No sábado seguinte a cidade revestira desusado aspecto. De toda parte correra uma chusma de povo que ia assistir à festa anual do Espírito Santo.
Vão rareando os lugares em que todo se não apagou o gosto dessas festas clássicas, resto de outras eras, que os escritores do século futuro hão de estudar com curiosidade, para pintar aos seus contemporâneos um Brasil que eles já não hão de conhecer. No tempo em que essa história se passa uma das mais genuínas festas do Espírito Santo era a da cidade de Santa Luzia.
O tenente-coronel Veiga, que era então o imperador do divino, estava em uma casa que possuía na cidade. Na noite de sábado foi ali ter o bando dos pastores, composto de homens e mulheres, com o seu pitoresco vestuário, e acompanhado pelo clássico “velho”, que era um sujeito de calção e meia, sapato raso, casaca esguia, colete comprido e grande bengala na mão.
Camilo estava em casa do coronel, quando ali apareceu o bando dos pastores, com alguns músicos à frente, e muita gente atrás. Formaram logo, ali mesmo na rua, um círculo; um pastor e uma pastora iniciaram a dança clássica. Dançaram, cantaram e tocaram todos, à porta e na sala do coronel, que estava literalmente a lamber-se de gosto. É ponto duvidoso, e provavelmente nunca será liquidado, se o tenente-coronel Veiga preferia naquela ocasião ser ministro de Estado a ser imperador do Espírito Santo.
Hoje como anda essa festa do Divino? Se na época de Machado ele dizia que rareava o gosto por essas festas clássicas, hoje ainda resta algo dele? Essa devoção ao Divino Pai Eterno, feita pelo Pe. Reginaldo Manzoti, tem alguma relação com a devoção ao Espírito Santo presente de maneira forte em Goiás?
Sedevacantistas, tradicionalistas e neoconservadores fiéis são pessoas que vivem um dilema terrível. De um lado, todos eles sabem que precisam ser fiéis à palavra de Cristo antes de qualquer poder humano ou até mesmo um anjo do céu; de outro, há um grande temor de julgar o Papa ou as autoridades da Igreja. Esse dilema se agrava com a convicção que se tenha dos problemas relativos à crise da Igreja, com os escândalos, as ambiguidades, a tibieza de alguns bispos em condenar os erros e as aberrações contemporâneas. Todos são verdadeiros católicos e querem ser fiéis, antes de tudo, a Deus, a Quem devemos fidelidade absoluta. E é justamente nisso que está o dilema: qual seria o caminho mais certo de protestar essa fidelidade a Deus: seria submeter-se humildemente à hierarquia que Ele constituiu, na medida do possível, ou admitindo todas as consequências – inclusive as trágicas – que podem vir de Sua Palavra? Numa situação normal, não deveria haver tensão alguma entre essas duas atitudes, mas o que vemos é que todos eles tentam viver e ser católicos sofrendo essa tensão fortíssima.
Portanto, quando esses grupos, participantes das mesmas angústias e sofrimentos, combatem-se como se fossem os piores hereges, eu não posso deixar de ver uma certa falta de sabedoria ou caridade, ou sensibilidade para entender que estão todos no mesmo dilema e temores. Eu, que sofro desse dilema também, assumi para mim que eu simplesmente não condeno nenhum desses grupos; ouço atentamente o que diz um e o que diz outro, evitando as condenações que lançam uns contra os outros ou, pelo menos, vendo-as com cautela, porque ninguém sabe exatamente qual é a natureza e o grau da crise que nos atordoa.
– Rui (num ótimo tópico na comunidade sobre as questões levantadas pela obra A Candeia Debaixo do Alqueire).