Tentando salvar algumas das jóias que postei no Orkut ao longo do tempo, encontrei, por acaso, um texto de Pedro Sette Câmara que hoje só está acessível pelo registro que fiz (no já distante 2005…) e que se ajusta bem ao momento atual de perseguição aos cristãos no Iraque:
Um dos tempos mais interessantes da história foi o da convivência entre cristãos, judeus e muçulmanos na Espanha medieval. Ricardo Costa, historiador carioca radicado em terras capixabas, fala de como as três religiões conviviam e como isto se reflete na obra de Ramón Llull. O mais interessante é o seguinte: a tolerância entre as três religiões não se deu por causa do desejo comum de “paz mundial”, nem para “defender valores”; não foi uma espécie de “unidade imanente das religiões”. Nenhuma das religiões jamais deixou de se considerar a explicação total do mundo, nem passou a aceitar ser explicada por uma das adversárias. Os judeus não aceitaram a vinda do Messias, os cristãos não deixaram de culpar os judeus pela morte de Jesus, e os muçulmanos não deixaram de ver a ambos como simples “povos do Livro”, meros antecessores da sua posição privilegiada porque última da “profecia” (“Maomé: precursor de Joachim de Fiore?” Aí está minha tese para o dia em que eu decidir fazer um mestrado em teologia). O que manteve a convivência foi, ao que parece, uma abdicação comum – Ricardo que me corrija – do uso da força em nome da conversão.
Se isto é verdade, o “fundamentalismo” parece ser uma das bases da tolerância. Claro que aqui falo do “fundamentalismo” no sentido lato contemporâneo, isto é, o termo pejorativo que indica simplesmente as pessoas que agem de acordo com suas próprias convicções. Uma coisa, afinal, é ter uma convicção e defendê-la apaixonadamente; outra, completamente diversa, é acreditar que se deve submeter as pessoas a alguma crença ou prática através da força física. Uma pessoa que realmente tem uma convicção, testada e experimentada dentro da própria alma, sempre crê que a verdade tem um poder próprio, intrínseco, e fica admirada e desapontada com a incapacidade que outros possam ter de não atinar com ela. Deste admiração nasce o desejo de ampliação dos meios retóricos, de estudar mais; pois, sendo impossível que a verdade não tenha este poder, o impedimento à persuasão dos outros só pode estar na sua transmissão. Já o desejo de impor as próprias crenças por meio da força física (ou da erística, da programação neurolingüística e outros meios psicológicos escusos) nasce de uma fonte completamente diversa, que é justamente a fragilidade da convicção pessoal, necessitada portanto de mil confirmações exteriores. Para o cognitivamente frágil, o sucesso da imposição da crença fica valendo como “prova” da sua “veracidade”, enquanto que para o forte a sua certeza interior basta: mais fácil negar a presença dos objetos sensíveis do que a verdade vista com os olhos do intelecto.
Somos todos nazarenos
Guardem este símbolo:
É a letra “num”, a décima quarta do alfabeto árabe, e que inicia a palavra “nazara” (نصارى), isto é, “nazarenos” (cristãos). Ela está sendo pintada por muçulmanos membros do ISIS nas casas de cristãos de Mossul (a antiga Nínive), no Iraque, a fim de marcá-los para a morte, conversão forçada ou pagamento de uma taxa. A comunidade cristã de Mossul é uma das mais antigas do mundo com existência contínua.
Sobre este assunto, postei hoje nas nossas “Notícias Selecionadas” um texto bem esclarecedor.
Foto de uma casa marcada:
Os islamitas também puseram fogo na casa do arcebispo católico da cidade e numa igreja de 1800 anos (que não sei se é católica, assíria, ou síria ortodoxa), como vocês podem ver aqui:
Essa situação me trás três pontos para refletir (um para os católicos “tradicio-alienados”, um para os ecumenistas desnorteados e outro para as olavetes):
- A importância do conceito de liberdade religiosa, como afirmado no Vaticano II;
- O caráter violento do islã (que só é moderado por inflexões político-culturais);
- A “inocência primeva” dos que defenderam a derrubada das ditaduras laicas por parte de países ocidentais sobre a justificativa de “levar a democracia” ou de “parar com o genocídio”.
A "pirâmide da intimidade"
Antes do fim
Ainda nos seus momentos finais, a comunidade do Orkut ainda recebe depoimentos como este, de Erick, que mostram o motivo de todo o trabalho que tive e por lá:
Fazia muito tempo que não entrava aqui.
Na verdade, só entrei por conta do e-mail do fim do Orkut. A primeira coisa que pensei foi: “E a comunidade de apologética”?
Eu nasci no protestantismo e se hoje sou católico, devo muito aos ensinos que aprendi e a muitas pessoas que foram pacientes nesse fórum.
Mesmo que minha sugestão possa ser boba, gostaria muito que existisse uma página no facebook da boa e velha “Apologética Católica”.
Aquele lugar esta precisando de um lugar como esse: Ambiente familiar e acolhedor.
Fiquem com Deus e Maria SS!
Érick Gomes
O turíbulo e o coração
Se a fumaça representa a oração, o turíbulo representa o coração do homem. O coração do homem deve ser, como o turíbulo, aberto no alto e fechado embaixo, isto é, aberto para as coisas do alto e fechado para as coisas terrenas. O coração do homem deve estar aceso com o fogo da caridade para poder agir sempre em direção ao alto, como no turíbulo aceso com carvão, a fumaça se dirige sempre para o alto. A fumaça é símbolo da nossa oração e das nossas ações, que devem ter sempre por finalidade o céu, superando todos os obstáculos para alcançá-lo, a exemplo da fumaça que sai do turíbulo, que sempre se dirige para o alto, apesar de todos os obstáculos.
A Missa em latim: origens e exceções
Tradução de um trecho do livro Work of Human Hands (pp. 85-88) do conhecido polemista católico tradicional Pe. Anthony Cekada:
A história de como e porque a Missa passou a ser celebrada em latim foi o assunto de inumeráveis trabalhos acadêmicos. Para nosso propósito aqui, será suficiente mencionar apenas alguns pontos desse processo.
1. A Igreja adota o latim. Nos anos 60, havia a impressão de que os primeiros cristãos tinham sido ardentes vernacularistas nos seus cultos, verdadeiros precursores do “Evangelho Pós-Conciliar da Inteligibilidade Absoluta”.
Mas esse não foi o caso. Nosso Senhor seguia a prática das sinagogas da Palestina quando cultuava, e elas empregavam o vernáculo apenas nas leituras da Sagrada Escritura e em algumas orações conectadas a essas leituras. Todas as orações importantes e fixas eram feitas em hebraico – uma língua tão morta para o uso comum como o latim hoje em dia. Louis Bouyer escreveu que se Cristo achasse essa prática intolerável, a teria denunciado, tal qual fez com outros formalismos vazios seguidos pelos fariseus (1).
Durante os primeiros três séculos da Igreja, o grego koiné foi a língua dominante em toda a bacia do Mediterrâneo. Segundo um estudioso, o Padre Angelus de Marco, as partes da Missa primitiva “só podiam ter sido desenvolvidas em grego, posto que o grego era a língua ecumênica da cristandade até a segunda metade do segundo século” (2). Note-se, contudo, que há um elemento de conjectura aqui. Nós não podemos dizer que cada cristão presente nas missas celebradas em koiné entendia todas as palavras.


