D. Alcuin Reid, um monge beneditino francês que é uma das maiores autoridades litúrgicas da atualidade, em especial no campo dos que advogam uma reforma da reforma, deu recentemente uma entrevista à Rádio Maria dos EUA sobre a recente recomendação do Cardeal Sarah para que se celebre ad orientem. Na entrevista, que vocês podem ouvir abaixo, ele esclarece alguns pontos da fala do Cardeal, mostra qual o âmbito de ação do que ela propõe e analisa uma parte das reações a ela:
Sem dúvida, o Cardeal Sarah provou que o Papa Francisco não é o único bispo (ele é o bispo de Roma) capaz de chacoalhar a Igreja de Jesus Cristo.
A Civilização Ocidental
Volkgeist armorial
Tenho muitas diferenças com o Prof. Flávio Brayner, do Centro de Educação da UFPE, não só no campo pedagógico, mas também no político e estético; contudo, é sempre bom confrontarmos aquilo em que acreditamos com uma visão crítica, em especial se esta é feita como que por um observador externo, que destrincha esquematicamente o que tomamos por verdade, e, desse modo, o seguinte artigo dele (Jornal do Commercio, Recife, 29 de julho de 2016 – com adaptações), que analisa o fundamento das ideias de Ariano Suassuna, às quais me filio, é mais do que interessante:
Ariano, falecido há dois anos, era um espírito brincalhão e gostava de contar a história de certo jovem, com cara de hyppie, bolsinha de couro, óculos redondo que pergunta em uma de suas aulas: “Ariano, você não acha que o rock é o sim universal?” Ao que Ariano responde: “Meu filho, som universal só conheço três: arroto, espirro e bufa!”
A brincadeira assinala o que há de mais convicto nas ideias estéticas de Ariano. Ele vinha da tradição romântica, que depositava nas expressões culturais particulares a autêntica alma de um povo (volksgeist) à época da formação tardia dos estados nacionais: a “burguesia” era cosmopolita demais e seus valores abstratos; já no “povo” residia aquela alma cultural autêntica em que cada nação poderia fundar sua “identidade”. Daí porque quando falamos de “cultura popular” achamos que estamos diante das “raízes” culturais e contrastamos essa cultura com a de “massas” que não teria nada de autêntico. Ariano, inimigo declarado desta última (guitarra com maracatu era crime de lesa cultura!), acreditava que a resposta que se pode oferecer à nação encontrava-se nas bases eruditas da cultura cavalheiresca, cortesã, trovadoresca e picaresca do fim da Idade Média e que nos teria chegado através da colonização portuguesa. Esta estética “armorial”, herdeira de uma aristocracia de brasão e que também agregava elementos de soteriologia sebastianista, daria à nossa cultura popular remotas origens medievo-ibéricas, que Ariano farejava na cultura sertaneja, e que poderia servir de base a uma resposta erudita à nossa brasilidade (tema analisado pela professora Thereza Didier em sua tese de doutorado defendida na USP).
Esquerdopatia: dois pesos e duas medidas
É permitido estudar nos domingos?
Tradução e adaptação de um texto do Pe. Peter R. Scott (da FSSPX):
Uma distinção importante no que se refere à guarda do domingo é entre trabalhos servis, opera servilia, e trabalhos liberais, opera liberalia. Observe-se que o interdito da Igreja não depende do propósito ou razão pela qual esses trabalhos são feitos, mas da sua natureza. Trabalhos servis fora do marco da caridade são proibidos nos domingos, como fazer uma mudança de residência ou pintar uma garagem, e os liberais são permitidos, mesmo se efetuados para se ganhar dinheiro, como pintar quadros para venda.
Então, cabe entender a diferença entre eles e aprofundar o motivo pelo qual os trabalhos servis fogem da norma do III Mandamento. Santo Tomás explica na Suma Teológica (II-II, Q. 122, Art. 4, ad 3):
…obra servil – vem de servidão, da qual há três espécies. Uma pela qual o homem serve o pecado, conforme aquilo do Evangelho: Todo o que comete pecado é escravo do pecado. E neste sentido, toda obra pecaminosa se chama servil, – Uma segunda servidão é a pela qual um homem serve a outro. Ora, um é escravo de outro não pela alma, mas pelo corpo, como se estabeleceu, Por onde, neste sentido chamam–se obras servis as obras corpóreas, pelas quais um homem serve a outro. – A terceira é a servidão pela qual servimos a Deus. E, neste sentido, poderíamos chamar servil ao culto de latria, que concerne ao serviço de Deus.
Claramente o domingo é reservado ao culto de Deus, e os trabalhos servis nesse terceiro sentido são não só permitidos como obrigatórios. Também, os trabalhos servis no primeiro sentido são sempre proibidos, especialmente no domingo, dia para darmos glória ao Senhor. Se o trabalho servil no segundo sentido, de atividades físicas outrora feitas por servos, é expressamente proibido no domingo, isto o é pelo fato dele perfazer uma parte da punição dada ao gênero humano depois da Queda (Gênesis III, 19: “Comerás o teu pão com o suor de teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e pós te hás de tornar”) e esconder da alma a elevação que a contemplação do culto a Deus traz e a preocupação com a salvação eterna. Não é assim com as artes liberais, que expressam a elevação da alma e a consideração da beleza, verdade e bondade de várias formas. O domingo, portanto, pode ser usado para alma expressar sua liberdade de querer saber, amar e servir ao Senhor não apenas na Santa Missa e outros ofícios eclesiais, mas também pelo exercício ou apreciação das artes liberais. Heribert Jone resume deste modo esta problemática (Moral Theology):
Artes liberais e trabalhos artísticos também são permitidos: estudar, ensinar, desenhar, fazer um design arquitetônico, tocar música, escrever, pintar, esculpir, bordar, tirar fotografias. Essas atividades são permitidas mesmo se feitas para remuneração.
Todavia, pode acontecer de mesmo as artes liberais tirarem da alma a atenção devida a Deus, como quando são imorais ou uma ocasião de pecado, ou quando se tornam uma preocupação tão grande que fazem a pessoa negligenciar seus deveres religiosos. Nesse caso, estudar também se torna um ato pecaminoso nos domingos.
Orações ao entrar na igreja
Publico agora uma coletânea de orações e práticas piedosas compiladas pelo confrade Silas. Antes, a apresentação desse pequeno trabalho feita pelo seu autor:
Compartilho com vocês uma coletânea de orações e pequenos ritos, que arranjei numa certa sequência, que tento praticar antes, durante e após a Missa. É mais fácil fazê-los numa Missa Tridentina, por causa dos tempos que o Padre passa rezando em voz submissa.
Isso tem me ajudado bastante, pois me impulsiona a aproveitar melhor o tempo que tenho ao chegar cedo na paróquia, venerando o crucifixo, as imagens, passando pelas estações da Cruz; me põe em contato com trechos de ritos latinos extintos e de ritos romanos em desuso que considero valiosos, bem como alguns ótimos trechos da Escritura, pois todos eles me fazem tirar mais proveito de cada parte da Missa e, se for o caso, da Confissão também.
Alguns desses pequenos ritos não são facilmente realizados nas paróquias a que vou, pelo menos. É o caso do acender velas e lamparinas. Outros, como o tirar os sapatos, podem distrair os outros, então prefiro não fazê-los durante a Missa.
Em cada trecho da Escritura e alguns pequenos ritos, pus a passagem correspondente.
Pode ser que seja útil a vocês. Para mim tem sido bastante.