Um documentário interessantíssimo sobre a presença da Igreja na Argélia contemporânea:
Autor: Thiago
Brasileiro nos costumes, trabalhista na economia, lusotropicalista na religião 😉
Sobre a ação de Trump

A ação de Trump é má porque a intenção (manifesta!) é má: controlar, pela força, a economia venezuelana, como parte, ademais, de um projeto de submeter a América do Sul aos interesses americanos – do ponto de vista estritamente ético é irrelevante que melhore em algo a economia venezuelana, que seja uma reação a estatizações supostamente injustas, ou que seja para nos “libertar” de outros interesses que nos seriam prejudiciais, porque formalmente tudo isso entra nos interesses unilaterais americanos, não nos nossos.
Se a intenção fosse consertada com a oposição venezuelana para derrubar o chavismo, reestabelecer a normalidade política, reestruturar a economia própria [uma ação em favor do bem comum do povo venezuelano], o juízo ético sobre tal ação política seria outro.
O fato da queda de Maduro – que foi o meio para atingir a finalidade da ação [inclusive o processo por narcotráfico de fato entra apenas como desculpa para tal ação] – é uma oportunidade para o povo venezuelano. Como tal, pode ser comemorada com prudência (Deus pode tirar o bem do mal).
À parte de outras considerações sobre direito internacional, pragmatismo político, doutrina social da Igreja, etc., penso que estes são os juízos éticos básicos que se impõem a todos, que evitam moralismos de parte à parte, e que não requerem teorias sobre direito internacional e política exterior (uma consideração moral básica, para a vida do homem comum, que não tem como dominar esses meandros, e não pode esperar por essas discussões).
– Joathas Bello
Tradução e adaptação de um texto do Pe. Dwight Longenecker.


G.K. Chesterton observa que cada época é salva por um santo que contraria o espírito do momento. Esse conflito — essa capacidade da Divina Providência de fornecer um santo que subverte todas as expectativas — é exemplificado pela comparação entre Friedrich Nietzsche e Teresa de Lisieux. Eles foram contemporâneos. Nietzsche nasceu em 1844 e morreu em 1900. Teresa nasceu em 1873 e morreu apenas três anos antes de Nietzsche, em 1897.
Nietzsche representa o ponto final da filosofia humanista ateia do Iluminismo. Seu pensamento é o fim da linha, e seu próprio declínio rumo à loucura e a uma morte solitária e triste resumem e simbolizam sua vida e pensamento. Nietzsche é famoso por dizer “Deus está morto”, mas seu pensamento é mais profundo e perturbador do que essa pequena citação. Sua rejeição ao cristianismo estava ligada à sua ideia do “super-homem”. Ele considerava o cristianismo uma religião que exaltava a fraqueza e acreditava que a piedade pelos fracos apenas incentivava ainda mais a fraqueza. Na visão dele, a moral cristã insípida era inimiga da verdadeira vitalidade do homem. O “super-homem” perceberia que não existe verdade objetiva nem moral objetiva — que Deus e a bondade eram criações humanas. Assim, ele se elevaria acima da mediocridade e descobriria seus próprios valores, e esses valores descobertos emergiriam de sua própria vontade essencial de poder.
Todos vêm de algum lugar, e Nietzsche era filho de um pastor e professor luterano de uma pequena cidade. Frequentou internatos cristãos tradicionais de classe média. Era produto do protestantismo alemão de cidade pequena, e foi essa origem que rejeitou. Que tipo de Deus, portanto, Nietzsche considerava ter morrido? Era o Deus que ele conheceu dentro do protestantismo burguês de cidade pequena: um Deus que esperava uma conformidade monótona de crenças e comportamentos, um Deus que não gostava de garotos inteligentes fazendo muitas perguntas. Se esse era o Deus que o menino Nietzsche conheceu na infância, então esse Deus não só estava morto, como nunca esteve vivo.
Teresa, por outro lado, não é filha do protestantismo de cidade pequena, mas sim do catolicismo burguês francês de cidade pequena. Sua vida e sua filosofia são quase o oposto exato de Nietzsche. Ela nunca negou a crença que lhe foi apresentada na infância, e ainda assim questionou as mesmas expectativas de conformidade enfadonha, desafiando-as não por rejeitar sua religião, mas por vivê-la de uma maneira tão radical que subverteu a piedade enfadonha dos católicos burgueses franceses (e, posteriormente, do mundo).
Se Friedrich Nietzsche encontrasse Santa Teresinha, como seria a conversa? Ele poderia explicar a morte de Deus e a ascensão inexorável do niilismo. Teresa diria que o “bom Deus” não estava morto, mas apenas as falsas ideias do homem sobre Deus haviam morrido. Quando ele explicasse como a moralidade é descoberta por cada pessoa, Teresa responderia que cada pessoa de fato precisa descobrir a moralidade – mas descobrir a realidade da moralidade recebida de uma maneira radicalmente pessoal. Quando Nietzsche explicasse como os grandes tiveram que renunciar à necessidade de se encaixar na sociedade insípida, tiveram que renunciar ao apego a todas as coisas materiais, Teresa concordaria e apontaria que era precisamente isso que ela pretendia fazer ao se tornar carmelita. Quando Nietzsche explicasse que esse processo de negação e descoberta dos verdadeiros valores era o processo pelo qual o “super-homem” surgiu, Teresa concordaria, mas chamaria esse “super-homem” de “santo”. Quando ela exclamasse: “Santidade! Ela deve ser conquistada na ponta da espada!” ou “Você não pode ser meio santo. Você precisa ser um santo completo ou não ser santo de jeito nenhum.” Ela estaria oferendo ao mundo sua própria versão do “super-homem”: alguém que superou as crenças e comportamentos convencionais e enfadonhos e ascendeu a uma dimensão completamente diferente da humanidade. O uso da poesia e do paradoxo por Nietzsche também não teria passado despercebido por Teresa – e é aqui que ela supera Nietzsche – ela diria que o caminho para se tornar esse “super-homem” santo é precisamente sendo o que Nietzsche desprezava: uma menina. O caminho para se tornar o “Super-Homem” era se tornar o “Azarão”. O caminho para se tornar um grande ser humano era se tornar um filho confiante do Pai amoroso – um escravo dos outros e um escravo do Amor – e alguém que segue o “pequeno Caminho” que é um grande caminho, e um caminho simples que é o mais difícil de todos.
Esta é uma das grandes piadas de Deus: o mundo produz um Nietzsche — um filósofo byroniano orgulhoso e autodramatizador —, o ateu do grande floreio e do gesto trágico, e Deus responde com uma menininha que gosta de sentar no colo do papai e ver suas iniciais nas estrelas. Veja como tudo termina: Nietzsche mergulha na loucura e morre na miséria na casa de sua irmã dominadora. Seu legado foi o desespero, e sua maior ignomínia é que seu pensamento inspirou os nazistas que mergulharam a Europa na guerra e assassinaram milhões. Teresa, por outro lado, também morre de forma obscura e trágica: sofrendo de tuberculose, após longa agonia. Mas, poucos meses após sua morte, seu pequeno livro já foi impresso dezenas de milhares de vezes. Ela foi aclamada como a “maior santa moderna” pelo Papa Pio XI e, num ato final hilário e surpreendente, cem anos após sua morte, essa menina que faleceu com apenas 24 anos foi nomeada Doutora da Igreja por João Paulo II. Sua estrela continua a brilhar e, onde quer que suas relíquias sejam levadas em peregrinação, multidões incríveis se reúnem para venerar a memória dessa menina que respondeu ao espírito monstruoso de nossa época.
Os dois se apresentam lado a lado, como um gênio e um louco. Ambos falam dos mesmos mistérios, mas um da perspectiva da loucura e a outra da perspectiva de uma sanidade realista e inabalável. No âmago de tudo, Nietzsche sabe que sem Deus não há nada. Teresa, por outro lado, vê que com Deus há tudo. Nietzsche diz: “Não terei nada”. Teresa diz: “Terei tudo”. O embate entre Nietzsche e Teresa é o grande embate da nossa época, e o embate de todas as épocas. Você viverá sem Deus, encarando a escuridão do niilismo com bravata e nada além da vontade de poder? Você seguirá o caminho que leva à escuridão, ao desespero, à solidão derradeira e à morte, ou seguirá o pequeno caminho que conduz através do ordinário à humildade, o caminho para baixo que leva para cima, o caminho da negação que leva à vida, e o caminho através da escuridão para a luz?
OBS: Santa Teresinha e Nietzsche se hospedaram no mesmo hotel em Paris na mesma época, então talvez tenham se conhecido! O hotel onde sua família estava hospedada durante uma visita provavelmente foi o local onde ela encontrou um elevador que usou mais tarde como imagem da confiança em Deus.
Foi numa noite como essa

Medianeira

Um leitor me mandou a seguinte pergunta:
O que dignifica o título de Medianeira de Todas as Graças? O que você achou do último documento pontifício sobre o assunto?
Começo respondendo pelo final: não tenho como escrever nada mais profundo sobre esse tema agora, pois até a metade do mês que vem estarei muito ocupado com os afazeres do trabalho. Obviamente temos um texto super inoportuno de quem parece viver alheio à devoção a Maria Santíssima (o tal Tucho) e que não quis vencer o problema de estar indo contra o que foi afirmado no passado por Santos e Papas…
Sobre o assunto, recomendo sobremaneira a compra da seguinte obra: Maria Medianeira Universal, um tratado em dois volumes do famoso Pe. José Bover, S.J. Ela deve ser o bastante para dirimir qualquer dúvida sobre o tema. Agora, se você não tiver tempo e dinheiro, vou disponibilizar abaixo um resumo feito pelo mesmo autor e um opúsculo de D. Antônio de Castro Mayer:
De um modo super sintético, para não lhe deixar sem resposta, faço minhas as palavras de D. Antônio Costa, bispo de Frederico Westphalen:
O que significa “Medianeira de todas as Graças”?
• Medianeira vem de mediatrix (latim): aquela que está no meio, que intercede ou facilita a comunicação.
• Na teologia católica, Maria é chamada Medianeira porque, por sua cooperação única no plano da salvação (como Mãe do Verbo Encarnado), todas as graças que vêm de Cristo passam, de algum modo, por sua intercessão materna.
• Isso não significa que Maria seja fonte das graças (a fonte é sempre Cristo), mas que Deus quis associá-la à distribuição das graças, em virtude de sua maternidade divina e de sua perfeita união com a vontade de Deus.
A mediação de Maria é participada, subordinada e materna, enquanto a de Cristo é essencial, redentora e única.
Maria é Medianeira de todas as Graças não porque as cria, mas porque Deus quis que todas passassem por suas mãos de Mãe, para que, por meio dela, cheguemos mais facilmente a Jesus.
Uma apresentação do itinerário educacional de Santo Agostinho e suas consequências:
Uma interessante reflexão de Joathas Bello sobre a relação do Credo do Povo de Deus, do Papa Paulo VI, como norte interpretativo do Vaticano II:

Outro texto muito importante para entender o “magistério conciliar” é o “Credo do Povo de Deus” [antes ele tinha comentado sobre a Dominus Iesus], Credo solene de Paulo VI, professado em 1968, que poderia ser dito a “Confissão de Fé do CVII”.
Nele, se vê com bastante clareza o que o CVII declarou como de fé – por participação no magistério infalível (solene ou ordinário universal) -, e o que declarou como seu peculiar ou sui generis “magistério pastoral”, parenético (ad intra) e dialógico (ad extra).
Por exemplo, lá se diz “Cremos na Trindade” (ato de fé), e “rendemos graças à Bondade divina pelos que dão testemunho da unidade divina, embora não reconheçam a Trindade”. Vê-se, pois, com clareza, que a afirmação do teor para o diálogo inter-religioso não faz parte da confissão de fé, mas é uma conclusão filosófica e teológico-pastoral que promove tal diálogo a partir do “comum” (reconhecimento racional da Divindade una).
Diz-se ainda que “Cremos na Igreja una, santa, católica e apostólica, edificada por Cristo sobre Pedro”, e que “cremos na infalibilidade papal ex cathedra e na infalibilidade eclesial”.
Mais adiante se diz “Cremos na Igreja, una na fé, no culto e comunhão hierárquica” (ato de fé), e “reconhecemos fora da sua estrutura muitos elementos de santificação e verdade, que como dons da própria Igreja, impelem à unidade católica”. Vê-se, pois, que a afirmação do teor para o diálogo ecumênico não faz parte da confissão de fé, mas é uma conclusão teológico-pastoral que promove tal diálogo a partir do “comum” (reconhecimento teológico da origem comum da Hierarquia, dos Sacramentos e da Sagrada Escritura, e de que o fim dessas realidades é a unidade católica).
Em seguida, se diz “Cremos que a Igreja é necessária para a salvação” e emenda com a doutrina clássica da possibilidade da salvação em ignorância invencível.
Diz-se que “Cremos na Missa como Sacrifício do Calvário” e que “Cremos na Transubstanciação eucarística”. O CVII não implementou nenhuma nova concepção doutrinal a respeito da Fé eucarística.
Depois, diz-se que “Confessamos que o Reino de Deus começa aqui na terra na Igreja e não é deste mundo, que seu crescimento não pode ser confundido com o progresso da cultura humana e da ciência, mas em conhecer as riquezas insondáveis de Cristo, esperar os bens eternos, responder ardentemente ao amor de Deus, difundir cada vez mais a graça e santidade entre os homens”. E simplesmente afirma que o “mesmo amor impele a Igreja a interessar-se pelo bem temporal dos homens, em promover a justiça, a paz e a união fraterna, e a ajudar especialmente os pobres”, e diz que “esta solicitude não pode ser interpretada como se a Igreja se acomodasse às coisas do mundo”. Vê-se, pois, que a afirmação do teor para o diálogo com a humanidade não faz parte da confissão de fé, mas é uma conclusão teológico-pastoral que promove tal diálogo a partir do “comum” (a promoção da justiça, da paz, da concórdia).
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Percebe-se que a “colegialidade” e a “liberdade religiosa” nem sequer são mencionadas, ou seja, não foram apresentadas com status de “verdades de fé”. Podemos presumi-las como conclusões teológicas para fomentar o “diálogo” hierárquico no interior da Igreja (os sínodos dos bispos foram a aplicação concreta da “colegialidade”), e para a implementação do “diálogo” ad extra.
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Por que estas considerações são importantes? Porque elas demonstram que os problemas conciliares se situam “em torno das questões de fé” [algo análogo se passa com a “reforma litúrgica”], não as atingindo diretamente (mantendo incólume a “substância do depósito da fé”). Isto não minimiza a crise vivenciada, apenas indica com maior rigor a sua natureza. A distorção dessas conclusões teológicas [que não são de fé] oficiais ou pastoralmente programáticas é o mais grave que pode ocorrer na vida da Igreja, mas não é uma defecção oficial da fé [o magistério tem uma estrutura ou umas formalidades que funcionam como efetiva barreira para uma “apostasia oficial”]. A rigor, é mais um problema moral, relacionado ao testemunho do que se confessa, do que doutrinal, relacionado à confissão mesma.
Por que me tornei católica?
A jornada de Talita Kelly de diversas denominações protestantes (em especial da presbiteriana) ao catolicismo: