para a vida eterna, a fim de confirmá-los pela riqueza dos seus dons e configurá-los pela sua unção ao Cristo, Filho de Deus.

Deus todo-poderoso, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, pela água e pelo Espírito Santo, fizestes renascer estes vossos servos e servas, libertando-os do pecado, enviai-lhes o Espírito Santo Paráclito; dai-lhes, Senhor, o espírito de sabedoria e inteligência, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de ciência e de piedade e encheios do espírito do vosso temor. Por Cristo, nosso Senhor.

Nos dois casos, está mais do que clara a referência à Confirmação e, desse modo, mesmo que a forma fosse tão vaga que em si mesma nada significasse, pelo contexto ela ganharia determinação o bastante para garantir a validade do sacramento.

Conclusão

Por tudo isso, considero a crítica tradicionalista à forma da Confirmação no rito paulino sem fundamento sólido.

Para que a dúvida sobre a validade da forma do sacramento seja admissível, não se pode começar pedindo que a própria Igreja prove que o é (pois a presunção é sempre de que ela está certa), mas é necessário levantar argumentos fortes e amplos o bastante que sustentem a dificuldade suscitada (como foi feito em relação a aprovação da Anáfora de Adai Mari). Se D. Lefebvre, como contam alguns, apresentou tais argumentos aos cardeais em Roma, seria bom divulgá-los, pois uma coisa não pode ser inválida (por falta de certa palavras) no rito ocidental e válida num oriental (pode-se questionar a legitimidade, mas não a validade), a não ser se deseje cair num legalismo etnocentrista.

Eu mesmo, na busca pelo correto, parti de um início equivocado, querendo, de todo modo, mostrar que a crítica tradicionalista é que estava certa. Mas no fim a verdade se impôs. Todavia, para muitos que fazem a inversão que fiz e não procuram pesquisar mais, o erro é que fica tomando o lugar da verdade. Daí o cuidado com que se deve levantar críticas.

Agora, tenho de dizer claramente, D. Lefebvre e D. Mayer levantaram tal dúvida na melhor das intenções, pois eram zelosos pastores de almas e estavam baseados em Santo Tomás (só que o Doutor Angélico – e a escolástica – tinha fontes restritas para a avaliação da Crisma; alguns, inclusive, acham que ele pensava que os orientais sequer tinham tal sacramento – confusão que eu reputo derivada do fato de que nos ritos orientais a confirmação se faz após o batismo, havendo, para quem não conhece, um confusão entre as unções exorcísticas e a unção do Crisma). Os grandes culpados são os que fizeram uma “reforma” que não foi reforma, mas fabricação, e que não explicaram devidamente os fundamentos dela segundo os critérios católicos de sempre.

E a matéria?

oleocrismaNa mesma época em que me digladiava na dúvida sobre a validade do sacramento da Crisma no rito paulino por causa da mudança na forma, li a seguinte notícia (divulgada pelo serviço de notícias da Conferência Episcopal da Índia em 2005):

Cochim – A Igreja Siríaca Malabar Católica introduziu alterações nos ritos dos cinco sacramentos do batismo, confirmação, matrimônio, unção dos enfermos e confissão. Os líderes da Igreja dizem que as novas mudanças litúrgicas levarão a Igreja Oriental a mover-se em uma nova direção espiritual.

De acordo com um comunicado divulgado pelo Arcebispo-Maior da Igreja Siro-Malabar, Varkey Cardeal Vithayathil, o novo sacramentário entrou em vigor em todas as paróquias e dioceses a partir de 6 de janeiro. O bispo auxiliar Sebastian Adaynthrath, da diocese de Ernamulam Angamaly, que encabeçou a comissão litúrgica que propôs as novas regras sacramentais, disse que as mudanças ajudariam a Igreja a “indianizar-se em uma nova direção”.

Ele disse que as alterações litúrgicas foram finalizadas após uma longa rodada de discussões envolvendo todos os bispos, teólogos, clérigos e líderes leigos da Igreja.

De acordo com os ritos emendados, o batismo e a confirmação ocorrerão conjuntamente, pois ‘o nascimento e o crescimento são inseparáveis’. Eles eram celebrados em separado anteriormente. O termo confirmação sera substituído por ‘crisma’, pois crisma significa óleo sagrado.

A Eucaristia, geralmente dada na idade de sete ou oito anos, sera igualmente dada no momento do batismo e crisma.

O novo sacramentário reintroduz a unção pré-batismal e autoriza que um padre abençôe os santos óleos usados no batismo, o que anteriormente era feito apenas pelo bispo.

O costume de se usar apenas o azeite da oliveira também foi alterado. Qualquer óleo vegetal, inclusive óleo de coco, pode agora ser usado. Os padres agora dirão “tu estás batizado”, ao invés de “eu te batizo”.

O óleo da unção dos enfermos também poderá ser abençoado por um padre. Até agora, apenas os bispos tinham esse privilégio.

Durante a confissão, os padres agora dirão “Estás perdoado”, ao invés de “Eu te absolvo”.

Os matrimônios também passarão por uma mudança, de acordo com o novo sacramentário. A Igreja agora permitirá a troca de guirlandas de flores entre os noivos, como ocorre nos casamentos hinduístas. O padre que celebrar o matrimônio abençoará as guirlandas.

Só um adendo: na época, lendo a notícia original, notei que havia um erro de tradução, pois no documento é dito “The custom of using only olive oil has also been changed. Any vegetable oil, including coconut oil, can be used for baptism from now.”, ou seja, para ser fiel ao texto, temos de admitir que por ele apenas os ritos suplementares do batismo é que poderiam ser feitos com algum óleo diferente do de oliva.

De qualquer forma, fiquei chocado, já que isso torna possível que outro óleo, que não o de oliva, seja usado na Crisma e na Unção dos Enfermos.

Para mim, portanto, a Igreja Siríaca Malabar Católica, no intuito de inculturar-se, teria aberto a possibilidade de invalidade de um sacramento e caia no erro do “arqueologismo litúrgico” (condenado por Pio XII) ao adotar práticas antigas com muita vantagem superadas (como administrar de uma vez o Batismo e a Confirmação) e esconder sua própria história (deixando de adotar a forma latina do batismo pela oriental).

É como seu quisesse negar que parte da minha família teve escravos até a Lei Áurea ou um viciado em drogas negar que não tem um problema. Fugir da realidade é sempre o começo de algo que não vai ter um bom fim. O romantismo era isso e ele criou o ambiente psicológico que fez fruticar os delírios totalitários que mataram milhões no século passado.

Só que o detalhe é: não há nada de errado com a herança cultural latina da Igreja Siríaca. Inclusive, parte dessa herança cultural também é comum a nós, brasileiros e demais lusófonos, pois, durante muitos anos, os missionários de origem portuguesa tiveram atuação marcante entre os “cristãos de São Tomé”. Se podia haver um ou outro exagero, também não se pode ignorar 500 anos de história eclesial. Não vamos voltar ao 1000! Gostem ou não a história deles foi essa e ponto!

Refletindo, contudo, de forma mais apurada sobre essas mudanças, em especial com os dados que colhi para a análise da mudança da forma no Ocidente, vi que, embora se possa manter a crítica à inculturação e à deslatinização, não se pode sustentar que a validade do sacramento da Confirmação (ou da Unção dos Enfermos) fique afetada pela mudança da matéria (de óleo de oliva para outros óleos vegetais).

É verdade que na maioria dos documentos eclesiais (como o Decreto sobre os Armênios, do Concílio de Florença) ou livros de teologia temos que o óleo (com bálsamo) é a matéria remota da Confirmação e que por “óleo” se considera “óleo de oliva”, mas esse dado tem de se subordinar ao entendimento, também tradicional, de que a Igreja pode mudar o determinante e o determinável dos sacramentos (menos no caso do Batismo e da Eucaristia), de modo que passar de óleo de oliva para óleo de coco ou mesmo, numa hipotese maluca, para “caldo de galinha”, não invalidaria o sacramento citado (supondo que a significação eficaz seja mantida).

Claro que considero tal alteração fruto do orgulho desses inculturadores sem critério, mas, de fato, ela não tem as conseqüências graves que achei que poderia ter.

OBS: A possibilidade de escolher outros óleos vegetais que não o de oliva foi dada por Paulo VI às conferência episcopais.

Bibliografia

Além das obras já citadas aqui (Ott, DTC, O Mistério dos Sacramentos) e as que estão no post deste blog sobre a Anáfora de Addai e Mari, usei de maneira especial na reflexão os seguintes livros:

Manual de Teologia Dogmática, de J. Bujanda S. J., Porto, 1958.

Teologia Moral, Pe. Teodoro Torre del Greco O. F. M. Cap., São Paulo, 1959.

Doutrina Catholica: Meios de Santificação e Liturgia, Boulanger, São Paulo, 1927.

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Ética e moral Bíblia Pastoral

"A Bíblia ensina…" – análise das passagens da Escritura Sagrada associadas à homossexualidade

bib gayFazendo eco à postura que tenho no Orkut, onde nunca temi tocar em temas doutrinários polêmicos, mas sempre refletindo segundo os parâmetros católicos (Revelação + Magistério + vida dos Santos), acho que uma análise dos trechos bíblicos ordinariamente associados a homossexualidade/homossexualismo é uma necessidade.

Por que é uma necessidade?

Por dois motivos:

1) Hoje em dia temos, refletindo o modernismo católico e o liberalismo protestante, uma linha de exegetas que se rendeu “ao século”, que adota uma visão naturalista, cientificista e historicista da Bíblia, sempre buscando fissuras na Sagrada Doutrina para justificar os mais variados desregramentos que são comuns na existência humana e que foram amplificados na nossa triste época afastada de Deus.

2) Como reação aos exageros da exegese modernista-liberal e por influência do evangelicalismo norte-americano, ganhou corpo nos meios tradicionalistas, neo-conservadores ou carismáticos da Igreja uma leitura literalista da Escritura, completamente contrária à postura clássica católica.

Esses dois grupos se batem como cegos (não conseguem enchergar a luz da Verdade) no meio das reivindicações do movimento homossexual. São incapazes de responder satisfatoriamente, ou seja, teologicamente, às questões levantadas; suas respostas ou parecem uma rendição de quem acredita em algo completamente irracional ou frias e fechadas em si mesmas.

Vou tentar quebrar isso! Deus me ajude.

Agora, preliminarmente, a leitura de tudo que eu escrever aqui tem de ser na perspectiva destes dois pontos:

1) O exame de trechos específicos não deve interferir na noção de que o verdadeiro sentido da Sagrada Escritura só pode ser tomado na análise sistemática dela e em consonância com a Sagrada Tradição.

2) Nada do que for dito aqui deve ser interpretado num sentido mais laxista ou rigorista do que aquilo que a Igreja já definiu sobre o assunto e que está devidamente exposto no Catecismo.

Geralmente são mencionadas cerca de 15 passagens:

Gênesis I, 27-28 e II, 18-25

Dois relatos da criação do primeiro homem e da primeira mulher.

Gênesis XIX

A história de Sodoma e Gomorra.

Juízes XIX

Registra uma história dos dias em que Israel colonizara a terra de Canaã, mas ainda não tinha um rei.

Levítico XVIII, 22 e XX, 23

Preceitos do assim chamado Código da Santidade referentes à moralidade sexual.

Deuteronômio XXIII, 17

Uma proibição no sentido de que “os filhos de Israel” não se tornassem prostitutos do Templo.

I Reis XIV, 24; XV, 12; XXII, 47 e II Reis XXIII, 7

Relatos sobre a instalação e abolição da prostituição no Templo em diversas épocas durante o período da monarquia.

Romanos I, 18-32

Uma reflexão sobre a ira de Deus contra a “impiedade e maldade” da humanidade.

I Coríntios VI, 9-11

Um alerta de que “malfeitores não herdarão o Reino de Deus”.

Efésios V, 33

A relação matrimonial ideal.

Judas VII

Uma referência a Sodoma e Gomorra.

Nenhum dos profetas do Antigo Testamento fez qualquer referência a relações entre pessoas do mesmo sexo.

Embora essa lista possa impressionar a uma primeira olhada, na verdade, comparado com outros assuntos, como a injustiça ou a cobiça, os textos bíblicos que tratam a questão homossexual são relativamente poucos. É sintomático também que importantes dicionários (Vocabulário Bíblico, de Leon-Dufour) e importantes estudos bíblicos (A mensagem moral do Novo Testamento, de R. Schnackenburg) nem apresentem o termo homossexualidade. Em si nada há de surpreendente na parcimônia da Bíblia, pois ela não é um catálogo de proibições, e muito menos se destina a dar resposta pronta para todos os problemas de todos os tempos (ela até dá resposta, mas não diretamente).

O que causa surpresa é o completo silêncio de Nosso Senhor Jesus Cristo. E este silêncio do Cristo é ainda mais surpreendente quando se sabe que a prática do sexo homossexual, por influxo do mundo helênico, estava presente na sociedade judaica da época e era veementemente condenada pelos rabinos. O silêncio, no caso, não significa consentimento (como querem certos modernistas), mas sugere, antes, uma postura mais global. Trata-se de uma verdadeira revolução na maneira de enfocar todos os problemas. Jesus não se pergunta propriamente pelo que as pessoas são no momento, se são santas ou pecadoras. O que importa para o Divino Mestre é que estejam dispostas a abrir os olhos para divisar os vastos horizontes da vida que Ele oferece para todos. A partir desses novos horizontes, até as pedras podem se transformar em filhos de Abraão e até uma prostituta pode transformar-se em primeira mensageira da Ressurreição.

Vou seguir a postura de Cristo neste texto.

Gênesis I, 27-28 e II, 18-25

Muito mais que os textos de São Paulo ou o relato sobre Sodoma (passíveis de um exegese liberal), o que encontramos na história da criação, para mim, é o principal ponto no que se refere a considerar as relações homossexuais (mesmo as que subjetivamente perfazem o ideal ético de oblatividade) como desviantes.

No Gênesis fica bem claro qual o o desejo do Senhor e tal desejo perfaz o fim objetivo a que tudo deveria se subordinar. Explica o Pe. Lodi:

Como coroamento de sua obra, Deus fez o homem “à sua imagem”. E o fez “varão e mulher”. Prossegue a Escritura: “Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a” (Gn 1, 27-28). Esta passagem encerra a um dos fins da diferenciação sexual: a procriação. Será esta a única razão pela qual Deus criou dois sexos na espécie humana? Não. Homem e mulher são diferentes também para que se possam completar mutuamente. O isolamento do homem é descrito pelo Gênesis como um mal: “Não é bom que o homem esteja só. Vou fazer-lhe uma auxiliar que lhe corresponda” (Gn 2,18). Ao ver a mulher, tirada de seu lado, o homem exclama exultante: “Esta sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne!” (Gn 2,23), ao contrário dos irracionais, que sendo inferiores a ele em natureza, não lhe podiam servir de companhia adequada. A união sexual é descrita no versículo seguinte: “Por isso um homem deixa seu pai e sua mãe, se une a sua mulher, e eles se tornam uma só carne” (Gn 2,24).

Aí está, de maneira magnífica, descrita a instituição do matrimônio e seu duplo fim: a geração da vida e a complementação dos cônjuges. Por natureza, homem e mulher são diferentes e complementares. O que falta no homem, sobeja na mulher e vice-versa. Daí sua atração mútua e a tendência de formar uma união estável e perpétua, apta à procriação e à educação da prole.

Esse explicação nos remete ao dever ser e é o que, de fato, torna heterodoxas quaisquer tentativas de trabalhar a homossexualidade como se ela fosse um bem em si mesma.

Não é a toa que onde esse tipo de perspectiva foi esquecido ou contestado, seja dentro da Igreja (jesuítas), seja fora dela (parte da Comunhão Anglicana), todas as outras referências negativas ao comportamento homossexual acabem se relativizando ou deixando de existir. E, após muito estudo, vi que essa é uma conseqüência lógica necessária mesmo. Sem o entendimento de que há um fim objetivo que representa o ideal, qualquer outra alegação nesse campo perde seu sentido de ser.

Agora, dito isso, cabe notar que a presença da homossexualidade no mundo é tão objetivamente desviante quanto a existência da miopia ou de cabelos brancos. Provavelmente essa declaração deve ter impressionado alguns, mas é assim mesmo. Sempre me pareceu um tanto estranho como algumas pessoas enchem a boca para dizer a um homossexual que “seu comportamento é uma desordem objetiva”, mas não percebem que tudo que não se adequa àquilo que Deus queria lá no Paraíso também o é. O fato de termos doenças, de “tudo cair” quando envelhecemos, de precisarmos tomar banho para não feder, etc., tudo isso é desordem objetiva!

Refletir assim, embora jamais leve a uma justificativa da homossexualidade como ideal, ajuda a por as coisas no seu devido lugar e a tratar os problemas humanos sem exageros e neuroses (que, no mais das vezes, são o resultado de falta de amor mesmo ou projeção).

É digno de nota que no mais antigo dos relatos (Gênesis II), a relação entre Adão e Eva é descrita no sentido de destinar-se ao seu companheirismo total. Isso mostra como, em termos subjetivos, a partir do companheirismo, podemos ter relacionamentos homossexuais mais exemplares que um heterossexual, assim como podemos ter relacionamentos de casais “em segunda união” mais exemplares que relacionamentos sobre o manto do sagrado matrimônio. O que a maioria não entende hoje é que nada disso muda aquilo que deveria ser e que considerar o dever ser é o primeiro passo numa reflexão sobre a moral.

Eu não tenho problemas em lidar com essa tensão entre o ser e o dever ser e fazer julgamentos concretos no campo da moralidade a partir de tal constatação. Mas muita gente parece não lidar bem com isso, talvez um reflexo da antiga teologia manualística ou de medo irracional mesmo (homofobia)… não sei.

O que falta na teologia de categorias abstratas é um mínimo de comoção pastoral com as pessoas concretas que vivem esse drama. Por isso, a maioria dos autores atuais, admitem a distinção entre moralidade objetiva, formulada em termos de malícia intrínseca e pecado gravo, e a moralidade subjetiva, na qual admitem uma grande margem de diminuição de culpa.

Portanto, podemos dizer que no Gênesis temos a principal referência bíblica sobre o tema deste post.

Gênesis XIX – Sodoma

Já há algum tempo venho refletindo sobre a passagem que trata do castigo de Sodoma. Nesse tempo em que venho estudando a questão da homossexualidade retornei várias vezes a Gênesis XIX. Recentemente, relendo todo o Pentateuco a partir da Bíblia de Jerusalém, tive nova oportunidade de pensar sobre o castigo dos habitantes de Sodoma a partir dos referenciais católicos para a exegese.

Inicialmente, eu era um radical, que repetia o lugar comum: “é evidente que os sodomitas foram condenados por seu homossexualismo, uma abominação anti-natural que clama aos Céus por vingança”. Depois, fiquei negativamente impressionado com a exegese que certos liberais davam a esse episódio, dizendo que a questão ali era a hospitalidade e o estupro coletivo, e procurei combatê-la. Mais tarde, comecei a estudar mais e mais essa nova linha exegética, em especial depois que descobri que autores católicos de grande honestidade intelectual e com uma Fé verdadeira a levavam em conta, e cheguei mesmo a pensar que ela era a mais coerente. Graças a Deus isso foi um lapso que passou bem rápido, pois eu não poderia levar em conta a exegese liberal e esquecer o que a Igreja já disse sobre o assunto, isso seria livre-exame.

Qual então o estado da questão ao se fazer uma leitura sem preconceitos (conceitos prévios), mas levando em conta o que já foi dito sobre o tema? É isso que vou tentar enfrentar agora.

Primeiramente, como falei, sempre foi divulgado que a destruição de Sodoma (e Gomorra) tinha relação com o homossexualismo. Isso não pode ser negado pelo católico (Congregação para a Doutrina da Fé, Carta aos bispos da Igreja Católica sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais, 1987, n. 6).

Contudo, uma leitura sistemática, que leva em conta o que veremos sobre Juízes XIX e o que temos em Gênesis XIII, 13, que aponta para a maldade em geral dos habitantes de Sodoma, mostra que o pecado sexual no episódio que estamos abordando é mais um instrumental que o fim em si mesmo.

Ezequiel XVI, 49 deixa isso explícito:

Eis qual foi a causa da iniqüidade de Sodoma, tua irmã: a soberba, a fartura de pão e a abundância, a ociosidade dela e de suas filhas, e o não estender a mão para o pobre indigente.

Outros textos veterotestamentários, lidos no seu contexto, aludem muito mais a essa maldade geral que a qualquer pecado puramente sexual (Isaías I, 9 e III, 9; Jeremias XLIX, 18; Amós IV, 11; Sofonias II, 9).

Em Isaías I, 10-20 temos:

Ouvi a palavra de Iahweh, chefe de Sodoma, prestai atenção à instrução do nosso Deus, povo de Gomorra! Que me importam os vossos inúmeros sacrifícios?, diz Iahweh. Estou farto de holocaustos de carneiros e da gordura de bezerros cevados; no sangue de touros, de cordeiros e de bodes não tenho prazer. Quando vindes à minha presença quem vos pediu que pisásseis meus átrios? Basta de trazer oferendas vãs: elas são para mim incenso abominável. Lua nova, sábado e assembléia, não posso suportar falsidade e solenidade! Vossas luas novas e vossas festas, minha alma detesta: elas são para mim um fardo; estou cansado carregá-lo. Quando estendeis vossas mãos, desvio de vós meus olhos; ainda que multipliqueis a oração não vos ouvirei. Vossas mãos estão cheias de sangue; lavai-vos, purificai-vos! Tirai de minha vista vossas más ações! Cessai de praticar o mal, aprendei a fazer o bem! Buscai o direito, corrigi o opressor! Fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva! Então, sim, poderemos discutir, diz Iahweh: Ainda que vossos pecados sejam como escarlate, torna-se-ão alvos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim torna-se-ão como a lã. Se quiserdes obedecer, comereis o fruto precioso da terra. Mas se vos recusardes e vos rebelardes, sereis devorados pela espada! Eis o que a boca de Iahweh falou.

No texto fica claro um problema geral de maldade e o fato dele estar inserido numa parte de Isaías que trata da ingratidão é mais um reforço para essa percepção.

As duas referências do Novo Testamento encontram-se em Judas VII, um texto um tanto obscuro, acenando para uma espécie de comércio carnal entre seres humanos e anjos, e II Pedro II, 6-10, indicando a libertinagem geral.

Desse modo, o texto sobre Sodoma aponta mais para a violação da hospitalidade que para qualquer outra coisa. Afinal, se fosse pela questão da castidade, o fato de Ló querer dar suas duas filhas virgens em lugar dos anjos (que os habitantes de Sodoma não sabiam que eram anjos) para serem estupradas seria de uma contradição bem maluca (o paralelo do que temos aqui com que está em Juízes não é uma mera coincidência).

Pode-se pensar, também, numa certa correlação entre a rejeição do estrangeiro e a rejeição da alteridade. Na compreensão bíblica, o reconhecimento da diferença sexual descentraliza o sujeito de si mesmo e lhe mostra seus limites; já o desconhecimento desta diferença ameaça aprisionar a pessoa no círculo encantado e mortal de si mesma, ou seja, promove a idolatria (por isso o Código da Santidade, que veremos em Levítico, aborda o tema).

A principal falha dos novos “exegetas”, então, é não levar em conta que um pecado tem relação com outros. Assim como a prática heróica de uma virtude geralmente leva à prática das outras virtudes, ficar obstinadamente num pecado leva o pecador a cair em outros pecados relacionados por natureza ou circunstância.

Realmente, os habitantes de Sodoma caíram na falta de caridade e hospitalidade, glutonaria e imoralidade geral. Contudo, isso não permite concluir que o homossexualismo não é pecaminoso como querem alguns (atentem para a palavra “pecaminoso”!).

Cornélio a Lapide, grande estudioso católico da Bíblia (se não o maior, pelo tamanho de seu trabalho e pela fidelidade à Igreja), ensina-nos (a tradução é minha e, portanto, deve ter problemas) :

O primeiro entre os vícios de Sodoma é o orgulho. Em seguida a fartura do pão, ou melhor de comida, comidas delicadas, banquetes. Em terceiro, a abundância de bens, de luxo e prazer. Em quarto, preguiça. Em quinto, falta de misericórdia…

Ouçamos São Jerônimo: “Arrogância, fartura de pão, a abundância de todas as coisas, preguiça, prazeres, esses foram os pecados de Sodoma. Por causa deles, eles esqueceram de Deus, pois a presença contínua de riquezas parece perene e então não há necessidade de recorrer a Deus para obtê-las.” (…) Por isso, nós encontramos primeiro orgulho entre os pecados de Sodoma. Então Deus castiga os orgulhosos, permitindo que eles caiam numa grande e ignomiosa luxúria, como pode ser deduzido de Rom. 1, 27… Também, a gula levou a queda de Sodoma, pois é a matéria pela qual a luxúria nasce. São Jerônimo diz: “A lava dos vulcões Etna, Vesúvio ou Olimpo não faz os jovens queimar de luxúria, mas o vinho e pratos delicados.” (…) Sobre a preguiça, São João Crisóstomo diz: “Preguiça ensina toda a malícia.”

(…)

Quinto, falta de misericórdia, que foi a causa da luxúria dos sodomitas: então aqueles que são cruéis com os outros são também cruéis com sua própria natureza, violando as leis da geração. Os que são cruéis com seus vizinhos e coisas como seu sustento ou mesmo sua vida, também são cruéis com seus corpos, abusando deles libidinosamente. Assim, os sodomitas que eram cruéis com seus convidados e com os peregrinos (neste caso os anjos que assumiram corpos humanos e se apresentaram como peregrinos a Lot) queimam de desejos maus (Gen. XIX, 5). Falta de misericórdia e crueldade fazem, então, que aqueles que são cruéis não respeitem nem a modéstia nem a reputação, o corpo, ou a vida do vizinho, especialmente estranhos e peregrinos. Em substituição, eles os tratam como seus, como comida para suas lascívias – algo vil e sem valor.

Como se observa, a interpretação que vê no homossexualismo um instrumental para a maldade não é um exemplo de “modernismo laxista”, mas, acima de tudo, um fruto do comprometimento com a verdade.

Quais as conseqüências disso tudo?

A primeira, como já ressaltei, é que tomar o caso de Sodoma como o principal na rejeição da prática homossexual como ideal é um equívoco. O relato da criação cumpre muito mais esse papel.

A segunda é saber que se for para considerar a questão da castidade como o principal aqui, então, por analogia, teremos de considerar que as chicotadas nas costas de Nosso Senhor são piores do que aquilo que as motivou (a impiedade geral que levou ao não reconhecimento do Messias). Uma pessoa inteligente não pode fazer isso.

A terceira é que a tentativa de relações homossexuais aqui não tem nada haver com uma homossexualidade estrutural.

Uma questão mais sutil, mas associada, é a avaliação daquele preceito catequético sobre os pecados que clamam ao Céu por vingança que diz: “Pecado sensual contra a natureza”. Algumas pessoas gostam de ver aqui a “sodomia” (sexo anal), mas, supondo que estivessem certas, associar isso a homossexuais seria um erro, já que existem homossexuais masculinos que não fazem sexo anal (sobre as lésbicas nem se fala) e heterossexuais que o fazem. Todavia, não é isso que o texto diz; ele, numa referência a exegese nem sempre aprimorada da Escritura, sobre episódios como o de Sodoma e o de Onan (Gênesis XXXVIII, 4-10 – equivocadamente associado à masturbação), trata de qualquer pecado (e pecado, ou seja, a um comportamento que preencha todas as condições para o pecado mortal) contra a natureza no âmbito sexual: masturbação, homossexualismo, coito interrompido, bestialismo, etc.

Sendo assim, considero que focar o episódio de Sodoma e Gomarra só no homossexualismo é um reducionismo.

Juízes

No capítulo XIX desse livro temos um texto que também é associado a questão da homossexualidade. Considero isso uma maluquice.

O que temos aqui é um relato chocante sobre um crime. Um levita que ia para casa com seu servo e sua concubina acaba tendo de passar uma noite na cidade benjamita de Gabaá. Nessa cidade os habitantes faltam gravemente com a lei da hospitalidade. O levita salienta a ironia de sua situação: ele, que tem acesso à cada de Javé, não encontra ninguém para acolhê-lo.

Ele acaba encontrando um conterrâneo que vive entre os benjamitas e este lhe oferece asilo. À noite, aparecem uns vagabundos querendo manter relações sexuais com o levita (é aqui que alguns associam esse episódio com homossexualismo). O levita acaba dando sua concubina para eles a “conhecerem” e está acaba sendo morta e disso deriva uma série de conseqüências que representa bem a mentalidade da época (de punição coletiva).

O que temos aqui não é um caso de homossexualismo, mas de estupro. A vítima, afinal de contas, é uma mulher! Não importa se tal ato é cometido por héteros, gays ou bissexuais, o estupro é errado e é isso que o episódio nos passa.

Uma coisa estranhíssima na exegese que vê aí um caso de “abominação homossexual” é que ela não atenta para o fato de que o levita dá sua concubina para ser estuprada!!! Querer condenar relacionamentos homossexuais livres e estáveis com base num episódio de estupro e não tirar nenhuma conseqüência do fato de uma mulher ser usada como objeto é uma completa doideira. É preciso ter muito, muito, muito preconceito (no sentido literal da palavra) para ver nesse episódio uma lição moral sobre a homossexualidade. É preciso muito, muito, muito preconceito para ficar picotando da Escritura segundo um dado cultural prévio para aplicar, sem mais nem menos, o Antigo Testamento para os homossexuais e não fazer isso, na mesma medida, para as mulheres. Pois se desse trecho se tirar alguma lição sobre a homossexualidade, também teremos de tirar sobre a mulher (que ela não passa de uma coisa na mão do marido).

Desse modo, Juízes não apresenta nenhuma lição verdadeira sobre a sexualidade humana.

Deuteronômio, Reis, Efésios e Judas

As referências citadas de Deuteronômio e dos dois livros de Reis referem-se todas à prostituição cúltica no Templo, que era uma característica da religião cananéia contra a qual os israelitas foram repetidamente advertidos. Essas condenações e proibições, seja da prostituição heterossexual, seja da homossexual, evidentemente nada significam no tocante a relações de longo prazo de qualquer tipo.

O versículo citado de Efésios refere-se à afirmação da relação entre Cristo e seu corpo, isto é, a Igreja, e a relação entre marido e mulher. O escritor sagrado não menciona aqui qualquer outra espécie de relação humana, e caso daí se queira concluir – como fazem alguns – que a relação marido-mulher é a única possível para cristãos, a conseqüência seria considerar o celibato tão pecaminoso quanto um relacionamento homossexual.

A passagem em Judas usa Sodoma (como fizeram todos os principais profetas e Jesus) como ilustração da destruição que inevitavelmente sucede ao pecado. O escritor não menciona “desejos sexuais não naturais” como um dos pecados de Sodoma. É necessária considerável carga de juízo prévio para encará-la como referência ao que atualmente conhecemos como relações homossexuais.

Levítico

Os textos do Levítico direta ou indiretamente ligados ao comportamento homossexual aparecem na seção desse livro conhecida como Código da Santidade, que estabelece como o comportamento dos israelitas, enquanto povo eleito de Deus, deveria distinguir-se daquele de outras nações.

Nessa via de santidade, relações homossexuais entre homens estavam proibidas. A razão por que não se mencionam mulheres (sugerem os estudiosos) é que se acreditava naquela época que a fonte total da vida vinha do homem, sendo que a mulher servia apenas de receptáculo no qual a semente se desenvolvia em nova vida. Numa pequena nação, cercada de poderosos vizinhos e almejando o crescimento, qualquer ação na qual as sementes de possível nova vida fossem desperdiçadas tinha de ser declarada pecaminosa.

Os liberais usam isso para tentar desqualificar o valor do que temos em Levítico, como se ele fosse um mero fruto da cultura do momento. Em certo sentido isso é até verdade, pois é evidente que a inspiração passou por uma filtragem cultural mas a conseqüência de saber disso não é jogá-la fora e sim descobrir o sentido espiritual profundo.

Mas vamos por partes.

O grande problema que aparece no Código da Santidade, em especial para quem se esqueceu como a Igreja lê a Bíblia (hereges modernistas e protestantes de um lado e rigoristas neo-conservadores, carismáticos e tradicionalistas do outro), é tomar os versículos que tratam da homossexualidade como algo sobre o qual não se pode fazer nenhuma reflexão e, ao mesmo tempo, ignorar os adjacentes, ou, por causa dos adjacentes, ignorar os que se referem a relações homossexuais.

Um falso dilema.

Os rigoristas, que gostam de citar o Levítico como algo autoritativo em si mesmo, costumam insistir em que pessoas que apresentam o comportamento que estamos analisando precisam ser tratadas com amor e compaixão e receber apoio num processo de mudança (é interessante como muitos, por baixo dos panos, não se furtam de encher a boca para falar “viados” em tom de ameaça). Entretanto o livro declara explicitamente que as pessoas que praticam o sexo com um igual precisam ser executadas.

Os liberais, por sua vez, observam a contradição (verdadeira) de que outras partes do Código de Santidade proíbem toda uma série de outras coisas que, ao que sei, não são levadas a sério por qualquer católico com a cabeça no lugar – por exemplo, comer carne contendo sangue, usar roupa feita de dois tipos de fibra ou designar para o sacerdócio alguém que tenha qualquer defeito físico, mesmo que seja uma sobrancelha torta.

Tudo isso, inevitavelmente, levanta a seguinte questão: como é possível determinar que um versículo deve ser considerado como tendo autoridade divina, ao passo em que se rejeita vários outros como sendo inaplicáveis para nós hoje? Resposta: lendo a Sagrada Escritura da maneira católica, isto é, sistematicamente e em conjunto com a Santa Tradição.

Por essa leitura, por exemplo, é que sabemos que a masturbação não faz parte do ideal cristão de santidade. Não há nenhuma passagem bíblica sobre ela, Jesus não falou nada contra a masturbação!!! e, mesmo assim, ela é alvo de proibição. Por quê? Porque não se adequa àquilo que se tira da visão sistemática da Escritura (uma sexualidade objetivamente regrada – visando a reprodução – e dentro do matrimônio) e dos princípios que o Divino Mestre nos deixou (afinal, se olhar com más intenções uma mulher já é pecado, imaginem fazer uma auto-estimulação erótica a partir disso).

Sendo assim, o que deve importar no Código da Santidade não são suas regrinhas em concreto, mas o sentido profundo espiritual, ou seja, o de se preservar de tudo que afaste do ideal que Deus tem para nós, como seu povo (a Igreja é o novo Israel de Deus), e sempre lendo na perspectiva do Cristo, que tem por horizonte o Reino, ao qual todos são convocados.

Romanos

Nesse trecho de Romanos (I, 18-32) a questão da homossexualidade parece direta e bem estruturada (inclusive, temos aqui a única referência em toda a Bíblia ao lesbianismo). Parece… novamente temos o sexo entre iguais como um instrumental e não como o problema central.

Mas vamos por partes, entendendo pouco a pouco todo esse trecho do livro.

A perícope (conjunto de versículos que formam uma unidade temática) está definida em seu caráter forense pelo começo, “ira-condenação”, e pelo final, “réus de morte”. A ira é tema freqüentíssimo no Antigo Testamento (Sofonias I, 15). O delito é enunciado, primeiro de modo genérico: todo tipo de impiedade (contra Deus) e injustiça (contra o próximo). Por serem gerais, abrangem tudo, e mostram um Deus ativamente inconciliável com o pecado (Salmo X, 5).

Depois desenvolve um processo. Primeira fase: o homem conhece (naturalmente, sem Revelação) a Deus, e não o reconhece como é devido. Como castigo – segunda fase – o Senhor abandona o homem a suas paixões; repete-o três vezes (versículos 24, 26, 28). Conseqüência – terceira fase – um catálogo de vícios, tirados em parte da cultura pagã greco-romana. Desenlace: como não podem alegar a rejeição nem o atenuante da ignorância (versículo 32), são réus de morte.

No Antigo Testamento, como castigo, Javé “entrega” o povo ao inimigo (Juízes II, 1-4/20-23), aqui o entrega “a seus desejos, a suas paixões, à sua mente depravada”: levam dentro o inimigo e o castigo abrange “o corpo e a mente”.

Desse modo, quando chega a falar de relações homossexuais, São Paulo as enquadra no contexto geral de decadência moral que encontra na sociedade romana. É bom não forçar demais a passagem, entendendo que ele se refere especificamente ao fato de pessoas que tinham vivido em relações heterossexuais abandoná-las em favor de relações homossexuais. Em termos práticos, qual era a origem disso? Era a chamada prostituição cúltica: na época de Paulo eram comuns as orgias grupais nos cultos de fertilidade; nas sociedades vinculadas a Roma, a pedofilia e a prostituição faziam parte das práticas sexuais entre homens (não haveria o inconveniente de uma gravidez), que se inflamavam mutuamente. Homens livres heterossexuais ou bissexuais desprezavam as suas esposas e praticavam orgias sexuais com seus escravos, prestando culto aos ídolos (o mesmo no que se refere às mulheres).

Por que o culto aos ídolos, na visão cristã, como que “exigia” isso? Bem, a “abominação” das práticas descritas não é só moral, mas, especialmente, teológica. No início havia o caos… ou seja, não havia diferenciação, mas uma mistura desordenada de elementos; Deus, então, começa a colocar ordem, justamente estabelecendo a diferenciação dos elementos: terra, ar, água… A expressão máxima da diferenciação organizadora e fecunda encontra-se justamente na diferenciação sexual: Ele os criou homem e mulher. Ora, nessa perspectiva, relações homossexuais seriam uma volta atrás, uma volta da confusão e da esterilidade. E esquecer a diferença, como ressaltei na análise do episódio de Sodoma, é a expressão da idolatria, posto que o reconhecimento dela descentraliza o sujeito de si, mostrando seus limites; o desconhecimento da diferença aprisiona a pessoa no círculo encantado de si mesma.

Temos, então, nesse trecho de Romanos um eco do “sereis como deuses” do Gênesis (por isso já escrevi mais de uma vez: sem levar ele em conta, nada faz sentido na consideração da homossexualidade como algo que não é ideal). O que se encontra na raiz de todos os pecados (o orgulho), transparece de maneira mais clara no campo da sexualidade. Por isso, se a antropologia paulina aponta para o: “não sabeis que vossos corpos são membros de Cristo? E então vão tomar membros de Cristo para faze-los membros de uma prostituta? Jamais!” é exatamente no modo como o ser humano vivencia sua sexualidade que vai se manifestar ou não a consciência de sua dignidade; se este ser se entrega às obras da carne ou às obras do espírito: eis o critério. Esse é o foco de Paulo, as relações homossexuais citadas aqui (periféricas, não oblativas) são um exemplo, não o ponto essencial.

I Coríntios

Entro agora no último trecho bíblico associado a questão homossexual.

Vamos a ele (segundo a tradução de quatro versões católicas e duas protestantes):

Vulgata (Matos Soares): “Porventura não sabeis que os injustos não possuirão o reino de Deus? Não vos enganeis: Nem os fornicadores, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os que se dão à embriaguez, nem os maldizentes, nem os roubadores possuirão o reino de Deus. E tais éreis alguns de vós; mas fostes lavados, mas fostes santificados, mas fostes justificados em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, e pelo Espírito de nosso Deus.”

Ave Maria: “Acaso não sabeis que os injustos não hão de possuir o Reino de Deus? Não vos enganeis: nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os devassos, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os difamadores, nem os assaltantes hão de possuir o Reino de Deus. Ao menos alguns de vós tem sido isso. Mas fostes lavados, mas fostes santificados, mas fostes justificados, em nome do Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito de nosso Deus.”

Peregrino: “Não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos iludais: nem os fornicadores nem os idólatras nem adúlteros nem efeminados nem homossexuais nem ladrões nem avarentos nem beberrões nem caluniadores nem exploradores herdarão o reino de Deus. Alguns de vós no passado eram desses; mas fostes lavados, consagrados e absolvidos pela invocação do Senhor nosso Jesus e pelo Espírito do nosso Deus.”

Jerusalém (edição revista e ampliada): “Então não sabeis que os injustos não herdarão o Reino de Deus? Não vos iludais! Nem os impudicos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os depravados, nem as pessoas de costumes infames, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os injuriosos herdarão o Reino de Deus. Eis o que vós fostes, ao menos alguns. Mas vós vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados em nome do Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito de nosso Deus.”

Almeida Revisada e Corrigida: “Não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus? Não erreis; nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o Reino de Deus. É o que alguns têm sido, mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito de nosso Deus.”

Almeida Edição Contemporânea: “Não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus? Não erreis: nem os impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem roubadores herdarão o reino de Deus. E tais fostes alguns de vós. Mas fostes lavados, mas fostes santificados, mas fostes justificados em nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito nosso Deus.”

De maneira preliminar, digo que a tradução da Bíblia de Jerusalém é a ideal, mas, por desencargo de consciência, vou fazer um exercício intelectual avaliando o trecho segundo a traducão das outras versões antes de ir ao argumento central.

Em primeiro lugar, cabe notar que esse trecho se une com a lista presente em V, 11 (que acrescenta outras categorias) compondo uma espécie de “decálogo negativo” (também encontrado em Gálatas V, 19-21; Efésios V, 5; I Timóteo I, 9-11; Apocalipse XXII, 15). Nesse sentido, as duas palavras que podem ser associadas a homossexualidade na perícope (efeminados e sodomitas) não são ressaltadas. Quem as enfatiza deveria ser enfático com todo o resto da lista.

Vale salientar que a tradução que encontramos na Bíblia do Peregrino, onde “sodomitas” vira “homossexuais” é fruto de grande subjetivismo, pois na época de São Paulo a palavra “homossexual” não existia e o que entendemos por ela, mesmo se for levada em conta a exegese duvidosa que identifica o “pecado de Sodoma” apenas com relacões sexuais entre pessoas do mesmo sexo, não é o mesmo que se infere de “sodomitas”. O termo “homossexual” pode se referir a uma orientacão sexual, enquanto “sodomita” sempre fará mencão de uma conduta.

Por outro lado, a palavra “efeminado” não pode ser usada para tratar da questão homossexual pelo simples fato de que nem todo efeminado é gay.

Tomando, pois, as coisas desse modo, só a palavra “sodomitas” teria algo a dizer sobre os homossexuais e, mesmo assim, com as limitações que já expliquei sobre o “episódio de Sodoma”, e com o fato de que um pecado para se enquadrar nela teria de contar com os elementos subjetivos (livre querer e consciência do ato), pois o simples enquadramento objetivo não satisfaz (ou teríamos de inferir que ficar bêbado excluiria alguém do Reino).

Só que tudo isso cai por terra quando vamos ao centro da questão.

E esse centro é o fato de que traduzir malakoi (literalmente, “macios”) por “efeminados” e arsenokoitai (literalmente, “homem de muitas camas”) por sodomitas é algo contestável. Hoje, a maioria dos exegetas concorda que o vocábulo traduzido por “efeminados”, na verdade, se refere aos catamitas – meninos feitos prostitutos em templos pagãos. Em relação ao outro termo é simplesmente impossível de se chegar a uma conclusão precisa.

As palavras originais em grego koiné eram desconhecidas do tradutor (ou tradutores), o qual supôs para elas um sentido. Quando o tradutor (ou tradutores) se deparava com um vocábulo que desconhecia, tentava procurar em outras obras (sem sucesso) e aí atribuia algo que “achava” encaixar-se no contexto da maneira mais bela. No século XIX, por exemplo, várias bíblias continham “masturbadores” ao invés de “efeminados”.

No decorrer do século XX, no entanto, versões mais novas começaram a questionar essas traduções. Essas traduções tentam ao máximo usar a equivalência formal, ou seja, dar mais valor à tradução ao pé da letra dos vocábulos e menos à beleza da forma. Nessas edições, as equipes observaram que era mais adequado traduzir esses dois vocábulos como impureza sexual e prostituição cúltica, que era homossexual, mas também heterossexual, e comum em templos pagãos. Desse modo, bíblias como a Bíblia de Jerusalém, trocaram “efeminados” e “sodomitas” por “imoralidade sexual”.

É interessante notar que a mesma palavra em grego que é traduzida comumentemente por sodomitas, quando aparece em Apocalipse XXI, 8 e XXII, 14, nas mesmas bíblias, ganham outro significado (o que remete à “adivinhação”).

Sendo assim, São Paulo condena aqui a depravação sexual dos injustos (os pagãos). Certamente em tal depravação está incluída a depravação homossexual, assim como qualquer outra.

O que não dá é querer ver aqui uma condenação do comportamento homossexual em si mesmo. Este é colocado fora da moralidade objetiva pelo relato do Gênesis e pelo sentido último da proposta moral do Evangelho.

Conclusão

Após tudo isso (foram seis meses de pesquisa direta e seis de indireta), vejo como a homossexualidade deve ser tratada: considerando-a algo que está fora do Projeto de Deus, mas que também não deve ser motivo para histeria.

Alguns podem olhar para mim e achar que eu nasci ontem… e que estou numa conspiração satânico-diabólica, querendo desvirtuar a “sã doutrina” e a “Fé entregue aos Santos”.

Eu não nasci ontem. Vivi e vivo intensamente a Igreja para saber que, de todos os coleguinhas criados comigo, indo à Missa, cantando nos corais, participando de gincanas, grupos de estudo, etc…. alguns – e só a Deus cabe saber isso – ao se despertarem sexualmente, perceberam que eram homo ou bissexuais.

E aí, pedir para ler Romanos ou Coríntios, ou qualquer outra passagem, retirada como cartas da manga, é jogar aquele católico fiel num poço sem fundo de depressão e miséria interior.

O que estou propondo aqui é, mais uma vez, discutir o assunto de uma forma inteligente e equilibrada. Deixo todo um texto para debate (que, a meu ver, é até muito resumido e precisava de mais detalhamento), a partir do qual podemos aprofundar os argumentos honestos e respeitosos.

Quem meramente lança um post de uma linha, fechando a questão com a interpretação literal de um versículo tirado de uma bíblia mal traduzida, na verdade, não está muito preocupado com o assunto… ou tem medo – medo de sua pseudo-verdade absoluta ser derrubada. A palavra seca e as observações sem muito rigor ou aprofundamento só mostram a imaturidade e a infantilidade de certas pessoas.

A resposta fácil que alguns querem ouvir é: não pode, e a pessoa vai ser transformada, só precisa perseverar.

Mas, na verdade, os que apenas sabem entoar esse mantra, mostram que nunca tiveram uma real experiência de vivência do Evangelho (vejam bem, não digo que não creiam em Cristo), a ponto de lidarem com situações constrangedoras.

A complexidade das passagens bíblicas alvos desta pesquisa são um reflexo da própria complexidade da vida, do caminhar humano. Por isso temos de ler as Escrituras com os olhos de Cristo ou, ao invés de produzirem vida, serão fonte de maldição.

Fontes

Bíblia do Peregrino.

Bíblia de Jerusalém.

Ética da Sexualidade e do Matrimônio. Ed. Paulus. Autor: Eduardo López Azpitarte.

Defending a Higher Law: Why We Must Resist Same-sex “Marriage” and the Homosexual Agenda. Autor: TFP americana.

– artigos retirados da Enciclopédia Católica (em inglês, 1967) e do Dicionário de Teologia Moral da Paulus.

Encarando nossas diferenças. As igrejas e seus membros homossexuais. Ed. Sinodal. Autor: Alan A. Brash.

O Enigma da Esfinge. A sexualidade. Ed. Vozes. Autor: Frei Antônio Moser.

Reforçando as trincheiras. Análise da problemática do homossexualismo à luz do cristianismo histórico. Ed. Vida. Autor: D. Robinson Cavalcanti.

Acompanhamento de vocações homossexuais. Ed. Paulus. Autor: José Lisboa Moreira de Oliveira.

Same-sex unions in premodern Europe. Autor: John Boswell.

– Artigo Eles também são da nossa estirpe – considerações sobre a homofilia (Revista Vozes 9 – 1967). Autor: Pe. Jaime Snoek.

– coleta de posts em várias comunidades cristãs pelo Orkut.

– conversas com homossexuais (masculinos e femininos) católicos (que possuem uma atuação na Igreja ou que deixaram a prática religiosa).

Para refletir (os documentários, o filme e o artigo são só para os leitores terem mais elementos ao pensarem sobre essa questão, em hipótese alguma deve-se entender que eu defendo algo que a Igreja não defende):

Como diz a Bíblia (documentário)

Orações para Bobby (filme)

https://youtu.be/PlgnZVD9VdM

A terceira via (documentário)

What should a gay catholic do? (artigo)

Author: James Martin, S.J.

Here’s a real pastoral question to consider: What place is there for the gay person in the Catholic church? With the warning from the archdiocese of Washington, D.C., that it would pull out of social services in the city rather than accede to a bill that would afford benefits to same-sex spouses, a question, too long neglected, arises for the whole church: What is a gay Catholic supposed to do in life?

Imagine you are a devout Catholic who is also gay. Here is a list of the things that you are not to do, according to the teaching of the church. (Remember that most other Catholics can choose among many of these options.) None of this should be new or in any way surprising. If you are gay, you cannot:

1.) Enjoy romantic love. At least not the kind of fulfilling love that most people, from their earliest adolescence, anticipate, dream about, hope for, plan about, talk about and pray for. In other cases, celibacy (that is, a lifelong abstinence from sex) is seen as a gift, a calling or a charism in a person’s life. Thus, it is not to be enjoined on a person. (“Celibacy is not a matter of compulsion,” said then Cardinal Joseph Ratzinger.) Yet it is enjoined on you. (“Homosexual person are called to chastity,” says the Catechism, meaning complete abstinence.) In any event, you cannot enjoy any sort of romantic, physical or sexual relationship.

2.) Marry. The church has been clear, especially of late, in its opposition to same-sex unions. Of course, you can not marry within the church. Nor can you enter into any sort of civil, same-sex unions of any kind. (Such unions are “pseudo-matrimonies,” said the Holy Father, that stem from “expressions of an anarchic freedom”) They are beyond the pale. This should be clear to any Catholic. One bishop compared the possibility of gays marrying one another to people marrying animals.

3.) Adopt a child. Despite the church’s warm approval of adoption, you cannot adopt a needy child. You would do “violence,” according to church teaching, to a child if you were to adopt.

4.) Enter a seminary. If you accept the church’s teaching on celibacy for gays, and feel a call to enter a seminary or religious order, you cannot—even if you desire the celibate life. The church explicitly forbids men with “deep-seated homosexual tendencies” from entering the priesthood. Nor can you hide your sexuality if you wish to enter a seminary.

5.) Work for the church and be open. If you work for the church in any sort of official capacity it is close to impossible to be open about who your identity as a gay man or a lesbian. A gay layman I know who serves an important role in a diocese (and even writes some of his bishop’s statements on social justice) has a solid theological education and desires to serve the church, but finds it impossible to be open in the face of the bishop’s repeated disparaging remarks about gays. Some laypeople have been fired, or dismissed, for being open. Like this altar server, who lives a chaste life. Or this woman, who worked at a Catholic high school. Or this choir director.

At the same time, if you are a devout Catholic who is attentive both to church teachings and the public pronouncements of church leaders, you will be reminded that you are “objectively disordered”, and your sexuality is ”a deviation, an irregularity a wound.”

Nothing above is surprising or controversial: all of the above are church teaching. But taken together, they raise an important pastoral question for all of us: What kind of life remains for these brothers and sisters in Christ, those who wish to follow the teachings of the church? Officially at least, the gay Catholic seems set up to lead a lonely, loveless, secretive life. Is this what God desires for the gay person?

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Apologética

Irmã Themis, de protestante a católica

A graça abunda onde menos se espera. Maria Santíssima é mãe de todos aqueles que buscam a Deus com sinceridade.

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Defesa da vida

Debate na UFPE – aborto

fdrOntem (25/03) debati sobre a legalização e legitimação do aborto na Faculdade de Direito do Recife, ligada a Universidade Federal de Pernambuco. No debate, promovido pelo grupo que ora ocupa o diretório acadêmico, também estavam presentes na mesa uma socióloga feminista (defesa ideológica do aborto) e um advogado criminalista (defesa pragmática do aborto).

Desde o primeiro momento tentei cortar certo tipo de estratégia dos abortistas ao levar a discussão para o âmbito natural:

“Começo com algumas afirmações para esquentar o debate.

O aborto não é legal no Brasil em nenhuma hipótese e, mesmo que fosse, seria ilegítimo.

Nenhuma circunstância, nenhum fim, nenhuma lei no mundo poderá jamais tornar lícito um ato que é intrinsecamente mau, porque contrário à Lei Natural, inscrita no coração de cada homem e reconhecível pela razão.

Desse modo, a luta pelo aborto não é luta, mas uma mistificação, que instrumentaliza conceitos e fraquezas humanas para levar a cabo seu nefasto intento.

A mistificação pelo aborto não um movimento em prol de direitos, pois solapa a base justificadora do sistema jurídico, que é a pessoa. Quando admitimos que uma vida humana inocente pode ser eliminada, tudo, TUDO, perde sentido. Nenhuma causa, social, econômica, sexual, política, cultural e, muito menos jurídica, faz sentido. A pessoa, ao contrário do que querem certos doutrinadores carcomidos como os ossos de Augusto Conte, não é um repositório de direitos e deveres, mas o centro irradiador dos direitos e deveres.

A mistificação pelo aborto não proclama a liberdade. Liberdade não é fazer o que se quer, mas mover-se com autonomia no meio de balizas e em direção ao bem. Não há liberdade de escolha quando a escolha é matar o indefeso.

A mistificação pelo aborto não contribui para dignificar a mulher, antes a degrada na mesma medida em que degrada toda a civilização, ao subverter o movimento ascendente de superação de tabus que proclama a dignidade do ser humano pelo simples fato de ser um humano.

A mistificação pelo aborto não atua em favor em favor de “direitos reprodutivos” ou do “planejamento familiar”. Não atua em prol dos “direitos reprodutivos” porque não atua em prol de direito nenhum, como disse a pouco, e não atua em favor do “planejamento familiar” pelo simples fato de que não podemos admitir este à custa de vidas ceifadas.

Sendo assim, como tolerar que tal mistificação continue a existir?

A tolerância pode ser uma virtude, mas é a virtude característica das situações anômalas, periclitantes, difíceis. Ela é a cruz do cidadão cônscio e responsável, que se encontra numa época de desolação, decadência espiritual e ruína. Desse entendimento já se observa que a tolerância pode ser perigosa: no meio de um contexto em que não se reflete com base em princípios (que é a estratégia do movimento abortista), passa-se a aceitar tudo, a tomar como ordem o que é desordem, a tolerar o intolerável.

Chega! É um atentado ao Criador e um crime de lesa pátria continuar a não responder ao abortismo. Eles querem guerra? A terão!”

Acho que essa foi a melhor estratégia, pois sempre que eles tentavam sectarizar as idéias, dizendo que eu defendia o que defendo pelo fato de ser católico, eu chamava a atenção para minhas palavras iniciais.

Infelizmente, fazendo minhas aquelas famosas palavras de Chesterton: “Tornar-se católico, não significa que se deixe de pensar, mas que se aprende a pensar”, tive de lidar com a constante confusão de critérios dos meus opositores. Numa hora um deles dizia que a ciência não podia ser critério para afirmar o que era ou não vida e, pouco depois, usava um pseudoconceito científico para dizer que o feto anencefálico não passa de uma “coisa”. Isso quando não se apropriavam de slogans (facista, medieval) indicadores da cosmovisão de cada um, para tentar descaracterizar o que eu colocava.

Por isso tive, rapidamente, de selecionar do besteirol sem fim que falavam algumas coisas para rebater sempre que tomava a palavra. E fiz isso com uma postura agressiva, para construir um contraponto moral ao que era colocado pelos “advogados da morte”.

É interessante como algumas pessoas do auditório não gostaram dessa minha última postura, tendo sua sensibilidade chocada, como se, por exemplo, fosse aceitável eu defender que o negro não é pessoa (como fez a Suprema Corte americana em 1857) com muita educação e usando palavreado chic e, ainda assim, merecer respostas num tom equilibrado. Esse é mais um exemplo de como o mundo ocidental vive numa paralaxe cognitiva, de como ele vive de aparências, de artificialidades e, por isso mesmo, cairá de podre.

Terminei com as seguintes palavras:

“Moloch era um antigo deus dos fenícios.

Construído de bronze, a imensa estátua continha no bojo uma enorme fornalha.

Em honra dessa divindade implacável, as próprias mães imolavam seus filhos pequeninos.

Atiravam elas, dentro do monstro de metal, os filhos primogênitos, os quais rolavam para dentro do abdômen incandescente de Moloch, sendo então devorados pelas chamas.

Para não provocar arrepios nos assistentes, os iníquos sacerdotes de Moloch tomavam o cuidado de mandar soar trombetas e rufar tambores, abafando assim, no ruído de uma música infernal, o gemido dos pobres inocentes.

A Fenícia pagã desapareceu na História. E com o desaparecimento da Fenícia, acabaram-se os terríveis sacrifícios.

Acabaram mesmo?

No começo deste século XXI – o século dos “direitos do homem” – já não há sacerdotes fenícios, mas aborteiros inescrupolosos de avental branco.

Já não há mais estátua de bronze, mas o próprio ventre materno tomou o lugar do bojo de Moloch.

A qual divindade se ofereceram hoje as milhões de vítimas inocentes?

Variam de acordo com um “politeísmo” macabro.

Quando se trata de cultuar o gozo sexual, sem as conseqüências estabelecidas pela própria natureza, esse deus se chama Eros e a religião toma o nome de erotismo.

Quando se trata de evitar incômodos, numa furiosa busca das conveniências pessoais, esse deus se chama Ego, e a religião será o egoísmo.

Acima de tudo, ergue-se Leviatã, ou seja, os Estados hipócritas, cujos próceres tanto falam de “direitos humanos”, mas que se tornam cúmplices de uma injustiça clamorosa, isto é, o extermínio do mais indefeso dos seres: o nascituro.

Leviatã diz que faz isso por questão de higiene e saúde. E mergulha no sangue das vítimas inocentes o mais elementar dos direitos, que é o direito à vida, praticando assim a mais odiosa das discriminações: contra o ser humano na fase pré-natal de sua existência.

O paradoxo não poderia ser mais flagrante. Precisamente da mãe, dos médicos e das autoridades públicas, a pequena vítima deveria esperar proteção e tutela.

Mais especificamente, da mãe, o filho deveria esperar o amor materno. Porém ela o imola, não em um altar em chamas, mas numa fria mesa de operação.

O médico, cuja missão é garantir a vida, se transforma no instrumento de sua morte.

O Estado, que deveria punir os criminosos que levantassem a mão contra sua vida, nega ao nascituro o direito de viver, em nome de índices, cifras e estatísticas manipuladas.

Diante do Moloch abortista, o que seremos nós?

Cidadãos mornos, indolentes, que não sabem fazer valer os seus princípios?

Ou batalhadores, que não se acovardam diante da opinião contrária dos outros e proclamam desassombrados o direito à vida, da concepção à morte natural?

Acomodação, preguiça, medo não têm lugar nessa hora em que estão ameaçados milhões de seres humanos indefesos.

Será que vamos nos tornar um Pilatos?

Pilatos passou a História, indelevelmente marcado pelo ferro em brasa da censura dos Evangelistas, como tipo característico do homem que não é cruel, por medo da crueldade, não é assassino, por idolência, e não é feroz, por inércia.

Escravo da preguiça e do medo, cede a todas as infâmias, submete-se a todas as baixezas, pela força da inércia que é como que a base de sua mentalidade.

O erro, meus caros, não é só não defender a Verdade, mas também não ter a coragem de A preservar e resguardar contra o ódio instrumentalizado da massa.

Descendo agora ao terreno de nossas consciências, esse terreno onde somente dois olhares penetram, o de Deus e o nosso, perguntemo-nos: não seremos nós outros Pilatos?

Muito obrigado pela atenção.”

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Crise

Frutos do "novo Pentecostes"

Hoje meu pároco não pôde celebrar a última Missa do dia e, em substituição a ele, veio o reitor de uma instituição de ensino superior católica (formado em centros de estudo da França e Itália). Pois bem, esse sacerdote só fez abusos atrás de abusos. Eu vi o seguinte (tem a parte que não vi, pois estava dando uma de porteiro e segurança da igreja): não elevou o Corpo e o Sangue após a consagração e não se ajoelhou para adorar; quase negou a Comunhão a um jovem que se ajoelhou para recebê-la; não purificou o cálice, as âmbulas e as patenas; e, por fim, foi atender a confissão de um seminarista que, depois, me disse que achava que ela tinha sido inválida por falta de forma!

Um amigo que teve aulas de teologia com esse padre (que, em passado recente, negou um pedido de colocação de crucifixos nas salas da instituição de ensino da qual é reitor para “não chocar” os não-católicos) contou que aula dele é uma sucessão de heresias ou de colocações com “bombas-relógio” escondidas (nada mais modernista). De negação da Trindade como categoria teológica a considerar Nietzsche como referencial filosófico tem de tudo.

São precisamente esses os frutos das reformas pós-conciliares! E ninguém venha dizer que isso é radicalismo de minha parte ou que esse padre não passa de uma excessão. Vou explicar porque não é assim: dada sua formação, ele representa o paradigma daquilo que a educação teológica católica quer produzir hoje.

Aí, quando pessoas assim ocupam cargos na burocracia romana e soltam absurdos como o da validade da Anáfora de Addai e Mari, os neoconservadores querem que nos calemos por prudência… é o fim da picada.

Pelo menos, pude rir um pouco quando o rapaz a que ele quase negou a Comunhão, após a Missa, cumprimentou o tal sacerdote pedindo sua benção e beijando sua mão. Que susto ele levou

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Apologética

Uma trela

Um confrade aqui de Recife, me contou que deu uma andada pelo centro da cidade e colocou como intenção de ação de graças em várias Missas de igrejas diferentes o seguinte:

“Pela retirada das excomunhões dos bispos sagrados por D. Marcel Lefebvre.”

A reação dos comentaristas ou sacerdotes ao lerem tal intenção foi hilária: começavam a abaixar a voz e olhar para o papel com atenção (como se estivessem lendo algo errado) e, depois, a olhar para a assembléia, procurando o lefebvrista infiltrado.