Categorias
Apologética Crise Espiritualidade

Sentinelas da noite

Um magnífico documentário que mostra a vida dos monges beneditinos do Barroux, um mosteiro francês que surgiu no meio da luta da resistência ao caos pós-Vaticano II e que até hoje cultiva a liturgia e a disciplina tradicionais da Igreja no Ocidente.

O documentário é em francês com legendas em inglês.

Categorias
Sociedade

Mario Ferreira dos Santos: a incredulidade moderna

O filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos expõe suas preocupações quanto à incredulidade moderna, o ceticismo e o abandono dos ideais que matam o interior do homem. Se já era assim no tempo dele, onde havia uma avalanche de informações provocadas pelos periódicos, que se dirá do mundo atual, inundado pelo uptodate da internet?

Categorias
Sociedade

Pena de morte no Japão

Ontem li no jornal uma notícia bem curiosa sobre a aplicação da pena de morte no Japão:

Três homens condenados à morte por vários assassinatos foram enforcados ontem no Japão, nas primeiras execuções conduzidas pelo Estado japonês em mais de 18 meses. Um dos condenados foi sentenciado por ter jogado um automóvel contra uma plataforma de estação de trem e depois ter saído do carro e esfaqueado pessoas que estavam perto, matando cinco, em 1999. Outro sentenciado matou duas pessoas em 2001. O terceiro assassinou três pessoas em 2002. A imprensa japonesa diz que eles foram enforcados em prisões diferentes. O ministro da Justiça, Toshio Ogawa, disse que teve apoio popular. Há 132 condenados à morte no país esperando o cumprimento da sentença.

Em geral não pensamos no Japão como um país que aplica a pena de morte, e isso prova que não se tem de viver sob um governo ditatorial (China) ou num contexto de cultura do espetáculo (EUA) para que ela faça sentido. A doutrina católica, ao contrário do que dizem muitas pessoas (inclusive bispos) não é contra a pena de morte, só indica que ela deve ser aplicada com comedimento e circunspecção.

Categorias
Catequese

A Revelação e as fontes da fé

1 – O homem é capaz de Deus

“Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência, por suas obras; de modo que não se podem escusar.” (Romanos I, 20)

“O desejo de Deus está inscrito no coração do homem, já que o homem é criado por Deus e para Deus; e Deus não cessa de atrair o homem para si, e somente em Deus o homem há de encontrar a verdade e a felicidade que não cessa de procurar…” (Catecismo da Igreja Católica – 27).

“Deve-se dizer que está impresso naturalmente em nós algum conhecimento geral e confuso da existência de Deus, isto é, Deus como felicidade do homem, pois o homem deseja naturalmente a felicidade” (Santo Tomás de Aquino – Suma Teológica).

1.1 – A lei natural e o ser humano

A experiência cotidiana permite ao indivíduo intuir que não é ele o começo do mundo nem a medida de todas as coisas, pelo contrário, fá-lo perceber que por todos os lados encontra-se debaixo de leis físicas, de leis biológicas e de leis sociais.

Ao emergir na existência, cada ser está fadado a realizar uma finalidade específica, finalidade insculpida na sua própria essência por Aquele que criou todas as essências. Não é por acaso que o Sol centraliza todo um sistema planetário e ninguém duvida que o caos sobreviria a todo esse sistema, fazendo desaparecer a vida, se ele, fugindo à finalidade citada, deixasse de expandir energia, luz, calor para a Terra.

É lógico, portanto, admitir a existência de uma ordem (lei) no Universo, e, dentro dela, a ordem (lei) específica de cada ser.

Inserido nesse quadro, o ser humano também se direciona para a busca da perfeição de sua própria natureza, isto é, para cumprir com a finalidade que está inscrita na sua essência. Diversamente, porém, do que ocorre com o Sol, os vegetais e outros seres, que possuem seu processo de existir predeterminado, de modo fatal e incondicionado, o homem tem o curso do seu existir e sua finalidade ordenados não de um modo irresistível, irrecorrível e predeterminado, mas condicionado ao exercício do livre-arbítrio. Isso equivale a dizer que para nós a lei natural impõe-se como uma forma de exigência do dever (como algo que se deve fazer, como algo que é melhor que seja feito) e não como um fato de que não se pode fugir. O Sol não pode subtrair-se à lei natural, fatalmente ele ilumina, aquece e preside o sistema planetário do qual é o centro; nós, por outro lado, existindo também debaixo de uma ordem que nos impele ao um fim, temos a possibilidade de subtrair-nos aos preceitos dela.

1.1.2 – O fim último do homem

Por uma imposição metafísica, o ser humano carrega em todos os seus instintos uma atração para certos objetos e certos fins. É arrastado por uma sede insaciável de se realizar plenamente.

Subjetivamente considerado, o fim último que o homem persegue inconscientemente, em todos os seu movimentos voluntários, está na felicidade. “O princípio comum que domina todos os estudos e todas as discussões dos filósofos e teólogos” – lembra-nos Jolivet (Tratado de Filosofia – Tomo IV Moral, p. 55) – “é que a perfeição do homem, se acaso é possível, deve coincidir necessariamente com a felicidade perfeita.”

Objetivamente, porém, consistirá em que o fim último? Estará situado onde?

Se os homens aspiram todos a felicidade, ensina-nos a experiência também que nem todos procuram-na nos mesmos bens concretos e que essa felicidade não é constante ao longo da vida. O que na linguagem vulgar se costuma designar como felicidade nada mais é do que um conjunto de momentos fugazes e instáveis de bem-estar, de êxito ou de sucesso, não se podendo, pois, de forma alguma identificá-los com nosso fim último.

“Entre os diversos objetos que uns e outros procuram como beatificantes, não poderá haver mais do que um, o qual satisfaça plenamente e ordenadamente suas tendências naturais, que, em suma, seja sua verdadeira felicidade objetiva, e em face da qual as demais serão enganadoras e apenas isso. Impõe-se como uma exigência da razão determinar em que consistirá esse bem supremo, causa necessária e suficiente do estado subjetivo de felicidade, cuja possessão aperfeiçoa e satisfaz ao máximo e em relação com o qual se fará em concreto a distinção entre bem e mal” (Abbé Henri Collin, Manuel de Philosophie Thomiste, p. 199).

Na indagação sobre o fim último em termos objetivos, várias soluções foram cogitadas. Os estóicos situavam o bem supremo na virtude, a qual consistiria no homem se tornar insensível às afeições da alma. Os epicuristas situavam-no gozo dos prazeres, entendendo-se, como tais, tanto os prazeres sensíveis como os espirituais. Para Kant, o fim supremo consistiria no alcance da constituição política perfeita (na vontade se conformar com as leis). Para os utilitaristas (Benthan, Stuart Mill) seria obter a maior porcentagem de felicidade subjetiva para o maior número de pessoas possível. Aristóteles e Platão, por sua vez, consideravam como fim supremo a compreensão de Deus. Já para Santo Tomás e os filósofos católicos, o fim último e o bem supremo pelo qual toda criatura aspira é a posse e a contemplação de Deus.

Seguindo esse último grupo, em argumentação silogística, Mercier demonstrava assim a racionalidade da opinião de que Deus é o fim último do homem: “O objeto capaz de fazer o homem feliz deve satisfazer a todos os seus desejos, a possessão dele deve ser tranqüila e segura, e, finalmente, deve estar ao alcance de todos. Ora, nenhum bem criado constitui o objeto suficiente de nossa felicidade”. Já Santo Agostinho, em seus Solilóquios, dizia: “Fizeste-nos, Senhor, para Ti, e o nosso coração, enquanto não repousar em Ti, estará sempre desassossegado” (Tratado Elemental de Filosofia, tomo II, Filosofia Moral, p. 258).

1.1.3 – O fim último do homem e a religião

Do impulso em direção ao fim último é que em todas as épocas e em todos os povos os homens buscam a Deus. Buscam-No para aprender Dele uma compreensão do mundo e de si próprios. Todo ser humano com honestidade intelectual reconhece a mão eficiente do Senhor na ordem diversificada da Criação. As obras são reflexo Daquele que as criou.

Nisso está a origem natural das várias tradições religiosas, desde as menos elaboradas até as mais difundidas nos nossos dias.

Todavia, a razão humana, após identificar a existência do Criador e algumas exigências éticas derivadas de tal conclusão, não consegue ir além, pois nas verdades que se referem a Deus e às relações entre Ele e os homens muitos conceitos transcendem completamente a ordem das coisas sensíveis, e, desse modo, faz-se necessária uma grande autodisciplina na reflexão sobre eles ou uma iluminação externa. No decorrer dos séculos isso ficou patente, pois mesmo grandes civilizações, como a grega e a romana, caíram em erros gravíssimos a respeito da religião. As mitologias ensinam-nos que não somente esses povos eram politeístas ou idólatras, mas que concebiam os deuses à sua imagem e semelhança, cheios de vícios e crimes, na intenção de encontrar um estímulo, ou uma desculpa, para os piores excessos. Até o culto servia de pretexto para a devassidão (bacanais, lupercais, saturnais, etc.).

Assim sendo, aprouve a Deus iluminar os seres humanos, seja para lhes manifestar verdades e deveres que não podem ser conhecidos pela razão, seja para explicitar verdades e deveres que são perceptíveis pela razão, mas a que, em geral, só se chega com dificuldade. Essa iluminação nos chamamos Revelação.

1.2 – A Revelação e as fontes da Fé

“Muitas vezes e de modos diversos, falou Deus outrora a nossos pais pelos profetas. Nos últimos dias nos falou pelo Filho…” (Hebreus I, 1-2).

1.2.1 – A Revelação

Ao iniciar um estudo da doutrina católica, é preciso, antes de tudo, saber de onde vem essa doutrina. Se nossa adesão ao catolicismo deve ser total, irrestrita e amorosa, é preciso que haja na própria Igreja as garantias necessárias para essa adesão tão definitiva. Em outras palavras, só poderemos dar nosso assentimento aos princípios católicos quando compreendermos que não se trata de conceitos inventados pelo homem, mas revelados por Deus.

Eis, então, a primeira noção importante a conhecer: a de Revelação.

Etimologicamente, revelar significa “tirar o véu que encobre um objeto e nos impede de o ver”.

Ao criar os homens em Adão e Eva, retomando um conceito já estudado, Deus formou a natureza humana com certas características particulares. Uma dessas características é o sentimento religioso, natural, horizontal, que nos leva a praticar, de algum modo, um culto ao Criador. Assim vemos, desde o início da história, sacrifícios oferecidos, como o de Caim e Abel, como o de Noé e de Abraão.

Se é verdade que o povo eleito se forma a partir de Abraão, segundo a promessa que Deus lhe fez, é com Moisés que se estabelece, por revelação divina, uma religião ensinada e exigida pelo Senhor a seu povo. Já não mais natural e horizontal, mas vertical, divina, vinda de Deus para nós e não apenas de nós para Deus. Esta Revelação vai dar ao culto um valor novo, um valor que não existia quando ele era movido apenas pelo sentimento natural de religião. A partir daí, o Criador vai exigir do seu povo a realização do culto como Ele determinou e vai condenar vigorosamente toda a idolatria.

Mais tarde, ao recusar o Messias e crucificá-lo, os judeus rompem com a Revelação, revoltam-se contra Deus e perdem o valor sobrenatural e divino de sua religião. É a Igreja, então, que recebe de Jesus a autoridade para levar a frente a religião revelada (Mateus XVI, 18-19).

1.2.2 – Revelação Pública

Deus falou – o que Ele diz só pode ser a verdade por excelência. Ele não pode errar e não pode nos enganar. O que o Senhor disse forma o conjunto objetivo das verdades reveladas. É chamada Revelação Pública aquela que foi entregue por Deus ao homens, dando-lhes autoridade para falar em seu nome, através de uma instituição fundada para este fim. Temos assim:

1) A Revelação Pública Particular: é o que está no Antigo Testamento, restringindo-se ao povo eleito.

2) A Revelação Pública Universal: é a que Jesus Cristo e os Apóstolos ensinaram, e pertence (obriga) a todos os homens.

O ato da Revelação termina com a morte do último Apóstolo (São João). Aos Apóstolos foi entregue, por Nosso Senhor Jesus Cristo, o Depósito Sagrado, para que eles, com sua autoridade divina, pregassem a todo os povos até os confins da Terra. São diversas as passagens do Evangelho em que Jesus manifesta essa autoridade da Igreja, mas fiquemos com essa: “Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda criatura. O que crer e for batizado será salvo, o que porém não crer, será condenado” (Marcos XVI, 15-16).

Cabe, então, à Igreja Católica o papel de guardar, pregar e explicar a verdade revelada. A Igreja não pode inovar, não pode acrescentar nada, só pode desenvolver explicações. E este trabalho se faz mediante declarações autorizadas. É a isso que se dá o nome de dogma. Dogma é uma explicitação de algo que está implícito na Revelação. O Depósito Sagrado completa-se com a morte de São João, mas as explicações desenvolvidas a partir dele continuam, sob a autoridade da Igreja e com a assistência do Espírito Santo.

Assim, por exemplo, o dogma da transubstanciação. A Igreja, mediante a palavra revelada por Deus, chega a uma conclusão teológica que, por ser essencialmente unida à Revelação, é declarada como dogma de fé. Se fosse possível que a substância do pão não se transformasse na substância de Cristo, estaria negada a divindade da Revelação. A nossa adesão ao dogma é, então, a mesma adesão à Revelação. Seria um pecado grave contra a fé negar um dogma católico, pois estaríamos negando a própria palavra revelada pelo Senhor.

1.2.3 – Revelações privadas

Existem ainda as chamadas revelações privadas que são revelações divinas que ocorrem mesmo nos nossos dias, dirigidas à santificação de uma pessoa ou de uma pequena coletividade, e que, por isso mesmo, não são de adesão obrigatória (uma pessoa pode ser salva sem levar em conta qualquer revelação privada). As revelações privadas sempre estão subordinadas ao conteúdo da Revelação Pública como ensinado pela Igreja.

1.3 – As duas fontes da Revelação e o “tripé” da Fé

A Revelação Pública Universal tem como fonte uma pessoa: Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele é a Revelação. O que Jesus ensinou, os Apóstolos passaram a frente. Então, temos como fonte primária da Palavra de Deus o próprio Deus Encarnado e, como fonte secundária, o Magistério Apostólico.

O ensino dos Apóstolos, por sua vez, foi guardado em dois conjuntos que são explicados pelo Magistério Eclesiástico:

1) A Santa Tradição.

2) A Sagrada Escritura ou Bíblia.

Com isso, de maneira didática, podemos dizer que nossa Fé está galgada num tripé formado pela Tradição, pela Bíblia e pelo Magistério da Igreja.

Categorias
Liturgia

Rito moçárabe: os dois missais

Na comunidade Apologética Católica do Orkut iniciei a tradução dos artigos do blog New Liturgical Movement sobre o rito moçarábico e, agora, trarei esses textos para cá. Vamos ao primeiro deles:

O rito moçárabe não tem apenas um, mas dois missais.

Devemos notar, primeiramente, que minhas considerações neste texto têm em vista a liturgia moçarábica dos séculos recentes (do século XVI ao século XX), e não a medieval ou mesmo anterior.

Uma das características interessantes desse rito é que ele emprega dois missais; o Missale Omnium Offerentium, que equivale ao que chamamos de Ordo Missae no rito romano e em outras variantes ocidentais (para ser mais preciso: ele contém as partes invariáveis, bem como um “Missa exemplar”, a de São Tiago Maior), e um Missal completo, com os textos de todas as outras missas.

Archdale King, no seu A liturgia das Sés Primazes, constata que esses dois missais são requeridos na celebração de missas no rito de Toledo.

A Enciclopédia Católica acrescenta comentários sobre a natureza desses dois livros:

O Missale Omnium Offerentium contém aquilo que no rito romano é chamado Ordinário e Cânon. Essa obra contém uma “Missa tipo” (a Missa de São Tiago Maior) com todas as suas partes, variáveis ou fixas, na ordem apropriada. Nos outros dias as partes variáveis são lidas do Missal completo.

O significado da expressão Omnium Offerentium é alvo de debates. Alguns sugerem que uma remissão à “Missa dos Catecúmenos”, “de todos que oferecem”, enquanto outros defendem que é uma referência à “Missa de todas as missas” (isto é, às partes que são aplicadas em todas as missas – o Ordinário). Sobre o motivo da Missa de São Tiago Maior ser o tipo ideal, King considera que “é possível que… no tempo do Cardeal Cisneros a antiga liturgia só fosse celebrada nesse dia” (p. 566), mas isso é algo claramente especulativo. Essa opinião, contudo, aponta para o fato de que na renascença a ordem da celebração do rito moçarábico era pouco clara:

…quando o Cardeal Cisneros se tornou arcebispo de Toledo em 1495, encontrou o rito moçarábico a caminho da extinção. Ele empregou o conhecimento de Alfonso Ortiz e de três padres moçárabes (Alfonso Martinez, pároco de Santa Eulália, Antonio Rodrigues, de Santa Justa e Santa Rufina, e Jeronymo Guttierez, de São Lucas), para preparar uma edição do Missal (publicada em 1500) e uma do Breviário (publicada em 1502). Ele fundou a Capela Moçarábica da Catedral de Toledo, que contava com 13 capelões, um sacristão e dois serventes, e tinha a missão de celebrar diariamente uma Missa cantada e o Ofício. Mais tarde, em 1517, Rodrigo Arias Maldonado de Talavera fundou a Capilla de San Salvador, ou Talavera, na antiga Catedral de Salamanca, onde 55 missas moçarábicas eram celebradas anualmente. Depois elas foram reduzidas para seis, e hoje em dia o rito é celebrado lá apenas uma ou duas vezes no ano. (Catholic Encyclopedia)

Como foi dito, em 1500 veio a lume a versão completa do Missal (não confundir com o Missale Omnium Offerentium, que é menor) sob o título de Missale Mixtum, contendo elementos do Sacramentário moçarábico, do Lecionário e do Antifonário. Esse livro foi republicado em 1755 e novamente em 1804 (sob o título de Missale Gothicum) – foi também editado na Patrologia Latina de Migne (LXXXV). Todavia, essas publicações adicionaram uma série de características toledanas medievais que não faziam parte da liturgia moçarábica histórica (King p. 528).

missal-completo

Sobre essas edições “modernas”, J. M. Neale comenta (The Mozarabic Liturgy, Essays on Liturgiology and Church History):

Mesmo no meio do século XVI, o preço de um missal moçarábico chegava a 300 dobrões; Paulo III mandou um enviado a Toledo para tentar comprar um exemplar para a Biblioteca do Vaticano. No tempo de Florez, uma cópia era incomprável; e assim ficou até Alexander Leslie publicar em Roma, no ano de 1755, sua valiosa e bem trabalhada edição. A maneira pela qual ele fala do Ofício moçárabe mostra como esse último era pouco conhecido até pelos maiores especialistas da época. Em 1775, o grande e bondoso Cardeal Lorenzana reimprimiu o Breviário em Madri. No ano de 1804, o Missal foi publicado em Roma, após a morte do prelado, mas sob o seu patrocínio; Faustinus Arevalus foi o editor.

Mesmo que estejamos falando de dois missais, não é demais notar que na versão completa, “o ‘Omnium Offerentium’ aparece duas vezes… no Primeiro Domingo do Advento, que apresenta uma Missa modelo, e, novamente, entre o Domingo de Páscoa e o Primeiro Domingo após a Páscoa” (King).

Para esclarecer o que King diz, vale notar que esse “Omnium Offerentium” é distindo do Missale Omnium Offeretium mencionado antes e publicado como um pequeno missal.

missal-mocarabe

Ainda no que se refere esse tema, é interessante observar que “existem certas inconsistências entre os missais, como, por exemplo, o uso do Benedicite, que num parece ser algo de uso exclusivo para a Quaresma, enquanto no outro é prescrito para todo o ano. Além disso, encontramos diferenças nos textos dos cantos. Também há divergências nas orações após o Glória in excelsis e na posição do sacrificium” (King).

OBS: eu suponho que na atual versão do rito de Toledo a caracterísitica apontada neste artigo não existe mais.

Categorias
Ética e moral Bíblia Religião comparada Sociedade

Twelve propositions on same-sex relationships and the church

Twelve propositions on same-sex relationships and the church

Um texto bem corajoso. Não concordo com a conclusão, mas os argumentos são realistas e honestos.

Categorias
Liturgia

O rito moçárabe

Apresento para os leitores uma tradução (livre e que procurou adaptar o texto à cadência do português) que fiz do verbete Mozarabic Rite da New Catholic Encyclopedia (The Catholic University of America – 1967):

Rito Moçarábico

Por “rito moçarábico” se entende uma forma litúrgica usada por cristãos da Península Ibérica até o fim do século XI. Esse rito também é conhecido por outros nomes, mas “rito de Toledo” ou “moçarábico” permanecem as denominações mais aceitas até hoje. O significado do título “moçarábico” é incerto. O rito, em si mesmo, existia na Espanha antes da chegada dos árabes, e é difícil encontrar alguma influência deles nessa liturgia. Desse modo, o título parece se referir ao fato de que tal liturgia continuou a ser celebrada na parte da Espanha sobre dominação árabe após ter sido abandonada na área que permaneceu cristã.

História

Em espírito e substância o rito moçarábico é uma liturgia ocidental. As influências mais evidentes sobre ele são a gótica e a romana. A raiz gótica tem origem no começo da dominação visigótica e vai até o século VI; a raiz romana, por sua vez, advém, provavelmente, de consultas feitas a Roma em matéria ritual desde os tempos dos primeiros pregadores do Evangelho na região. A controvérsia sobre a total ortodoxia do rito, em razão de suas possíveis susceptibilidades adopcionistas, é ainda uma questão em aberto.

O declínio da liturgia moçarábica começou no século XI. Esse foi um período de centralização que se expressou num esforço em prol da uniformidade litúrgica. O rito romano foi importado para a Espanha. Em 1080 o Concílio de Burgos ordenou a adoção do rito romano. Os decretos, mesmo ganhando o apoio de alguns potentados locais, encontraram resistência. Se deu, então, um período conturbado de esforços de implementação e de oposição. Finalmente, chegou-se a um compromisso segundo o qual seis paróquias dos cristãos moçárabes manteriam oficialmente o rito. Todavia, há evidência de que essa liturgia ainda foi usada em muitos outros lugares durante um bom tempo. Eventualmente, mesmo nas seis paróquias, o rito passou a ser celebrado só em ocasiões especiais, e, por fim, foi abandonado. Tentativas de revivê-lo foram feitas, mas não está claro se pelo seu valor histórico ou em nome do orgulho nacional. Dom Garcia de Cisneros, que se tornou arcebispo de Toledo em 1495, preparou edições do Missal e do Breviário. Ele fundou a capela moçarábica da catedral de Toledo, que perpetuou o rito até os nossos dias. Concretamente, essa capela é o único lugar onde o rito é regularmente celebrado. Há uma celebração Eucarística diária, mas sem comunhão para os fiéis.

A liturgia moçarábica também é celebrada uma ou duas vezes por ano na capela de Talavra, em Salamanca. Mesmo nesses lugares, apenas a Missa e o Ofício são no rito moçarábico; todos os outros sacramentos, bençãos e funções são efetuadas no rito romano.

Fontes

mocarabe-missal

As principais fontes para o estudo do rito moçarábico são manuscritos que datam de um período que vai do século VIII ao XI. Os mais importantes foram publicados por M. Férotin. As fontes fundamentis são: (1) o Missale mixtum, um missal completo publicado em 1500; (2) o Missale omnium offerentium, um missal abreviado com o Ofício, e que possui alguns outros elementos: orações (explicadas) preparatórias para a Missa, um calendário e um martirilógio; (3) o Liber Sacramentorum Mozarabicus, que só contém as orações do celebrante; (4) um Antifonário, que se encontra dentro do Missale mixtum; (5) o Liber commicus ou Liber comitis, que é um lecionário; (6) o Liber Ordinum, um pontifical e ritual, que também contém o texto de algumas missas e homilias para serem lidas durante o Ofício; (7) o Breviarium gothicum, um Ofício completo publicando em 1502. Um fato curioso nos manuscritos moçarábicos é que eles freqüentemente possuem indicações dos autores dos hinos e textos litúrgicos.

Missa

A Missa começa com orações preparatórias, algumas durante a vestição e outras no altar. As últimas parecem com as do rito romano, só que expandidas. O cálice e a patena são purificados, o vinho e o pão abençoados com orações especiais. Após esses atos se dá o Introito, o Glória (omitido durante o Advento e a Quaresma), e a Oração. A Oração em geral está mais relacionada com o Glória que com a festa do dia ou o período do ano eclesiástico. Isso é típico da liturgia moçárabe.

A Liturgia da Palavra começa, usualmente, com uma lição do Antigo Testamento. Ela é seguida por um responsório. Então são lidas a Epístola e o Evangelho. Não há responsório após a Epístola, apenas orações e bençãos preliminares ao Evangelho; um Salmo e alguns aleluias vêm em seguida ao Evangelho.

Durante o canto Lauda as orações do ofertório são recitadas. Em tempos remotos os fiéis faziam as ofertas do pão e do vinho, e durante esse momento era cantado o Sacrificium, um elemento similar a antífona do rito romano. Após essa etapa temos sete preces, muitas das quais variando segundo o período do ano eclesiástico ou festa do dia. A primeira é um simples convite à oração. A segunda pede a Deus para aceitar as orações dos fiéis. Nela existe uma lista de nomes, as comemorações. A terceira oração é de intercessão. A quarta é uma prece pela paz, uma prece pela reconciliação entre os irmãos antes dos dons serem oferecidos. Aqui o celebrante oscula a patena e a dá ao diácono, e, então, ocorre a troca dos ósculos da paz. A quinta prece começa com o Prefácio dialogado, continua através do Prefácio, Sanctus e do pós-Sanctus. Em seguida temos a parte que inclui as Palavras da Consagração. A sexta prece é formada por uma série de reflexões, algumas das quais com um caráter epiclético. Há uma segunda elevação. O credo (nos domingos e em certas festas) é recitado aqui, e é seguido pelo fracionamento da Hóstia em nove partes, cada uma representando um mistério da vida de Cristo da Encarnação à Ressurreição. Então temos uma comemoração pelos vivos. A sétima e última prece é o Pai Nosso. A resposta “amém” é recitada para cada frase do Pai Nosso, com exceção da “O pão nosso de cada dia nos dai hoje” cuja resposta é “porque Tu és Deus”. Assim como no rito romano a prece termina com um longo comentário reflexivo sobre a última petição do Pai Nosso. Temos a commixtio, e, então, é inserida a benção de pré-Comunhão (formada, às vezes, por cinco frases).

Após a comunhão do celebrante há um chamado para a comunhão dos fiéis. A Missa é concluída com uma oração de ação de graças, a despedida, uma oração em honra a Maria Santíssima, e uma benção final que data do século XVI.

Arquitetura

O mais antigo modelo de arquitetura moçarábica indica influência oriental. O plano era uma cruz grega com um santuário retangular. O arco em ferradura típico da arquitetura espanhola é evidente nos prédios anteriores ao período mouro. O estilo antigo se desenvolveu em sua pureza nas partes da Espanha que ficaram fora da influência árabe, e, por isso, é chamado austuriano. As igrejas moçárabes mais novas possuem uma estrutura diversa, apresentando um esquema marcado pela influência moura. Esse estilo misto é o que normalmente é chamado de “moçárabe”.

Categorias
Arte Liturgia

Missal de Natal

Natal